Ansiedade na Menopausa e Perimenopausa: Por Que Aumenta
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você sempre foi uma pessoa controlada. Construiu uma carreira sólida, liderou equipes, tomou decisões difíceis sob pressão. Mas algo mudou. Aos 45 anos, você começa a sentir uma inquietação constante, um aperto no peito antes de reuniões que antes não causavam preocupação, pensamentos acelerados à noite que não a deixam dormir. Você se pergunta: será que estou exagerando? Será que é a idade? Será que estou perdendo o controle?
Se você está na perimenopausa ou menopausa e sente que a ansiedade aumentou significativamente, saiba que isso é mais comum do que imagina — e tem explicação biológica. A boa notícia é que existem tratamentos eficazes que podem ajudar você a recuperar o equilíbrio.
Neste artigo, vou explicar por que a ansiedade aumenta nessa fase da vida, como reconhecer os sinais, e quais são as opções de tratamento baseadas em evidências. Como especialista em TCC, acompanho regularmente mulheres nessa transição. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.
A Ansiedade na Perimenopausa é Real — e Comum
Pesquisas recentes mostram que mais da metade das mulheres na perimenopausa e menopausa experimentam sintomas de ansiedade. Um estudo que acompanhou mulheres por 10 anos encontrou que elas tinham 56% mais probabilidade de ter ansiedade durante a perimenopausa do que durante os anos reprodutivos.
Esses números devem aumentar. Projeções indicam que até 2035, a carga global de transtornos de ansiedade em mulheres na perimenopausa subirá 40,67% em comparação com 2021, tornando-se uma preocupação crescente de saúde pública.
A perimenopausa — o período de transição que antecede a menopausa, podendo começar já aos 40 anos — é particularmente desafiador porque os níveis hormonais flutuam de forma imprevisível. Você pode se sentir bem em um dia e completamente ansiosa no outro, sem entender o porquê.

Por Que a Ansiedade Aumenta Nessa Fase
A conexão entre hormônios e humor é mais profunda do que muitas pessoas imaginam. O estrogênio não apenas regula o ciclo menstrual — ele também influencia diretamente o funcionamento cerebral.
O Papel do Estrogênio no Cérebro
Estudos mostram que receptores de estrogênio estão presentes em áreas cerebrais que controlam emoções e cognição. O estrogênio também influencia como o cérebro utiliza serotonina e noradrenalina — neurotransmissores fundamentais para a regulação do humor.
Durante a perimenopausa, os níveis de estrogênio não simplesmente caem — eles oscilam dramaticamente, às vezes mudando significativamente de um dia para o outro ou até de hora em hora. Essa "montanha-russa hormonal" pode desestabilizar sistemas cerebrais que antes funcionavam de forma previsível.
Sintomas Físicos que Alimentam a Ansiedade
A ansiedade na perimenopausa frequentemente vem acompanhada de sintomas físicos que podem intensificá-la: ondas de calor, palpitações, sudorese noturna e insônia. Você acorda no meio da noite com o coração acelerado por uma onda de calor e interpreta isso como sinal de que algo está errado — o que aumenta ainda mais a ansiedade.
Para entender melhor como a insônia e ansiedade se retroalimentam, leia nosso artigo sobre insônia e ansiedade.
Fatores de Risco Adicionais
Uma revisão de 2024 identificou fatores que aumentam o risco de ansiedade na perimenopausa: histórico de problemas de saúde mental, histórico familiar de depressão, traços de personalidade como neuroticismo, eventos estressantes de vida, experiências adversas na infância e estresse crônico.
O contexto profissional também importa. Mulheres em posições de liderança frequentemente enfrentam pressões adicionais nessa fase — preocupações com etarismo, questionamentos sobre competência, e a sensação de precisar provar valor constantemente.
Top tip
O suporte social foi identificado como fator protetor contra depressão e ansiedade na perimenopausa. Resiliência e redes de apoio podem fazer diferença significativa na forma como você atravessa essa transição.
Como Reconhecer a Ansiedade na Perimenopausa
Os sintomas de ansiedade nessa fase podem ser confundidos com outras condições ou simplesmente atribuídos ao estresse. Reconhecer o que está acontecendo é o primeiro passo para buscar ajuda adequada.
Sintomas Comuns
A ansiedade na perimenopausa pode se manifestar como preocupação excessiva e persistente, sensação de apreensão ou medo sem motivo aparente, dificuldade de concentração, irritabilidade aumentada, tensão muscular, dificuldade para dormir ou sono não reparador, sensação de inquietação ou de estar "no limite", e evitação de situações que antes não causavam desconforto.
Diferenciando de Outros Problemas
É importante diferenciar ansiedade relacionada à perimenopausa de outras condições. Problemas de tireoide, por exemplo, podem causar sintomas semelhantes e são mais comuns nessa faixa etária. Uma avaliação médica completa pode descartar causas orgânicas.
Se você tem histórico de transtorno de ansiedade, a perimenopausa pode intensificar sintomas que estavam controlados. Isso não significa que você "regrediu" — significa que seu corpo está passando por mudanças significativas que afetam a regulação emocional.
Opções de Tratamento Baseadas em Evidências
O tratamento da ansiedade na perimenopausa deve ser personalizado, considerando a intensidade dos sintomas, preferências individuais e presença de outros sintomas menopausais.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Evidências científicas destacam a eficácia de intervenções psicológicas, incluindo TCC, yoga e hipnose clínica, no alívio de sintomas menopausais e melhora da qualidade de vida.
A TCC para ansiedade na perimenopausa trabalha em várias frentes. Você aprende a identificar pensamentos automáticos catastróficos sobre os sintomas físicos — "estou tendo um ataque cardíaco" quando na verdade é uma onda de calor com palpitação. Reestrutura crenças sobre o significado da menopausa e do envelhecimento. Desenvolve estratégias de enfrentamento para lidar com os sintomas de forma mais adaptativa.
Terapia de Reposição Hormonal (TRH)
Uma revisão sistemática recente indica que a terapia hormonal não impacta consistentemente os sintomas de ansiedade em todas as mulheres na meia-idade. No entanto, benefícios modestos foram observados em mulheres na perimenopausa ou pós-menopausa inicial, particularmente aquelas com sintomas significativos e dentro de alguns anos da última menstruação.
A TRH pode ser uma opção quando os sintomas físicos da menopausa (ondas de calor, suores noturnos, insônia) são intensos e contribuem significativamente para a ansiedade. A decisão deve ser tomada em conjunto com médico, considerando riscos e benefícios individuais.
Mindfulness e Redução de Estresse
Estudos demonstram que a Redução de Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR) pode ajudar pacientes a realizar reconstrução cognitiva, reduzir emoções adversas e melhorar funcionamento social. O MBSR pode reduzir sintomas psiconeurológicos e melhorar qualidade de vida em mulheres com transtorno de ansiedade na menopausa.
Exercício Físico
Uma meta-análise de 2025 com 21 estudos concluiu que exercício de intensidade baixa a moderada pode produzir "melhorias notáveis" no manejo da ansiedade e depressão menopausais. Não precisa ser exercício intenso — caminhadas regulares, natação, yoga ou pilates podem fazer diferença significativa.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos na Terapia
Na TCC, o tratamento da ansiedade na perimenopausa é estruturado e focado em resultados. Trabalhamos em múltiplas dimensões.
Psicoeducação
Entender o que está acontecendo no seu corpo é fundamental. Quando você compreende que as sensações físicas têm explicação fisiológica, a tendência a catastrofizá-las diminui. Você aprende a diferenciar entre ansiedade e sintomas físicos da perimenopausa — e como eles se influenciam mutuamente.
Reestruturação Cognitiva
Identificamos e questionamos pensamentos automáticos disfuncionais. "Estou perdendo o controle" pode ser reformulado para "Estou passando por uma transição hormonal que afeta minhas emoções, mas isso é temporário e tratável". Crenças sobre envelhecimento e valor profissional também são exploradas, especialmente relevantes para mulheres em posições de liderança.
Para quem enfrenta questionamentos sobre a carreira nessa fase, leia nosso artigo sobre reinvenção profissional após os 40.
Regulação do Sono
A insônia é comum na perimenopausa e alimenta a ansiedade. Trabalhamos higiene do sono, técnicas de relaxamento e, quando necessário, protocolos específicos de TCC para insônia (TCC-I).
Técnicas de Manejo da Ansiedade
Você aprende técnicas práticas para usar no dia a dia: respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo, grounding para momentos de ansiedade aguda. Essas ferramentas ajudam a interromper o ciclo de escalada da ansiedade antes que ele se intensifique.
Aceitação e Flexibilidade Psicológica
Parte do trabalho envolve aceitar que essa é uma fase de transição — com desconfortos reais — sem se identificar completamente com os sintomas. Você não é sua ansiedade. Você está passando por uma mudança significativa, e isso requer adaptação.
Estratégias de Autocuidado
Enquanto busca tratamento profissional, algumas práticas podem ajudar a reduzir a intensidade da ansiedade.
Top tip
Estratégias para Ansiedade na Perimenopausa:
- Manter rotina de sono regular (horários fixos)
- Exercício moderado pela manhã ou tarde
- Reduzir cafeína e álcool (intensificam sintomas)
- Técnicas de relaxamento diárias (5-10 min)
- Manter conexões sociais ativas
- Registrar sintomas para identificar padrões
Mantenha rotina de sono regular: Deite e acorde nos mesmos horários. Ambiente fresco ajuda com ondas de calor noturnas. Evite telas antes de dormir.
Pratique exercício regular: Atividade física moderada, preferencialmente pela manhã ou início da tarde. Evite exercício intenso próximo ao horário de dormir.
Reduza estimulantes: Cafeína e álcool podem intensificar ondas de calor e ansiedade. Observe como seu corpo reage e ajuste conforme necessário.
Pratique técnicas de relaxamento: Reserve alguns minutos diários para respiração profunda, meditação guiada ou relaxamento muscular. A regularidade é mais importante que a duração.
Mantenha conexões sociais: O isolamento intensifica a ansiedade. Mesmo que você não esteja se sentindo bem, manter contato com pessoas de confiança é importante.
Registre sintomas: Um diário de sintomas pode ajudar a identificar padrões — gatilhos, horários, relação com ciclo menstrual. Isso é útil tanto para autoconhecimento quanto para compartilhar com profissionais de saúde.
Quando Procurar Ajuda Profissional
Considere buscar avaliação profissional se a ansiedade interfere significativamente na sua vida pessoal ou profissional, se você está evitando situações importantes por medo, se os sintomas físicos são intensos ou frequentes, se estratégias de autocuidado não estão sendo suficientes, ou se você tem histórico de transtornos de ansiedade ou depressão.
Uma avaliação completa deve incluir tanto aspectos psicológicos quanto médicos. A colaboração entre ginecologista/endocrinologista e psicólogo/psiquiatra pode ser necessária para um tratamento integrado.
Para entender melhor a relação entre menopausa e humor, leia nosso artigo sobre depressão na menopausa.
A perimenopausa e menopausa são transições naturais, mas isso não significa que você precisa sofrer em silêncio. A ansiedade que aumenta nessa fase tem bases biológicas reais — e também tratamentos eficazes que podem ajudar você a recuperar qualidade de vida.
Você construiu uma carreira lidando com desafios complexos. Esta é mais uma transição que, com suporte adequado, você pode atravessar mantendo sua competência, sua identidade e seu bem-estar.
Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.
