Violência Institucional: Quando o Sistema Falha com Mulheres

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência Institucional: Quando o Sistema Falha com Mulheres

Você criou coragem para denunciar. Foi à delegacia, contou o que aconteceu, reviveu cada detalhe. E o que recebeu em troca? Descrença. Perguntas invasivas. Comentários que pareciam te culpar. Saiu se sentindo pior do que entrou.

Isso tem nome: revitimização — ou violência institucional.

Pesquisas indicam que a falta de acolhimento adequado, a burocracia estatal e a desinformação perpetuam o ciclo de violência, expondo mulheres a novos traumas ao buscarem ajuda. A pesquisa DataSenado 2025 mostra que 61% das mulheres agredidas não notificaram a autoridade policial.

Neste artigo, vou explorar o que é violência institucional, como ela acontece e como buscar atendimento mais seguro. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres processando traumas do sistema de justiça. Se você precisa de apoio, entre em contato.

O Que É Revitimização e Violência Institucional

Estudos indicam que revitimização ocorre quando mulheres vítimas de violência são expostas a novos traumas ao buscar ajuda institucional — seja em delegacias, hospitais, serviços de assistência ou sistema judiciário. É quando a própria instituição que deveria proteger causa dano adicional.

A violência institucional pode acontecer por ação direta ou por omissão:

  • Por ação direta: perguntas invasivas que parecem culpar a vítima, comentários que minimizam a violência sofrida, tratamento desrespeitoso ou impaciente, exposição desnecessária da história a múltiplas pessoas
  • Por omissão: negligência no atendimento, demora injustificada em procedimentos, falta de encaminhamento adequado, não oferecer informações sobre direitos

O Ciclo Que Se Perpetua

A mulher já chegou ferida pela violência original. Ao ser mal atendida, sai com uma ferida adicional — a de ter sido traída pelo sistema que deveria protegê-la. Isso diminui drasticamente a disposição para buscar ajuda novamente, perpetuando o ciclo de violência.

A pesquisa Visível e Invisível 2025 mostra que 14% das mulheres não procuram a polícia porque não acreditam que ela possa oferecer solução. Esse dado revela o quanto a desconfiança institucional já está enraizada.

Quando a Ajuda Machuca

É profundamente doloroso perceber que aqueles que deveriam acolher acabam julgando. Que o lugar onde você buscou proteção se tornou mais uma fonte de trauma. Se isso aconteceu com você, saiba que não é falha sua — é falha do sistema.

Barreiras institucionais e burocracia

Os Números da Violência Institucional e Como Ela Acontece

Os dados revelam a dimensão do problema e ajudam a entender por que tantas mulheres desistem de buscar ajuda.

A pesquisa DataSenado 2025, que ouviu 21.641 mulheres em todos os estados, identificou que 61% das mulheres agredidas nos últimos 12 meses não notificaram a autoridade policial. Dados de 2025 mostram que os índices de vitimização alcançaram o ponto mais alto registrado entre 2017 e 2025 — mais de 21 milhões de mulheres afetadas.

Por Que Tão Poucas Denunciam

Os números são reveladores: apenas 10% denunciou em delegacia comum, 2% ligou para o 190 e 2% para o Ligue 180. Os motivos são múltiplos — 37% resolveu sozinha ou com ajuda de conhecidos, 18% não tinha provas suficientes, 14% não acreditava que a polícia poderia ajudar, e muitas sentem medo de não ser acreditadas ou de sofrer represálias.

A Situação das Medidas Protetivas

O CNJ indica que havia 1.297.142 casos de violência doméstica pendentes até o fim de 2024. Entre as mulheres que conseguiram obter medida protetiva, quase metade relatou descumprimento pelo agressor. Isso revela uma falha sistêmica grave: a proteção concedida pelo Estado muitas vezes não se traduz em segurança real.

Como a Revitimização Acontece nos Diferentes Serviços

A revitimização pode ocorrer em qualquer ponto da rede de atendimento. Reconhecer essas situações ajuda a se preparar e a saber que você tem direito a tratamento diferente.

Na delegacia, perguntas que parecem culpabilizar são comuns: "O que você fez para provocar?", "Por que demorou para denunciar?", "Tem certeza que quer ir adiante com isso?". Comentários que minimizam a violência, olhares de descrença, sugestões de que você deveria "pensar melhor". A pressa para encerrar o atendimento, a falta de privacidade, o ambiente hostil — tudo isso constitui revitimização.

No atendimento médico, encontramos falta de acolhimento, pressa no atendimento, ausência de informações sobre direitos. Tratamento mecânico que ignora o trauma emocional. Perguntas inadequadas sobre vida sexual ou relacionamento. Julgamentos velados sobre aparência ou comportamento.

No sistema judiciário, a mulher precisa recontar a história múltiplas vezes para pessoas diferentes. Audiências em que você precisa estar no mesmo ambiente que o agressor sem proteção adequada. Advogados de defesa que questionam sua credibilidade de forma agressiva. Processos que se arrastam por anos.

Na assistência social, serviços sucateados, profissionais sobrecarregados, longas filas de espera, encaminhamentos que não levam a lugar nenhum. Horários de atendimento incompatíveis com a realidade de quem trabalha.

Top tip

Sinais de Revitimização:

  • Perguntas que parecem te culpar pela violência sofrida
  • Comentários que minimizam ou desqualificam sua experiência
  • Ter que contar a mesma história várias vezes para pessoas diferentes
  • Sentir que não acreditam em você ou duvidam do seu relato
  • Ser tratada com pressa, impaciência ou descaso
  • Não receber informações claras sobre seus direitos
  • Sair do atendimento se sentindo pior do que entrou

Por Que a Revitimização Acontece e Seu Impacto Psicológico

Entender as raízes do problema ajuda a perceber que a falha é sistêmica — não pessoal.

Pesquisas indicam que a violência institucional está enraizada em valores patriarcais que culpabilizam a mulher e naturalizam a violência masculina. Profissionais sem treinamento específico em violência de gênero acabam reproduzindo mitos e preconceitos sem perceber.

A sobrecarga do sistema também contribui: serviços sucateados, falta de pessoal, muitos casos para poucos profissionais — a qualidade do atendimento inevitavelmente cai. Soma-se a isso uma rede fragmentada, onde cada serviço atua isoladamente e a mulher precisa recontar sua história em cada porta que bate.

O Dano Psicológico da Revitimização

A revitimização causa danos profundos que vão além do trauma original da violência. Já existe o trauma da violência sofrida. A revitimização adiciona uma camada cruel: a de ser traída pelo sistema que deveria proteger. Essa dupla ferida pode ser devastadora. Muitas mulheres desistem de processos, retiram queixas, não voltam aos serviços — não porque a violência parou, mas porque buscar ajuda foi doloroso demais.

As Consequências Emocionais

A desconfiança generalizada é uma das primeiras marcas: dificuldade em confiar novamente em profissionais, instituições, e até na própria capacidade de ser protegida. Quando o sistema te culpa, fica mais fácil você mesma se culpar — a revitimização fortalece crenças distorcidas sobre responsabilidade, gerando autoculpa reforçada.

A vergonha de ter sido mal tratada pode levar ao isolamento e afastamento de redes de apoio. E a desesperança se instala: a sensação de que nada vai funcionar, de que não há saída.

Se você foi mal atendida, o que sentiu depois — a raiva, a tristeza, a sensação de desamparo — tudo isso faz sentido. Sua reação é proporcional ao que aconteceu.

Rede de apoio humanizada

Seus Direitos e Como Se Preparar

Você tem direitos garantidos por lei — conhecê-los te empodera e pode fazer diferença no atendimento que receberá.

O Que Você Pode Exigir

  • Atendimento humanizado: Você tem direito a ser tratada com respeito, sem julgamentos, de forma que preserve sua dignidade
  • Privacidade: Seus dados são sigilosos e você pode exigir que seu caso seja tratado com discrição
  • Depoimento especial: Em alguns casos, é possível solicitar um procedimento que evita recontar a história múltiplas vezes
  • Acompanhamento: Você pode ser acompanhada por advogada, defensora pública ou pessoa de confiança
  • Medidas protetivas: Mesmo com experiências ruins anteriores, você continua tendo direito. Devem ser analisadas em até 48 horas

Estratégias Para Atendimento Mais Seguro

Se possível, vá acompanhada — uma amiga, familiar ou advogada. A presença de testemunha muda a dinâmica do atendimento. Leve documentos, fotos, prints organizados. Quanto mais preparada, menos você precisará explicar verbalmente.

Conhecer seus direitos te empodera. Você pode questionar perguntas inadequadas e pedir para falar com supervisor. Se não tem advogada, procure a Defensoria Pública — o atendimento é gratuito e especializado. Quando possível, procure Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), que deveria ter profissionais capacitados.

Recursos de Apoio e Como a TCC Pode Ajudar

Mesmo com experiências ruins anteriores, existem caminhos e recursos que podem ajudar. Conhecê-los te prepara para buscar o suporte que você merece.

Serviços Especializados Disponíveis

A Delegacia da Mulher (DEAM) deveria oferecer atendimento capacitado. Se não houver na sua cidade, qualquer delegacia pode registrar ocorrência. A Defensoria Pública oferece orientação jurídica gratuita com núcleos especializados em direitos das mulheres. Os Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) disponibilizam atendimento psicológico e social. Organizações da sociedade civil, como o Mapa do Acolhimento, conectam mulheres a advogadas e psicólogas voluntárias. E se você foi mal atendida, pode e deve registrar reclamação na ouvidoria da instituição.

O Papel da Terapia na Recuperação

A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas específicas para processar o trauma da revitimização e reconstruir a confiança abalada. Se você foi mal atendida, isso não é defeito seu — é falha do sistema. Seu sofrimento pela revitimização é real e válido.

Na TCC, trabalhamos para separar claramente as responsabilidades e processar os sentimentos que a revitimização deixou. É possível reconstruir a confiança — em você mesma, na possibilidade de encontrar ajuda — mas isso leva tempo e requer suporte adequado.

Se você vai enfrentar novos procedimentos como audiências ou depoimentos, técnicas de TCC podem ajudar a se preparar emocionalmente. Trabalhamos estratégias de manejo da ansiedade, regulação emocional e fortalecimento de recursos internos para enfrentar situações potencialmente difíceis.

Se você se reconheceu neste artigo — se já foi revitimizada buscando ajuda — você merece suporte para processar isso. Se a experiência ruim te fez desistir de processos ou de buscar proteção, suporte profissional pode ajudar a retomar o caminho. Flashbacks do atendimento, medo de voltar a serviços, raiva intensa do sistema — esses sintomas merecem atenção. Para mais sobre recuperação, leia recuperação pós-relacionamento abusivo.

Considerações Finais

Revitimização não deveria existir. Você já sofreu violência — o sistema deveria acolher, não machucar mais.

Pesquisas mostram que é urgente a implementação de políticas públicas intersetoriais e capacitação de agentes públicos. Mudanças estão acontecendo, mas lentamente.

Se você foi mal atendida, saiba: a falha não é sua. E há caminhos para buscar justiça e recuperação — mesmo quando o sistema falha. Para entender o ciclo, leia ciclo da violência doméstica.

Se você precisa de apoio para processar experiências de revitimização, entre em contato para agendar uma avaliação.

Canais de Ajuda:

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • Ligue 190 — Polícia Militar
  • Defensoria Pública — Orientação jurídica gratuita

Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento jurídico. Para orientação legal, procure a Defensoria Pública.

More articles

Ansiedade na Menopausa e Perimenopausa: Por Que Aumenta

Mudanças hormonais, sono e estresse podem elevar ansiedade aos 40+. Veja sinais, diferenciações e estratégias de tratamento baseadas em evidências científicas.

Read more

Crise de Identidade Pós-Demissão: Quem Sou Eu Sem Meu Cargo?

Como executivas podem reconstruir sua identidade após demissão, superando a fusão entre eu e cargo profissional. Técnicas de TCC para encontrar propósito.

Read more

Agende uma consulta

Contato

Luciana T. S. Massaro - Psicóloga Clínica CRP-06/56470

Atendimento na região da Vila Mariana

(11) 97652-8168

luciana@massaropsicologia.com.br