Crise de Identidade Executiva: Quem Sou Eu Além do Trabalho?
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Quando alguém pergunta "quem é você?", qual a primeira coisa que vem à mente? Se a resposta é seu cargo, sua empresa, sua função — você não está sozinha. Mas essa fusão entre identidade e trabalho, que parece natural depois de décadas de carreira, pode se tornar uma armadilha perigosa.
Enquanto tudo vai bem no trabalho, a fusão parece funcionar. Mas quando vem uma demissão, uma aposentadoria, uma transição de carreira, ou mesmo férias prolongadas — a pergunta aparece com força: se eu não sou meu trabalho, quem eu sou?
A Harvard Business Review publicou em 2024 um artigo sobre como trabalhar uma crise de identidade profissional, reconhecendo que esse é um tema crescente entre executivos de alto desempenho. A crise de identidade profissional afeta satisfação no trabalho, desempenho e bem-estar geral.
Neste artigo, vou explorar por que executivas são vulneráveis a essa fusão excessiva, como isso afeta sua saúde mental, e o que a TCC oferece para construir uma identidade mais ampla e resiliente. Como especialista em TCC, trabalho regularmente com executivas enfrentando esse desafio. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.
O Fenômeno da Fusão Identitária
A fusão entre identidade pessoal e profissional acontece gradualmente, ao longo de anos de dedicação à carreira.
Como Acontece
Você dedicou décadas à sua carreira. Sacrificou tempo pessoal, relacionamentos, hobbies — tudo pela progressão profissional. Seu círculo social é formado principalmente por colegas. Seus horários são definidos pelo trabalho. Suas conquistas são conquistas profissionais.
Com o tempo, a fronteira entre "quem você é" e "o que você faz" vai se dissolvendo até não existir mais.
Por Que Executivas São Vulneráveis
Posições de liderança frequentemente exigem dedicação total. A cultura corporativa recompensa quem "veste a camisa". Você é reconhecida, admirada e valorizada pelo que faz profissionalmente. É natural que essa fonte de validação se torne central para sua identidade.
Além disso, quanto mais alta a posição, mais seu status social é definido pelo cargo. "Diretora da empresa X" abre portas, gera respeito, define como outros te veem. Perder isso pode parecer perder quem você é.

O Problema da Identidade Unidimensional
Quando todo o senso de quem você é está concentrado em uma dimensão, qualquer ameaça a essa dimensão se torna ameaça existencial.
Vulnerabilidade em Transições
Pesquisas psicológicas mostram que uma crise de identidade profissional ocorre quando indivíduos enfrentam desafios relacionados ao seu senso de self no contexto de suas carreiras. Quando o trabalho define completamente quem você é, qualquer transição — demissão, aposentadoria, mudança de área, licença — se torna uma crise de identidade.
A crise após demissão é particularmente intensa para executivas com identidade fusionada ao cargo. Não é apenas perda de emprego — é perda de si mesma.
O Conflito de Valores
Pesquisas recentes destacam que a incapacidade de alinhar atividades profissionais com valores pessoais é gatilho recorrente para desengajamento. Mesmo com sucesso objetivo, desalinhamento com valores pessoais pode resultar em desconexão e reavaliação de objetivos de carreira.
Se você nunca desenvolveu clareza sobre seus valores pessoais fora do trabalho, pode estar vivendo uma vida profissional "bem-sucedida" mas desconectada de quem você realmente é.
O Vazio Existencial
Nas férias, você não sabe o que fazer consigo. Na aposentadoria, você entra em depressão. Fora do escritório, você se sente perdida. O vazio existencial é frequentemente resultado de uma identidade que depende demais de uma única fonte.
Top tip
Ter orgulho do seu trabalho é saudável. Depender do trabalho para toda sua identidade é arriscado. A diferença está em ter outras dimensões de quem você é — relacionamentos, valores, interesses — que existem independentemente do cargo.
Sinais de Fusão Identitária Excessiva
Vale identificar sinais de que sua identidade pode estar excessivamente fundida ao trabalho.
Dificuldade Fora do Trabalho
Você não sabe o que fazer nas férias. Fica ansiosa quando não está trabalhando. Sente-se "inútil" em feriados. Não tem hobbies ativos. Convites sociais fora do contexto profissional parecem desconfortáveis.
Autoestima Dependente de Performance
Seu humor depende de como foi o dia de trabalho. Erros profissionais afetam desproporcionalmente como você se sente sobre si mesma. Sucesso no trabalho é a principal (ou única) fonte de validação.
Relacionamentos Secundarizados
Família, amigos, parceiro — todos ficam em segundo plano quando há demandas de trabalho. Você adiou construir relacionamentos "para quando tiver tempo". Seu círculo social é quase exclusivamente profissional.
Dificuldade de Se Descrever Sem o Trabalho
Se alguém perguntasse "quem é você, sem mencionar trabalho?", você teria dificuldade de responder. Seus hobbies são "networking". Suas leituras são profissionais. Suas conversas giram em torno de carreira.
Medo Intenso de Transições
A ideia de aposentadoria aterroriza. Demissão parece catástrofe existencial. Qualquer ameaça ao emprego dispara ansiedade desproporcional — não apenas pelo aspecto financeiro, mas por "quem você seria" sem o cargo.
A Perspectiva Psicológica
Diferentes teorias psicológicas ajudam a entender esse fenômeno.
Carl Rogers e o Self-Concept
A teoria de Carl Rogers sobre autoconceito sugere que indivíduos têm um self central que se alinha com seus valores e crenças. Quando há descompasso entre esse autoconceito e papéis profissionais, isso pode levar a estresse significativo e confusão de identidade.
Executivas podem adotar uma persona específica para se adequar à imagem esperada em seu setor. Se essa persona não se alinha com o self verdadeiro, uma crise de identidade profissional pode emergir.
Erik Erikson e o Ciclo de Vida
Na teoria de Erik Erikson, questões de identidade relacionadas à carreira são particularmente proeminentes durante o estágio de "generatividade versus estagnação", tipicamente na meia-idade. É nesse momento que muitas executivas começam a questionar: "É só isso?"
O desenvolvimento de identidade de carreira, envolvendo exploração e comprometimento, é um processo vitalício. Não termina quando você consegue o emprego "dos sonhos".
Abordagem TCC: O Que Trabalhamos
A TCC oferece ferramentas específicas para ampliar e fortalecer sua identidade.
Diferenciação Self-Papel
Trabalhamos para distinguir "quem você é" de "o que você faz". Você pode ser excelente no seu trabalho sem que sua identidade inteira dependa dele. Seu papel profissional é algo que você tem, não algo que você é.
Clarificação de Valores Pessoais
Quais são seus valores fundamentais — não os valores da empresa, não o que você deveria valorizar, mas o que realmente importa para você? Essa clarificação frequentemente revela desconexões entre a vida que você leva e a vida que seus valores pedem.
Construção de Identidade Multifacetada
Desenvolvemos consciência e investimento em outras dimensões de quem você é: relacionamentos, criatividade, espiritualidade, saúde, comunidade, aprendizado. Uma identidade com múltiplos pilares é mais resiliente.
Experimentos Comportamentais
Começamos pequeno: uma hora por semana para um hobby. Um encontro mensal com amigos não-profissionais. Uma atividade que nada tem a ver com trabalho. Gradualmente, você redescobre (ou descobre pela primeira vez) outras dimensões de si mesma.
Preparação para Transições
Trabalhamos para que transições profissionais — quando vierem — não sejam crises existenciais. Aposentadoria, mudança de área, demissão — todas essas situações são mais manejáveis quando você sabe quem é além do cargo.

Estratégias Práticas para Ampliar a Identidade
Além do trabalho terapêutico, ações práticas ajudam a construir identidade mais ampla.
Top tip
Estratégias para Construir Identidade Multifacetada:
- Invista em relacionamentos não-profissionais (amigos fora do trabalho)
- Desenvolva hobbies ativos que não envolvam networking
- Pratique responder "quem sou eu" sem mencionar trabalho
- Bloqueie tempo não-profissional na agenda como compromissos
- Explore seus valores pessoais além dos valores corporativos
- Prepare-se para aposentadoria construindo vida fora do trabalho agora
Invista em Relacionamentos Não-Profissionais
Cultive amizades que existem independentemente do trabalho. Reconecte-se com pessoas do passado. Participe de grupos ou comunidades baseados em interesses, não em networking.
Desenvolva Hobbies Ativos
Hobbies não são "perda de tempo" — são investimento em quem você é. Não precisa ser algo grandioso: jardinagem, leitura, caminhadas, arte, música. O importante é ter algo que é seu, não do trabalho.
Pratique Responder "Quem Sou Eu"
Literalmente pratique descrever-se sem mencionar trabalho. Quais suas qualidades como pessoa? O que você valoriza? O que te dá alegria? Essa prática revela lacunas e oportunidades.
Bloqueie Tempo Não-Profissional
Se o trabalho sempre expande para ocupar todo tempo disponível, bloqueie ativamente tempo para outras dimensões. Esse tempo é tão importante quanto reuniões — talvez mais.
Explore Seus Valores
Use exercícios de clarificação de valores (disponíveis online ou com apoio terapêutico) para identificar o que realmente importa para você. Depois, pergunte-se: quanto do meu tempo e energia vai para esses valores?
Prepare-se Para a Aposentadoria Antes
Mesmo que faltem décadas, comece a construir vida fora do trabalho agora. Desenvolva interesses, relacionamentos, propósitos que existirão depois que o crachá for embora.
Quando Buscar Ajuda Profissional
Considere buscar avaliação se você está enfrentando transição profissional e se sentindo perdida, se sintomas de depressão ou ansiedade aparecem quando você não está trabalhando, se você reconhece a fusão identitária mas não consegue mudar sozinha, se o vazio existencial está afetando sua qualidade de vida, se relacionamentos estão sendo prejudicados pela priorização absoluta do trabalho, ou se você está se aproximando de aposentadoria ou transição sem saber quem será.
A fusão entre identidade e trabalho é compreensível dada a cultura corporativa que recompensa dedicação total. Mas essa fusão cria vulnerabilidade: quando o trabalho muda — e ele sempre muda, eventualmente — quem você é?
Construir identidade multifacetada não diminui seu comprometimento profissional. Pelo contrário: ter vida fora do trabalho frequentemente torna você mais criativa, mais resiliente e mais presente quando está trabalhando.
Você é mais do que seu cargo. Descobrir — ou lembrar — quem você é além do trabalho é um investimento em sua saúde mental e em sua capacidade de navegar as inevitáveis transições da vida profissional.
Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.
