Amizades na Liderança: Da Solidão à Conexão Genuína
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você alcançou o topo. Tem respeito, influência, poder de decisão. Mas quando olha ao redor, percebe algo perturbador: não tem com quem realmente conversar. Não há ninguém com quem possa baixar a guarda, admitir dúvidas, compartilhar medos. Seus subordinados olham para você esperando respostas; seus pares competem pelos mesmos recursos; seu chefe espera resultados. E você? Você se sente profundamente sozinha.
Se essa descrição ressoa, você está vivendo a solidão da liderança — um fenômeno documentado que afeta a maioria dos executivos, com consequências reais para saúde e performance.
Uma pesquisa publicada pela Harvard Business Review revelou que 50% dos CEOs entrevistados se sentem isolados em seus cargos — e esse isolamento impacta negativamente o desempenho de 61% deles. Entre os que assumem a liderança pela primeira vez, a sensação de solidão chega a 70%.
Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com executivas que navegam esse paradoxo: ter muito poder e pouca conexão. Se a solidão da liderança está afetando você, entre em contato. Podemos trabalhar juntas nessa questão.
O Paradoxo Da Liderança Solitária
A liderança cria uma estrutura que, por design, tende ao isolamento.
Por Que O Topo É Solitário
Hierarquia: Quanto mais alta sua posição, menos pessoas no seu nível para trocar.
Filtro de informação: As notícias que chegam a você são editadas, suavizadas, estrategicamente selecionadas.
Expectativa de força: A ideia de que precisamos ser sempre infalíveis nos afasta ainda mais dos outros.
Decisões impopulares: Cortes, mudanças, demissões — você toma decisões que afetam relações.
Desconfiança mútua: Você nunca sabe se o interesse é genuíno ou estratégico.
Os Números Que Confirmam
Mesmo antes da pandemia, conforme destaca artigo da Gentee, pesquisas apontaram que 76% dos executivos tinham dificuldade em criar conexões com seus times e 58% descreveram seu relacionamento social no trabalho como "superficial".
No Brasil, um levantamento do Instituto Locomotiva com líderes de PMEs apontou que sobrecarga e solidão são os principais fatores para o aumento do cansaço e estresse.

O Custo Da Solidão
A solidão executiva não é apenas desconfortável — é prejudicial.
Para A Saúde
Em 2024, o Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos psíquicos da última década: 472 mil licenças, um salto de 67% em relação ao ano anterior, segundo dados citados pelo RH Pra Você. Solidão, falta de vínculos e relações tóxicas no trabalho estão entre os gatilhos silenciosos desse adoecimento.
Para O Desempenho
Quando você não tem com quem testar ideias, questionar premissas, receber feedback honesto — suas decisões podem sofrer. O isolamento também reduz a capacidade de inovação, já que ideias precisam de atrito para se desenvolver.
Para A Cultura
Líderes isolados criam culturas isolantes. Se você não modela conexão, sua equipe não a prioriza.
O Poder Das Amizades No Trabalho
Em contraste, ter conexões genuínas no trabalho traz benefícios comprovados.
Os Dados
Conforme destaca a Fundação Dom Cabral, ter amigos no trabalho é bom para saúde mental e física, permite evitar a solidão, e organizações têm melhor desempenho quando funcionários cultivam amizades.
Segundo relatório da Gallup citado pela Forbes, profissionais que têm amizades no ambiente profissional são até sete vezes mais engajados.
Estudos de longo prazo sobre desenvolvimento adulto revelam, como aponta artigo da Duomo, que a qualidade dos relacionamentos é um dos principais fatores que determinam sucesso e longevidade na carreira.
Por Que Líderes Precisam Disso
Líderes precisam de amizades no trabalho por razões práticas e emocionais. Ter alguém com quem testar ideias antes de implementá-las evita erros custosos. Receber feedback honesto — que subordinados dificilmente darão — mantém você conectada com a realidade. Processar emoções de decisões difíceis com alguém que entende o contexto alivia a carga. Manter perspectiva e equilíbrio quando a pressão aumenta depende de ter alguém que lembre quem você é além do cargo. E ter apoio em momentos de crise pode ser a diferença entre atravessar uma tempestade e naufragar.
Top tip
O modelo "regra 5-3-1", proposto por Kasley Killam no SXSW 2025, sugere: cinco interações sociais por semana com colegas, três relações profissionais próximas, e pelo menos uma conversa profunda a cada sete dias. É um framework simples para cultivar conexão intencional.
Os Desafios Específicos De Executivas
Para mulheres em posições de liderança, construir amizades tem camadas adicionais de complexidade.
Menos Pares
Com poucas mulheres no topo, há menos pessoas que entendem sua experiência específica — ser mulher E líder.
O Escrutínio Sobre Relacionamentos
Amizades femininas no trabalho podem ser vistas com desconfiança ("panelinha") de formas que amizades masculinas não são.
A Pressão Por Profissionalismo
Mulheres frequentemente sentem que precisam manter mais distância para serem respeitadas.
Menos Tempo
Com a carga desproporcional de responsabilidades domésticas, sobra menos tempo para cultivar relações.
O Papel Da TCC Na Construção De Conexões
A Terapia Cognitivo-Comportamental ajuda a trabalhar crenças e comportamentos que dificultam conexões genuínas.
Reestruturando Crenças Sobre Vulnerabilidade
| Crença Limitante | Reestruturação |
|---|---|
| "Líderes não podem mostrar vulnerabilidade" | "Vulnerabilidade estratégica constrói confiança e conexão" |
| "Se eu me aproximar, podem usar contra mim" | "Posso escolher com quem me abrir e em que nível" |
| "Não tenho tempo para amizades" | "Conexão não é luxo — é necessidade para meu funcionamento" |
| "É impossível ser amiga de subordinados" | "Posso ter relações calorosas com limites claros" |
Desenvolvendo Habilidades De Conexão
Muitas executivas desenvolveram excelentes habilidades de performance — mas não de intimidade. A TCC pode ajudar a praticar abertura gradual, começando com pequenas vulnerabilidades em contextos seguros. Também trabalha a capacidade de identificar pessoas seguras — nem todo mundo merece sua confiança, e aprender a avaliar riscos relacionais é uma habilidade. Ajuda a manter limites saudáveis para que conexão não se confunda com exposição. E desenvolve a capacidade de tolerar a vulnerabilidade — o desconforto inicial de se abrir diminui com a prática.
Trabalhando O Medo De Conexão
Se você evita se aproximar por medo de consequências — traição, uso estratégico, perda de respeito — esse medo pode ser trabalhado. Nem toda conexão é segura, mas isso não significa que nenhuma seja.
Estratégias Práticas
Algumas abordagens ajudam a construir conexões genuínas na liderança.
Dentro Da Organização
Pares de outros departamentos: Menos competição direta, mais possibilidade de parceria genuína.
Mentoria bidirecional: Relações de mentoria podem evoluir para conexões mais profundas.
Projetos cross-funcionais: Trabalhar junto cria vínculo natural.
Rituais de conexão: Almoços regulares, cafés sem agenda, momentos de pausa compartilhada.
Fora Da Organização
Redes de executivas: Grupos de mulheres em posições similares, sem competição.
Conselhos consultivos: Relações com outros líderes de fora.
Amizades não-profissionais: Manter e cultivar relações fora do trabalho.
Terapia ou coaching: Espaço profissional para processar.
Com Subordinados — Os Limites
Você pode ter relações calorosas, respeitosas e até carinhosas com subordinados — sem que isso comprometa sua autoridade. A chave está em não compartilhar o que compromete sua posição (informações confidenciais, dúvidas sobre decisões já tomadas), manter consistência no tratamento da equipe para que ninguém perceba favoritismo, não criar favoritos que desequilibrem a dinâmica do grupo e separar afeto de avaliação de performance — você pode gostar de alguém e ainda dar feedback honesto sobre o trabalho.

A Vulnerabilidade Como Ponte
Um insight crucial: a conexão genuína exige algum nível de vulnerabilidade. Na prática, isso significa admitir quando você não sabe em vez de fingir certeza, compartilhar dúvidas seletivamente com pessoas de confiança, pedir ajuda quando precisar, mostrar quem você é além do cargo e ouvir genuinamente — não apenas estrategicamente.
Sim, vulnerabilidade envolve risco. Mas ao compartilhar nossas dificuldades e inseguranças, criamos conexões genuínas. O segredo está em escolher com quem, quando e quanto se abrir.
Quando A Solidão É Sintoma
Às vezes, a solidão executiva é mais do que consequência estrutural — é sintoma de algo maior. A depressão pode usar o isolamento tanto como causa quanto consequência — a tristeza leva ao afastamento, que intensifica a tristeza. O burnout tem a desconexão emocional como um de seus três pilares, indicando que o afastamento pode sinalizar esgotamento profissional. E um ambiente tóxico pode fazer do isolamento uma estratégia de autopreservação — se você se isola porque o ambiente é genuinamente inseguro, o problema não é você, é o contexto.
Busque ajuda profissional se a solidão está afetando sua saúde, se você perdeu interesse em conexões que antes valorizava, se sente que não pode confiar em ninguém ao redor ou se o isolamento está piorando progressivamente.
A Liderança Conectada
Uma última reflexão: a ideia de que líderes devem ser solitários é uma construção — não uma verdade inevitável.
Ao buscar conexões genuínas, é possível transformar o isolamento em colaboração, a dúvida em aprendizado e a solidão em força coletiva. Você não precisa escolher entre ser líder e ter conexões. Pode ser ambos — com mais intenção e cuidado.
Para entender melhor como a liderança afeta relacionamentos, leia também sobre solidão executiva, sororidade no trabalho e networking autêntico.
Se a solidão da liderança está afetando sua saúde, performance ou bem-estar, considere buscar apoio profissional. A TCC pode ajudar você a identificar crenças que dificultam conexão, desenvolver habilidades relacionais e construir pontes genuínas — mantendo os limites que sua posição exige. Entre em contato e vamos trabalhar juntas para que liderança não signifique solidão.
