3 Aspectos Fundamentais Sobre a Ansiedade na Vida Moderna

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

3 Aspectos Fundamentais Sobre a Ansiedade na Vida Moderna

Você está em uma reunião importante, prestes a apresentar os resultados do trimestre. O coração acelera, as mãos ficam levemente úmidas, a mente se aguça. Essa resposta do seu corpo não é um problema — é seu sistema nervoso te preparando para performar. Mas quando essa mesma sensação aparece ao abrir a caixa de e-mail às 7h da manhã, ao pensar no trabalho no domingo à noite, ou ao receber uma notificação no celular... aí temos um cenário diferente.

A ansiedade se tornou a companheira invisível de milhões de profissionais. Dados epidemiológicos mostram que o Brasil é líder mundial em prevalência de ansiedade, afetando 9,3% da população — quase o triplo da média global de 3,6%. Entre mulheres em posições de liderança, os números são ainda mais expressivos.

Neste artigo, vamos explorar três aspectos fundamentais que toda pessoa precisa entender sobre a ansiedade: sua natureza dual, as distorções de pensamento que a alimentam, e como ela se manifesta no corpo. Compreender esses pilares é o primeiro passo para retomar o controle.

1. A Dualidade da Ansiedade: Proteção vs. Transtorno

Em sua essência, a ansiedade não é nossa inimiga. Em níveis adequados, ela funciona como um mecanismo natural de proteção, uma reação do corpo ao estresse que nos impulsiona para a ação e realização de projetos. Essa resposta evolutiva nos adverte sobre possíveis ameaças, sejam elas físicas ou psicológicas, permitindo-nos evitá-las ou, pelo menos, reduzir suas consequências.

Quando a Ansiedade Trabalha a Seu Favor

A ansiedade adaptativa surge diante de situações genuinamente desafiadoras, tem intensidade proporcional ao estímulo, passa quando a situação se resolve e melhora seu desempenho em vez de prejudicá-lo.

Aquele "frio na barriga" antes de uma apresentação importante pode aguçar sua atenção e melhorar sua performance. O desconforto ao perceber um prazo se aproximando pode motivar a ação. Essa é a ansiedade cumprindo seu papel evolutivo. Para mulheres em posições de liderança, essa resposta pode ser uma aliada valiosa quando bem canalizada, aumentando a precisão nas decisões e a capacidade de antecipar problemas.

Quando a Ansiedade Se Torna Transtorno

No entanto, a linha entre proteção e problema é tênue. Quando a ansiedade se torna excessiva em intensidade e duração, transforma-se em um transtorno. Os transtornos de ansiedade incluem condições que compartilham características de medo, ansiedade excessiva e perturbações comportamentais — e afetam a capacidade de funcionar no trabalho, nos relacionamentos e na vida cotidiana.

Sinais de que a ansiedade cruzou essa linha incluem preocupação desproporcional a situações que outros consideram normais, sintomas que persistem mesmo quando a "ameaça" não existe, evitação de situações que antes eram rotineiras, e prejuízo significativo no trabalho, relacionamentos ou saúde.

Esta dualidade representa um dos maiores desafios no entendimento e tratamento da ansiedade: reconhecer quando uma resposta natural e saudável se transformou em um problema que limita nossa capacidade de viver plenamente. Muitas executivas passam anos convivendo com ansiedade excessiva sem perceber que cruzaram essa linha, normalizando sintomas que merecem atenção profissional.

Top tip

Mantenha um "diário de ansiedade" para identificar padrões. Anote quando sentiu ansiedade, a intensidade (1-10), o que estava fazendo, pensando e sentindo fisicamente. Este registro ajuda a distinguir entre ansiedade normal e excessiva, além de identificar gatilhos específicos.

Representação visual da dualidade entre ansiedade protetora e ansiedade patológica

2. As Distorções Cognitivas por Trás da Ansiedade

Uma característica marcante dos indivíduos que sofrem com transtornos de ansiedade é a forma como processam informações sobre si mesmos e o mundo. Pessoas ansiosas tendem a superestimar drasticamente a probabilidade da ocorrência de eventos negativos, enquanto simultaneamente subestimam sua própria capacidade de lidar com adversidades.

Os Padrões de Pensamento Mais Comuns

Estas distorções cognitivas funcionam como lentes que deformam a realidade, criando um ciclo de pensamentos negativos que alimentam e intensificam a ansiedade. As mais frequentes incluem:

Catastrofização: A pessoa desenvolve uma visão catastrófica do futuro ("Algo terrível vai acontecer", "Se eu errar, minha carreira acabou"). Pequenos contratempos são interpretados como desastres iminentes.

Leitura mental: Assumir que sabe o que os outros estão pensando — geralmente algo negativo sobre você. "Meu chefe não respondeu o e-mail porque está insatisfeito com meu trabalho."

Filtro mental: Focar exclusivamente nos aspectos negativos de uma situação, ignorando o positivo. Receber 10 feedbacks positivos e um crítico, e ruminar apenas sobre a crítica.

Desqualificação do positivo: Descartar evidências positivas como exceções ou coincidências. "Fui bem na apresentação, mas foi sorte."

Pensamento dicotômico: Ver situações em termos de tudo ou nada. "Se não for perfeito, é um fracasso."

O Ciclo Pensamento-Emoção-Comportamento

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos que pensamentos, emoções e comportamentos se influenciam mutuamente. Um pensamento distorcido ("Vou errar na reunião") gera emoção (ansiedade intensa), que influencia o comportamento (evitação ou performance prejudicada), que confirma o pensamento original. É um ciclo que se auto-alimenta.

Compreender estas distorções é fundamental para o processo terapêutico, pois são elas, em grande parte, a origem do transtorno. Ao identificar e questionar estes padrões de pensamento, abre-se o caminho para uma percepção mais realista e equilibrada das situações. Se você identifica padrões de pensamentos que não param, vale explorar técnicas específicas para interrompê-los.

Representação das distorções cognitivas e seu impacto na percepção

3. A Manifestação Física da Mente Ansiosa

A ansiedade não é apenas um fenômeno psicológico - ela se manifesta claramente no corpo através de uma série de sintomas físicos muitas vezes intensos e perturbadores. Os principais sinais incluem inquietação persistente, cansaço desproporcional ao esforço realizado, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e perturbações significativas do sono. Quando esses sintomas físicos se tornam extremamente intensos e surgem de forma abrupta, podem indicar um ataque de pânico, que é diferente da ansiedade comum.

Por Que o Corpo Reage Assim?

Esta manifestação física representa a ativação do sistema nervoso simpático - nossa resposta de "luta ou fuga" - mesmo quando não há perigo real presente. Evolutivamente, esse sistema foi desenhado para nos proteger de ameaças físicas: ao avistar um predador, nossos ancestrais precisavam de mais oxigênio nos músculos, coração acelerado, sentidos aguçados.

O problema é que o cérebro não distingue bem entre uma ameaça física real e uma ameaça imaginada. Quando você pensa repetidamente em um cenário de fracasso no trabalho, seu corpo responde como se o fracasso já estivesse acontecendo. O corpo se prepara para enfrentar uma ameaça, mobilizando recursos e energia, mas sem ter onde direcionar esta mobilização, o que resulta nos sintomas físicos desconfortáveis.

Os Sintomas Mais Comuns

Para executivas, alguns sintomas físicos são particularmente frequentes. A tensão muscular crônica, especialmente pescoço, ombros e mandíbula, é comum — muitas mulheres desenvolvem bruxismo sem perceber. A fadiga persistente surge porque o estado de alerta constante esgota os recursos do corpo, gerando cansaço mesmo após noites de sono. Problemas gastrointestinais também são frequentes, pois o eixo intestino-cérebro é sensível ao estresse, causando desconforto abdominal, náusea e alterações de apetite. Palpitações e aperto no peito são frequentemente confundidos com problemas cardíacos, levando a visitas repetidas ao cardiologista. E a dificuldade de concentração aparece quando a mente, dividida entre a tarefa presente e as preocupações futuras, não consegue focar plenamente.

Esses sintomas físicos são reais e mensuráveis — não são "frescura" ou "fraqueza". Eles representam o corpo expressando um sofrimento que a mente está experimentando. Reconhecer essa conexão mente-corpo é fundamental para o tratamento, pois trabalhar apenas o aspecto mental sem considerar as manifestações físicas raramente traz resultados duradouros.

Representação dos sintomas físicos da ansiedade no corpo

O Caminho Para o Tratamento

Meta-análises de estudos controlados demonstram que a Terapia Cognitivo-Comportamental é particularmente eficaz no tratamento dos transtornos de ansiedade, com odds ratio de 2,97 para resposta ao tratamento comparado a placebo. Como uma abordagem de curto prazo e focada diretamente no problema, ela trabalha tanto nas distorções cognitivas quanto nos comportamentos que perpetuam a ansiedade.

O Que Esperar do Tratamento com TCC

A TCC para ansiedade geralmente envolve psicoeducação (entender o que está acontecendo no seu corpo e mente), identificação de pensamentos automáticos (reconhecer as distorções quando elas aparecem), reestruturação cognitiva (questionar e modificar pensamentos disfuncionais), exposição gradual (enfrentar situações evitadas de forma controlada) e técnicas de manejo como respiração, relaxamento e mindfulness. O tratamento oferece estratégias práticas para quebrar o ciclo e retomar o controle sobre pensamentos, emoções e reações físicas.

Top tip

Uma técnica simples para momentos de ansiedade aguda: a respiração 4-7-8. Inspire por 4 segundos, segure por 7, expire lentamente por 8. Repita 3-4 vezes. Isso ativa o sistema nervoso parassimpático, sinalizando ao corpo que está seguro.

Conclusão: Você Não Precisa Conviver com Isso

A ansiedade excessiva não é uma característica de personalidade que você precisa aceitar. Não é o "preço do sucesso" ou algo inerente a pessoas ambiciosas. É uma condição tratável, com abordagens comprovadas cientificamente que podem fazer diferença significativa em semanas.

Se você reconhece estes três aspectos em sua vida — a ansiedade que passou de protetora para limitante, os pensamentos distorcidos que amplificam preocupações, e os sintomas físicos que afetam seu dia a dia — saiba que existe caminho para recuperar o equilíbrio.

Entender a ansiedade é o primeiro passo. Mas entendimento sem ação não transforma. Se você sente que precisa de apoio para aplicar essas mudanças, como psicóloga especialista em TCC, trabalho com técnicas comprovadas cientificamente para ajudar você a recuperar o controle. Agende uma consulta e dê o primeiro passo.

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