Burnout: Sintomas, Causas e Tratamento da Síndrome do Esgotamento
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

A cada três trabalhadores brasileiros, um sofre de burnout. Este dado alarmante coloca o Brasil como o segundo país com mais casos da síndrome no mundo, ficando atrás apenas do Japão. Desde janeiro de 2025, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) reconhece oficialmente o burnout como uma doença ocupacional, evidenciando a gravidade deste problema que afeta milhões de pessoas.
Se você sente que está constantemente no limite, que o trabalho se tornou uma fonte inesgotável de estresse e que mesmo após o descanso a exaustão permanece, este artigo é para você. Vamos entender juntos o que é o burnout, como identificá-lo e, principalmente, como é possível se recuperar desta condição que compromete não apenas a carreira, mas toda a qualidade de vida.
O Que É a Síndrome de Burnout?
A Organização Mundial da Saúde define o burnout como uma "síndrome resultante de estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso". Diferente do estresse comum, que todos experimentamos em maior ou menor grau, o burnout representa um estado de esgotamento que vai muito além do cansaço típico de uma semana intensa.
O modelo desenvolvido pela pesquisadora Christina Maslach identifica três dimensões fundamentais do burnout. A primeira é a exaustão emocional e física, uma sensação profunda de esgotamento que não melhora com descanso. A segunda dimensão é a despersonalização ou cinismo, caracterizada por um distanciamento mental do trabalho, sentimentos negativos em relação às tarefas e às pessoas com quem trabalhamos. Por fim, há a redução da realização profissional, a sensação de incompetência e falta de produtividade, mesmo quando objetivamente o desempenho se mantém.
Uma forma útil de entender a diferença entre estresse e burnout é através de uma metáfora simples: o estresse é caracterizado pelo excesso - muitas demandas, muita pressão, muita atividade. Já o burnout é caracterizado pelo vazio - sensação de não ter mais nada para dar, de estar emocionalmente seco. É como uma bateria que, por mais que você tente carregar, simplesmente não retém mais energia.
É importante ressaltar que o burnout frequentemente coexiste com outros transtornos. Muitas pessoas que desenvolvem a síndrome também apresentam sintomas de ansiedade ou depressão, condições que podem se alimentar mutuamente e que merecem atenção profissional adequada.
Os Números Alarmantes do Burnout no Brasil
Os dados sobre burnout no Brasil são preocupantes e revelam uma epidemia silenciosa que afeta milhões de trabalhadores. Segundo estudos recentes, aproximadamente 30% dos profissionais brasileiros sofrem da síndrome, um número que coloca nosso país em segundo lugar no ranking mundial de casos.
Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil licenças médicas por transtornos mentais relacionados ao trabalho, representando um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Os afastamentos especificamente por burnout cresceram impressionantes 1.000% desde 2014, demonstrando que o problema está se agravando rapidamente.
Um dado que merece atenção especial é que 71,6% dos casos de burnout afetam mulheres. Esta disparidade não é coincidência e reflete desigualdades estruturais no mundo do trabalho e na vida doméstica. As mulheres frequentemente enfrentam a chamada "dupla jornada", equilibrando responsabilidades profissionais com o trabalho não remunerado de cuidado da casa e da família. Além disso, a carga mental invisível - o planejamento, organização e antecipação das necessidades familiares - recai desproporcionalmente sobre elas.
O reconhecimento do burnout como doença ocupacional pela CID-11, adotada pelo Brasil em 2025, representa um avanço importante. Isso significa que trabalhadores diagnosticados com a síndrome têm direito a afastamento, tratamento adequado e, em casos mais graves, podem pleitear benefícios previdenciários.
Sintomas: Como Identificar o Burnout
Reconhecer os sinais do burnout é o primeiro passo para buscar ajuda. A síndrome se manifesta de diversas formas, afetando corpo, mente e comportamento. Conhecer esses sintomas pode fazer a diferença entre uma intervenção precoce e um agravamento significativo da condição.
Sintomas Físicos
O corpo frequentemente dá os primeiros sinais de alerta. A fadiga crônica é o sintoma mais característico - um cansaço profundo que não melhora mesmo após uma noite de sono ou um final de semana de descanso. Muitas vezes, a própria insônia causada pela ansiedade impede o descanso reparador, agravando ainda mais o quadro. Outros sinais incluem dores de cabeça frequentes, tensão muscular persistente especialmente na região do pescoço e ombros, problemas gastrointestinais, alterações no apetite e um sistema imunológico enfraquecido que resulta em adoecimentos frequentes.
Sintomas Emocionais
No campo emocional, o burnout se manifesta através de uma sensação constante de fracasso e insegurança. A pessoa sente que não é boa o suficiente, que não consegue dar conta das demandas, mesmo quando seu desempenho objetivo é satisfatório. Há também sentimentos de derrota e desamparo, como se nada que você fizesse pudesse mudar a situação. A irritabilidade aumenta, a paciência diminui, e pode surgir uma apatia generalizada em relação ao trabalho e à vida.
Sintomas Comportamentais
As mudanças de comportamento também são reveladoras. O isolamento social é comum - a pessoa evita colegas, cancela compromissos, prefere ficar sozinha. As faltas no trabalho aumentam, assim como a procrastinação. Muitos desenvolvem dificuldade de concentração e passam a cometer erros que antes não cometiam. Em alguns casos, pode haver aumento no consumo de álcool, medicamentos ou outras substâncias como forma de lidar com o mal-estar.
Top tip
Faça um 'check-in' semanal consigo mesmo: numa escala de 0 a 10, como está sua energia? Sua motivação para o trabalho? Sua capacidade de 'desligar' ao fim do dia? Pontuações consistentemente baixas (abaixo de 4) por mais de duas semanas merecem atenção profissional.

Causas e Fatores de Risco
O burnout não surge do nada - é o resultado de uma combinação de fatores organizacionais e individuais que, ao longo do tempo, esgotam os recursos emocionais e físicos da pessoa. Compreender essas causas é fundamental para a prevenção e o tratamento.
Fatores Organizacionais
O ambiente de trabalho desempenha papel central no desenvolvimento do burnout. A carga de trabalho excessiva é o fator mais óbvio - quando as demandas consistentemente excedem a capacidade de resposta, o esgotamento é questão de tempo. Mas não é apenas a quantidade de trabalho que importa. A falta de controle e autonomia sobre como, quando e onde realizar as tarefas também contribui significativamente.
Outros fatores organizacionais incluem: recompensas insuficientes (não apenas financeiras, mas também reconhecimento e valorização), ambiente de trabalho tóxico com conflitos interpessoais ou assédio, falta de apoio da liderança e dos colegas, e valores da organização que conflitam com os valores pessoais do trabalhador.
Fatores Individuais
Algumas características pessoais podem aumentar a vulnerabilidade ao burnout. O perfeccionismo leva a pessoa a estabelecer padrões impossíveis e a nunca se sentir satisfeita com seu desempenho. A dificuldade em estabelecer limites faz com que aceite demandas além de sua capacidade — se você quer entender por que executivas têm tanta dificuldade em dizer não, vale a leitura. A identificação excessiva com o trabalho - quando a profissão se torna a principal fonte de identidade e autoestima - também é um fator de risco importante.
Por Que as Mulheres São Mais Afetadas?
O dado de que 71,6% dos casos de burnout afetam mulheres demanda reflexão. Além da já mencionada dupla jornada, as mulheres frequentemente enfrentam ambientes de trabalho menos acolhedores, com menos oportunidades de promoção e reconhecimento. A pressão social para "dar conta de tudo" - ser profissional competente, mãe presente, esposa atenciosa, filha cuidadosa - cria uma carga impossível de sustentar. Esta dinâmica pode impactar profundamente os relacionamentos e a vida familiar como um todo.
Tratamento e Recuperação: O Caminho de Volta
A boa notícia é que o burnout é tratável. Com o suporte adequado e mudanças necessárias, é possível recuperar a energia, o prazer no trabalho e a qualidade de vida. O tratamento geralmente envolve uma combinação de psicoterapia, mudanças práticas no estilo de vida e, em alguns casos, acompanhamento médico.
Psicoterapia: A Base da Recuperação
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem se mostrado particularmente eficaz no tratamento do burnout. Através dela, é possível identificar e modificar padrões de pensamento disfuncionais - como o perfeccionismo excessivo ou a crença de que descansar é "preguiça". A terapia também ajuda a desenvolver habilidades essenciais como estabelecer limites saudáveis, comunicar necessidades de forma assertiva e reconstruir a autoeficácia.
Como psicóloga especialista em TCC, frequentemente trabalho com pacientes que chegam ao consultório em estado avançado de esgotamento. O processo terapêutico envolve não apenas tratar os sintomas, mas compreender como a pessoa chegou até ali e desenvolver estratégias para prevenir recaídas.
Mudanças Práticas
Além da psicoterapia, algumas mudanças concretas são fundamentais. Estabelecer limites claros entre trabalho e vida pessoal é essencial - isso inclui horários definidos para encerrar o expediente, resistir à tentação de checar e-mails fora do horário e aprender a dizer "não" quando necessário.
O autocuidado, frequentemente negligenciado por quem está em burnout, precisa ser resgatado. Isso inclui sono adequado, alimentação saudável, exercício físico regular e tempo dedicado a atividades prazerosas que não tenham relação com o trabalho. Técnicas de relaxamento e mindfulness podem ajudar a reduzir os níveis de estresse e reconectar a pessoa com o momento presente.
Quando o Afastamento É Necessário
Em casos mais graves, o afastamento do trabalho pode ser necessário para permitir a recuperação. Isso não deve ser visto como fracasso, mas como um passo necessário para a cura. Com o reconhecimento do burnout como doença ocupacional, trabalhadores têm direito a licença médica e, quando aplicável, a benefícios previdenciários.
Top tip
A recuperação do burnout não acontece da noite para o dia. Permita-se ser paciente consigo mesma. Cada pequeno passo - uma noite de sono restaurador, um momento de lazer genuíno, um 'não' bem colocado - é uma vitória no caminho da recuperação.

Conclusão: Você Não Precisa Enfrentar Isso Sozinho
O burnout é uma condição séria, mas tratável. Se você se identificou com os sintomas descritos neste artigo, saiba que reconhecer o problema é o primeiro passo - e talvez o mais difícil. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza; é, na verdade, um ato de coragem e autocuidado.
O esgotamento profissional não precisa ser seu destino. Com o suporte adequado - seja através de psicoterapia, mudanças no ambiente de trabalho ou ajustes no estilo de vida - é possível recuperar sua energia, reencontrar prazer nas atividades e construir uma relação mais saudável com o trabalho.
Se você está enfrentando sintomas de burnout, não espere que a situação se agrave. Agende uma consulta e comece seu processo de recuperação. Juntos, podemos trabalhar para que você retome o controle sobre sua vida profissional e pessoal, desenvolvendo ferramentas para não apenas superar o momento atual, mas também prevenir recaídas no futuro.
Lembre-se: cuidar de si mesmo não é egoísmo - é necessidade. E você merece esse cuidado.
