Culpa por Terceirizar Cuidados dos Filhos para a Babá
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você chega em casa depois de um dia longo de trabalho. Sua filha corre para abraçar a babá. O primeiro passo dela foi dado quando você estava em reunião. A primeira palavra foi "Ana" — o nome da empregada que passa mais tempo com ela do que você. Seu coração se aperta. Você é a mãe, mas às vezes se sente como a tia que visita.
A culpa de terceirizar os cuidados dos filhos é uma das mais intensas que executivas enfrentam. A sensação de que "outra pessoa está criando meu filho" enquanto você trabalha pode ser paralisante. E no Brasil, onde a cultura da maternidade intensiva ainda é muito forte, essa culpa é amplificada.
Mas o que a ciência realmente diz sobre os filhos de mães que trabalham? E o que você pode fazer para manejar essa culpa sem destruir nem sua carreira nem seu bem-estar?
Neste artigo, vou apresentar as evidências sobre trabalho materno e desenvolvimento infantil, e como a TCC pode ajudar você a ressignificar a terceirização de cuidados. Como especialista em TCC, trabalho regularmente com mães executivas nessa situação. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.
O Que a Ciência Diz
Antes de mergulhar na culpa, vale olhar para o que as pesquisas realmente mostram sobre filhos de mães que trabalham.
Décadas de Pesquisa
Uma meta-análise de 69 estudos ao longo de cinco décadas encontrou que o emprego materno precoce estava associado a resultados benéficos para as crianças quando as famílias enfrentavam desafios financeiros ou eram monoparentais. Nessas famílias, filhos de mães trabalhadoras mostraram níveis mais altos de desempenho e níveis mais baixos de comportamentos internalizantes como ansiedade e depressão.
Qualidade, Não Quantidade
Pesquisas sugerem que mães que trabalham em tempo integral tendem a usar cuidados substitutos de maior qualidade e a mostrar níveis mais altos de sensibilidade aos seus filhos. Os pesquisadores especulam que os níveis mais altos de sensibilidade materna vistos em mães empregadas podem derivar de sua maior segurança financeira.
Como Mães Trabalhadoras Compensam
Estudos mostram que mães trabalhadoras compensam suas atividades no mercado de trabalho sacrificando aspectos de sua vida pessoal e doméstica — como sono, lazer e tarefas domésticas — para poderem passar tempo com os filhos. Elas protegem o tempo que envolve engajamento direto com as crianças.
Cuidado Infantil de Qualidade
Pesquisas sobre creches mostram que o cuidado infantil de qualidade proporciona às crianças interações sociais importantes que podem melhorar seu comportamento. Um estudo publicado no Journal of Epidemiology & Community Health conclui que "cuidado infantil de alta qualidade em centros pode estar ligado a níveis mais baixos de sintomas emocionais."

Atitudes em Mudança
As visões sociais melhoraram ao longo do tempo. Pesquisas mostram que em 1985, 55% dos adultos diziam que "uma criança em idade pré-escolar provavelmente sofrerá se a mãe trabalhar" — mas em 2012, apenas 35% dos adultos concordavam com essa afirmação.
A mensagem da ciência é clara: mães não devem ser feitas a se sentir culpadas porque precisam trabalhar. Realmente é preciso uma aldeia para criar uma criança, e se as famílias encontram cuidado de alta qualidade, as crianças podem se beneficiar dele.
Top tip
A qualidade do tempo que você passa com seus filhos importa mais do que a quantidade. Uma hora de presença genuína, engajada e amorosa vale mais do que um dia inteiro de presença física mas distraída.
A Origem da Culpa
Se a ciência mostra que filhos de mães trabalhadoras podem ter resultados tão bons ou melhores, por que a culpa persiste?
Crenças Culturais Sobre "Boa Mãe"
No Brasil, a idealização da mãe que se dedica exclusivamente aos filhos ainda é forte. A "boa mãe" é aquela que está sempre presente, que nunca delega, que sacrifica tudo pela família. Qualquer desvio dessa imagem pode gerar julgamento — externo e interno.
Comparação Social
Você vê mães que parecem fazer tudo — trabalhar, cuidar, cozinhar, participar de todas as atividades escolares — e se sente inadequada. O que você não vê é o que essas mães estão sacrificando (frequentemente sua saúde mental) ou as equipes de suporte que têm por trás.
Pensamentos Automáticos Distorcidos
A culpa frequentemente vem de pensamentos como "meu filho vai se sentir abandonado", "a babá está me substituindo", "ele vai me amar menos", "estou sendo egoísta por querer ter carreira". Esses pensamentos são compreensíveis, mas frequentemente distorcidos.
Momentos de "Evidência"
Quando sua filha corre para a babá em vez de você, ou quando a babá sabe algo sobre seu filho que você não sabia, parece "prova" de que você está falhando. Mas esses momentos são interpretados de forma excessivamente negativa — crianças formam vínculos com cuidadores, e isso é saudável, não um sinal de que você está sendo substituída.
Abordagem TCC: O Que Trabalhamos
A TCC oferece ferramentas eficazes para manejar a culpa de terceirizar cuidados.
Identificação de Crenças Rígidas
Trabalhamos para identificar crenças rígidas sobre maternidade: "Uma boa mãe está sempre presente." "Ninguém cuida dos meus filhos como eu." "Meus filhos vão sofrer porque trabalho." Essas crenças, quando absolutas, geram culpa desproporcional.
Questionamento de Evidências
Qual a evidência real de que seus filhos estão sofrendo? Como eles estão se desenvolvendo? Eles parecem felizes, saudáveis, seguros? O que você observa, não o que você teme?
Reestruturação Cognitiva
Desenvolvemos perspectivas mais equilibradas. "Uma boa mãe" pode ser "uma mãe que garante que seu filho tenha cuidado de qualidade, seja ela própria ou com apoio". "Meus filhos formarem vínculos com outros cuidadores" é sinal de capacidade de criar relacionamentos, não de abandono.
Aceitação de Imperfeição
Nenhuma mãe — trabalhando fora ou não — é perfeita. A busca pela perfeição materna é uma armadilha que garante culpa. Trabalhamos para aceitar que "bom o suficiente" é genuinamente bom o suficiente.
Para aprofundar estratégias sobre culpa materna, leia nosso artigo sobre culpa materna e TCC.

Qualidade vs. Quantidade de Tempo
Uma das mudanças mais importantes é repensar o que significa "estar presente".
Top tip
Estratégias para Mães que Trabalham:
- Priorize tempo de qualidade: engajamento genuíno, não presença distraída
- Crie rituais de conexão: café da manhã, história antes de dormir
- Guarde o celular quando estiver com seus filhos
- Delegue tarefas domésticas, proteja tempo de conexão emocional
- Invista em cuidadores de confiança que compartilhem seus valores
- Lembre-se: seu filho pode amar a babá E amar você
O Que É Tempo de Qualidade
Tempo de qualidade não é estar no mesmo ambiente enquanto você trabalha no laptop. É engajamento genuíno: brincar junto, conversar olho no olho, ler histórias, passear, fazer atividades juntos. É estar mentalmente presente, não apenas fisicamente.
Como Maximizar o Tempo Disponível
Quando você está com seus filhos, esteja realmente com eles. Guarde o celular. Desligue o e-mail. Esse tempo limitado mas de alta qualidade pode ser mais valioso do que horas de presença distraída.
Rituais de Conexão
Crie rituais que marquem seu tempo junto: café da manhã todos os dias, história antes de dormir, passeio de fim de semana. Esses rituais criam previsibilidade e conexão, mesmo quando o tempo é limitado.
O Que Você Pode Delegar
Tarefas domésticas, logística, cuidados básicos podem ser delegados. O que você protege é o tempo de conexão emocional. Você não precisa dar banho para ser uma boa mãe — você precisa ter momentos de intimidade emocional.
Escolhendo Bem Quem Cuida
Parte de reduzir a culpa é garantir que você confia genuinamente em quem cuida dos seus filhos.
Qualidade do Cuidador
Invista tempo em encontrar cuidadores de qualidade. Uma babá competente, amorosa e confiável vale cada centavo e hora de seleção. Quando você confia de verdade no cuidador, a culpa diminui.
Comunicação Clara
Mantenha comunicação aberta com os cuidadores sobre rotinas, valores, limites. Você está delegando o cuidado, não a criação. Os valores e decisões importantes são seus.
Supervisão Adequada
Confiar não significa não supervisionar. Checar como estão as coisas, pedir feedback, observar a relação do cuidador com seus filhos são formas de garantir qualidade sem microgerenciar.
Quando a Culpa É Desproporcional
Algum nível de tensão entre trabalho e maternidade é normal. Mas quando a culpa se torna paralisante, constante ou causa sofrimento significativo, vale buscar ajuda.
Sinais de Alerta
Se você está evitando oportunidades profissionais por culpa excessiva, se a culpa está afetando sua saúde mental ou física, se você sente que "nunca é suficiente" independente do que faça, se está considerando largar uma carreira que ama apenas por culpa — esses são sinais de que a culpa se tornou desproporcional.
O Papel da Terapia
Na terapia, trabalhamos para identificar as raízes da culpa, questionar crenças rígidas, desenvolver perspectivas mais equilibradas, e construir estratégias para funcionar bem tanto como profissional quanto como mãe.
Se você também cuida de pais idosos além dos filhos, leia nosso artigo sobre geração sanduíche.
Terceirizar cuidados não é terceirizar maternidade. Você continua sendo a mãe — com todos os direitos e responsabilidades que isso envolve. O que você está fazendo é construir uma rede de apoio para criar seus filhos, como seres humanos sempre fizeram.
A aldeia que cria a criança pode incluir babás, avós, creches, escolas. Essas pessoas não substituem você — elas complementam você. Seu filho pode amar a babá e amar você. Essas coisas não são mutuamente exclusivas.
Décadas de pesquisa mostram que filhos de mães trabalhadoras podem prosperar. O que importa é a qualidade do cuidado — tanto o que você oferece quanto o que você garante através de outros cuidadores.
A culpa é real, mas pode ser trabalhada. Com as ferramentas certas, você pode construir uma carreira significativa e também ser a mãe que seus filhos precisam — não a mãe perfeita que a sociedade imagina, mas uma mãe real, presente quando está presente, e amorosa sempre.
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