Distorções Cognitivas na Depressão: 10 Padrões de Pensamento

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Distorções Cognitivas na Depressão: 10 Padrões de Pensamento

"Eu nunca faço nada certo." "Todo mundo vai me julgar." "Se eu não for perfeita, sou um fracasso total." Você reconhece esses pensamentos? Eles parecem tão verdadeiros quando surgem — automáticos, convincentes, inquestionáveis. Mas são eles que mantêm você presa na depressão.

Esses são exemplos de distorções cognitivas: padrões de pensamento distorcidos que fazem você perceber a realidade de forma mais negativa do que ela realmente é. E a boa notícia é que, uma vez identificados, podem ser questionados e transformados.

Pesquisas de 2024 mostram que mudanças nas distorções cognitivas precedem e predizem mudanças nos sintomas afetivos da depressão — e vice-versa. Ou seja, trabalhar seus pensamentos muda como você se sente. Isso não é teoria: é o fundamento da Terapia Cognitivo-Comportamental.

Neste artigo, vou apresentar as 10 distorções cognitivas mais comuns na depressão, com exemplos práticos do contexto profissional e pessoal, e mostrar como começar a questioná-las. Como especialista em TCC, uso essas técnicas diariamente com minhas pacientes. Se você precisa de ajuda, entre em contato.

O Que São Distorções Cognitivas

Distorções cognitivas são erros sistemáticos no processamento de informações que afetam como você interpreta situações.

A Descoberta de Aaron Beck

O psiquiatra Aaron Beck desenvolveu a Teoria das Distorções Cognitivas durante suas pesquisas sobre depressão nas décadas de 1960-70. Ele observou que pessoas deprimidas não apenas se sentiam mal — elas pensavam de formas caracteristicamente distorcidas sobre si mesmas, o mundo e o futuro.

Pensamentos Automáticos

Pesquisas indicam que distorções cognitivas são pensamentos que fazem o indivíduo perceber a realidade de forma imprópria. Esse processamento inadequado de informações afeta humor, comportamento e fisiologia, reforçando emoções negativas e mantendo a depressão.

Esses pensamentos são chamados "automáticos" porque surgem instantaneamente, sem esforço consciente. Você não decide pensar "sou um fracasso" — o pensamento simplesmente aparece, como reflexo.

Por Que Importa Identificá-los

Se você não percebe que seus pensamentos são distorcidos, aceita-os como verdade. E se são "verdade", não há razão para questioná-los. Identificar distorções é o primeiro passo para quebrar esse ciclo: você passa de vítima dos pensamentos para observadora crítica deles.

Transformando padrões de pensamento negativos em perspectivas equilibradas

As 10 Distorções Mais Comuns

Veja os padrões de pensamento que mais frequentemente mantêm a depressão.

1. Pensamento Tudo ou Nada

Também chamado de pensamento dicotômico ou preto-e-branco. Você vê situações em termos absolutos, sem nuances ou gradações.

Exemplos incluem: "Se não fiz perfeito, é um fracasso total"; "Se ele não me ama completamente, não me ama de verdade"; "Se não consigo fazer tudo, não adianta fazer nada."

No trabalho: Você apresentou um projeto e recebeu 95% de elogios com uma pequena sugestão de melhoria. Seu pensamento: "Foi um desastre."

2. Catastrofização

Você espera o pior cenário possível, amplificando a gravidade de situações negativas.

Exemplos incluem: "Se eu cometer esse erro, vou ser demitida"; "Se ele não respondeu, algo terrível aconteceu"; "Esse sintoma físico só pode ser uma doença grave."

No trabalho: Você recebe um e-mail do chefe pedindo para conversar. Seu pensamento imediato: "Vou ser demitida." A realidade: ele queria sua opinião sobre um projeto.

3. Filtro Mental (Abstração Seletiva)

Você foca exclusivamente nos aspectos negativos de uma situação, ignorando tudo de positivo.

Exemplos incluem: receber 10 elogios e 1 crítica e só conseguir pensar na crítica; ter um dia produtivo, mas cometer um pequeno erro que domina sua mente; um relacionamento com muitos pontos positivos, mas você só enxerga os problemas.

Na maternidade: Você passou o dia inteiro cuidando bem dos filhos, mas perdeu a paciência uma vez. Seu pensamento: "Sou uma mãe terrível."

4. Desqualificação do Positivo

Você reconhece eventos positivos, mas os descarta ou minimiza ativamente.

Exemplos:

  • "Ela só elogiou porque é educada."
  • "Consegui a promoção, mas foi sorte."
  • "Ele disse que me ama, mas não sabe quem eu realmente sou."

No trabalho: Você recebe reconhecimento por um projeto bem-sucedido. Seu pensamento: "Qualquer um teria feito igual. Não foi mérito meu."

5. Leitura Mental

Você assume que sabe o que os outros estão pensando — geralmente algo negativo sobre você.

Exemplos:

  • "Ela não me cumprimentou porque não gosta de mim."
  • "Eles estão pensando que sou incompetente."
  • "Ele ficou quieto porque está bravo comigo."

No trabalho: Na reunião, seu colega olha para o celular enquanto você fala. Seu pensamento: "Ele acha minha apresentação entediante."

6. Previsão do Futuro

Você prediz que as coisas vão dar errado, como se pudesse ver o futuro — e age como se a previsão fosse fato.

Exemplos:

  • "Eu sei que vou falhar na entrevista."
  • "Esse relacionamento vai terminar mal."
  • "Não adianta tentar, não vai funcionar."

No relacionamento: Antes mesmo de ter a conversa difícil, você pensa: "Ele vai me deixar." E evita a conversa, criando justamente a distância que temia.

Top tip

A diferença entre preocupação realista e distorção cognitiva: preocupação realista considera múltiplos cenários e possibilidades; distorção cognitiva trata o pior cenário como certeza absoluta.

7. Personalização

Você assume responsabilidade por eventos negativos que não estão sob seu controle.

Exemplos:

  • "Meu filho vai mal na escola porque sou uma mãe ruim."
  • "Meu marido está estressado por minha culpa."
  • "A equipe não bateu a meta porque não sou uma boa líder."

No trabalho: A empresa perde um cliente importante. Seu pensamento: "Foi culpa minha, eu deveria ter feito algo diferente" — mesmo que a decisão tenha envolvido dezenas de fatores fora do seu controle.

8. Rotulação

Você cola rótulos fixos e totalizantes em si mesma ou nos outros, em vez de descrever comportamentos específicos.

Exemplos:

  • "Sou uma fracassada" (em vez de "cometi um erro").
  • "Sou incompetente" (em vez de "tive dificuldade nessa tarefa").
  • "Ele é um idiota" (em vez de "ele fez algo que me irritou").

Na autoavaliação: Você esquece um compromisso. Em vez de "esqueci esse compromisso", pensa: "Sou irresponsável e desorganizada." O rótulo se torna sua identidade.

9. Afirmações do Tipo "Deveria"

Você se cobra com regras rígidas sobre como "deveria" ser, sentir ou agir — e se pune quando não atinge esses padrões.

Exemplos:

  • "Eu deveria conseguir dar conta de tudo."
  • "Eu não deveria me sentir assim."
  • "Uma boa mãe/profissional/esposa deveria..."

Na vida profissional: "Eu deveria trabalhar tão bem quanto minha colega." "Eu deveria ser mais assertiva." "Eu deveria conseguir conciliar tudo sem ajuda." Esses "deverias" geram culpa constante por não ser quem você acha que deveria ser.

10. Raciocínio Emocional

Você toma seus sentimentos como evidência de realidade — se você sente, deve ser verdade.

Exemplos:

  • "Sinto que sou um fracasso, então devo ser."
  • "Sinto que ninguém gosta de mim, então não gostam."
  • "Sinto que vou dar errado, então vai."

Na depressão: Esse é particularmente insidioso porque a depressão faz você se sentir sem valor. E o raciocínio emocional transforma esse sentimento em "fato": "Me sinto sem valor, logo sou sem valor."

Como Identificar Suas Distorções

O primeiro passo para mudar é perceber.

Registro de Pensamentos

Quando você notar uma mudança negativa de humor, pare e pergunte: "O que passou pela minha cabeça agora?" Anote o pensamento exatamente como surgiu, sem editar ou racionalizar.

Perguntas para Identificação

Ao capturar um pensamento, faça a si mesma algumas perguntas importantes: O pensamento usa termos absolutos como "sempre", "nunca", "todo mundo" ou "ninguém"? Estou tirando conclusões sem ter evidências concretas? Estou focando exclusivamente no negativo e ignorando o positivo? Estou me culpando por algo que está fora do meu controle? Estou prevendo o futuro como se minha previsão fosse certeza?

Padrões Recorrentes

Com o tempo, você perceberá que tende a certos tipos de distorção mais que outros. Uma pessoa pode tender à catastrofização; outra, ao pensamento tudo ou nada. Conhecer seus padrões facilita identificá-los quando surgem.

Usando registro de pensamentos para questionar distorções cognitivas

Como Questionar Distorções

Identificar é o primeiro passo. Questionar é o segundo.

Perguntas Socráticas

Estudos de 2025 sobre TCC online mostram que o uso de questionamento socrático e reestruturação cognitiva são técnicas centrais para mudar pensamentos mal-adaptativos.

Algumas perguntas úteis para questionar seus pensamentos: Qual é a evidência a favor desse pensamento? E qual é a evidência contra? Existe uma explicação alternativa para o que aconteceu? Se fosse verdade, qual seria o pior cenário possível? E o melhor? E o mais provável? O que você diria a uma amiga querida que pensasse isso sobre si mesma?

Construindo Respostas Alternativas

A meta não é "pensar positivo" — é pensar de forma mais realista e equilibrada. Não é trocar "sou um fracasso" por "sou maravilhosa", mas por algo como: "Cometi um erro específico. Isso não define minha competência total."

Experimentos Comportamentais

Teste suas previsões na realidade. Se você pensa "se eu pedir ajuda, vão me julgar", experimente pedir ajuda em uma situação de baixo risco e observe o que realmente acontece.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos

Na TCC para depressão, as distorções cognitivas são foco central.

Psicoeducação

Primeiro, você aprende a reconhecer os tipos de distorção e entender como eles mantêm a depressão. Esse conhecimento já começa a criar distância entre você e seus pensamentos automáticos.

Registro de Pensamentos Estruturado

Usamos ferramentas específicas para capturar situações, emoções, pensamentos automáticos, distorções identificadas e respostas alternativas. Com prática, esse processo se torna mais automático.

Reestruturação Cognitiva

Trabalhamos juntas para questionar pensamentos distorcidos e construir interpretações mais equilibradas. Isso não é negar problemas reais — é ver situações de forma mais acurada.

Modificação de Crenças Centrais

Distorções cognitivas frequentemente emergem de crenças mais profundas sobre você mesma: "Não sou boa o suficiente", "Sou incompetente", "Não sou amável." Na TCC, também trabalhamos essas crenças centrais.

Para entender mais sobre como a depressão afeta seu pensamento, leia sobre o que vai além da tristeza.

Quando Buscar Ajuda Profissional

Embora você possa começar a identificar distorções por conta própria, há momentos em que ajuda profissional é necessária.

Considere buscar apoio se você não consegue "pegar" os pensamentos sozinha, se identificá-los não está ajudando a mudar como você se sente, se os pensamentos são muito intensos ou frequentes, se há pensamentos de se machucar ou de que a vida não vale a pena, ou se os sintomas depressivos estão afetando sua capacidade de funcionar.

Para quem sente que nada mais traz prazer, leia sobre anedonia funcional.

Considerações Finais

Seus pensamentos parecem verdade — mas nem sempre são. As distorções cognitivas são óculos embaçados através dos quais você vê a realidade de forma mais negativa do que ela é. E esses óculos podem ser trocados.

Identificar suas distorções não é negar problemas reais ou forçar pensamento positivo. É desenvolver a capacidade de questionar interpretações automáticas e ver situações de forma mais equilibrada e realista.

A depressão faz você acreditar que seus pensamentos negativos são verdade absoluta. A TCC mostra que eles são hipóteses — e hipóteses podem ser testadas, questionadas e reformuladas.

Se você se identificou com os padrões descritos aqui, entre em contato para agendar uma avaliação.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise ou tem pensamentos de se machucar, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.

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