Coparentalidade Após Separação: Como Proteger as Crianças
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

O casamento acabou. Mas a parentalidade não. Vocês seguem sendo os pais dessas crianças — e como vão se comunicar, dividir responsabilidades, e manejar conflitos vai impactar diretamente o bem-estar dos filhos. Não é fácil. Às vezes parece impossível. Mas é uma das coisas mais importantes que você pode fazer por eles.
Pesquisas mostram que coparentalidade após divórcio é a relação de colaboração mútua, apoio e comunicação entre dois pais que não estão mais romanticamente ligados, mas trabalham juntos para criar e cuidar de seus filhos. Estudos indicam que situações de alto conflito são extremamente prejudiciais ao desenvolvimento das crianças, gerando efeitos psicológicos negativos que tendem a persistir ao longo do tempo.
Neste artigo, vou explicar como estabelecer coparentalidade saudável, proteger as crianças do conflito, e comunicar de forma eficaz. Como especialista em TCC, trabalho com pais navegando essa transição. Se você precisa de apoio, entre em contato.
O Impacto do Conflito nas Crianças e Princípios da Coparentalidade
O que pesquisas mostram sobre os efeitos do conflito parental.
Efeitos do Conflito Parental
Estudos indicam que altos níveis de conflito entre co-pais são particularmente prejudiciais ao bem-estar das crianças. Conflito parental contínuo, marcado por hostilidade e negatividade, cria ambiente estressante que prejudica o desenvolvimento emocional e comportamental da criança.
Crianças "No Meio"
Meta-análise de 2025 revisando 49 estudos (N = 23.336) examinou a associação entre conflito interparental e crianças se sentindo presas entre os pais. A evidência cumulativa indica relação moderada significativa (r = .402). Crianças que se sentem no meio sofrem mais.
Ansiedade e Depressão
Crianças expostas a conflito parental frequentemente experienciam ansiedade elevada, depressão e dificuldades em formar vínculos seguros. Esses efeitos podem persistir na adolescência e vida adulta.
Não É a Separação Em Si
A separação não é o maior fator de risco — o conflito é. Crianças de pais separados que coparentam com respeito frequentemente se saem melhor que crianças de pais casados em conflito crônico.

Princípios Fundamentais da Coparentalidade
Para construir uma coparentalidade saudável, alguns fundamentos são essenciais:
- Foco na criança: A pergunta central sempre é: o que é melhor para as crianças?
- Separar papéis: Ser mau cônjuge não significa ser mau pai/mãe
- Comunicação funcional: Não precisa ser amigos, mas precisa comunicar com respeito
- Consistência: Regras e rotinas alinhadas entre as casas
- Flexibilidade: Renegociar quando necessário, sem punir
A pergunta central deve ser sempre: o que é melhor para as crianças? Não "o que eu quero," não "o que ele/ela merece," mas o que serve ao bem-estar dos filhos. Você pode ter ressentimentos do ex-parceiro. Podem ter sido um casal terrível. Mas a questão parental é separada. Comunicação focada em tarefas, não em emoções do relacionamento passado. Regras, rotinas, expectativas - quanto mais alinhadas entre as casas, melhor para as crianças.
Top tip
Pesquisas indicam que estratégias para reduzir conflito e melhorar comunicação são essenciais para promover ambiente coparental que priorize o bem-estar das crianças pós-separação.
Comunicação Eficaz e o Que Evitar
Como conversar com o ex-parceiro de forma produtiva.
Mantenha Foco em Assuntos Práticos
Sobre os filhos: horários, escola, saúde, atividades. Evite misturar com questões do relacionamento passado. Se ele/ela tentar desviar para acusações sobre o casamento, redirecione: "Estamos falando da escola do João agora."
Seja Breve e Direto
Mensagens longas aumentam chances de mal-entendidos e provocações. Seja objetiva: quem, o quê, quando, onde.
Evite Acusações
"Você sempre esquece..." cria defesa e escalada. "O Pedro precisa da lancheira na segunda" resolve o problema.
Responda, Não Reaja
Se receber mensagem provocativa, não responda imediatamente. Respire. Espere até conseguir responder (não reagir) de forma calma e focada no assunto.
Documente
Quando necessário, mantenha comunicação por escrito (mensagens, e-mail). Serve como registro e também ajuda a manter tom mais profissional.
Escolha Batalhas
Nem tudo precisa de discussão. Pergunte-se: isso realmente importa para o bem-estar das crianças? Se não, deixe passar.
O Que Evitar: Comportamentos Prejudiciais
Alguns comportamentos prejudicam diretamente as crianças:
- Triangulação: Não use os filhos como mensageiros: "Diga ao seu pai que..."
- Falar mal do outro: Eles são metade de cada um de vocês
- Interrogatórios: Não interrogue as crianças sobre o que acontece na casa do outro
- Usar como arma: Não use visitação ou pensão para punir o ex
- Competição: Não compete por amor dos filhos
- Fazer escolher: Nunca force a criança a escolher entre vocês
Por mais que você esteja com raiva, não fale mal do outro pai para as crianças - atacar o outro é atacar parte deles. Não interrogue sobre o que acontece na outra casa. Não use visitação ou pensão como forma de punir. Não tente ser o "pai legal" para compensar. E nunca force a criança a escolher entre vocês.
Protegendo as Crianças e Navegando Alto Conflito
Estratégias específicas para proteger os filhos.
Mantenha Rotina
Crianças precisam de previsibilidade. Mantenha rotinas o mais consistentes possível entre as casas: hora de dormir, regras sobre telas, tarefas escolares.
Transições Suaves
Os momentos de transição (ir de uma casa para outra) podem ser difíceis. Mantenha-os calmos, sem conflito, sem interrogatórios, sem demonstração de tristeza excessiva.
Permita Sentimentos
As crianças têm direito a ter todos os sentimentos sobre a situação — tristeza, raiva, confusão. Valide: "Faz sentido você estar triste. Isso é difícil."
Não Parentifique
Não transforme os filhos em confidentes ou cuidadores emocionais. Eles não devem carregar seus problemas adultos.
Mantenha Relações
Incentive (genuinamente) a relação com o outro pai, com os avós do outro lado, com a família extensa. As crianças ganham com mais vínculos, não menos.
Busque Ajuda Quando Necessário
Se as crianças mostram sinais de sofrimento persistente — mudanças comportamentais, queda no rendimento escolar, sintomas de ansiedade ou depressão — busque avaliação profissional.

Quando o Conflito É Alto
Em situações de alto conflito, estratégias específicas são necessárias. Pesquisas indicam que situações de alto conflito são caracterizadas por:
- Disputas legais recorrentes
- Raiva e desconfiança persistentes
- Problemas de comunicação ligados a hostilidade
- Dificuldade em focar nas necessidades das crianças
Em casos de alto conflito, menos é mais. Comunicação estritamente sobre logística. Apps de coparentalidade podem ajudar a manter tudo documentado e funcional. Às vezes, é necessário usar intermediários - advogados, mediadores, familiares - para comunicações. Isso não é fracasso; é proteção. Mediação ou terapia focada em coparentalidade pode ajudar a desenvolver habilidades de comunicação. Lembre-se: você não controla o comportamento do outro. Você controla o seu. Faça sua parte bem.
Guarda Compartilhada e Conversas com as Crianças
O que pesquisas dizem sobre arranjos de guarda.
Pesquisas Atuais
Dr. Linda Nielsen revisou 54 estudos comparando resultados de crianças em guarda física compartilhada versus exclusiva, examinando resultados independentes de renda familiar e conflito parental. Os resultados geralmente favorecem arranjos que mantêm presença significativa de ambos os pais.
Não É Uma Fórmula
O melhor arranjo depende de muitos fatores: idade das crianças, logística, qualidade da relação de cada pai, histórico. Não há solução universal.
Alto Conflito
Pesquisas examinam se guarda compartilhada ajuda ou prejudica crianças em famílias de divórcio com alto conflito. Não há consenso claro; cada caso precisa avaliação cuidadosa.
Como Conversar Com as Crianças
Orientações por idade sobre como comunicar a separação:
- Crianças pequenas (3-5 anos): Explicações simples e concretas
- Crianças (6-12 anos): Respondam juntos se possível, permitam expressar sentimentos
- Adolescentes: Deem espaço, mas mantenham disponibilidade
Crianças Pequenas (3-5 anos)
Explicações simples e concretas. "Mamãe e papai vão morar em casas diferentes, mas os dois te amam muito." Eles podem não entender complexidades, mas precisam de segurança.
Crianças (6-12 anos)
Podem ter mais perguntas. Respondam juntos se possível. Não culpem um ao outro. Reforcem que não é culpa delas. Permitam expressar sentimentos.
Adolescentes
Podem ter reações mais intensas ou aparente indiferença. Deem espaço, mas mantenham disponibilidade. Não os tratem como adultos ou confidentes. Para todas as idades, reforce: não é culpa deles, ambos os pais continuam amando, terão duas casas mas uma família, podem fazer perguntas e podem ter sentimentos sobre isso.
Cuidando de Você
Sua saúde emocional importa para coparentar bem.
Você Não Precisa Ser Perfeita
Coparentalidade é difícil. Você vai errar. O importante é corrigir, aprender, continuar tentando.
Processe Suas Emoções
Separadamente das crianças e do ex-parceiro. Com amigos, terapeuta, diário. Você precisa processar para não despejar nos filhos.
Estabeleça Limites
Você não precisa responder imediatamente. Você não precisa aceitar abuso verbal. Você pode estabelecer limites sobre como será tratada — mantendo o foco nos filhos.
Busque Apoio
Grupos de pais em situação similar, terapia individual, amigos que entendem. Você não precisa fazer isso sozinha.
Para mais sobre reconstrução pós-separação, leia redescubrindo quem você é. Veja também como estabelecer limites saudáveis.
Considerações Finais
Coparentalidade eficaz não é sobre você e seu ex-parceiro. É sobre seus filhos. Cada vez que você escolhe não escalar um conflito, não falar mal, não usar as crianças como mensageiras — você está protegendo eles.
Pesquisas mostram que o senso de competência parental emerge como mediador significativo entre coparentalidade e comportamentos problemáticos em crianças. Quando você se sente competente como pai/mãe, isso se reflete nos filhos.
Não é fácil. Há dias em que você vai querer gritar, chorar, desistir. Mas cada pequena escolha de colocar os filhos em primeiro lugar é investimento no bem-estar deles — e no seu próprio, a longo prazo.
Se você está enfrentando desafios de coparentalidade, entre em contato para agendar uma avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Situações de alto conflito ou com histórico de violência requerem acompanhamento especializado.
