Retorno ao Trabalho Após Licença Maternidade: Guia com TCC
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

O retorno ao trabalho após licença maternidade é um momento que mistura ansiedade, culpa e insegurança. Você passou meses se dedicando integralmente ao seu bebê. Agora, diante da porta do escritório, seu coração dispara. Pensamentos como "será que ainda sei fazer meu trabalho?" ou "vão perceber que mudei" surgem automaticamente. Se você se identifica, saiba que essa experiência é mais comum do que imagina — e que existem ferramentas concretas para atravessar esse momento com mais segurança.
O retorno ao trabalho após a licença maternidade é um dos períodos de maior vulnerabilidade emocional na carreira de uma mulher. Não porque você tenha perdido suas competências (spoiler: não perdeu), mas porque está navegando uma transição de identidade profunda enquanto enfrenta um mercado que nem sempre acolhe essa realidade.
O Que Ninguém Te Conta Sobre Voltar ao Trabalho
Os números são reveladores — e preocupantes. Segundo pesquisa da FGV, 48% das mulheres estão fora do mercado de trabalho 12 meses após o início da licença maternidade. Metade delas são demitidas em até dois anos após o retorno.
Esses dados não refletem incompetência. Refletem um sistema que ainda não se adaptou à realidade de que mulheres podem ser excelentes profissionais E mães. Para executivas e mulheres em posições de liderança, essa pressão é amplificada: a expectativa de disponibilidade integral, viagens frequentes e jornadas estendidas colide frontalmente com as demandas de um recém-nascido.
O que torna esse período particularmente desafiador é a convergência de múltiplos fatores: privação de sono afetando concentração e memória, mudanças hormonais impactando o humor e a regulação emocional, reestruturação de identidade (quem sou eu agora que sou mãe?), pressão social para "voltar ao normal" rapidamente e medo de discriminação velada ou explícita.
Top tip
O retorno ao trabalho não é voltar a ser quem você era antes. É integrar uma nova dimensão da sua identidade — a maternidade — à profissional que você já construiu. Isso não é perda, é expansão.
Os 3 Pensamentos Automáticos Mais Comuns no Retorno
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, chamamos de "pensamentos automáticos" aquelas interpretações rápidas e involuntárias que fazemos das situações. No contexto do retorno ao trabalho, alguns padrões são extremamente frequentes:
1. "Vão achar que não estou mais comprometida"
Esse pensamento surge especialmente quando você precisa sair no horário para buscar o bebê na creche, ou quando não pode ficar para aquela reunião extra das 18h. A distorção cognitiva aqui é a leitura mental — você assume saber o que os outros pensam, sem evidências concretas.
Pergunta para reestruturação: Que evidências reais você tem de que seus colegas ou gestores pensam isso? É possível que essa seja uma projeção da sua própria autocrítica?
2. "Perdi meu lugar e minha relevância"
Enquanto você estava fora, projetos avançaram, decisões foram tomadas, talvez até reorganizações aconteceram. O pensamento de que você "ficou para trás" é uma forma de catastrofização — transformar uma situação desafiadora em um desastre irreversível.
Pergunta para reestruturação: Suas competências técnicas e experiência desapareceram? Ou você está confundindo "estar desatualizada em alguns detalhes" com "ser irrelevante"?
3. "Não consigo mais equilibrar tudo"
Esse é particularmente cruel porque frequentemente vem acompanhado de perfeccionismo. A expectativa de ser 100% em todas as áreas — profissional impecável, mãe presente, parceira atenta, amiga disponível — é matematicamente impossível.
Pergunta para reestruturação: Você está exigindo de si mesma um padrão que exigiria de qualquer outra pessoa na sua situação? O que você diria para uma amiga que expressasse esse mesmo pensamento?
Síndrome da Impostora Amplificada: Por Que Acontece Agora
Se você já experimentou a síndrome da impostora antes da maternidade, é provável que ela se intensifique no retorno. Se nunca havia sentido, este pode ser o momento em que ela aparece pela primeira vez.
Segundo pesquisa da KPMG, 75% das executivas já experimentaram a síndrome da impostora ao longo da carreira. O número sobe para 57% especificamente ao assumir um cargo de liderança — e o retorno da licença maternidade funciona, psicologicamente, como uma nova assunção de cargo.
Por que isso acontece? Há um gap de informação: você perdeu meses de contexto, conversas informais, mudanças sutis na dinâmica da equipe. Existe comparação desfavorável: você se compara com a versão pré-maternidade de si mesma, ignorando que aquela versão não tinha um bebê para cuidar. Surge autocobrança exacerbada: para "compensar" a ausência, muitas mulheres tentam trabalhar ainda mais do que antes, entrando em espiral de exaustão. E há feedback ambíguo: comentários como "que bom que você voltou, estávamos precisando" podem ser interpretados tanto positiva quanto negativamente por uma mente ansiosa.
Top tip
A síndrome da impostora se alimenta de comparações injustas. Você não está competindo com a profissional que era antes. Você está navegando uma fase completamente nova, com recursos e demandas diferentes. Ajuste suas métricas.
Culpa Materna vs. Ambição Profissional: Uma Falsa Dicotomia
"Se eu estou trabalhando, estou abandonando meu filho. Se estou com meu filho, estou prejudicando minha carreira."
Esse pensamento binário é uma das armadilhas cognitivas mais dolorosas do retorno ao trabalho. A culpa materna é um fenômeno tão prevalente que pesquisas indicam que 94% das mães a experimentam em algum grau.
O que a TCC nos ensina é que essa dicotomia é construída, não real. Você não precisa escolher entre ser uma boa mãe e uma boa profissional — essas identidades não são mutuamente exclusivas.
Reestruturando o mito da mãe perfeita
O conceito de "maternidade intensiva" — a ideia de que mães devem estar fisicamente presentes e emocionalmente disponíveis 24 horas por dia — é uma construção social relativamente recente e culturalmente específica. Gerações anteriores de mulheres trabalharam nos campos, nas fábricas, em comércios familiares, enquanto criavam filhos que se desenvolveram plenamente.
Evidências que contradizem a culpa: crianças de mães que trabalham fora desenvolvem maior autonomia e habilidades de resolução de problemas. A qualidade do tempo com os filhos importa mais do que a quantidade. Mães realizadas profissionalmente tendem a ter melhor saúde mental, o que beneficia toda a família. E filhas de mães que trabalham fora têm maior probabilidade de ocupar cargos de liderança quando adultas.
5 Técnicas TCC Para Um Retorno Mais Seguro
1. Registro de Pensamentos
Durante as primeiras semanas do retorno, mantenha um registro breve (pode ser no celular) dos pensamentos que geram ansiedade. Anote a situação (o que estava acontecendo), o pensamento (o que passou pela sua cabeça), a emoção (o que sentiu, de 0 a 10), as evidências a favor (o que sustenta esse pensamento), as evidências contra (o que contradiz esse pensamento) e um pensamento alternativo (uma interpretação mais equilibrada).
2. Exposição Gradual
Se a ansiedade é intensa, considere um retorno gradual quando possível. Comece com meio período na primeira semana, aumente progressivamente. Se isso não for viável no seu contexto, aplique a exposição gradual às tarefas: comece pelas mais familiares antes de assumir novos projetos.
3. Dessensibilização das "Situações Gatilho"
Identifique quais situações específicas disparam mais ansiedade (reuniões com a diretoria? Apresentações? Sair no horário enquanto colegas ficam?). Pratique mentalmente essas situações, visualizando-se lidando com elas de forma competente.
4. Prática de Autocompaixão
Substitua a autocrítica por autocompaixão. Quando perceber um pensamento severo ("sou uma fraude", "não deveria ter voltado"), pergunte-se: "O que eu diria para uma amiga querida nessa situação?" Provavelmente algo muito mais gentil.
5. Planejamento Comportamental
Antecipe desafios e planeje respostas. Se você sabe que terá dificuldade em sair no horário, já deixe combinado com a equipe. Se reuniões à noite são problemáticas, proponha alternativas. Ter um plano reduz a ansiedade da incerteza.
Top tip
Estabeleça um "período de adaptação" mental de 3 a 6 meses. Não espere voltar ao seu nível de produtividade anterior imediatamente. Dê a si mesma permissão para reaprender seu próprio ritmo nessa nova configuração de vida.
Quando Buscar Ajuda Profissional
O desconforto no retorno ao trabalho é esperado. Mas alguns sinais indicam que você pode se beneficiar de acompanhamento psicológico especializado: ansiedade persistente que não diminui após as primeiras semanas, crises de choro frequentes especialmente se parecem desproporcionais à situação, insônia que vai além da causada pelo bebê, pensamentos intrusivos sobre ser uma mãe ou profissional inadequada, sintomas físicos como taquicardia, tremores e dores de cabeça frequentes, evitação de situações de trabalho que antes eram confortáveis, dificuldade de concentração que persiste além das primeiras semanas, ou pensamentos de burnout e esgotamento extremo.
A Terapia Cognitivo-Comportamental tem forte evidência científica para ansiedade relacionada ao trabalho. Estudos mostram que a TCC focada no trabalho (Work-Focused CBT) pode acelerar em até 65 dias o retorno integral de pessoas afastadas por questões de saúde mental.
O retorno ao trabalho após licença maternidade não precisa ser uma batalha solitária. Com as ferramentas certas — e, quando necessário, com apoio profissional — é possível atravessar esse período construindo uma integração saudável entre suas identidades de profissional e mãe.
Você não precisa provar nada para ninguém. As competências que a trouxeram até aqui não desapareceram. E a experiência da maternidade, longe de ser um obstáculo, pode adicionar novas dimensões à sua liderança: empatia, gestão de crises, priorização radical, resiliência.
Se você está passando por esse momento e sente que poderia se beneficiar de um espaço de acolhimento e técnicas práticas para navegar essa transição, entre em contato. Podemos trabalhar juntas para que esse retorno seja não apenas possível, mas sustentável.
