Violência Patrimonial Após a Separação: Dívidas, Bens e Controle

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência Patrimonial Após a Separação: Dívidas, Bens e Controle

Você finalmente conseguiu sair. O relacionamento acabou, o divórcio foi assinado, a separação oficializada. Mas o controle não terminou. Ele não paga a pensão, esconde bens, assume dívidas em seu nome, usa recursos financeiros como arma para manter você dependente.

Isso não é "questão de ex." É violência patrimonial — e ela pode continuar muito tempo após a separação.

Dados do ISPMulher mostram que 2024 registrou o maior número de casos de violência patrimonial desde 2014 — 8.334 vítimas, aumento de 24,5% em relação ao ano anterior. É a forma de violência que mais cresceu.

Neste artigo, vou explorar como a violência patrimonial se manifesta após a separação e quais caminhos de proteção existem. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres reconstruindo autonomia após relacionamentos abusivos. Se você precisa de apoio, entre em contato.

O Que É Violência Patrimonial Pós-Separação

A Lei Maria da Penha conceitua violência patrimonial como apropriação, subtração, destruição ou retenção indevida de bens, recursos financeiros, documentos e meios de subsistência da vítima. O objetivo é restringir a autonomia da mulher e perpetuar relações de poder assimétricas — usando dinheiro como ferramenta de controle.

Muitas mulheres acreditam que o fim do relacionamento encerra a violência. Mas o abuso financeiro pode se intensificar justamente quando ela tenta reconstruir a vida. Violência patrimonial é a forma menos denunciada porque muitas vítimas não reconhecem o controle financeiro como violência — acham que é "briga de casal" ou "problema de divórcio."

Por Que Continua Após o Fim

Quando um relacionamento abusivo termina, o agressor perde o controle direto sobre a vítima. Para muitos agressores, o dinheiro se torna a última arma disponível para manter poder e causar sofrimento. É uma forma de punição pelo término e tentativa de impedir que a mulher reconstrua sua vida de forma autônoma.

Controle financeiro e manipulação econômica

Os Números e Formas de Manifestação

O Panorama da Violência contra a Mulher 2025 indica que 2024 teve 8.334 vítimas de violência patrimonial — o maior número desde o início da série histórica em 2014. Dados do CNJ indicam que foram registrados 966.785 casos novos de crimes baseados na Lei Maria da Penha em 2024.

As solicitações de medidas protetivas quase dobraram em quatro anos — de 463 mil em 2021 para mais de 851 mil em 2024. No entanto, apenas 3,6% das medidas protetivas têm algum tipo de fiscalização eletrônica. 28,3% das mulheres assassinadas tinham medida protetiva ativa no momento da morte — revelando falhas graves no sistema de proteção.

Como a Violência Patrimonial Se Manifesta Após a Separação

A forma mais comum é o não pagamento de pensão alimentícia acordada ou fixada judicialmente. Ele usa o dinheiro dos filhos como arma de controle e pressão. A ocultação de bens também é frequente: ele esconde patrimônio antes ou durante o divórcio para não dividir, transfere bens para terceiros, declara menos do que realmente tem.

Dívidas no nome da vítima são outra manifestação grave. Durante o relacionamento ou até após o término, ele assume empréstimos e financiamentos no nome dela — às vezes sem conhecimento, às vezes sob coerção. A destruição de bens pessoais como documentos, equipamentos de trabalho, celular e computador também ocorre, assim como a retenção de documentos pessoais como RG, CPF, carteira de trabalho e diplomas, dificultando emprego e recomeço. A sabotagem profissional completa o quadro: ele interfere no trabalho dela, liga para o empregador, faz acusações falsas, aparece no local de trabalho, sabota oportunidades.

Top tip

Sinais de Violência Patrimonial Após Separação:

  • Não pagamento ou atraso constante de pensão
  • Patrimônio que "desaparece" no processo de divórcio
  • Dívidas descobertas em seu nome
  • Documentos retidos ou destruídos
  • Interferência no seu trabalho ou renda
  • Ameaças de "deixar você sem nada"
  • Uso do dinheiro dos filhos como barganha

Questões Jurídicas e Impacto Psicológico

A Lei 11.340/2006 reconhece violência patrimonial como uma das cinco formas de violência doméstica, junto com física, psicológica, sexual e moral. Especialistas indicam que existe complexidade legal devido ao conflito com o artigo 181 do Código Penal, que prevê imunidade penal absoluta ao cônjuge por crimes patrimoniais durante o casamento.

O Que a Lei Oferece Após a Separação

Após a separação de fato, o divórcio ou a dissolução da união estável, as providências jurídicas se tornam mais claras e a proteção legal mais efetiva. Você pode solicitar medidas protetivas em casos de violência patrimonial — incluindo restituição de bens e proibição de contato. A pensão alimentícia não paga pode ser executada judicialmente, inclusive com prisão civil do devedor.

As Consequências Emocionais

O impacto psicológico da violência patrimonial é profundo. Mesmo separada, você se sente presa — o controle financeiro limita suas opções e mantém você dependente. Não saber se vai conseguir pagar as contas, se o dinheiro vai chegar, se vai descobrir mais dívidas gera ansiedade constante e intensa.

"Como eu deixei isso acontecer?" "Por que não percebi antes?" A vergonha de ter sido enganada financeiramente é real. Para entender essa dinâmica, leia dependência econômica. Se há filhos, o estresse financeiro afeta sua capacidade de cuidar — você se cobra por não poder dar a eles o que precisam. O medo do futuro se instala: incerteza sobre como reconstruir a vida, se conseguirá manter-se, se terá estabilidade novamente.

Reconstruindo independência financeira

Como Se Proteger e Reconstruir Autonomia

Existem passos concretos que podem ajudar a proteger seus direitos e reconstruir sua independência financeira.

Medidas Práticas de Proteção

Documente tudo: guarde comprovantes de pagamentos, recibos, extratos, conversas sobre dinheiro. Documentação é fundamental em processos judiciais. Consulte regularmente o SPC, Serasa e Registrato (Banco Central) para verificar se há dívidas ou contas em seu nome que você desconhece.

Se ainda há contas conjuntas, busque orientação para separar. Solicite exclusão de cartões adicionais e empréstimos conjuntos. Procure advogada especializada em direito de família ou a Defensoria Pública — entender seus direitos é essencial. Mantenha pessoas de confiança informadas sobre a situação, pois suporte emocional e prático faz diferença.

A Interseção com Outras Formas de Violência

Violência patrimonial raramente acontece sozinha. Geralmente vem junto com violência psicológica, às vezes física. Para entender essa dinâmica, leia violência patrimonial. O dinheiro é usado para manter controle mesmo após a separação — "Você não consegue viver sem mim" é mensagem implícita.

Quando ele usa a pensão como arma, a violência atinge também os filhos — é uma forma de violência vicária. Se a violência patrimonial vier acompanhada de ameaças, perseguição ou escalada de comportamento, busque ajuda urgente.

Como a TCC Pode Ajudar e Quando Buscar Apoio

A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas específicas para processar as consequências da violência patrimonial.

O Trabalho Terapêutico

A violência patrimonial é real e grave. Não é "briga de dinheiro" — é abuso. O que você sente é legítimo. "Eu deveria ter percebido." "Eu deixei isso acontecer." Essas crenças são comuns entre mulheres que viveram violência patrimonial — mas a responsabilidade é do agressor, não sua. Você foi enganada por alguém em quem confiava, e isso não é fraqueza.

O trabalho terapêutico foca em reconstruir senso de capacidade, confiança nas próprias decisões e autonomia financeira. Técnicas de TCC ajudam a manejar a ansiedade financeira, o medo do futuro e o estresse constante. Também trabalhamos o resgate da autoestima que foi corroída pelo controle e manipulação.

Sinais de Que Você Precisa de Suporte

Se você está vivendo violência patrimonial após separação, buscar ajuda é o próximo passo. Ansiedade constante sobre dinheiro, insônia, dificuldade de tomar decisões, sensação de desespero — esses sintomas merecem atenção. Se a situação está afetando sua saúde, seu trabalho, sua capacidade de cuidar de si e dos filhos, suporte profissional pode fazer diferença significativa.

Considerações Finais

Violência patrimonial não termina com a separação — às vezes é quando começa ou se intensifica. Usar dinheiro como arma de controle é violência, reconhecida pela Lei Maria da Penha. E você tem direitos que podem ser exercidos para proteger sua autonomia e seus filhos.

Dados mostram que essa forma de violência está crescendo mais do que as outras — um aumento de 24,5% em 2024. A conscientização é fundamental para que mais mulheres reconheçam o que vivem e busquem proteção.

É importante lembrar que a reconstrução da autonomia financeira é um processo. Não acontece da noite para o dia. Cada pequeno passo conta: documentar, buscar orientação jurídica, separar contas, construir rede de apoio. São passos concretos que vão somando para uma vida mais livre.

Se você está vivendo isso, saiba: a falha não é sua. Você foi vítima de abuso — financeiro e muitas vezes emocional também. A responsabilidade é de quem violenta, não de quem sofre a violência. E há caminhos para reconstruir sua vida com autonomia e dignidade.

Se você está enfrentando violência patrimonial após separação e precisa de apoio, entre em contato para agendar uma avaliação. O suporte profissional pode fazer diferença significativa no processo de recuperação e reconstrução.

Onde Buscar Ajuda:

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • Defensoria Pública — Orientação jurídica gratuita
  • CRAS/CREAS — Assistência social

Este artigo tem caráter informativo e não substitui orientação jurídica. Para questões legais, procure advogada especializada ou Defensoria Pública.

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