Medo de Pedir Aumento: Por Que a Negociação É Mais Difícil

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Medo de Pedir Aumento: Por Que a Negociação É Mais Difícil

Você sabe que merece ganhar mais. Sabe que suas entregas justificam um aumento. Sabe que colegas na mesma posição ganham mais. Mas na hora de marcar aquela conversa, algo trava. Pensamentos como "vão me achar gananciosa", "e se me recusarem?", "melhor esperar o momento certo" se repetem — e o "momento certo" nunca chega.

A ansiedade relacionada a pedir aumento é uma das queixas mais frequentes entre executivas em terapia. E por muito tempo, acreditou-se que mulheres simplesmente não negociavam tanto quanto homens. Mas pesquisas recentes derrubaram esse mito: mulheres negociam mais do que homens — e ainda assim ganham menos.

O problema não é que mulheres não pedem. É que, quando pedem, são mais frequentemente recusadas. Isso cria um ciclo vicioso: você pede, é recusada, e a próxima vez terá ainda mais medo de pedir.

Neste artigo, vou explorar a realidade da negociação salarial para mulheres, por que a ansiedade nesse contexto é compreensível, e como a TCC pode ajudar você a negociar com mais confiança. Como especialista em TCC, trabalho regularmente com executivas enfrentando essa dificuldade. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.

Os Dados Que Derrubam o Mito

Top tip

Estratégias para Negociar Aumento com Confiança:

  • Documente suas entregas: projetos, resultados, valor agregado
  • Pesquise valor de mercado em fontes confiáveis antes de pedir
  • Escolha o momento: após entregas, ciclos de revisão, empresa estável
  • Pratique em voz alta — literalmente ensaie a conversa
  • Prepare respostas para objeções comuns
  • Não aceite contraproposta imediatamente: "Posso considerar até amanhã?"

Por décadas, a narrativa dominante era que o gap salarial existia porque mulheres não negociavam. Mas os dados de 2024 contam uma história diferente.

Mulheres Negociam Mais

Estudo de UC Berkeley de 2024 com quase 1.000 formandos de uma das principais escolas de negócios americanas revelou que 54% das mulheres relataram negociar salário, contra 44% dos homens.

A pesquisadora Laura Kray observa: "Enquanto homens no passado podem ter sido mais propensos a negociar, a diferença de gênero se reverteu. Continuar culpando mulheres por não negociar causa dano duplo: perpetua estereótipos e enfraquece esforços para combatê-los."

Mas Mulheres São Mais Recusadas

Dados do Pew Research mostram que mulheres são mais propensas que homens (38% vs 31%) a dizer que, após pedirem aumento, receberam apenas o que inicialmente foi oferecido.

No mesmo estudo de Berkeley, mulheres ganhavam em média 22% menos que homens — e a única diferença que emergiu foi que mais mulheres tentaram negociar e mais mulheres foram recusadas.

O Gap Persiste

Dados de 2024 mostram que mulheres ganham em média 18% menos que homens por hora trabalhada (controlando por raça, educação, idade e localização). É o menor gap já registrado — mas ainda é significativo.

Entre formandas de MBA, a diferença é ainda mais preocupante: no início, mulheres ganham 88% do que homens ganham. Após 10 anos, esse número cai para 63%.

Preparando-se para negociação salarial com confiança

Por Que a Ansiedade É Compreensível

Dada essa realidade, a ansiedade em relação a pedir aumento faz sentido. Não é paranoia — é uma resposta adaptativa a dados reais.

Experiências Anteriores de Rejeição

Se você já pediu aumento e foi recusada (ou viu isso acontecer com colegas mulheres), seu cérebro aprendeu que pedir é arriscado. A ansiedade é uma forma de proteção contra uma experiência dolorosa anterior.

Menor Tolerância para Assertividade Feminina

Pesquisas mostram que há menor tolerância para assertividade vindo de mulheres. Homens que negociam são vistos como "confiantes"; mulheres que fazem o mesmo podem ser vistas como "difíceis", "gananciosas" ou "agressivas".

Esse viés é real e você provavelmente já o sentiu — o que aumenta a ansiedade de ser julgada negativamente por defender seus interesses.

A Síndrome da Impostora

Mesmo com resultados concretos, você pode duvidar se realmente merece mais. "Talvez eu esteja pedindo demais." "Talvez eu não seja tão boa quanto penso." Esses pensamentos sabotam a negociação antes mesmo de começar.

O Medo de Prejudicar Relacionamentos

Mulheres são socializadas para manter harmonia e evitar conflitos. Pedir aumento pode parecer colocar seus interesses acima do time ou da empresa — algo que conflita com expectativas internalizadas sobre como mulheres devem se comportar.

Top tip

O medo de pedir aumento não é fraqueza pessoal. É uma resposta racional a um ambiente que historicamente penaliza mulheres por se autoadvocarem. Reconhecer isso é o primeiro passo para negociar de forma mais estratégica.

Como a Ansiedade Se Manifesta

A ansiedade de negociação aparece de várias formas que vale identificar.

Procrastinação Crônica

"Vou esperar o próximo trimestre." "Melhor depois da avaliação." "Não é o momento certo." O "momento certo" é um alvo móvel que nunca chega — e a procrastinação é frequentemente evitação da ansiedade disfarçada.

Minimização das Próprias Conquistas

Quando você pensa no que fez pela empresa, a mente minimiza: "Todo mundo faz isso." "É minha obrigação." "Não foi tão importante assim." Essa minimização enfraquece sua posição de negociação.

Preparação Excessiva (ou Insuficiente)

Algumas mulheres preparam-se obsessivamente — pesquisando cada detalhe, ensaiando cada frase — mas nunca sentem que estão prontas o suficiente. Outras evitam preparar porque isso tornaria a negociação "real demais".

Sintomas Físicos

Pensar na conversa já dispara ansiedade: taquicardia, suor, tensão muscular, dificuldade de concentração. Esses sintomas podem ser tão desconfortáveis que a evitação parece a única saída.

Aceitar Menos do Que Deveria

Quando finalmente você pede, a ansiedade pode fazer você aceitar a primeira contraproposta, negociar pouco, ou agradecer pelo que recebeu quando deveria pedir mais.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos

A TCC oferece ferramentas específicas para lidar com a ansiedade de negociação e desenvolver habilidades práticas.

Reestruturação de Crenças Sobre Autopromoção

"Pedir aumento é ganância." "Deveria ser reconhecida sem precisar pedir." "Mulheres que pedem são mal vistas." Essas crenças, quando examinadas, frequentemente não se sustentam — ou, se refletem vieses reais, podem ser navegadas estrategicamente.

Dessensibilização Gradual

Se a ansiedade é intensa, trabalhamos exposição gradual: primeiro pensar na negociação, depois falar sobre ela em terapia, depois ensaiar em role-play, depois ter conversas "menores" (pedir feedback, por exemplo), até finalmente ter a conversa de aumento.

Treinamento de Assertividade

Assertividade é uma habilidade que pode ser aprendida. Técnicas específicas para negociação — como preparar argumentos baseados em dados, antecipar objeções, e manter postura mesmo sob pressão — são trabalhadas.

Preparação para Rejeição

Uma parte importante é preparar-se emocionalmente para a possibilidade de ser recusada. O que você fará se ouvir "não"? Como não interpretar rejeição como falha pessoal? Ter um plano para rejeição reduz o medo dela.

Reformulação de "Não" para "Ainda Não"

Rejeição não precisa ser o fim da conversa. "Não agora" pode se tornar "o que preciso fazer para que seja sim no futuro?" Essa reformulação mantém você no jogo mesmo após recusa.

Apresentando seu valor com assertividade na negociação

Estratégias Práticas de Negociação

Além do trabalho emocional, estratégias práticas aumentam suas chances de sucesso.

Documente Suas Entregas

Antes de qualquer conversa, tenha registro concreto do que você fez: projetos entregues, resultados atingidos, valor agregado. Não confie na memória (nem na sua, nem na do gestor).

Pesquise Valores de Mercado

Saiba quanto sua função paga em outras empresas. Sites de pesquisa salarial, conversas com recruiters, networking. Vá com dados, não com sensação.

Escolha o Momento Estrategicamente

Após uma grande entrega, quando a empresa está indo bem, durante ciclos de revisão salarial. Evite pedir quando a empresa anuncia cortes ou quando você acabou de cometer um erro visível.

Pratique Em Voz Alta

Ensaie literalmente — sozinha ou com alguém de confiança. A prática reduz ansiedade e melhora performance. Grave-se e ouça. Note onde você minimiza, onde sua voz enfraquece.

Prepare-se para Objeções

Liste as objeções prováveis e prepare respostas. "Orçamento está apertado" — "Podemos definir uma data para revisão?" "Você já recebeu aumento recente" — "Esse aumento não equiparou meu salário ao mercado."

Tenha Alternativas

Se o aumento não vier, o que mais você pode negociar? Dias de home office, bônus por projeto, orçamento de desenvolvimento. E, em último caso, ter outras ofertas de mercado fortalece sua posição.

Não Aceite na Hora

Se receber uma contraproposta, você pode (e deve) pedir tempo para pensar. "Posso considerar e voltar amanhã?" dá espaço para avaliar sem a pressão do momento.

Quando Negociar Se Torna Padrão de Evitação

Às vezes, a dificuldade de negociar faz parte de um padrão mais amplo de evitação que pode precisar de atenção profissional.

Considere buscar avaliação se você evita consistentemente qualquer situação que envolva defender seus interesses, se a ansiedade de negociação está generalizando para outras áreas (pedir favores, estabelecer limites), se você tem histórico de ficar em posições aquém do seu potencial por medo de pedir mais, se a procrastinação para ter essa conversa já dura meses ou anos, se tentativas anteriores de negociar resultaram em experiências traumáticas que você não consegue superar sozinha, ou se estratégias de autoajuda não estão funcionando.

A ansiedade de pedir aumento é compreensível dadas as realidades que mulheres enfrentam no mercado de trabalho. Você não está exagerando, não é paranoia, não é falta de confiança.

Mas compreender a origem da ansiedade é diferente de aceitá-la como destino. Com as ferramentas certas — cognitivas, emocionais e práticas — você pode negociar com mais confiança, lidar melhor com rejeição, e persistir mesmo quando o sistema não facilita.

Você merece ser paga pelo valor que entrega. E aprender a pedir isso é uma habilidade que pode ser desenvolvida.

Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.

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