Violência Contra Mulheres com Deficiência: Sinais e Proteção
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Mulheres com deficiência enfrentam violência em taxas significativamente mais altas do que a população geral — e essa violência frequentemente permanece invisível. Barreiras de acessibilidade, dependência de cuidadores e capacitismo dificultam tanto a prevenção quanto a denúncia.
A violência pode vir de parceiros, familiares, cuidadores ou instituições. E os obstáculos para buscar ajuda são frequentemente maiores.
Dados do Atlas da Violência 2024 indicam que mulheres com deficiência são os principais alvos de violência no país, com 57,2 vítimas para cada dez mil indivíduos.
Neste artigo, vou explorar as vulnerabilidades específicas, sinais de violência e caminhos de proteção acessíveis. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres enfrentando violência. Se você precisa de apoio, entre em contato.
Os Números da Violência Contra Mulheres com Deficiência
Os dados revelam uma realidade alarmante que frequentemente fica invisível nas estatisticas gerais.
O IPEA indica que mulheres com deficiencia tem a maior taxa de notificacao de violencia do pais — 57,2 por cada 10 mil pessoas. Essa e a maior taxa entre todos os grupos populacionais brasileiros.
Violencia fisica foi a mais relatada (55,3% dos registros), seguida de violencia psicologica (31,7%) e violencia sexual (23%). Muitas vezes, as tres formas acontecem simultaneamente.
O registro de violencia domestica contra mulheres com deficiencia e 2,6 vezes maior do que contra homens na mesma condicao. A interseccao de genero e deficiencia cria vulnerabilidade especifica.
A ONU Mulheres indica que 80% das mulheres e meninas com deficiencia passam por algum tipo de violencia ao longo da vida e tem quatro vezes mais chances de sofrer violencia sexual. Esses numeros sao devastadores — e provavelmente subestimados devido a subnotificacao.

Fatores que Aumentam a Vulnerabilidade de Mulheres com Deficiência
Existem fatores estruturais que aumentam o risco de violencia para mulheres com deficiencia. Reconhece-los e fundamental para criar protecao.
Quando a pessoa depende de alguem para cuidados basicos — higiene, alimentacao, medicacao, mobilidade — denunciar essa pessoa significa arriscar perder o suporte de que precisa para viver. Essa e uma armadilha concreta e cruel que muitos agressores exploram conscientemente.
Barreiras de acessibilidade podem limitar contatos sociais, reduzindo a rede de apoio e aumentando o controle do agressor. Se voce nao consegue sair de casa sozinha, suas interacoes dependem de quem controla sua mobilidade.
Para mulheres surdas ou com deficiencias que afetam comunicacao, relatar violencia pode ser extremamente dificil — especialmente em servicos nao preparados para atende-las. Como denunciar se ninguem entende o que voce esta dizendo?
Barreiras fisicas podem literalmente impedir a saida de situacoes violentas. O agressor pode controlar adaptacoes do ambiente — cadeira de rodas, aparelhos auditivos, medicamentos — usando-os como instrumento de poder.
Servicos de atendimento frequentemente nao estao preparados para receber mulheres com deficiencia, criando barreira adicional. Capacitismo institucional se soma a violencia ja sofrida.
Top tip
Fatores que Aumentam Vulnerabilidade:
- Dependência de cuidadores para atividades básicas
- Isolamento social por barreiras de acessibilidade
- Barreiras de comunicação (falta de Libras, formatos acessíveis)
- Dificuldade física de sair de situações violentas
- Capacitismo nos serviços de atendimento
- Descrença quando a violência é relatada
- Controle de recursos (medicação, equipamentos, benefícios)
Formas de Violência Específicas Contra Mulheres com Deficiência
A violencia contra mulheres com deficiencia pode assumir formas que nao existem em outros contextos.
Violência por Quem Deveria Cuidar
O agressor pode ser quem deveria cuidar — seja parceiro, familiar ou cuidador profissional. Isso cria uma armadilha cruel: a pessoa de quem voce depende e a pessoa que machuca. Voce precisa dela para sobreviver e ela usa essa dependencia contra voce.
Controle de Recursos Essenciais
O agressor pode controlar medicamentos, equipamentos de acessibilidade, cadeira de rodas, aparelhos auditivos — usando-os como instrumento de poder. "Se voce nao fizer o que eu quero, nao vai tomar seu remedio." Isso e violencia.
Negligencia intencional tambem e violencia. Deixar de fornecer cuidados necessarios de proposito pode ser usado como punicao ou controle. A pessoa sabe que voce precisa e escolhe nao dar.
Violência Institucional e Sexual
Em instituicoes de longa permanencia, a violencia pode ser sistematica e ainda mais dificil de denunciar. Quem vai acreditar? Para quem voce vai recorrer?
Mulheres com deficiencia sao frequentemente vistas como alvos mais faceis por agressores. A vulnerabilidade e conscientemente explorada. E depois, a denuncia e mais dificil de fazer e de ser acreditada.
Capacitismo tambem e violencia. Tratamento infantilizador, negacao de autonomia, decisoes tomadas sem consentimento — formas de violencia psicologica frequentemente normalizadas. "E para o seu bem" nao justifica tirar sua autonomia.
Por Que a Subnotificação é Tão Alta
Existem barreiras concretas que impedem mulheres com deficiencia de denunciar.
Denunciar o cuidador significa arriscar perder o suporte de que precisa para viver. "E se ninguem mais quiser me cuidar?" Esse medo e real e legitimo — e agressores exploram isso.
Relatos de violencia por pessoas com deficiencia — especialmente deficiencia intelectual — frequentemente nao sao levados a serio. A vitima e desacreditada, infantilizada, considerada "confusa" ou "exagerada."
Delegacias, servicos de saude e canais de denuncia frequentemente nao sao acessiveis — fisica ou comunicacionalmente. Como denunciar se voce nao consegue nem entrar no predio ou ninguem fala Libras?
Muitas pessoas nao sabem que tem direitos ou nao sabem como acessa-los. Informacao sobre direitos frequentemente nao chega em formatos acessiveis.
O estigma da deficiencia pode se somar ao estigma da violencia, dificultando ainda mais a busca por ajuda. A vergonha e multiplicada.
Sinais de Violência Contra Mulheres com Deficiência
Reconhecer os sinais e fundamental — seja em si mesma ou em alguem que voce conhece.
Mudancas comportamentais podem indicar violencia: retraimento, medo, ansiedade, mudancas de humor inexplicaveis. Se uma pessoa que era comunicativa de repente se fecha, preste atencao. Para entender o ciclo da violencia, leia por que e dificil sair.
Lesoes frequentes sem explicacao convincente sao sinal de alerta. "Ela caiu" repetido muitas vezes merece investigacao.
Piora de condicoes de saude que estavam controladas pode indicar negligencia intencional. Se alguem para de tomar medicacao que estava funcionando, pergunte por que.
Isolamento crescente e sinal classico de abuso. Se o cuidador limita cada vez mais os contatos sociais, esta criando condicoes para violencia sem testemunhas.
Sinais de negligencia — desnutricao, desidratacao, ulceras de pressao, falta de higiene — indicam que cuidados basicos nao estao sendo fornecidos. Isso e violencia.

Caminhos de Proteção e Recursos Acessíveis
Existem recursos disponiveis, embora ainda insuficientes. Conhece-los e o primeiro passo.
Canais de Denúncia Acessíveis
A Central de Atendimento a Mulher (Ligue 180) agora oferece atendimento por videochamada em Libras para mulheres surdas, alem da ligacao telefonica tradicional. Esse e um avanco importante de acessibilidade.
Em Sao Paulo, a 6a Delegacia de Protecao a Pessoa com Deficiencia conta com psicologos, assistentes sociais e interpretes de Libras. Se voce esta em outro estado, busque delegacias especializadas ou exija acessibilidade.
Os Centros de Referencia de Assistencia Social (CRAS e CREAS) oferecem atendimento. Exija acessibilidade se necessario — voce tem esse direito.
Seus Direitos Legais
A Lei Maria da Penha (11.340/2006) protege todas as mulheres, incluindo mulheres com deficiencia. Medidas protetivas podem ser solicitadas e devem ser cumpridas.
Construir rede de apoio alternativa e fundamental. Outras pessoas que possam ajudar se algo acontecer, que possam checar como voce esta, que saibam da situacao. Nao precisa ser grande — uma ou duas pessoas de confianca ja faz diferenca.
Como a TCC Ajuda na Recuperação
A Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar a processar a violencia e reconstruir sua vida.
Sua experiencia e real e valida. A violencia que voce sofreu nao e aceitavel. Voce merece protecao e suporte. Esse e o ponto de partida do trabalho terapeutico.
Crencas como "ninguem vai acreditar em mim" ou "eu dependo dele, nao tenho escolha" podem ser trabalhadas em terapia. Elas foram instaladas pela situacao de violencia, mas nao sao verdade absoluta.
Na medida do possivel, fortalecer senso de capacidade e agencia sobre a propria vida e parte central do trabalho. Para mais sobre recuperacao, leia recuperacao pos-relacionamento abusivo.
Criar um plano de seguranca adaptado as suas necessidades especificas de acessibilidade e suporte e fundamental. Um plano generico pode nao funcionar para sua situacao.
Quando Buscar Ajuda Profissional
Busque ajuda se voce esta vivendo violencia e precisa de apoio. Nao minimize sua experiencia.
Ansiedade, medo constante, flashbacks, depressao — sinais de que suporte psicologico pode ajudar. Esses sintomas sao respostas normais a situacoes anormais.
Se voce esta considerando sair de uma situacao violenta, planejamento com suporte profissional e fundamental. Nao precisa fazer isso sozinha.
O trabalho de recuperacao continua apos sair. Processar o trauma leva tempo e suporte especializado.
Considerações Finais
Mulheres com deficiência enfrentam vulnerabilidades específicas que aumentam o risco de violência e dificultam a busca por ajuda. Essas vulnerabilidades são resultado de barreiras sociais e institucionais — não de características individuais.
Dados mostram que esta é a população com maior taxa de notificação de violência no país. E a subnotificação ainda é altíssima.
Se você é uma mulher com deficiência enfrentando violência, saiba: você tem direitos. E há caminhos.
Se você precisa de apoio, entre em contato para agendar uma avaliação.
Onde Buscar Ajuda:
- Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher (videochamada em Libras disponível)
- CRAS/CREAS — Assistência social
- Defensoria Pública — Orientação jurídica gratuita
Este artigo foi escrito com cuidado e baseado em dados de pesquisa. Toda mulher merece proteção e acolhimento.
