Por Que Executivas Dizem Sim Para Tudo (E o Preço Que Pagam)

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Por Que Executivas Dizem Sim Para Tudo (E o Preço Que Pagam)

Você aceita mais uma reunião mesmo sabendo que seu dia já está lotado. Assume aquele projeto extra porque "ninguém mais pode fazer". Responde e-mails às 23h porque não quer parecer descomprometida. E no final do dia, exausta, se pergunta: por que é tão difícil simplesmente dizer não?

Se você se identificou, saiba que não está sozinha. Segundo pesquisa da McKinsey, 60% das mulheres em cargos seniores relatam burnout frequente — uma taxa significativamente maior que a dos homens na mesma posição. E uma das principais razões está justamente na dificuldade de estabelecer limites.

O Que É People-Pleasing (E Por Que Não É Ser Colaborativa)

People-pleasing — ou a compulsão por agradar — vai muito além de ser uma pessoa colaborativa ou empática. É um padrão comportamental em que a necessidade de aprovação externa se torna mais importante que as próprias necessidades, valores e limites.

A diferença entre cooperação saudável e people-pleasing está na motivação:

Na cooperação saudável, você ajuda porque quer e pode, mantendo seus limites intactos. No people-pleasing, você ajuda por medo de rejeição, culpa ou para evitar conflitos, mesmo quando isso te prejudica.

Alguns sinais de que o people-pleasing pode estar afetando você incluem dificuldade de recusar pedidos mesmo quando sobrecarregada, culpa intensa ao priorizar suas necessidades, dizer "sim" automaticamente antes de avaliar se é possível, evitar expressar opiniões para não desagradar, sentir ressentimento depois de ajudar e buscar constantemente validação externa.

Se você reconhece esses padrões, entenda: isso não é um defeito de caráter. É um comportamento aprendido — e comportamentos aprendidos podem ser modificados.

A Síndrome da Boa Menina: Origens do Comportamento

A dificuldade de dizer não não surge do nada. Ela tem raízes profundas na forma como mulheres são socializadas desde a infância.

Estudos mostram que meninas recebem mais tarefas domésticas que meninos, são mais elogiadas por serem "comportadas" e "prestativas", e aprendem cedo que seu valor está conectado ao cuidado com os outros. Enquanto meninos são incentivados a ser assertivos e competitivos, meninas aprendem que devem ser agradáveis, conciliadoras e colocar as necessidades alheias em primeiro lugar.

Essa programação social cria o que algumas pesquisadoras chamam de "síndrome da boa menina" — a crença internalizada de que para ser aceita, amada e bem-sucedida, você precisa agradar a todos, o tempo todo.

No ambiente corporativo, isso se complica ainda mais. Pesquisas em psicologia organizacional mostram que quando mulheres demonstram comportamento assertivo em benefício próprio — como negociar salário ou recusar demandas excessivas — frequentemente sofrem o que os estudos chamam de "backlash": são percebidas como menos simpáticas, menos competentes ou "difíceis de trabalhar".

É um duplo vínculo cruel: seja assertiva e seja punida socialmente, ou seja agradável e seja sobrecarregada.

O Trabalho Invisível Que Esgota: Office Housework

Além das responsabilidades formais do cargo, mulheres em posições de liderança frequentemente assumem um trabalho invisível que raramente é reconhecido ou recompensado.

Dados da McKinsey revelam que mulheres líderes fazem 60% mais trabalho de suporte emocional que homens no mesmo nível hierárquico. Isso inclui: checar o bem-estar da equipe, mediar conflitos, organizar celebrações, treinar novos funcionários e assumir tarefas de diversidade e inclusão.

Esse fenômeno, chamado de "office housework" ou trabalho doméstico corporativo, tem um impacto direto na carreira e na saúde mental:

  • Mulheres aceitam tarefas "não-promovíveis" 76% das vezes (homens: apenas 51%)
  • Quando homens assumem essas tarefas, são reconhecidos e recomendados para promoções
  • Quando mulheres fazem o mesmo, é considerado "esperado" — não gera reconhecimento

O resultado? Sobrecarga crônica. No Brasil, 73% dos diagnósticos de burnout são em mulheres, com a maioria entre 30 e 49 anos — exatamente a faixa etária de consolidação de carreira.

O Que Acontece No Seu Cérebro: Distorções Cognitivas

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos que nossos comportamentos são influenciados por pensamentos automáticos — interpretações rápidas e muitas vezes distorcidas da realidade que surgem sem que percebamos.

No people-pleasing, algumas distorções cognitivas são especialmente comuns:

Leitura mental: assumir que você sabe o que os outros pensam, sem evidência concreta.

  • "Se eu disser não, ela vai me achar egoísta"
  • "Todos vão perceber que não sou tão competente assim"

Catastrofização: prever o pior cenário possível como se fosse 100% certo.

  • "Se eu recusar esse projeto, vou ser demitida"
  • "Minha carreira vai acabar se eu não aceitar"

Pensamento dicotômico: ver situações em extremos, sem meio-termo.

  • "Ou sou uma líder disponível e dedicada, ou sou egoísta e incompetente"
  • "Ou faço tudo perfeitamente, ou sou um fracasso"

Essas distorções criam um ciclo: você acredita nos pensamentos, age para evitar a "catástrofe" imaginada (aceitando tudo), e nunca testa se suas previsões eram reais. O padrão se reforça.

Top tip

Pensamentos automáticos comuns em people-pleasers:

  • "Meu valor depende do que faço pelos outros"
  • "Se alguém está insatisfeito, é minha culpa"
  • "Tenho que estar sempre disponível"
  • "Dizer não é egoísta e errado"
  • "Manter a paz é minha responsabilidade"

Se você se pegou pensando assim, não se culpe. Reconhecer é o primeiro passo para mudar.

Se você também experimenta pensamentos intrusivos e autocrítica intensa, pode ser útil entender mais sobre a ansiedade e como ela se manifesta.

Fawn Response: Quando Agradar É Sobrevivência, Não Escolha

Às vezes, a dificuldade de dizer não vai além de um padrão comportamental aprendido. Em alguns casos, pode ser uma resposta de sobrevivência.

O psicólogo Pete Walker cunhou o termo "fawn response" (resposta de apaziguamento) para descrever uma quarta reação ao perigo, além das conhecidas luta, fuga e congelamento. Na resposta fawn, a pessoa busca segurança através do apaziguamento — agradando quem representa ameaça.

Diferente do people-pleasing comum, a resposta fawn é:

  • Automática e reflexa, não uma escolha consciente
  • Fisiológica, envolvendo ativação do sistema nervoso
  • Frequentemente conectada a experiências traumáticas anteriores

O cérebro de quem desenvolveu essa resposta interpreta conflito ou desaprovação como ameaça à segurança emocional. A amígdala dispara alertas de perigo, e a pessoa reage instintivamente buscando aplacar o outro.

Mulheres são mais propensas a desenvolver essa resposta por diversas razões: condicionamento social para ser conciliadora, experiências de violência ou intimidação, relações familiares em que agradar era necessário para sobreviver emocionalmente.

Alguns sinais de que pode ser fawn response incluem dificuldade de identificar o que você realmente sente, sensação de "perder a si mesma" em relacionamentos, olhar para os outros para saber como deveria se sentir e ter como primeiro instinto em qualquer conflito apaziguar ou ceder.

Se você reconhece esses sinais, especialmente se tem histórico de relacionamentos difíceis ou dependência emocional, considere buscar apoio profissional especializado.

Técnicas TCC Para Estabelecer Limites

A boa notícia é que assertividade é uma habilidade — e habilidades podem ser desenvolvidas. A TCC oferece ferramentas práticas e baseadas em evidências para isso.

Reestruturação Cognitiva

O primeiro passo é questionar os pensamentos automáticos. Comece identificando o pensamento ("Se eu disser não, ela vai me odiar"). Depois, busque evidências a favor ("Ela já ficou brava comigo antes"). Em seguida, busque evidências contra ("Pessoas geralmente respeitam quem tem limites claros. Já disse não para outras coisas e não fui rejeitada"). Por fim, crie um pensamento alternativo ("Ela pode ficar desapontada momentaneamente, mas provavelmente vai entender. E mesmo que não entenda, minha saúde importa").

A Técnica DEAR MAN

Desenvolvida na Terapia Comportamental Dialética (DBT), essa técnica ajuda a comunicar necessidades de forma assertiva. O acrônimo significa: Descreva fatos objetivos sem julgamento, Expresse seus sentimentos e opiniões usando "eu", Afirme o que você precisa ou quer, Reforce os benefícios de atender sua necessidade, Mantenha-se focada no objetivo sem se desviar, Apareça confiante com postura e tom de voz adequados, e Negocie estando aberta a alternativas.

Top tip

Script prático para dizer não:

"Entendo que esse projeto é importante [Descreva]. Fico honrada por você pensar em mim [Expresse]. No momento, minha carga está no limite e não conseguiria entregar com a qualidade que merece [Afirme]. Se eu assumir mais, a qualidade do meu trabalho atual vai cair, o que não é bom para nenhum de nós [Reforce]. Posso ajudar de outra forma, como indicar alguém ou revisar depois? [Negocie]"

Exposição Gradual

Assim como outras habilidades, assertividade se desenvolve com prática. Comece pequeno, recusando algo de baixo risco como um almoço ou uma tarefa menor. Tolere o desconforto inicial — a culpa é normal e temporária. Observe o resultado: geralmente, nada catastrófico acontece. Então aumente gradualmente a dificuldade, passando para situações mais desafiadoras. Com o tempo, seu cérebro aprende que dizer não é seguro. Novas conexões neurais se formam, e o que era difícil se torna natural.

Esse processo é similar ao que trabalhamos com a síndrome da impostora — desafiar crenças limitantes através de evidências e prática.

Limites Saudáveis Não São Egoísmo

Se você chegou até aqui carregando culpa por querer estabelecer limites, preciso te dizer algo importante: cuidar de si não é egoísmo. É pré-requisito. Conforme destacam pesquisas sobre limites saudáveis, profissionais que estabelecem boundaries claros apresentam melhor desempenho e menor risco de esgotamento.

Você não consegue liderar bem quando está esgotada. Não consegue cuidar dos outros quando não tem energia. Não consegue dar o seu melhor quando está ressentida por ter cedido mais uma vez.

Limites saudáveis não significam ser menos empática, menos competente ou menos comprometida. Significam reconhecer que você é um recurso finito — e recursos finitos precisam ser gerenciados com inteligência.

A assertividade é uma habilidade que pode ser aprendida em qualquer fase da vida. Se você cresceu ouvindo que boas meninas não reclamam, pode reescrever essa narrativa. Se passou anos dizendo sim automaticamente, pode criar novos padrões.

Se você sente que a dificuldade de estabelecer limites está impactando sua saúde mental, seus relacionamentos ou sua carreira, considere buscar apoio profissional. A TCC oferece ferramentas comprovadas para desenvolver assertividade de forma segura e gradual.

Você pode agendar uma consulta para conversarmos sobre como posso ajudar nesse processo.


A Dra. Luciana Massaro é psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, com foco em mulheres executivas e profissionais de alta performance.

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