Crise de Identidade Pós-Demissão: Quem Sou Eu Sem Meu Cargo?

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Crise de Identidade Pós-Demissão: Quem Sou Eu Sem Meu Cargo?

Você passou anos construindo uma carreira sólida. Seu nome era sinônimo de competência, sua posição definia quem você era em todas as rodas sociais. E então veio a demissão — seja por reestruturação, corte de custos ou qualquer outro motivo que você não escolheu. De repente, aquela pergunta que antes respondia com segurança agora ecoa como um vazio: "O que você faz?"

Se você está vivendo essa realidade, saiba que a dor que sente é real, profunda e completamente compreensível. A crise de identidade pós-demissão não é frescura nem fraqueza — é uma resposta psicológica esperada quando perdemos algo que estava profundamente entrelaçado com quem acreditávamos ser.

Como psicóloga especialista em TCC, acompanho executivas que chegam ao consultório sentindo que perderam não apenas um emprego, mas a si mesmas. Os dados são alarmantes: em 2024, mais de 472 mil brasileiros precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde mental — e 64% eram mulheres. Se você está passando por isso, entre em contato. Existe caminho para reconstruir sua identidade.

Por Que a Demissão Abala Tanto a Identidade?

Em culturas de alta performance, frequentemente fundimos nossa identidade com nosso cargo. Não é "eu trabalho como diretora" — é "eu sou a diretora". Essa fusão acontece gradualmente e, em muitos casos, é até incentivada pelo ambiente corporativo.

A Armadilha da Identidade Profissional

Quando passamos anos investindo a maior parte do nosso tempo, energia e autoestima no trabalho, algumas coisas acontecem:

Nossa rede social se torna profissional: A maioria dos nossos contatos vem do trabalho. Eventos sociais giram em torno de carreiras.

Nosso senso de propósito fica vinculado a resultados: Sentimos que estamos "fazendo a diferença" quando batemos metas ou lideramos projetos.

Nossa autoestima depende de reconhecimento externo: Promoções, elogios e bônus se tornam termômetros do nosso valor como pessoa.

Nossa rotina estrutura nossa vida: O trabalho define quando acordamos, como nos vestimos, com quem interagimos.

Quando tudo isso é removido de uma vez, o que sobra?

O Luto Profissional

A demissão dispara um processo de luto — não apenas pelo emprego, mas por toda uma versão de si mesma. Segundo pesquisas sobre desemprego e saúde mental, pessoas demitidas frequentemente experimentam um longo período de depressão, apatia e instabilidade emocional que afetam relações familiares e atitudes relacionadas ao trabalho.

Esse luto inclui a perda de status e reconhecimento, rotina e estrutura, relacionamentos profissionais, senso de propósito, segurança financeira e uma versão da identidade.

Transição entre identidade corporativa e pessoal

O Contexto Atual: Layoffs e Saúde Mental

O cenário de 2024 intensificou essa realidade. Com ondas de demissões em diversos setores, especialmente em tecnologia, milhares de profissionais qualificadas se viram subitamente sem emprego — muitas vezes sem qualquer relação com seu desempenho.

Números Que Revelam Uma Crise

Segundo o TST, os afastamentos por transtornos mentais mais que dobraram em dez anos. Em 2024, foram 472.328 afastamentos por saúde mental (aumento de 68%), com 141.414 casos de transtornos de ansiedade e 113.604 episódios depressivos. Desses, 64% são mulheres, com idade média de 41 anos. O impacto financeiro também é expressivo: cerca de R$ 3 bilhões em custos para o INSS, com afastamentos durando em média três meses.

Por Que Mulheres São Mais Afetadas?

A sobrecarga feminina não começa nem termina no trabalho. Mulheres executivas frequentemente carregam o que pesquisadores chamam de "segundo turno" — responsabilidades domésticas e de cuidado que não diminuem com uma promoção (nem com uma demissão).

Quando perdem o emprego, enfrentam pressão social maior para "ter tudo" (carreira, família, aparência), etarismo mais intenso no mercado de trabalho, menor rede de apoio profissional (clubes de networking ainda são majoritariamente masculinos) e culpa amplificada se têm filhos.

Top tip

A crise de identidade pós-demissão não significa que você errou ao investir na carreira. Significa que você é humana e que sua psique precisa de tempo e cuidado para se reorganizar. Esse processo pode ser uma oportunidade de construir uma identidade mais integrada e resiliente.

Sinais de Crise de Identidade Pós-Demissão

Reconhecer o que está vivendo é o primeiro passo para atravessar essa fase. Alguns sinais comuns:

Emocionalmente, podem surgir sensação persistente de vazio ou perda de propósito, vergonha intensa da situação de desemprego, medo desproporcional de encontrar conhecidos, irritabilidade ou explosões emocionais inesperadas, tristeza profunda especialmente ao acordar e sensação de não reconhecer a si mesma. Cognitivamente, aparecem pensamentos como "sem meu cargo, não sou ninguém", dificuldade em responder "o que você faz?", catastrofização sobre o futuro ("nunca mais vou conseguir"), comparação constante com ex-colegas que permaneceram, ruminação sobre "o que fiz de errado" e questionamento de todas as escolhas passadas. Comportamentalmente, manifestam-se isolamento social e evitação de eventos, dificuldade em manter rotinas básicas, procrastinação na busca por emprego, uso excessivo de redes sociais (ou abandono completo), alterações no sono e alimentação e dificuldade em tomar decisões simples.

O Que a TCC Ensina Sobre Identidade

A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas poderosas para reconstruir a identidade após a demissão, baseando-se em princípios fundamentais sobre como formamos nosso senso de eu.

Identidade É Construída, Não Dada

Na perspectiva da TCC, nossa identidade não é uma essência fixa que "descobrimos" — é algo que construímos ativamente através de nossas experiências, interpretações e escolhas. Isso significa que a identidade pode ser reconstruída em qualquer momento, que você não perdeu "quem você é" (perdeu uma versão que pode evoluir) e que existe espaço para criar uma identidade mais ampla e resiliente.

Pensamentos Não São Fatos

Quando pensamos "sem meu cargo, não valho nada", esse pensamento parece absolutamente verdadeiro. Mas pensamentos são hipóteses, não fatos. A TCC ajuda a identificar pensamentos automáticos ("Sou uma fraude", "Nunca vou me recuperar"), questionar sua validade ("Que evidências sustentam isso?") e formular alternativas ("Estou passando por uma transição difícil, mas tenho recursos").

Comportamento Molda Emoção

Esperar "sentir vontade" para agir pode manter você presa na inércia. Na TCC, invertemos: agimos primeiro, e a emoção segue. Pequenas ações — mesmo sem motivação — podem iniciar ciclos positivos.

Reconstruindo Sua Identidade: Um Caminho Prático

A reconstrução não acontece da noite para o dia, mas há passos concretos que podem ajudar.

Passo 1: Permitir o Luto

Antes de reconstruir, é preciso reconhecer o que foi perdido. Isso não é "se vitimizar" — é processar. Pergunte-se: o que exatamente eu perdi além do emprego? Que partes de mim estavam ligadas a esse cargo? O que eu valorizava nessa versão de mim? Dar nome às perdas permite processá-las.

Passo 2: Separar Eu de Cargo

Um exercício fundamental: liste 20 coisas que definem quem você é — sem mencionar trabalho. No início, isso pode parecer impossível. Persista. Você é filha, mãe, amiga, parceira. Curiosa, criativa, resiliente. Amante de livros, música, natureza. Alguém com história, valores, sonhos. O cargo era algo que você fazia, não quem você é.

Passo 3: Reconectar Com Valores

Na TCC, trabalhamos com clarificação de valores — identificar o que realmente importa para você, além do que o mundo corporativo diz que deveria importar. Pergunte-se: se dinheiro e status não existissem, o que eu faria? Que tipo de pessoa eu quero ser, independente do cargo? O que me faz perder a noção do tempo? Pelo que eu quero ser lembrada?

Passo 4: Criar Nova Estrutura

A perda de rotina pode ser devastadora. Crie uma nova estrutura que não dependa de emprego: horário de acordar consistente, blocos para autocuidado (exercício, alimentação, sono), tempo para conexões sociais (não isolamento), atividades de propósito (voluntariado, projetos pessoais) e busca de emprego como uma das atividades, não a única.

Reconstrução de identidade além do trabalho

Técnicas de TCC Para a Travessia

Algumas ferramentas específicas que utilizo no trabalho com executivas em transição:

Registro de Pensamentos

Quando surgir um pensamento como "sou uma fracassada", anote:

SituaçãoPensamento AutomáticoEmoçãoEvidências a FavorEvidências ContraPensamento Alternativo
Acorde e lembro que estou desempregada"Sou uma fracassada"Tristeza 90%Fui demitidaTive carreira de 15 anos, fui promovida 3x, layoff afetou 200 pessoas"Estou em transição, não sou minha situação atual"

Ativação Comportamental

Identifique atividades que trazem prazer (o que é gostoso de fazer, mesmo pequenas coisas), maestria (o que te dá sensação de competência) e conexão (o que te aproxima de pessoas importantes). Agende essas atividades diariamente, mesmo sem vontade.

Experimentos Comportamentais

Teste suas crenças na prática:

  • Crença: "As pessoas vão me julgar por estar desempregada"
  • Experimento: Contar para 3 pessoas de confiança e observar a reação real
  • Resultado: Muitas vezes descobrimos que o julgamento está mais em nós do que nos outros

Dessensibilização Gradual

Se a ideia de networking ou entrevistas causa pânico, comece pequeno: primeiro atualizar LinkedIn (sem postar), depois mandar mensagem para um ex-colega próximo, participar de um evento virtual, fazer uma conversa informacional e finalmente candidatar-se a uma vaga.

Quando a Demissão Revela Problemas Anteriores

Às vezes, a crise pós-demissão intensifica questões que já existiam: dependência da validação externa (sempre precisou de aprovação para se sentir bem?), perfeccionismo (o trabalho era uma forma de provar que você era "boa o suficiente"?), ou evitação de outras áreas da vida (o foco no trabalho escondia problemas em relacionamentos ou consigo mesma?). Se esse for o caso, a demissão pode ser uma oportunidade dolorosa, mas transformadora, de construir bases mais sólidas para sua identidade.

Construindo Uma Identidade Mais Resiliente

A meta não é voltar a ser quem você era — é evoluir para alguém mais integrada. Uma identidade saudável se apoia em múltiplos pilares: profissional (sim, mas não o único), relacional (família, amigos, comunidade), corporal (saúde, movimento, cuidado), espiritual/existencial (valores, propósito maior) e criativo (expressão, hobbies, paixões). Quando um pilar é abalado, os outros sustentam.

Reescrever a Narrativa

Como você conta sua história? Compare:

Narrativa de vítima: "Fui demitida injustamente, perdi tudo, não sei o que fazer"

Narrativa de agência: "Passei por uma demissão difícil e estou usando esse momento para reavaliar o que realmente quero da minha carreira e vida"

Ambas podem ser verdadeiras. A segunda oferece mais recursos para seguir em frente.

Aceitar a Incerteza

Uma das habilidades mais importantes que a TCC desenvolve é a tolerância à incerteza. Você não sabe quando vai conseguir o próximo emprego. Não sabe como será. Mas pode descobrir que é capaz de suportar o não-saber enquanto caminha.

Você Não Precisa Fazer Isso Sozinha

A crise de identidade pós-demissão pode ser uma das experiências mais desafiadoras da vida adulta. Mas também pode ser um portal para uma versão mais autêntica e integrada de você mesma.

Se você está passando por isso, lembre-se:

Você não é seu cargo. Nunca foi. O cargo era algo que você fazia muito bem — e continuará fazendo, em outro lugar ou de outra forma.

A dor que sente é válida. Não minimize, não compare com "quem está pior", não se cobre para "superar logo". Processe no seu tempo.

A reconstrução é possível. Executivas saem de crises de identidade todos os dias e constroem carreiras e vidas mais alinhadas com quem realmente são.

Para entender melhor como transições profissionais afetam a saúde mental, leia também sobre reinvenção profissional após os 40 e depressão pós-promoção. Se você está enfrentando burnout, saiba que a demissão pode ser tanto consequência quanto oportunidade de recuperação.

Se você se identificou com este artigo, considere buscar apoio profissional. A TCC pode ajudar você a atravessar essa transição e construir uma identidade que não dependa de um crachá para existir. Entre em contato e vamos conversar sobre como reconstruir juntas.

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