TAG - Transtorno de Ansiedade Generalizada: Guia
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você já se pegou preocupada com absolutamente tudo — o prazo do projeto, a reunião de amanhã, a saúde dos filhos, o futuro da empresa — mesmo quando não há motivo real para tanta apreensão? Se essa sensação de alerta constante faz parte do seu dia a dia há meses, pode ser que você esteja lidando com o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).
Para mulheres em posições de liderança, o TAG costuma se disfarçar de "responsabilidade" ou "perfeccionismo saudável". Afinal, quem ocupa cargos executivos precisa pensar em múltiplos cenários, certo? O problema é quando essa antecipação de problemas deixa de ser estratégica e passa a consumir sua energia mental mesmo fora do expediente.
Neste artigo, você vai entender o que caracteriza o TAG, como ele se manifesta especificamente em mulheres de alta performance e quais são as opções de tratamento baseadas em evidências — com destaque para a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que pode ajudar você a recuperar o controle sobre seus pensamentos. Se você busca ajuda profissional, entre em contato para uma avaliação individualizada.
O Que É o Transtorno de Ansiedade Generalizada?
O TAG é caracterizado por uma preocupação excessiva e persistente com diversas áreas da vida — trabalho, relacionamentos, saúde, finanças — que a pessoa tem dificuldade em controlar. Diferente da ansiedade comum, que surge diante de situações específicas e passa quando o estressor é resolvido, o TAG permanece presente de forma crônica, mesmo sem um gatilho claro.
Segundo dados recentes, a prevalência global do TAG é de aproximadamente 5-6% da população ao longo da vida, sendo duas vezes mais comum em mulheres do que em homens. No Brasil, país que lidera o ranking mundial de ansiedade com 9,3% da população afetada, o cenário é ainda mais preocupante.
TAG em Mulheres Executivas: Um Cenário Particular
Profissionais em cargos de liderança enfrentam um dilema duplo: lidar com a ansiedade constante enquanto precisam manter uma imagem de controle e sucesso. Perfis perfeccionistas, comuns entre executivas e empreendedoras, estão especialmente propensos a desenvolver TAG.
A pesquisa da Deloitte Women @ Work 2024 revelou que 48% das mulheres estão preocupadas com sua saúde mental, colocando-a entre as três principais preocupações. Além disso, apenas 23% das mulheres que fazem hora extra regularmente reportam boa saúde mental — um dado que reflete como o ambiente de alta performance pode intensificar quadros ansiosos.

Sintomas do TAG: Como Identificar
Os sintomas do TAG vão além da preocupação mental. O corpo também manifesta sinais importantes que, muitas vezes, são confundidos com cansaço ou estresse comum. Reconhecer esses sintomas é o primeiro passo para buscar tratamento adequado.
Sintomas Psicológicos do Transtorno de Ansiedade Generalizada
No transtorno de ansiedade generalizada, a mente parece incapaz de descansar. A preocupação excessiva e difícil de controlar abrange múltiplos assuntos simultaneamente. Você pode notar dificuldade de concentração ou sensação de "mente em branco", além de irritabilidade frequente mesmo por motivos pequenos. A antecipação constante de cenários negativos — chamada catastrofização — e a sensação de estar sempre "no limite" são características marcantes do TAG.
Sintomas Físicos
O transtorno de ansiedade generalizada também se manifesta no corpo de formas que muitas vezes são confundidas com outras condições. A tensão muscular persistente, especialmente em pescoço e ombros, é extremamente comum. Fadiga excessiva mesmo após uma noite de sono, dificuldade para adormecer ou sono não reparador, problemas gastrointestinais como náusea e síndrome do intestino irritável, além de taquicardia ou palpitações sem causa cardíaca identificada completam o quadro somático do TAG.
Top tip
Sinais de Alerta do TAG:
- Preocupação excessiva e difícil de controlar por 6+ meses
- Tensão muscular persistente, especialmente pescoço e ombros
- Irritabilidade frequente mesmo por motivos pequenos
- Dificuldade de concentração ou "mente em branco"
- Sono não reparador ou dificuldade para adormecer
- Fadiga excessiva mesmo após descanso adequado
Para entender mais sobre os sintomas físicos, leia nosso artigo sobre ansiedade na vida moderna.
Preocupação Útil vs. Preocupação Excessiva
Uma das dúvidas mais comuns é: "Mas eu preciso me preocupar com o trabalho — como saber se estou exagerando?" A diferença está em como essa preocupação funciona para você.
A preocupação útil é direcionada a problemas concretos e leva a ações práticas. Você pensa: "Preciso preparar a apresentação para quinta-feira", elabora um plano e executa. A ansiedade diminui conforme você avança na tarefa.
Já a preocupação excessiva do TAG é difusa e improdutiva. Você pensa: "E se a apresentação der errado? E se me avaliarem mal? E se isso afetar minha carreira?". A mente pula de cenário em cenário sem chegar a lugar nenhum — e quanto mais você tenta "resolver" pensando, mais ansiosa fica.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, trabalhamos para distinguir essas preocupações e desenvolver tolerância à incerteza — uma habilidade fundamental para quem ocupa cargos onde não é possível controlar todas as variáveis.
Como Funciona o Diagnóstico
O diagnóstico do TAG é clínico, realizado por psicólogos ou psiquiatras a partir de uma avaliação detalhada. Não existem exames laboratoriais para ansiedade, mas o profissional pode solicitar exames para descartar condições médicas que mimetizam sintomas ansiosos, como problemas na tireoide.
Critérios de Avaliação do Transtorno de Ansiedade Generalizada
Para o diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada, o profissional avalia se a preocupação excessiva está presente na maior parte dos dias por pelo menos seis meses e se há dificuldade em controlá-la. Além disso, devem estar presentes três ou mais sintomas associados — como tensão, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração ou alterações de sono. Os sintomas precisam causar sofrimento significativo ou prejuízo funcional e não podem ser melhor explicados por outra condição médica ou psiquiátrica.
É importante ressaltar que muitas pessoas com transtorno de ansiedade generalizada demoram anos para buscar ajuda porque acreditam que "são assim mesmo" ou que "todo mundo se preocupa". Como especialista em TCC, observo frequentemente que reconhecer o problema é o primeiro passo para o tratamento efetivo do TAG.

Tratamento do TAG: Opções Baseadas em Evidências
O TAG é um dos transtornos de ansiedade mais responsivos ao tratamento. As principais abordagens incluem psicoterapia, medicação ou a combinação de ambas, dependendo da gravidade do quadro e das preferências individuais.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
A TCC é considerada o tratamento de primeira linha para o TAG, com eficácia comprovada em diversas meta-análises. Estudos indicam que cerca de 70% dos pacientes relatam redução significativa dos sintomas após o tratamento.
Na TCC para TAG, trabalhamos com várias técnicas específicas:
Psicoeducação: Entender como a ansiedade funciona — o ciclo pensamento-emoção-comportamento — já ajuda a reduzir a sensação de descontrole. Quando você compreende que seu corpo está em modo de "alerta" mesmo sem perigo real, fica mais fácil não se deixar levar pelos sintomas.
Identificação de Pensamentos Automáticos: Aprender a notar os pensamentos que surgem automaticamente nas situações de preocupação. "Vou ser demitida", "Minha equipe vai me decepcionar", "Não vou conseguir entregar" — esses pensamentos parecem fatos, mas são hipóteses que podem ser questionadas.
Reestruturação Cognitiva: Avaliar as evidências a favor e contra esses pensamentos catastróficos. Qual é a probabilidade real de acontecer o pior cenário? Se acontecesse, você realmente não teria nenhum recurso para lidar?
Treino de Tolerância à Incerteza: Uma das principais intervenções para TAG. A necessidade de certeza absoluta é um dos motores da preocupação crônica. Aprender a conviver com a incerteza — sem tentar "resolver" mentalmente todos os cenários possíveis — é libertador.
Experimentos Comportamentais: Testar na prática se as previsões catastróficas se confirmam. Muitas vezes, o que a mente ansiosa prevê não corresponde à realidade.
Se você quer saber mais sobre como parar de pensar demais, leia nosso artigo sobre ruminação mental.
Medicação
Em casos moderados a graves, a medicação pode ser indicada, geralmente antidepressivos da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS). A combinação de TCC com medicação frequentemente apresenta resultados superiores a cada intervenção isolada.
A decisão sobre medicação deve ser tomada em conjunto com um psiquiatra, considerando a gravidade dos sintomas, histórico médico e preferências pessoais.
Estratégias Práticas para o Dia a Dia
Enquanto você não inicia ou durante o processo de tratamento, algumas estratégias podem ajudar a manejar os sintomas:
Agenda de Preocupações: Reserve 15-20 minutos por dia para "se preocupar". Se uma preocupação surgir fora desse horário, anote e deixe para pensar depois. Isso ajuda a conter o espalhamento das preocupações ao longo do dia.
Técnicas de Relaxamento: A respiração diafragmática e o relaxamento muscular progressivo ajudam a reduzir a ativação fisiológica. Praticar regularmente, não só nos momentos de crise, constrói uma base de calma.
Atividade Física Regular: Exercícios aeróbicos têm efeito ansiolítico comprovado. Não precisa ser academia — caminhadas de 30 minutos já fazem diferença.
Limites com o Trabalho: Estabelecer horários claros de início e fim do expediente ajuda a criar uma zona de "descanso mental". Se você leva trabalho para casa mentalmente mesmo quando não está trabalhando, seu sistema nervoso nunca descansa.
Quando Buscar Ajuda para o Transtorno de Ansiedade Generalizada
Considere buscar ajuda profissional se os sintomas do transtorno de ansiedade generalizada persistem há mais de seis meses, se a preocupação interfere no seu desempenho profissional ou se você evita situações por medo de sentir ansiedade. Sintomas físicos frequentes e incômodos, assim como a sensação de que você simplesmente não consegue "desligar" a mente, são sinais importantes de que o tratamento pode fazer diferença significativa na sua qualidade de vida.
O transtorno de ansiedade generalizada é uma condição tratável. Com intervenção adequada — especialmente através da TCC —, é possível recuperar a qualidade de vida e usar sua capacidade de análise de forma estratégica, sem que ela se volte contra você.
Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação. Entender o que está acontecendo é o primeiro passo para mudar.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.
