Comunicação Assertiva: O Que Toda Executiva Precisa Saber

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Comunicação Assertiva: O Que Toda Executiva Precisa Saber

Você já saiu de uma reunião importante sabendo que tinha algo relevante a dizer, mas não disse? Talvez tenha concordado com uma decisão que achava equivocada, ou engolido um "não" que deveria ter falado. Se isso soa familiar, você não está sozinha.

A dificuldade em se comunicar de forma assertiva é uma das queixas mais comuns entre mulheres em posições de liderança. E, diferente do que muitas acreditam, não se trata de uma falha pessoal — mas de um sistema que penaliza mulheres por comportamentos que são premiados em homens.

Neste artigo, vamos entender por que isso acontece e, mais importante, como a Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas práticas para desenvolver uma comunicação assertiva autêntica.

O Double Bind: Por Que Mulheres Hesitam em Ser Assertivas

O termo "double bind" (duplo vínculo) descreve uma situação impossível de vencer: se você é assertiva, é vista como "agressiva" ou "difícil"; se é reservada, é considerada "fraca" ou "sem presença executiva".

Os dados confirmam que essa percepção não é paranoia. Segundo pesquisa da McKinsey e Yale University, mulheres que se expressam assertivamente em reuniões são avaliadas como 14% menos competentes do que mulheres que falam pouco. Para homens, o efeito é o oposto: quanto mais falam, mais competentes parecem.

Estudos da Harvard Kennedy School mostram que mulheres percebidas como "críticas" ou assertivas são consideradas merecedoras de até $15.000 a menos em salário por comportamento idêntico ao de colegas homens.

No Brasil, o contexto não é diferente. Pesquisa da Agência Brasil mostra que mulheres ocupam apenas 39,3% dos cargos gerenciais, e 60% das executivas brasileiras relatam que sexismo e estrutura machista são empecilhos para sua ascensão profissional.

Se você já sentiu que precisa "modular" sua comunicação para ser aceita, saiba que não está imaginando coisas. O double bind é real — e reconhecê-lo é o primeiro passo para navegá-lo com mais consciência.

Top tip

O double bind não é culpa sua. É uma estrutura de poder que penaliza mulheres assertivas. Reconhecer isso não significa aceitar — significa entender o contexto para agir estrategicamente.

O Custo Silencioso da Não-Assertividade

Muitas executivas desenvolvem um padrão de evitação: para não serem vistas como "difíceis", preferem não se posicionar. O problema é que essa estratégia cobra um preço alto em saúde mental.

Dados da McKinsey mostram que 43% das mulheres em cargos executivos reportam sintomas de burnout, contra 31% dos homens. A pesquisa também indica que até 75% das executivas já experimentaram síndrome da impostora.

Não é coincidência. Quando você silencia suas ideias repetidamente, reforça internamente a crença de que "minha opinião não é válida" ou "não tenho direito de discordar". Esse ciclo alimenta ansiedade, insegurança e esgotamento.

O padrão funciona assim: imagine uma situação como uma reunião onde você discorda da proposta. Surge o pensamento automático "se eu falar, vão me achar agressiva". Como comportamento, você se cala. A consequência imediata é alívio temporário — você evitou o "risco". Mas a consequência a longo prazo é devastadora: reforço da crença de que você não pode se expressar, frustração acumulada e perda de oportunidades de crescimento.

Se você se identifica com o artigo por que executivas dizem sim para tudo, a comunicação assertiva é a outra face dessa mesma questão.

4 Técnicas de TCC Para Desenvolver Assertividade

A boa notícia é que assertividade é uma habilidade que pode ser desenvolvida. A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece técnicas específicas e cientificamente validadas para isso.

Uma meta-análise de 2024 publicada no PMC demonstrou que o treino de assertividade produz redução significativa de ansiedade, estresse e depressão, além de melhora na autoestima.

1. Identificando Pensamentos Automáticos

O primeiro passo é reconhecer os pensamentos que bloqueiam sua assertividade. Eles geralmente aparecem de forma automática e parecem "verdades absolutas". Você pode pensar "vão me achar agressiva se eu discordar" ou "não tenho direito de questionar meu chefe". Surgem também crenças como "se eu pedir o que preciso, vão me ver como difícil" e "minha opinião não é tão importante assim". Na TCC, usamos o registro de pensamentos para identificar esses padrões. Quando notar hesitação em se posicionar, pergunte-se:

  • O que passou pela minha mente nesse momento?
  • Qual a evidência real de que isso vai acontecer?
  • O que eu diria a uma amiga nessa mesma situação?
  • Qual a pior coisa que pode acontecer? E qual a probabilidade real?

Essas perguntas ajudam a separar pensamentos distorcidos de avaliações realistas da situação.

2. A Escada da Assertividade (Exposição Gradual)

Você não precisa começar confrontando seu CEO em reunião de diretoria. A técnica da exposição gradual propõe construir assertividade como qualquer outra habilidade — progressivamente.

Crie sua própria "escada de assertividade", ordenando situações do menos ao mais desafiador:

NívelSituação
1Expressar preferência em situação informal
3Pedir ajuda a colega de confiança
5Dar opinião diferente em reunião pequena
7Dar feedback crítico a subordinado
8Discordar de superior em reunião
10Negociar aumento ou promoção
Escada da assertividade - mulher subindo degraus progressivos de confiança

Comece pelo nível 1 e pratique até sentir-se confortável antes de avançar. O objetivo é habituação: quanto mais você pratica, menor a ansiedade associada ao comportamento.

3. Ensaio Comportamental com Técnica DESC

O ensaio comportamental é uma forma de "treinar" situações difíceis antes que aconteçam. A técnica DESC oferece uma estrutura clara para comunicação assertiva:

  • Descrever a situação (fatos, sem julgamento)
  • Expressar como você se sente
  • Sugerir uma solução ou mudança
  • Consequências (benefícios de seguir sua sugestão)

Exemplo prático — Discordar em reunião:

"Entendo a proposta de cortar o orçamento de treinamento (D). Fico preocupada com o impacto na retenção de talentos (E). Sugiro mantermos pelo menos 60% do orçamento focado em liderança (S). Isso pode nos ajudar a reduzir turnover, que está nos custando muito mais (C)."

Exemplo prático — Estabelecer limite:

"Percebi que tenho recebido demandas urgentes após às 19h (D). Isso tem afetado minha qualidade de sono e produtividade no dia seguinte (E). Gostaria de combinar que urgências reais sejam sinalizadas por ligação, e não por mensagem (S). Assim consigo responder rapidamente o que é crítico e entregar melhor durante o horário comercial (C)."

Quem lida com dependência emocional no trabalho — necessidade excessiva de aprovação dos colegas — pode encontrar na técnica DESC uma forma de estruturar pedidos sem parecer "exigente".

4. Testando Suas Previsões

Uma das técnicas mais poderosas da TCC é o experimento comportamental: testar na prática se suas previsões catastróficas se confirmam.

Funciona assim: primeiro, identifique a previsão — por exemplo, "se eu discordar do meu chefe, ele vai me ver como difícil e isso vai prejudicar minha carreira". Depois, estime a probabilidade que você atribui a esse cenário, digamos "80% de chance de isso acontecer". O próximo passo é executar o comportamento assertivo, discordando respeitosamente. Em seguida, observe o resultado real: o que aconteceu de fato? Por fim, compare a predição com a realidade: a previsão se confirmou? Na maioria das vezes, você descobrirá que suas previsões catastróficas são superestimadas. Cada experiência contrária enfraquece a crença limitante.

Se você já sofreu gaslighting no trabalho, pode ter aprendido a desconfiar da sua própria percepção. Os experimentos comportamentais ajudam a reconstruir essa confiança com evidências concretas.

Assertividade Não É Agressividade

Uma confusão comum é equiparar assertividade com agressividade. São estilos de comunicação completamente diferentes:

PassivoAssertivoAgressivo
Não expressa necessidadesExpressa necessidades com clarezaImpõe necessidades sobre os outros
Prioriza o outro sempreBusca equilíbrioDesconsidera o outro
"Tanto faz""Eu prefiro X, mas estou aberta a discutir""Vai ser do meu jeito"
Tom hesitante, pedindo desculpasTom firme e respeitosoTom hostil ou condescendente

Dica prática: Use "value phrases" para reduzir backlash. Pesquisas mostram que iniciar posicionamentos com frases que demonstram consideração pelo outro reduzem a percepção negativa em até 27%. Experimente abrir com "porque valorizo nossa parceria, preciso ser clara sobre..." ou "pensando no melhor resultado para o time, sugiro que...". Outra opção eficaz é "para garantir que entreguemos o melhor trabalho, preciso de...". Essas frases sinalizam cooperação antes do posicionamento firme.

Linguagem corporal também importa: mantenha contato visual, postura aberta e tom de voz firme (não alto). Evite qualificadores que enfraquecem sua mensagem: "acho que talvez", "desculpa incomodar, mas", "não sei se é importante, porém".

Conclusão: Assertividade Como Autocuidado

Desenvolver comunicação assertiva não é sobre "vencer" discussões ou impor sua vontade. É sobre honrar suas ideias, necessidades e limites — sem desrespeitar os dos outros.

Para mulheres em posições de liderança, assertividade é também uma forma de autocuidado. Cada vez que você silencia uma opinião válida ou aceita uma sobrecarga que não deveria, está cobrando um preço da sua saúde mental.

As técnicas que apresentei aqui — reestruturação cognitiva, exposição gradual, ensaio comportamental e experimentos — são ferramentas que funcionam. Mas, como qualquer habilidade complexa, se beneficiam de acompanhamento profissional.

Se você se identificou com este artigo e quer desenvolver uma comunicação mais assertiva de forma estruturada, a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar. Entre em contato para saber mais sobre como podemos trabalhar juntas nisso.

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