Violência entre Mulheres no Relacionamento: Sinais e Apoio

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência entre Mulheres no Relacionamento: Sinais e Apoio

"Não pode ser violência, porque é uma mulher." "Mulheres não são agressivas assim." "Isso é só briga de casal."

A violência em relacionamentos entre mulheres existe — e é frequentemente invisibilizada. O mito de que mulheres não podem ser agressoras, combinado com o preconceito contra relações lésbicas, cria uma cortina de silêncio.

Pesquisa da UFMG indica que mulheres LGB+ têm 2,40 vezes mais chances de serem violentadas do que heterossexuais. Mas essa violência frequentemente permanece encoberta.

Neste artigo, vou explorar a invisibilidade da violência em relacionamentos entre mulheres e os caminhos de apoio. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres enfrentando relacionamentos abusivos. Se você precisa de apoio, entre em contato.

Por Que a Violencia em Relacionamentos entre Mulheres e Invisibilizada

A violencia em relacionamentos entre mulheres existe, mas frequentemente permanece oculta. Entender as razoes dessa invisibilidade e o primeiro passo para rompe-la.

Existe um mito de que mulheres nao podem ser agressoras — que violencia e caracteristica exclusivamente masculina. Esse estereotipo invisibiliza a violencia quando ela ocorre entre mulheres. "Nao pode ser violencia, porque e uma mulher" e uma frase que muitas vitimas ouvem quando tentam buscar ajuda.

Estudos indicam que mulheres lesbicas e bissexuais sao duplamente vitimizadas — manifestacoes violentas devido a orientacao sexual se sobrepoem a violencia de genero. E uma dupla marginalizacao que torna ainda mais dificil buscar ajuda.

Pesquisas identificam o fenomeno do "duplo armario": o primeiro e esconder a orientacao sexual; o segundo e omitir do grupo social a violencia sofrida no relacionamento. Isso cria uma camada adicional de silencio e isolamento.

A falta de dados publicos sobre violencia em relacionamentos entre mulheres contribui para a invisibilidade e dificulta politicas publicas adequadas. Sem numeros, o problema parece nao existir — mas ele existe e afeta muitas mulheres.

Rompendo a invisibilidade

Os Numeros da Violencia Contra Mulheres LGB+

Os dados disponiveis revelam uma realidade preocupante que precisa de mais atencao publica e politicas especificas.

Dados do Observatorio Nacional dos Direitos Humanos indicam que 11.120 pessoas LGBTQIA+ foram vitimas de algum tipo de agressao em 2022. Desse total, violencia fisica lidera com 7.792 casos, seguida de violencia sexual (3.669) e psicologica (3.402).

Mulheres LGB+ tem 2,40 vezes mais chances de sofrer violencia psicologica, fisica e sexual em comparacao com mulheres heterossexuais. Esse risco aumentado reflete tanto a violencia por parceiras intimas quanto a violencia motivada por preconceito.

Pesquisa com 634 mulheres lesbicas identificou que 22% tinham altos indicadores de violencia em seus relacionamentos e baixa rede de apoio — o grupo mais vulneravel. Isso mostra que a combinacao de violencia com isolamento cria situacoes especialmente perigosas.

Esses numeros sao importantes, mas provavelmente subestimados. A subnotificacao e ainda maior nessa populacao devido as barreiras adicionais para buscar ajuda.

Formas de Violencia em Relacionamentos entre Mulheres

A violencia em relacionamentos entre mulheres se manifesta de formas semelhantes a outros relacionamentos abusivos, mas tambem tem caracteristicas especificas.

A violencia psicologica inclui controle, humilhacao, ciumes excessivos e isolamento de amigos e familia — as mesmas dinamicas que ocorrem em qualquer relacionamento abusivo. A parceira pode desqualificar constantemente, fazer criticas destrutivas ou usar manipulacao emocional. Para entender o ciclo, leia ciclo da violencia.

Agressoes fisicas acontecem em relacionamentos entre mulheres assim como em qualquer outro relacionamento. Empurroes, tapas, socos, mordidas — a violencia fisica nao e menos grave por acontecer entre duas mulheres.

Coercao e controle se manifestam no controle financeiro, de comunicacao e de relacionamentos. A parceira abusiva pode decidir o que voce pode vestir, com quem pode falar, onde pode ir. Pode monitorar seu celular, suas redes sociais, suas amizades.

Uma forma especifica de violencia em relacionamentos entre mulheres e a ameaca de outing — revelar a orientacao sexual da parceira para familia, trabalho ou comunidade. Isso e usado como instrumento de controle e chantagem, especialmente quando a vitima nao e assumida publicamente.

Violencia sexual tambem ocorre. Sexo sem consentimento e violencia, independentemente do genero das pessoas envolvidas. Pressao para atos sexuais, ignorar limites, forcar praticas que a outra nao quer — tudo isso e violencia sexual.

Top tip

Sinais de Violência em Relacionamentos:

  • Ciúmes e controle excessivos
  • Isolamento de amigos e família
  • Humilhação e desqualificação constantes
  • Controle financeiro
  • Ameaças de "outing" (revelar orientação)
  • Agressões físicas
  • Pressão sexual
  • Monitoramento de celular e redes
  • Você se sente com medo da reação dela

Pesquisas, Dados e Barreiras para Buscar Ajuda

Estudos recentes trazem dados importantes sobre a realidade de mulheres lesbicas no Brasil e as barreiras especificas que enfrentam ao buscar suporte.

O LesboCenso Nacional

O LesboCenso Nacional, realizado pelo Ministerio das Mulheres em parceria com a UFPR, mapeou os principais desafios enfrentados por lesbicas no Brasil nas areas de violencia, saude e educacao.

A pesquisa identificou violencias por parceiras intimas: violencias explicitas e sutis, padroes opressivos, dinamicas de controle e abuso psicologico. Importante ressaltar que a pesquisa encontrou invisibilidade das violencias no contexto lesbico, normalizacao de relacionamentos abusivos e dificuldade de reconhecer abusos.

Essa normalizacao e perigosa. Quando voce nao reconhece que o que esta vivendo e violencia, nao consegue buscar ajuda. E quando ninguem fala sobre o assunto, fica ainda mais dificil nomear o que acontece. O relatorio indica que a invisibilidade e amplificada pela negligencia de entidades publicas e privadas.

Por Que E Dificil Buscar Ajuda

Existem barreiras especificas que dificultam mulheres em relacionamentos abusivos com outras mulheres a buscar suporte. O mito de que mulheres nao sao violentas pode fazer com que a vitima tema nao ser acreditada ou levada a serio. "Ela nao pode ter me agredido de verdade, porque e mulher." Esse pensamento, muitas vezes, vem tanto de fora quanto de dentro.

Muitos servicos de atendimento a mulheres nao estao preparados para acolher lesbicas e bissexuais, seja por desconhecimento ou preconceito. A profissional pode nao saber como acolher, pode fazer perguntas invasivas sobre a orientacao sexual, ou pode ate culpabilizar.

Ao buscar ajuda, a mulher pode temer enfrentar preconceito adicional devido a sua orientacao sexual. Em comunidades LGBTQIA+ menores, o medo de exposicao e julgamento pode ser ainda maior. "Todo mundo vai saber." "Vao falar de mim." Esse medo de fofoca e julgamento pode paralisar.

A combinacao de violencia sofrida com preconceito internalizado pode gerar vergonha intensa. Vergonha da violencia, vergonha da orientacao — uma dupla carga que dificulta ainda mais buscar ajuda.

Construindo rede de apoio inclusiva

Caminhos de Apoio e Recursos Disponiveis

Existem recursos disponiveis para mulheres em relacionamentos abusivos com outras mulheres. Conhece-los e o primeiro passo.

A Lei Maria da Penha (11.340/2006) protege todas as mulheres em situacao de violencia domestica, independentemente da orientacao sexual. Voce tem direito a medidas protetivas. A lei nao exige que voce seja heterossexual para ser protegida.

A Central de Atendimento a Mulher (Ligue 180) atende todas as mulheres. O atendimento inclui capacitacao para acolhimento da populacao LGBTQIA+. O servico e gratuito, sigiloso e funciona 24 horas.

Organizacoes como Casa 1, ANTRA, ABGLT e coletivos locais podem oferecer apoio especifico. Esses espacos entendem sua realidade e podem acolher sem julgamento. Busque grupos em sua cidade ou regiao.

Construir rede de apoio com pessoas que entendam sua experiencia e fundamental. Amizades, familiares que acolhem, grupos de apoio — ter pessoas de confianca faz diferenca na hora de sair de uma situacao violenta.

Busque profissionais de saude mental que trabalhem com populacao LGBTQIA+ de forma respeitosa e informada. Nem todos os profissionais estao preparados, mas existem aqueles que entendem sua realidade.

Tratamento e Recuperacao com TCC

A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas especificas para processar a violencia vivida e reconstruir sua vida. O ponto de partida e a validacao: a violencia que voce viveu e real. O fato de ter sido perpetrada por uma mulher nao a torna menos grave ou menos valida.

Trabalhamos a vergonha que frequentemente acompanha essa experiencia. A vergonha pode vir de duas fontes: a violencia em si e a invisibilidade que voce enfrentou. Ambas podem ser trabalhadas em terapia, examinando as crencas que sustentam essa vergonha.

O trabalho terapeutico foca em reconstruir senso de capacidade e agencia sobre a propria vida. Para mais sobre recuperacao, leia recuperacao pos-relacionamento abusivo.

Separar a experiencia de violencia da identidade lesbica ou bissexual e importante. A violencia foi dessa pessoa especifica, nao de todas as mulheres. Sua identidade nao e o problema — o problema foi o comportamento abusivo da sua ex-parceira.

Busque ajuda profissional se voce esta em relacionamento abusivo ou saiu recentemente de um. Se esta experienciando ansiedade, medo, flashbacks ou dificuldade de confiar, suporte especializado pode ajudar. Se voce esta considerando sair de relacionamento abusivo, planejamento com suporte e fundamental.

Consideracoes Finais

A violencia em relacionamentos entre mulheres e real, mas frequentemente invisibilizada. O mito de que mulheres nao sao violentas e o preconceito contra relacoes lesbicas criam barreiras adicionais que dificultam buscar ajuda.

Dados mostram que mulheres LGB+ enfrentam riscos aumentados de violencia. Reconhecer essa realidade e o primeiro passo para mudar.

A violencia entre mulheres no relacionamento segue os mesmos padroes de qualquer relacionamento abusivo: ciclos de tensao, explosao e reconciliacao. A diferenca esta nas barreiras adicionais para buscar ajuda e na invisibilidade que cerca o tema.

Se voce esta em relacionamento abusivo, saiba: voce merece protecao e apoio. A Lei Maria da Penha protege todas as mulheres, independentemente da orientacao sexual. E ha servicos que podem acolher voce com respeito.

Se voce precisa de apoio especializado, entre em contato para agendar uma avaliacao.

Onde Buscar Ajuda:

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • Casa 1 — casa1.org.br (apoio LGBTQIA+)
  • Disque 100 — Direitos Humanos

Este artigo foi escrito com cuidado e respeito. Toda mulher merece proteção e acolhimento.

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