Reconstrução Pós-Divórcio: Redescubrindo Quem Você É
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você construiu uma carreira sólida, lidera equipes, toma decisões estratégicas todos os dias. Mas quando o casamento termina, surge uma pergunta que nenhum MBA prepara você para responder: quem sou eu agora? A reconstrução pós-divórcio é um processo que exige tanto quanto qualquer projeto profissional - e merece as mesmas ferramentas estruturadas.
Se você está vivendo esse momento, saiba que não está sozinha. Segundo dados do IBGE, foram registrados mais de 428 mil divórcios no Brasil em 2024. E as mulheres lideram 70% desses pedidos - muitas vezes, mulheres em posições de liderança que, após anos dedicando-se à carreira e ao casamento, decidem que precisam de algo diferente.
Neste artigo, vou compartilhar técnicas práticas da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) que podem ajudar você a atravessar esse processo de reconstrução. Não se trata de "superar rapidamente" ou "virar a página" - mas de entender o que está acontecendo na sua mente e ter ferramentas concretas para lidar com isso. Se precisar de apoio profissional nesse processo, entre em contato.
Os Pensamentos Automáticos Que Surgem Após o Divórcio
Nos primeiros meses após a separação, a mente entra em modo de processamento intenso. Pensamentos surgem de forma involuntária, muitas vezes no meio de uma reunião importante ou quando você finalmente consegue um momento de silêncio. Na TCC, chamamos esses pensamentos de pensamentos automáticos - eles aparecem sem que você os convide e frequentemente carregam distorções que amplificam o sofrimento.
As distorções cognitivas mais comuns nesse período incluem:
Catastrofização: transformar preocupações reais em cenários de desastre total. "Nunca mais vou conseguir confiar em alguém" ou "Vou terminar sozinha e infeliz" são exemplos clássicos.
Pensamento dicotômico: enxergar a situação em termos de tudo ou nada. "Meu casamento fracassou, logo eu sou um fracasso" - como se uma área da vida definisse todas as outras.
Rotulação: reduzir sua identidade complexa a um único rótulo. "Sou uma mulher divorciada" passa a ser quem você é, não algo que você viveu.
Personalização: assumir responsabilidade desproporcional. "Se eu tivesse trabalhado menos, talvez o casamento tivesse funcionado" - ignorando que relacionamentos envolvem duas pessoas e inúmeras variáveis.
Para executivas, esses pensamentos frequentemente se misturam com a identidade profissional. Uma cliente me disse recentemente: "Consigo resolver crises de milhões na empresa, mas não consegui manter meu casamento. Que tipo de líder eu sou?" Essa fusão entre competência profissional e "competência conjugal" é uma armadilha cognitiva comum.
Top tip
Pensamentos automáticos não são fatos. Eles são interpretações - e interpretações podem ser questionadas e modificadas. Reconhecer que um pensamento é automático já é o primeiro passo para não se deixar dominar por ele.
Reestruturação Cognitiva: O Método de 3 Passos
A reestruturação cognitiva é uma das técnicas centrais da TCC e funciona especialmente bem para lidar com os pensamentos distorcidos que surgem após o divórcio. O processo envolve três etapas:
Passo 1: Identificar o pensamento automático
O primeiro passo é capturar o pensamento exatamente como ele aparece. Não o que você "deveria" pensar, mas o que realmente passou pela sua mente. Por exemplo:
- "Sou uma fracassada porque meu casamento acabou"
- "Ninguém vai querer uma mulher divorciada de 40 anos"
- "Eu deveria ter conseguido fazer funcionar"
Anotar esses pensamentos é importante. Quando ficam só na mente, parecem verdades absolutas. No papel, você consegue olhar para eles com mais distância.
Passo 2: Contestar com perguntas socráticas
O questionamento socrático é uma técnica que usa perguntas para examinar a validade de um pensamento. Algumas perguntas úteis:
- Qual é a evidência a favor e contra esse pensamento? (O casamento terminar significa que você fracassou em tudo?)
- Existe uma explicação alternativa? (O relacionamento pode ter se esgotado por incompatibilidades, não por falha sua)
- O que eu diria a uma amiga que pensasse isso? (Você diria que ela é um fracasso?)
- Qual é o pior, o melhor e o cenário mais provável? (O pior é ficar sozinha para sempre? O mais provável é que você reconstrua sua vida)
Passo 3: Substituir por pensamento alternativo equilibrado
O objetivo não é trocar um pensamento negativo por um positivo irreal ("Tudo vai ficar maravilhoso!"), mas por algo mais equilibrado e baseado em evidências:
| Pensamento automático | Pensamento alternativo |
|---|---|
| "Sou uma fracassada" | "O casamento não funcionou, mas isso não define meu valor como pessoa ou profissional" |
| "Ninguém vai me querer" | "Muitas pessoas reconstroem suas vidas amorosas após o divórcio. Não há razão para acreditar que comigo será diferente" |
| "Eu deveria ter conseguido" | "Fiz o que pude com as informações e recursos que tinha na época. Relacionamentos dependem de duas pessoas" |
| "Fracassei como mãe por não manter a família unida" | "Ser boa mãe não depende do estado civil. Posso continuar presente e cuidando dos meus filhos" |
Exercícios Práticos Para o Dia a Dia
A reconstrução pós-divórcio acontece no cotidiano, não apenas nas sessões de terapia. Aqui estão três exercícios que você pode incorporar à sua rotina:
Registro diário de pensamentos
Reserve 10 minutos no final do dia (ou quando perceber um momento de angústia) para preencher este formato simples:
- Situação: O que aconteceu? (Ex: "Vi uma foto nossa antiga")
- Pensamento: O que passou pela minha mente? (Ex: "Desperdicei os melhores anos da minha vida")
- Emoção: O que senti? De 0 a 10, qual a intensidade? (Ex: "Tristeza, 8")
- Pensamento alternativo: Depois de questionar, qual versão mais equilibrada? (Ex: "Vivi experiências importantes que me formaram. Agora começa uma nova fase")
- Emoção após: Qual a intensidade agora? (Ex: "Tristeza, 5")
A redução não precisa ser dramática. Passar de 8 para 5 já representa um ganho significativo em bem-estar.
Técnica do "advogado de defesa"
Quando um pensamento autocrítico surgir, imagine que você precisa defender a "ré" (você mesma) em um tribunal. Quais argumentos a defesa apresentaria? Quais evidências mostram que você não é culpada ou incompetente? Esse exercício ajuda a acessar uma perspectiva mais equilibrada.
Experimentos comportamentais
Pensamentos como "não consigo fazer nada sozinha" ou "vou parecer patética se sair sem acompanhante" podem ser testados na prática. Proponha-se pequenos experimentos: jantar sozinha em um restaurante, ir a um evento profissional sem apoio do parceiro, resolver uma questão burocrática que antes era responsabilidade dele. Depois, avalie: o que você previa que aconteceria? O que realmente aconteceu?
Top tip
Um experimento comportamental simples: na próxima semana, faça uma atividade que você evitava por associá-la ao casamento (um restaurante, um hobby, um lugar). Observe se a experiência confirma ou contradiz seus pensamentos automáticos sobre "não conseguir" fazer as coisas sozinha.
Reconstruindo Sua Identidade: Além do "Eu-Conjugal"
Pesquisas em psicologia do apego mostram que casamentos longos criam o que chamamos de "eu-conjugal" - uma identidade compartilhada que influencia desde as decisões cotidianas até a forma como nos apresentamos ao mundo. Quando o casamento termina, parte dessa identidade precisa ser reconstruída.
Para executivas, esse processo tem camadas adicionais de complexidade. Você pode estar enfrentando:
A culpa pela carreira: "Se eu tivesse trabalhado menos, talvez..." Esse pensamento ignora que relacionamentos saudáveis acomodam as ambições de ambos os parceiros. Sua dedicação profissional não é vilã da história.
A dissonância entre sucesso profissional e "fracasso" pessoal: Como alguém que lidera equipes e toma decisões complexas pode ter "falhado" no casamento? A resposta é que competências profissionais e relacionais são diferentes - e nenhuma garante a outra.
A tripla jornada intensificada: Trabalho, filhos, casa - e agora, também o processo emocional de reconstrução. É exaustivo, e reconhecer essa exaustão não é fraqueza.
A pergunta "Quem sou eu agora?" não precisa ter resposta imediata. Ela é um convite para redescobrir interesses que ficaram adormecidos, valores que podem ter sido negligenciados, partes suas que existiam antes do casamento e continuam existindo depois dele.
Algumas mulheres descobrem que, após o luto inicial, experimentam uma sensação de liberdade que não sentiam há anos. Outras precisam de mais tempo para chegar lá. Ambos os caminhos são válidos.
Quando o Processo Precisa de Apoio Profissional
O luto pós-divórcio é normal e esperado. Pesquisas indicam que, após cerca de dois anos, a maioria das pessoas reporta níveis de bem-estar iguais ou superiores aos anteriores à separação. No entanto, alguns sinais indicam que buscar ajuda profissional pode acelerar sua recuperação:
- Sintomas persistentes por mais de seis meses sem melhora perceptível
- Dificuldade em manter a rotina de trabalho, cuidado com os filhos ou autocuidado básico
- Isolamento social progressivo, evitando contato com amigos e família
- Pensamentos frequentes de desesperança sobre o futuro
- Uso de álcool ou outras substâncias como forma de lidar com a dor
Existe uma diferença importante entre a tristeza normal do processo de separação e um quadro de depressão clínica. Na tristeza do luto, há momentos de alívio, você consegue se imaginar melhor no futuro, e as emoções flutuam. Na depressão, a tristeza é mais constante, a esperança parece ausente, e sintomas físicos como alterações no sono e apetite são mais pronunciados.
Se você reconhece que está precisando de mais suporte do que consegue mobilizar sozinha, isso não é fracasso - é autoconhecimento. A reconstrução pós-divórcio com apoio profissional permite acelerar o processo e evitar armadilhas cognitivas que prolongam o sofrimento. A TCC oferece ferramentas estruturadas e com eficácia comprovada para atravessar esse momento.
Entender a dinâmica que levou ao fim do casamento também pode ser parte do processo. Recomendo a leitura do artigo sobre descobertas importantes sobre relações complicadas e divórcio, que explora como a identidade conjugal se forma e se dissolve.
Se você está passando por esse processo e quer um espaço seguro para trabalhar seus pensamentos e emoções, entre em contato. Como psicóloga especialista em TCC, posso ajudá-la a desenvolver as ferramentas necessárias para atravessar essa transição e reconstruir sua identidade de forma consciente e saudável.
