Ansiedade e Intestino: O Eixo Cérebro-Digestivo
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Aquela reunião importante está chegando e seu estômago começa a doer. Ou então você passa por um período de muito estresse no trabalho e os episódios de diarreia ou constipação se tornam frequentes. Talvez você já tenha ouvido que tem "gastrite nervosa" ou que o refluxo piora quando está ansiosa. Se alguma dessas situações é familiar, você está experimentando na prática a conexão entre ansiedade e intestino.
Essa conexão não é imaginária — tem base científica sólida. O intestino é frequentemente chamado de "segundo cérebro" porque possui um sistema nervoso próprio com milhões de neurônios. Quando a ansiedade dispara, o intestino responde. E quando o intestino está em desequilíbrio, a ansiedade pode piorar. É uma via de mão dupla que afeta especialmente mulheres em posições de liderança, expostas a estresse crônico.
Neste artigo, vou explicar como funciona o eixo cérebro-intestino, por que o estresse causa sintomas gastrointestinais e o que você pode fazer para quebrar esse ciclo. Como especialista em TCC, trabalho frequentemente com executivas que apresentam essa conexão entre mente e corpo. Se você precisa de apoio profissional, entre em contato.
O Eixo Cérebro-Intestino: Uma Conexão de Mão Dupla
O eixo cérebro-intestino é um sistema de comunicação bidirecional que conecta o sistema nervoso central ao sistema digestivo. Essa comunicação acontece através de três vias principais: o nervo vago — uma espécie de "cabo" direto entre cérebro e intestino —, hormônios liberados em resposta ao estresse, e a microbiota intestinal — os trilhões de bactérias que habitam seu trato digestivo.
Quando você está ansiosa, o cérebro envia sinais que alteram a motilidade intestinal — ou seja, a capacidade do intestino de mover os alimentos através do trato digestivo. Isso pode resultar tanto em diarreia (movimento acelerado) quanto em constipação (movimento lento demais). O estresse também aumenta a permeabilidade intestinal, afeta a produção de enzimas digestivas e altera a composição da microbiota.
O mais interessante é que essa comunicação funciona nos dois sentidos. Desequilíbrios no intestino enviam sinais ao cérebro que podem intensificar ansiedade e depressão. Segundo estudos recentes sobre o eixo cérebro-intestino, a microbiota intestinal produz neurotransmissores como serotonina e GABA — substâncias fundamentais para a regulação do humor.

Sintomas Gastrointestinais Relacionados à Ansiedade
Os sintomas gastrointestinais provocados ou agravados pela ansiedade são diversos e podem variar de pessoa para pessoa. Conhecê-los ajuda a identificar quando o problema pode ter componente emocional.
Gastrite Nervosa e Dor de Estômago
A "gastrite nervosa" é um termo popular para descrever a dor de estômago associada ao estresse. Tecnicamente, o estresse pode causar dispepsia funcional — desconforto na região do estômago sem lesão orgânica identificável. O mecanismo envolve a alteração da produção de ácido gástrico e da motilidade estomacal, além de maior sensibilidade visceral — você sente mais intensamente as sensações normais do estômago.
Refluxo Gastroesofágico
O refluxo tende a piorar em períodos de estresse intenso. A ansiedade afeta o esfíncter que separa o estômago do esôfago, permitindo que o ácido "suba". Além disso, pessoas ansiosas frequentemente engolhem mais ar (aerofagia) e têm padrões respiratórios alterados, o que contribui para o refluxo.
Síndrome do Intestino Irritável (SII)
A síndrome do intestino irritável é talvez a condição gastrointestinal mais claramente ligada à ansiedade. Caracteriza-se por dor abdominal, distensão e alterações no padrão intestinal (diarreia, constipação ou alternância entre ambos) sem causa orgânica identificável. Pesquisas mostram que a prevalência de ansiedade em pacientes com SII é de aproximadamente 39%, e pessoas com SII têm risco três vezes maior de desenvolver ansiedade ou depressão.
Gases e Distensão Abdominal
A sensação de barriga inchada e o excesso de gases frequentemente acompanham períodos de ansiedade. Isso acontece porque o estresse altera a fermentação bacteriana no intestino, aumenta a deglutição de ar e modifica a percepção que você tem das sensações abdominais normais.
Top tip
Se você apresenta sintomas gastrointestinais frequentes, é importante fazer uma avaliação médica para descartar condições orgânicas antes de atribuir tudo à ansiedade. Gastroenterologistas podem solicitar exames para excluir outras causas.
A conexão entre ansiedade e intestino parece afetar mulheres de forma desproporcional. Estudos indicam que mulheres com síndrome do intestino irritável reportam níveis mais altos de sofrimento psicológico comparadas aos homens. Vários fatores contribuem para essa diferença.
O primeiro é hormonal: os hormônios femininos — especialmente estrogênio e progesterona — influenciam tanto a motilidade intestinal quanto a resposta ao estresse. Muitas mulheres notam que os sintomas gastrointestinais flutuam com o ciclo menstrual.
O segundo fator é a sobrecarga característica de mulheres em posições de liderança. Conciliar as demandas do trabalho, da família e as expectativas sociais mantém o corpo em estado crônico de alerta. Segundo a pesquisa Deloitte Women @ Work 2024, 48% das mulheres estão preocupadas com sua saúde mental, e essa preocupação se manifesta frequentemente no corpo.
O terceiro fator é a tendência a internalizar o estresse. Em ambientes corporativos, demonstrar ansiedade abertamente ainda é visto como fraqueza. Quando as emoções não encontram expressão, frequentemente aparecem como sintomas físicos — incluindo os gastrointestinais.
O Ciclo Vicioso: Ansiedade, Sintomas e Mais Ansiedade
Os sintomas gastrointestinais frequentemente criam um ciclo que se autoalimenta. Funciona assim: você sente ansiedade, o intestino responde com desconforto, você fica preocupada com os sintomas ("Será que é algo grave?"), essa preocupação aumenta a ansiedade, e a ansiedade intensifica os sintomas intestinais.
Esse ciclo pode levar a comportamentos de evitação problemáticos. Você começa a evitar certos alimentos — às vezes de forma excessiva e desnecessária. Evita situações sociais por medo de ter sintomas. Evita viagens ou reuniões longas onde não teria fácil acesso a um banheiro. Gradualmente, sua vida fica mais restrita, o que paradoxalmente aumenta a ansiedade.
Para executivas, esse ciclo tem implicações profissionais diretas. A preocupação constante com sintomas gastrointestinais durante reuniões ou apresentações compromete a concentração. A evitação de eventos corporativos pode prejudicar networking e progressão de carreira. E a sensação de não ter controle sobre o próprio corpo mina a autoconfiança.
Para entender melhor como a ansiedade afeta o corpo de outras formas, leia nosso artigo sobre sintomas físicos da ansiedade.

Tratamento Integrado: TCC e Abordagem Multidisciplinar
O tratamento mais eficaz para a conexão ansiedade-intestino é multidisciplinar, combinando abordagem médica, nutricional e psicológica. A Terapia Cognitivo-Comportamental desempenha papel central nesse tratamento, sendo atualmente considerada uma das intervenções mais eficazes para síndrome do intestino irritável.
Como a TCC Ajuda
Na TCC, trabalhamos com vários componentes que impactam diretamente a conexão mente-intestino. A psicoeducação ajuda você a entender como ansiedade e sintomas gastrointestinais se conectam, reduzindo a catastrofização sobre os sintomas. Quando você sabe que a dor de estômago antes de uma reunião é uma resposta ao estresse — e não sinal de doença grave —, o medo diminui.
A reestruturação cognitiva aborda pensamentos distorcidos sobre os sintomas. "Vou passar mal na reunião e todos vão perceber" é um pensamento catastrófico que pode ser questionado. Qual é a evidência real? Quantas vezes isso já aconteceu? Mesmo que houvesse algum desconforto, seria realmente tão terrível?
Os experimentos comportamentais ajudam a enfrentar gradualmente situações evitadas. Se você deixou de almoçar com clientes por medo de sintomas, podemos trabalhar uma exposição gradual — começando com situações menos ameaçadoras e aumentando progressivamente.
Técnicas de Regulação do Sistema Nervoso
A TCC também incorpora técnicas que regulam diretamente o sistema nervoso, impactando o eixo cérebro-intestino. A respiração diafragmática ativa o nervo vago, que tem papel central na comunicação entre cérebro e intestino. Praticar respiração lenta e profunda antes das refeições pode melhorar significativamente a digestão.
O relaxamento muscular progressivo ajuda a liberar a tensão acumulada no corpo — incluindo a região abdominal. A consciência corporal desenvolvida através dessas práticas permite identificar quando o estresse está se acumulando antes que os sintomas gastrointestinais apareçam.
Além do tratamento formal, algumas mudanças práticas podem ajudar a regular a conexão ansiedade-intestino.
Top tip
Estratégias para Regular o Eixo Cérebro-Intestino:
- Alimentação consciente: comer sem pressa e sem distrações
- Regularidade nas refeições
- Atividade física moderada após as refeições
- Sono de 7-8 horas por noite
- Pausas regulares para respirar e desacelerar
Alimentação consciente: Comer sem pressa, mastigando bem e sem distrações (como celular ou computador), melhora a digestão e reduz sintomas. Quando você come estressada, o sistema nervoso simpático está ativado e a digestão fica comprometida.
Regularidade nas refeições: Pular refeições ou comer em horários muito irregulares desorganiza o ritmo do sistema digestivo. Tentar manter horários mais ou menos consistentes ajuda o intestino a funcionar melhor.
Identificar gatilhos alimentares: Algumas pessoas notam que certos alimentos pioram os sintomas em períodos de estresse. Manter um diário alimentar por algumas semanas pode revelar padrões. Mas cuidado com restrições excessivas — eliminar muitos alimentos sem orientação nutricional pode criar outros problemas.
Atividade física regular: O exercício moderado melhora a motilidade intestinal e reduz a ansiedade. Uma caminhada de 30 minutos após as refeições pode fazer diferença significativa.
Sono adequado: A privação de sono afeta tanto a ansiedade quanto o funcionamento intestinal. Priorizar 7-8 horas de sono por noite é fundamental para a saúde digestiva.
Pausas durante o dia: Permitir-se pequenas pausas para respirar e desacelerar ajuda a manter o sistema nervoso mais regulado, prevenindo o acúmulo de tensão que depois se manifesta no intestino.
Quando Buscar Avaliação Profissional
Considere buscar ajuda profissional se os sintomas gastrointestinais são frequentes e interferem na sua qualidade de vida, se você evita situações importantes por medo de ter sintomas, se a preocupação com os sintomas ocupa muito espaço mental, ou se você já fez avaliação médica que descartou causas orgânicas mas os sintomas persistem.
O tratamento integrado — combinando acompanhamento gastroenterológico quando necessário, orientação nutricional e TCC — oferece os melhores resultados. Você não precisa escolher entre tratar o corpo ou a mente; ambos estão conectados e se beneficiam de uma abordagem integrada.
Se você também experimenta outros sintomas de ansiedade além dos gastrointestinais, pode valer a pena ler sobre o Transtorno de Ansiedade Generalizada, que frequentemente inclui manifestações somáticas diversas.
A conexão entre ansiedade e intestino é real e significativa, mas tratável. Com as intervenções certas, é possível recuperar o equilíbrio digestivo e reduzir o impacto do estresse no corpo. Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Sintomas gastrointestinais devem ser avaliados por médico para descartar causas orgânicas. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.
