Ansiedade em Reuniões: Quando Você É a Única Mulher
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você entra na sala de reunião. Olha ao redor: dez executivos, todos homens. Você é a única mulher. Instantaneamente, algo muda. Sua postura fica mais rígida. Você ensaia mentalmente o que vai dizer. Pensa duas vezes antes de falar. E quando finalmente fala, percebe que está sendo interrompida.
Essa experiência é comum para mulheres em posições de liderança — e vai além de desconforto social. A dinâmica de ser a única mulher na sala pode intensificar significativamente a ansiedade e a síndrome da impostora, afetando sua capacidade de contribuir com confiança.
Pesquisas sobre gênero e síndrome do impostor confirmam o que muitas executivas sentem: em uma meta-análise com mais de 40 mil participantes, mulheres apresentaram níveis mais altos de síndrome do impostor que homens (d=0.27). E esse efeito é ainda mais pronunciado em ambientes onde você é minoria.
Neste artigo, vou explorar por que ser a única mulher na sala intensifica a ansiedade, como as dinâmicas de gênero em reuniões funcionam, e o que a TCC pode oferecer para ajudar você a ocupar seu espaço com mais segurança. Como especialista em TCC, trabalho regularmente com executivas enfrentando essa realidade. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.
A Realidade das Interrupções
Antes de falar sobre como lidar com a ansiedade, é importante validar: você não está imaginando. As dinâmicas de gênero em reuniões são documentadas por pesquisas.
Os Números das Interrupções
Pesquisas da George Washington University mostram que homens interrompem 33% mais quando falam com mulheres do que quando falam com outros homens. Em conversas de três minutos, homens interromperam mulheres 2,1 vezes, mas outros homens apenas 1,8 vezes.
Um estudo clássico analisou 31 conversas: em grupos do mesmo sexo, houve apenas 7 interrupções no total. Em conversas entre homem e mulher, foram 48 interrupções — e 46 delas foram iniciadas pelo homem.
O Fenômeno "Manterrupting"
Pesquisas citadas por Sheryl Sandberg mostram que mulheres são duas vezes mais propensas a serem interrompidas tanto por homens quanto por mulheres. E mais: executivos homens que falam mais são vistos como 10% mais competentes, enquanto executivas que falam mais são vistas como 14% menos competentes.
O termo "manterrupting" foi cunhado para descrever esse padrão — e embora possa parecer exagerado, os dados sugerem que é um fenômeno real e mensurável.

Por Que Ser a Única Mulher Intensifica a Ansiedade
Quando você é minoria em um grupo, dinâmicas específicas entram em jogo que amplificam a ansiedade.
A Pressão de Representar
Pesquisas sobre síndrome do impostor mostram que quando você é a única mulher, pode sentir pressão adicional para "representar todas as mulheres". Se você errar, a narrativa pode se tornar "mulheres não são boas nisso" em vez de "essa pessoa específica errou".
A Falta de Pertencimento
Estudos mostram que a sensação de pertencimento aumenta a confiança. Quanto mais pessoas semelhantes a você em uma sala, mais confiante você tende a se sentir. Quando você é a única mulher, o cérebro percebe — mesmo que inconscientemente — que você "não pertence" àquele espaço.
A Hipervisibilidade
Paradoxalmente, ser minoria significa ser simultaneamente invisível (suas ideias não são ouvidas) e hipervisível (todos percebem quando você erra). Essa combinação é exaustiva.
Os Mecanismos de "Proteção"
Pesquisa clássica de Clance e Imes, que originalmente identificou a síndrome do impostor em mulheres de alto desempenho, documentou mecanismos de "proteção" como: preparar-se excessivamente, procrastinar, evitar falar, e não se candidatar a desafios. Esses comportamentos surgem como resposta à ansiedade — mas podem limitar sua carreira.
Top tip
A ansiedade que você sente em reuniões dominadas por homens não é paranoia ou fraqueza. É uma resposta adaptativa a dinâmicas reais de gênero. Reconhecer isso é o primeiro passo para lidar de forma mais funcional.
Como a Ansiedade Se Manifesta em Reuniões
A ansiedade específica de ser a única mulher aparece de várias formas.
Antes da Reunião
Ansiedade antecipatória intensa. Preparação excessiva (você ensaia cada fala, considera todas as objeções possíveis, revisa materiais repetidamente). Pensamentos catastróficos: "Vão perceber que não sei tanto quanto eles." "Vão me ignorar." "Se eu errar, vão pensar que é por eu ser mulher."
Durante a Reunião
Hesitação em falar mesmo quando tem algo relevante a dizer. Autocensura: você edita mentalmente cada frase antes de pronunciá-la. Hipervigilância: monitora constantemente as reações dos outros. Dificuldade de "voltar ao jogo" após uma interrupção ou desconsideração.
Depois da Reunião
Ruminação: você repassa mentalmente cada momento, analisando o que deveria ter dito diferente. Autocrítica excessiva. Exaustão desproporcional ao que a reunião exigiu objetivamente.
Abordagem TCC: O Que Trabalhamos
A TCC oferece ferramentas específicas para lidar com a ansiedade de ser minoria em ambientes profissionais.
Validação da Experiência
A Harvard Business Review argumenta que parte do problema é patologizar como "síndrome" o que é uma resposta racional a ambientes que subestimam mulheres. Reconhecer que o ambiente contribui para sua ansiedade — não apenas "algo errado com você" — é terapêutico em si.
Reestruturação de Crenças
"Se eu errar, vou confirmar que mulheres não são competentes." Essa crença carrega um peso impossível. Trabalhamos para separar sua performance individual de narrativas de gênero. Você é uma profissional que pode acertar ou errar — como qualquer pessoa.
Dessensibilização Gradual
Se a ansiedade é intensa, trabalhamos exposição gradual: começar com reuniões menores, com pessoas mais aliadas, e progressivamente enfrentar contextos mais desafiadores enquanto desenvolve habilidades.
Treinamento de Assertividade
Assertividade não é agressividade — é comunicar com clareza e firmeza. Técnicas específicas ajudam você a se posicionar, lidar com interrupções, e reclamar crédito por suas ideias.
Role-Play e Ensaio
Praticar situações difíceis em ambiente seguro reduz a ansiedade quando elas acontecem de verdade. Ensaiamos como responder a interrupções, como retomar a palavra, como rebater ideias sem ser vista como "difícil".

Estratégias Práticas para Reuniões
Além do trabalho terapêutico, estratégias práticas podem ajudar você a navegar reuniões dominadas por homens.
Top tip
Estratégias para Reuniões com Confiança:
- Prepare-se com limite de tempo (evite preparação infinita)
- Identifique 2-3 pontos essenciais que vai fazer
- Use frases para retomar a palavra quando interrompida
- Identifique aliados que possam apoiar suas ideias
- Sente-se à mesa principal, não nos cantos
- Envie follow-up escrito para registrar suas contribuições
Preparação Estratégica
Prepare-se, mas com limite. Defina um tempo máximo de preparação para evitar a armadilha da preparação infinita. Identifique os 2-3 pontos mais importantes que você quer fazer — e comprometa-se a fazê-los.
Técnicas para Lidar com Interrupções
Pesquisas da Carnegie Mellon mostram que quando líderes pedem que todos falem em turnos, interrupções diminuem significativamente. Se você pode influenciar o formato da reunião, sugira essa estrutura.
Quando for interrompida, técnicas incluem: "Deixa eu terminar meu raciocínio" (direto mas não agressivo), "Um momento, quero completar essa ideia" (reafirmando seu direito ao espaço), ou simplesmente continuar falando (não ceder automaticamente).
Aliados na Sala
Se possível, identifique aliados — pessoas que vão apoiar suas ideias, que vão creditar quando você falar algo relevante. Acordos prévios ("se eu for interrompida, você me ajuda a retomar?") podem fazer diferença.
Posicionamento Físico
Pesquisas sobre presença mostram que sua posição física afeta como você é percebida e como você se sente. Sente-se à mesa principal (não nos cantos), ocupe espaço físico, mantenha contato visual.
Registro das Suas Contribuições
Se suas ideias são frequentemente "esquecidas" ou atribuídas a outros, envie follow-up por escrito: "Conforme discuti na reunião, sugiro que..." Criar registro ajuda a estabelecer autoria.
Lidando com Microagressões
Além de interrupções, você pode enfrentar outros comportamentos sutilmente hostis.
Quando Suas Ideias São Ignoradas
Se você fala algo e é ignorada, mas um colega homem repete a mesma ideia e recebe crédito, técnicas incluem: "Fico feliz que o João concordou com o que eu disse há pouco" (reivindica autoria sem confronto direto), ou falar diretamente com o gestor depois sobre o padrão.
Quando É Chamada de "Emocional"
Mulheres assertivas são frequentemente rotuladas como "agressivas" ou "emocionais". Se isso acontece, você pode: ignorar (nem todo comentário merece resposta), nomear o padrão ("interessante que assertividade em homens é vista como liderança, em mulheres como agressividade"), ou tratar depois com RH se for recorrente.
Quando Esperam Que Você Faça "Trabalho de Escritório"
Se você é automaticamente designada para fazer atas, servir café ou organizar festas só por ser mulher, técnicas incluem: "Podemos fazer rodízio nessa função?" ou simplesmente não se voluntariar e esperar que alguém mais assuma.
Quando Buscar Ajuda Profissional
Considere buscar avaliação se a ansiedade relacionada a reuniões está afetando significativamente seu desempenho ou progressão de carreira, se você está evitando oportunidades profissionais por medo, se a ansiedade se generalizou para outros contextos além de reuniões, se você está apresentando sintomas físicos intensos (pânico, taquicardia), se ruminação pós-reunião está consumindo horas, ou se estratégias de autoajuda não estão funcionando.
Ser a única mulher em reuniões executivas é uma realidade para muitas profissionais — e a ansiedade que acompanha essa experiência é uma resposta compreensível a dinâmicas reais de gênero.
Você não precisa "consertar" algo em você para funcionar nesses ambientes. O que você pode fazer é desenvolver ferramentas para ocupar seu espaço com mais confiança, lidar com interrupções de forma assertiva, e proteger sua saúde mental enquanto navega sistemas que ainda não são totalmente equitativos.
A mudança sistêmica é importante — mas enquanto ela não vem completamente, você merece suporte para funcionar bem no ambiente que existe hoje.
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Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.
