Ansiedade da Mãe Solo Executiva: Estratégias de TCC

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Ansiedade da Mãe Solo Executiva: Estratégias de TCC

Você é a primeira a acordar e a última a dormir. Se o filho adoece, é você quem precisa resolver — não há backup, não há divisão. Se a escola liga, é seu telefone que toca no meio da reunião de diretoria. Quando chega em casa exausta, não tem ninguém para dividir as tarefas ou simplesmente ouvir como foi seu dia. Você carrega tudo: a responsabilidade financeira, emocional, logística, educacional. Sozinha.

Ser mãe solo e executiva é uma equação que a sociedade raramente reconhece em sua complexidade. Dados do IBGE e FGV mostram que o Brasil tem 11,3 milhões de mães solo — e 72,4% delas vivem apenas com seus filhos, sem parentes ou agregados que poderiam ajudar. Para as que alcançaram posições de liderança, a pressão é ainda mais intensa: você precisa performar no nível mais alto profissionalmente enquanto é 100% responsável em casa.

A ansiedade que vem dessa sobrecarga não é frescura. É uma resposta real a uma situação de estresse crônico. E pode — e deve — ser trabalhada para que você consiga viver de forma mais sustentável.

Neste artigo, vou explorar os desafios específicos da mãe solo executiva e como a TCC pode ajudar você a gerenciar a ansiedade dessa posição. Como especialista em TCC, trabalho regularmente com mulheres nessa situação. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.

A Realidade da Mãe Solo Profissional

Antes de falar sobre estratégias, é importante validar o peso real dessa posição. Você não está exagerando.

Os Números no Brasil

Pesquisas da FGV mostram que lares chefiados por mães solo cresceram 17,8% em uma década. Em 2022, 14,9% dos domicílios brasileiros eram liderados por mães solo — uma proporção muito maior do que os 2,3% liderados por pais solo.

Das mães solo entre 15 e 60 anos, 63,3% estão empregadas, mas enfrentam condições desafiadoras: 45% trabalham na informalidade, e seu rendimento médio é 39% inferior ao dos homens casados com filhos e 20% menor que o das mulheres casadas com filhos.

Para as que conseguiram alcançar posições executivas, a trajetória envolveu superar barreiras adicionais — frequentemente sem a rede de suporte que outros profissionais contam.

Impacto na Saúde Mental

Pesquisas internacionais documentam que a taxa de depressão em mães solo é quase duas vezes maior do que em mães casadas. Sintomas de ansiedade e depressão são duas vezes mais frequentes em mães que criam filhos sozinhas em comparação com mães com parceiros.

Os fatores que contribuem para isso são claros: instabilidade financeira (mesmo para executivas, a responsabilidade é toda sua), suporte social inadequado (você não tem com quem dividir), e a carga mental de ser a única tomadora de decisões sobre tudo.

Equilibrando trabalho e responsabilidades parentais sem apoio

Os Desafios Específicos da Mãe Solo Executiva

Executivas que são mães solo enfrentam um conjunto particular de pressões que suas colegas com parceiros não experimentam na mesma intensidade.

Sem Backup para Emergências

Quando a criança adoece, você não tem a opção de dizer "meu parceiro cuida hoje". Você é a única. Isso significa negociar constantemente entre demandas profissionais urgentes e necessidades dos filhos — sem ter quem divida a responsabilidade ou cubra você.

Invisibilidade do Contexto

No ambiente corporativo, frequentemente você não pode ou não quer expor que é mãe solo. Há medo de ser vista como menos comprometida, menos disponível, menos capaz de assumir responsabilidades. Então você trabalha para parecer tão "disponível" quanto colegas que têm parceiros em casa — mas custando muito mais para você.

Carga Mental Ininterrupta

A carga mental — o trabalho invisível de lembrar, planejar, organizar, antecipar — é inteiramente sua. Não há quem pergunte "preciso fazer alguma coisa?" ou assuma tarefas sem você pedir. Você é a CEO da casa e da carreira, simultaneamente.

Culpa Amplificada

A culpa materna já é intensa para qualquer mãe que trabalha. Para a mãe solo, ela se amplifica: você é a única, então qualquer "falha" parece ser exclusivamente sua. Não há com quem dividir a responsabilidade nem o peso da culpa.

Solidão Estrutural

Executivas já enfrentam solidão na liderança. Quando você também é mãe solo, essa solidão se estende para casa. Não há parceiro para desabafar sobre o dia difícil, para dividir decisões sobre os filhos, para simplesmente estar presente.

Top tip

Reconhecer a magnitude do que você carrega não é vitimização — é validação necessária. Você está fazendo o trabalho de múltiplas pessoas. A ansiedade que sente é uma resposta proporcional a uma demanda desproporcional.

A Ansiedade da Mãe Solo: Como Se Manifesta

A ansiedade nesse contexto tem características específicas que vale identificar.

Hipervigilância Constante

Você nunca pode "desligar" completamente. Mesmo no trabalho, uma parte da sua mente está monitorando: a escola ligou? A babá mandou mensagem? Ele está bem? Essa vigilância constante é exaustiva e mantém o sistema nervoso em estado de alerta permanente.

Catastrofização Sobre o Futuro

"E se eu perder o emprego?" "E se eu ficar doente — quem cuida deles?" "E se não conseguir pagar a escola?" Quando você é a única responsável, os cenários catastróficos parecem mais ameaçadores — porque não há rede de segurança óbvia.

Perfeccionismo Compensatório

Para "compensar" ser mãe solo, você pode se pressionar a ser perfeita em tudo: na carreira, na maternidade, na casa. Qualquer coisa menos que excelente parece confirmar que você "não dá conta". Esse perfeccionismo é esgotante e paradoxalmente aumenta a ansiedade.

Dificuldade de Pedir Ajuda

Você aprendeu a resolver tudo sozinha. Pedir ajuda pode parecer admitir fraqueza ou incompetência. Então você assume mais do que deveria, até chegar ao limite.

Sintomas Físicos de Estresse Crônico

O corpo manifesta o que a mente carrega: tensão muscular permanente, dificuldade para dormir (mesmo quando os filhos dormem), problemas digestivos, dores de cabeça, fadiga que não passa com descanso.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos

A TCC oferece ferramentas eficazes para mães solo que enfrentam ansiedade crônica relacionada à sobrecarga.

Reestruturação de Crenças Sobre Autossuficiência

Muitas mães solo internalizaram que "preciso dar conta sozinha". Essa crença, embora adaptativa em alguns momentos, pode se tornar disfuncional. Na TCC, trabalhamos para flexibilizar essa crença: aceitar ajuda não é falhar — é ser estratégica.

Questionamento da Catastrofização

"E se eu perder o emprego?" — analisamos esse pensamento. Qual a probabilidade real? O que você faria se acontecesse? Quais recursos você tem? Frequentemente, a análise revela que você tem mais capacidade de lidar com adversidades do que o pensamento ansioso sugere.

Redefinição de "Boa Mãe"

A TCC ajuda a questionar padrões irrealistas de maternidade. Uma "boa mãe" não é aquela que faz tudo perfeitamente — é aquela que garante que os filhos tenham suas necessidades básicas atendidas, que sejam amados, que tenham estabilidade. Isso não requer que você seja sobre-humana.

Técnicas de Aceitação

Algumas coisas não podem ser mudadas: você é a única responsável, e isso é pesado. Técnicas de aceitação ajudam a parar de lutar contra a realidade e direcionar energia para o que pode ser feito — em vez de ruminar sobre o que não pode.

Construção de Repertório de Autocuidado

Autocuidado para mães solo não pode ser "dia no spa". Precisa ser viável: micro-momentos de recuperação, limites que protejam alguma energia, práticas que caibam na realidade de quem tem pouco tempo.

Construindo rede de apoio alternativa através de conexões comunitárias

Construindo Rede de Apoio Sem Parceiro

Uma das intervenções mais importantes é construir rede de apoio alternativa. Você não precisa ter parceiro para ter suporte — mas precisa construí-lo ativamente.

Top tip

Estratégias Essenciais para Mãe Solo Executiva:

  • Mapeie sua rede de apoio existente (família, amigos, vizinhos)
  • Profissionalize o que puder: babá, diarista, motorista
  • Construa comunidade com outras mães solo
  • Negocie flexibilidade no trabalho
  • Crie sistemas que reduzam decisões diárias
  • Priorize radicalmente: essencial vs. desejável
  • Delegue no trabalho sem culpa

Identifique Seus Recursos

Quem são as pessoas em quem você pode contar, mesmo que limitadamente? Familiares, amigos, vizinhos, outras mães da escola, colegas de trabalho. Mapeie o que cada pessoa poderia oferecer: pegar seu filho na escola em emergência, ficar uma noite para você descansar, ouvir quando você precisa desabafar.

Profissionalize o Que For Possível

Se você tem condições financeiras, contrate ajuda: babá, diarista, motorista de aplicativo confiável. Não é "terceirizar a maternidade" — é reconhecer que você não pode fazer tudo e que pagar por suporte é investimento em sua saúde mental.

Construa Comunidade

Grupos de mães solo, comunidades online, redes de mulheres na sua área profissional. Conectar-se com pessoas que entendem sua realidade reduz a solidão e pode gerar trocas práticas de apoio.

Negocie no Trabalho

Flexibilidade de horário, trabalho remoto quando necessário, compreensão para emergências. Muitas empresas hoje reconhecem que funcionários com vida pessoal sustentável performam melhor. Negociar condições viáveis não é pedir privilégio — é garantir que você possa continuar contribuindo a longo prazo.

Gerenciamento de Tempo e Energia

Para a mãe solo executiva, tempo e energia são os recursos mais escassos. Gerenciá-los bem é fundamental.

Priorização Radical

Você não pode fazer tudo. Identifique o que é realmente essencial versus o que é "bom ter". Se a casa não está impecável, mas as crianças estão alimentadas, cuidadas e amadas — você está fazendo o principal.

Sistemas que Reduzem Decisões

Cada decisão consome energia. Crie sistemas: cardápio semanal fixo, uniforme de trabalho que você não precisa pensar, rotina noturna padronizada. Quanto menos decisões pequenas você precisar tomar, mais energia para as grandes.

Blocos de Tempo Protegidos

Identifique quando você é mais produtiva e proteja esses horários para trabalho focado. Identifique momentos de conexão com os filhos e proteja-os de invasões profissionais. Clareza sobre quando é trabalho e quando é família reduz a sensação de estar sempre dividida.

Delegação Estratégica

No trabalho, delegue o que pode ser delegado. Você não precisa fazer tudo pessoalmente para ser competente. Delegar bem é habilidade de liderança.

O Papel da Culpa

A culpa é companheira constante da mãe solo executiva. Trabalhar a culpa é parte essencial do tratamento da ansiedade nesse contexto.

Culpa por Trabalhar

Você trabalha não apenas por realização profissional — trabalha porque precisa sustentar sua família. Essa não é uma escolha egoísta; é responsabilidade. Sem seu trabalho, não há estabilidade para os filhos.

Culpa por Não Estar Presente

Você não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Perder eventos escolares, não poder ficar em casa quando o filho está com resfriado leve — essas são concessões necessárias, não evidências de mãe ruim.

Culpa por Querer Tempo para Si

Querer uma hora sozinha, querer sair sem os filhos de vez em quando, querer um momento de silêncio — isso é necessidade humana básica, não egoísmo. Você não precisa sacrificar absolutamente tudo de si para ser boa mãe.

Para aprofundar estratégias sobre culpa materna, leia nosso artigo sobre culpa materna e TCC.

Quando Buscar Ajuda Profissional

Considere buscar avaliação se a ansiedade está afetando significativamente seu funcionamento profissional ou parental, se você está tendo sintomas físicos persistentes de estresse, se a solidão está se tornando depressão, se você está usando substâncias (álcool, medicamentos) para lidar com a pressão, se pensamentos de que "seria melhor se eu não estivesse aqui" surgem, ou se estratégias de autoajuda não estão sendo suficientes.

Buscar terapia não é mais um item na sua lista de tarefas impossíveis — é investimento na sua capacidade de continuar funcionando. E como mãe solo, sua capacidade de funcionar é essencial para seus filhos.

Ser mãe solo e executiva é um dos papéis mais demandantes que uma mulher pode ocupar. Você está fazendo o trabalho de múltiplas pessoas, frequentemente sem reconhecimento adequado e com recursos limitados.

A ansiedade que você sente não é fraqueza — é uma resposta compreensível a uma situação de pressão extrema. Reconhecer isso é o primeiro passo. O segundo é buscar formas de tornar essa realidade mais sustentável: construindo rede de apoio, flexibilizando expectativas impossíveis, cuidando de si mesma dentro do possível, e buscando ajuda quando necessário.

Você não precisa ser sobre-humana para ser uma boa mãe e uma boa profissional. Precisa apenas ser humana o suficiente para reconhecer seus limites e trabalhar dentro deles — não contra eles.

Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.

More articles

Ansiedade na Menopausa e Perimenopausa: Por Que Aumenta

Mudanças hormonais, sono e estresse podem elevar ansiedade aos 40+. Veja sinais, diferenciações e estratégias de tratamento baseadas em evidências científicas.

Read more

Crise de Identidade Pós-Demissão: Quem Sou Eu Sem Meu Cargo?

Como executivas podem reconstruir sua identidade após demissão, superando a fusão entre eu e cargo profissional. Técnicas de TCC para encontrar propósito.

Read more

Agende uma consulta

Contato

Luciana T. S. Massaro - Psicóloga Clínica CRP-06/56470

Atendimento na região da Vila Mariana

(11) 97652-8168

luciana@massaropsicologia.com.br