Ansiedade de Separação Materna: Viagens de Trabalho

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Ansiedade de Separação Materna: Viagens de Trabalho

Você está no aeroporto, mala pronta, embarque em uma hora. Mas seu coração está apertado. Você sabe que seu filho está bem cuidado — com o pai, com a avó, com a babá de confiança. Racionalmente, você sabe que estará de volta em dois dias. Mas a ansiedade não obedece à razão. E se acontecer alguma coisa? E se ele precisar de mim? Sou uma mãe terrível por escolher trabalho ao invés dele?

A viagem de negócios que deveria ser sobre oportunidade profissional se transforma em fonte de culpa e angústia. O jantar corporativo que poderia expandir sua rede vira um peso. Cada compromisso que tira você de casa parece evidência de que você está falhando como mãe.

A ansiedade de separação materna é real, documentada cientificamente, e afeta milhões de mães profissionais. Não é frescura. Não é "falta de organização". É uma resposta emocional profunda que pode — e deve — ser trabalhada para que você não precise escolher entre carreira e bem-estar.

Neste artigo, vou explicar o que é ansiedade de separação materna, por que ela acontece, e como a TCC pode ajudar você a navegar compromissos profissionais sem o peso esmagador da culpa. Como especialista em TCC, trabalho regularmente com mães executivas nessa situação. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.

O Que É Ansiedade de Separação Materna

A ansiedade de separação materna é um construto que descreve a experiência de preocupação, tristeza ou culpa da mãe durante separações de curto prazo do seu filho. É um estado emocional desagradável que surge em antecipação ou durante a separação.

É importante distinguir: estamos falando da ansiedade da mãe, não da criança. Enquanto o transtorno de ansiedade de separação em crianças é bem conhecido, a versão materna recebe menos atenção — mas é igualmente impactante.

O aumento da participação feminina no mercado de trabalho enfatiza a importância de entender a ansiedade de separação materna, especialmente para mulheres bem-educadas e profissionalmente ativas.

Sintomas Comuns

A ansiedade de separação materna pode se manifestar como preocupação excessiva sobre o bem-estar da criança durante ausências, culpa intensa por estar longe, dificuldade de se concentrar no trabalho quando separada, verificações constantes (ligações, mensagens, câmeras), antecipação ansiosa de viagens ou compromissos, dificuldade para aproveitar eventos profissionais, sintomas físicos (aperto no peito, náusea, tensão), e pensamentos intrusivos sobre catástrofes.

Despedidas antes de viagens de trabalho podem desencadear ansiedade intensa em mães

Por Que Isso Acontece

A ansiedade de separação materna tem raízes biológicas, psicológicas e sociais. Entender as causas ajuda a reduzir a autoculpa.

Fatores Biológicos

A maternidade envolve mudanças cerebrais significativas. O cérebro materno é programado para vigilância — detectar e responder às necessidades do filho. Esse sistema, adaptativo do ponto de vista evolutivo, pode se tornar hiperativo em algumas mulheres, gerando ansiedade desproporcional mesmo quando a criança está segura.

Fatores Psicológicos

Pesquisas mostram que maior ansiedade de separação materna está ligada a maior ansiedade-traço, depressão, dependência, autocrítica e baixa autoestima. Se você já tinha tendência à ansiedade antes de ser mãe, a maternidade pode amplificá-la.

Crenças rígidas sobre maternidade também contribuem. "Uma boa mãe está sempre presente." "Meu filho precisa de mim especificamente, ninguém mais serve." "Se algo acontecer quando eu não estou, é minha culpa."

Fatores Sociais

A pressão social sobre mães é imensa. Você é cobrada por estar presente, por participar ativamente, por não "terceirizar" a criação. Ao mesmo tempo, é cobrada por ter carreira, por ser independente, por "dar exemplo" aos filhos. Essas demandas contraditórias criam um campo minado de culpa.

Mulheres em posições de liderança frequentemente enfrentam pressão adicional. Você sente que precisa provar que a maternidade não afetou sua competência, que pode "dar conta" de tudo sem reclamar.

Top tip

Níveis mais altos de ansiedade de separação são mais frequentemente relatados por mães mais jovens, menos experientes e de primeira viagem. Se este é seu primeiro filho, saiba que a intensidade tende a diminuir com o tempo e a experiência.

O Ciclo da Ansiedade e Evitação

A ansiedade de separação materna frequentemente leva a um ciclo problemático. Você sente ansiedade sobre se separar → evita ou minimiza compromissos profissionais → sente alívio temporário → perde oportunidades → sente frustração e ressentimento → a próxima separação parece ainda mais difícil.

Esse ciclo pode ter consequências sérias para a carreira. Você declina viagens, evita networking após o horário, recusa promoções que exigiriam mais disponibilidade. A longo prazo, isso pode estagnar sua carreira e gerar arrependimento.

A evitação também não resolve a ansiedade — ela a mantém. Você nunca descobre que consegue lidar com a separação, que seu filho fica bem, que você pode estar presente mesmo à distância.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos

A TCC oferece ferramentas eficazes para manejar a ansiedade de separação materna. Estudos sobre intervenções mostram que estratégias adequadas podem reduzir significativamente a ansiedade materna e melhorar a qualidade do relacionamento mãe-filho.

Identificação de Pensamentos Automáticos

Trabalhamos para identificar os pensamentos que disparam ou mantêm a ansiedade. "Ela só para de chorar comigo." "Se acontecer algo, nunca vou me perdoar." "Sou egoísta por querer ter carreira." Esses pensamentos frequentemente contêm distorções cognitivas que podem ser questionadas.

Reestruturação Cognitiva

Questionamos a validade desses pensamentos. Qual a evidência de que só você pode cuidar adequadamente? O que aconteceu nas vezes anteriores em que você se separou? O que você diria para uma amiga pensando isso? Você desenvolve perspectivas mais equilibradas que não eliminam a preocupação normal, mas reduzem a intensidade paralisante.

Exposição Gradual

A exposição é fundamental para quebrar o ciclo de evitação. Você pratica separações graduais, começando por situações mais curtas e menos ansiogênicas, progredindo para as mais desafiadoras. Cada exposição bem-sucedida fornece evidência de que você e seu filho conseguem lidar com a separação.

Técnicas de Aceitação

Parte do trabalho envolve aceitar que algum nível de desconforto é normal e não precisa ser eliminado para que você funcione. Você pode sentir saudade e ainda assim participar da conferência. Pode ter aperto no coração e ainda assim fazer a viagem. A emoção não precisa ditar o comportamento.

Para entender melhor como a TCC trabalha a culpa materna, leia nosso artigo sobre culpa materna.

Técnicas de TCC ajudam a manejar a culpa e ansiedade sobre compromissos profissionais

Estratégias Práticas: Antes, Durante e Depois

Além do trabalho terapêutico, estratégias práticas podem ajudar a manejar a ansiedade no dia a dia.

Top tip

Estratégias para Viagens de Trabalho:

  • Prepare tudo com antecedência (instruções, contatos)
  • Crie ritual de despedida breve mas carinhoso
  • Combine horários específicos para ligações
  • Limite verificações a 1-2 atualizações por dia
  • Permita-se estar presente no trabalho
  • Reconecte com qualidade ao voltar

Antes da Separação

Prepare-se com antecedência: Não deixe organização para última hora. Ter tudo preparado (instruções para cuidadores, itens necessários, contatos de emergência) reduz a ansiedade prática.

Crie rituais de despedida: Uma despedida breve mas carinhosa é melhor do que despedida prolongada que aumenta a ansiedade de ambos. Desenvolva um ritual consistente: abraço, beijo, "te amo", "volto logo" — e vá.

Evite despedidas às escondidas: Sair sem se despedir pode parecer mais fácil no momento, mas ensina à criança que você desaparece sem aviso — o que aumenta a insegurança.

Comunique-se adequadamente para a idade: Para crianças pequenas, conceitos abstratos de tempo não funcionam. Use referências concretas: "Mamãe volta depois de você dormir duas noites." Para crianças maiores, explique o que você vai fazer e quando volta.

Durante a Separação

Estabeleça momentos de conexão: Combine horários específicos para ligar ou fazer videochamada. Isso dá previsibilidade para você e para a criança, e evita checagens compulsivas.

Limite verificações: Checar constantemente não alivia a ansiedade — alimenta. Estabeleça limites razoáveis. Uma ou duas atualizações por dia geralmente são suficientes.

Permita-se estar presente no trabalho: Quando estiver em compromisso profissional, esteja presente. Dividir atenção constantemente prejudica tanto o trabalho quanto sua paz mental.

Prepare-se para dificuldades: Se a criança chorar na despedida ou parecer triste na ligação, isso é normal e não significa que algo está errado. Cuidadores experientes sabem lidar, e as crianças geralmente se acalmam rapidamente.

Depois da Separação

Reconecte-se com qualidade: Quando voltar, esteja genuinamente presente. Não tente compensar ausência com presentes ou permissividade — crianças precisam de conexão, não de coisas.

Processe a experiência: Observe: o que você temia aconteceu? Como seu filho estava quando você voltou? Colete evidências de que as separações são toleráveis.

Celebre o sucesso: Você fez a viagem. Você participou do jantar. Você está de volta. Reconheça isso em vez de apenas se criticar pelo que poderia ter sido "melhor".

Comunicação com Filhos de Diferentes Idades

A forma de comunicar e manejar a separação varia conforme a idade da criança.

Bebês e Toddlers (0-3 anos)

Rituais consistentes são especialmente importantes. Despedidas breves, objetos de transição (um lenço com seu perfume, por exemplo), e retorno previsível ajudam. Lembre-se: a ansiedade de separação do bebê é desenvolvimentalmente normal entre 8-18 meses.

Pré-Escolares (3-5 anos)

Podem entender explicações simples sobre onde você vai e quando volta. Use referências concretas de tempo. Desenhos, fotos suas, ou gravações de voz podem ser reconfortantes. Evite explicações longas ou emocionais — isso transmite que há algo a temer.

Crianças Escolares (6-12 anos)

Podem entender calendários e mapas. Mostrar onde você estará, deixar agenda com datas marcadas para seu retorno, combinar horários de ligação. Nessa idade, é útil envolvê-los na preparação, o que dá sensação de controle.

Adolescentes

Frequentemente preferem mais autonomia. Podem não querer tantas ligações quanto você gostaria — o que pode aumentar sua ansiedade. Respeite o espaço deles enquanto mantém disponibilidade. Mensagens de texto costumam funcionar melhor que ligações nessa fase.

Quando a Ansiedade É Excessiva

Algum nível de desconforto com separação é normal e até adaptativo. Mas quando a ansiedade é muito intensa, persistente, ou causa prejuízo significativo, vale buscar ajuda profissional.

Considere avaliação se você está evitando compromissos importantes por não conseguir lidar com a separação, se a ansiedade é desproporcional à situação real, se afeta seu funcionamento no trabalho ou sua saúde, se há sintomas de depressão ou ansiedade generalizada associados, ou se estratégias de autoajuda não estão funcionando.

Para entender melhor os desafios do retorno ao trabalho após a maternidade, leia nosso artigo sobre retorno ao trabalho pós-licença maternidade.

Considerações para Parceiros e Rede de Apoio

Se você tem parceiro, a divisão de responsabilidades parentais afeta diretamente a ansiedade de separação. Quanto mais o outro cuidador estiver envolvido no dia a dia, mais confiança você terá de que a criança estará bem em sua ausência.

Trabalhe para construir uma rede de cuidadores confiáveis. Quanto mais pessoas competentes e amorosas você tiver como opção, menos sobrecarregada se sentirá.

Comunique suas necessidades. Parceiros e familiares podem não perceber a intensidade da sua ansiedade ou como podem ajudar. Seja específica sobre o que precisa.

A ansiedade de separação materna é uma experiência comum, compreensível e tratável. Você não está sozinha nesse sentimento, e sentir ansiedade não significa que você é uma mãe inadequada — pode significar exatamente o oposto.

Mas a ansiedade não pode ser o único fator na tomada de decisões sobre sua carreira. Você tem o direito de ter uma vida profissional plena e também ser uma mãe presente. Essas coisas não são mutuamente exclusivas.

Com as estratégias certas e, quando necessário, suporte profissional, é possível manejar a ansiedade de separação de forma que ela não domine sua vida nem limite suas escolhas. Você pode ir à viagem, participar do jantar, buscar a promoção — e ainda assim ser a mãe que seus filhos precisam.

Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.

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