Como Apoiar Mulher em Situação de Violência

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Como Apoiar Mulher em Situação de Violência

Sua amiga, irmã, filha ou colega está em relacionamento violento. Você percebe — ou ela contou. E agora? O que dizer? O que fazer? Como ajudar sem piorar? Como não afastá-la?

Essas dúvidas são comuns. E são importantes — porque a forma como você responde pode fazer diferença.

A UNFPA Brasil indica que o que essas mulheres mais precisam é de acolhimento e escuta sem julgamento. Os caminhos para sair dos ciclos de violência podem ser longos, e cada passo é importante.

Neste artigo, vou apresentar orientações para amigos e familiares que querem ajudar. Como especialista em TCC, trabalho tanto com vítimas quanto com suas redes de apoio. Se você precisa de orientação, entre em contato.

Os Fundamentos Do Apoio Efetivo

Antes de qualquer ação prática, é essencial entender os fundamentos do apoio a mulheres em situação de violência.

Escuta Sem Julgamento É O Mais Importante

Especialistas indicam que a escuta qualificada é o mais importante. A mulher precisa ser ouvida sem julgamentos, sem moralização, sem culpabilizações. Se ela contou, acredite. Não minimize, não questione, não procure justificativas. A decisão de falar já foi difícil.

Respeite O Tempo Dela

Ela pode não estar pronta para sair. Pressionar pode afastá-la. Respeite o tempo dela enquanto oferece suporte consistente. Ela pode voltar para ele, pode não seguir seus conselhos — e isso não significa que seu apoio foi em vão. A rede de apoio precisa ser constante, especialmente quando ela mais hesita.

É importante entender que sair de um relacionamento violento é um processo, não um evento único. Estudos mostram que mulheres podem tentar sair várias vezes antes de conseguir definitivamente. Cada tentativa, mesmo as que "não deram certo", são passos no processo. Sua paciência e presença contínua são fundamentais.

Acolhimento e escuta empática

O Que Dizer E O Que Evitar

As palavras têm poder. Saber o que dizer pode fazer a diferença entre acolher e afastar.

Frases Que Acolhem

Frases acolhedoras incluem "Eu acredito em você", "Isso não é sua culpa", "Você não merece isso", "Estou aqui para você" e "O que você precisa agora?". Essas frases validam a experiência dela e mostram que você está ao lado dela, não julgando.

Frases Que Afastam

Evite frases como "Por que você não sai?" — parece simples, mas não é. Leia sobre laço traumático para entender a complexidade. "Se fosse eu, já teria saído" é uma frase que julga sem conhecer a realidade dela. "Mas ele parece tão legal" invalida a experiência dela — abusadores frequentemente parecem encantadores para o mundo externo. "O que você fez para ele fazer isso?" culpa a vítima. "Pense nos filhos" ignora que ela provavelmente pensa neles o tempo todo.

Valide Sentimentos Contraditórios

Ela pode ter sentimentos contraditórios: amor e medo, raiva e culpa, esperança e desespero. Todos são válidos. Não tente "consertar" os sentimentos dela ou convencê-la de que deveria sentir de outra forma. Não dê ultimatos como "Se você não sair, não falo mais com você" — isso isola ainda mais. Ela precisa de você, especialmente se decidir ficar por enquanto.

Top tip

O Que Uma Mulher Em Violência Precisa Ouvir:

  • Eu acredito em você
  • Você não é culpada
  • Você não está sozinha
  • Estou aqui, não importa o que você decidir
  • Você merece ser tratada com respeito
  • Quando estiver pronta, estarei aqui para ajudar

Ações Práticas De Apoio

Além das palavras certas, existem ações concretas que fazem diferença.

Eduque-se Sobre Violência Doméstica

Aprenda sobre violência doméstica, ciclo da violência, laço traumático. Quanto mais você entender, melhor poderá apoiar sem julgar. Para começar, leia ciclo da violência doméstica.

Ofereça Ajuda Concreta E Específica

Em vez de "me avisa se precisar de algo," ofereça coisas específicas: "Posso guardar documentos seus?", "Posso buscar você se precisar sair às pressas?", "Tenho quarto para você se precisar." Ofertas concretas são mais fáceis de aceitar do que promessas vagas.

Guarde Informações Sobre A Rede De Proteção

A Câmara dos Deputados indica que existe rede de atendimento dividida em saúde, justiça, segurança pública e assistência social. Guarde essas informações para passar quando ela estiver pronta.

Combine Códigos E Documentação

Combine uma palavra ou frase que significa "preciso de ajuda" — para quando ela não puder falar abertamente. Se ela pedir, ajude a documentar: guardar prints, anotar incidentes, manter registros. Isso pode ser útil futuramente.

O Que Não Fazer

Alguns erros comuns podem afastar ou colocar a mulher em risco. Não confronte o agressor — confrontá-lo pode colocá-la em risco maior, pois a violência frequentemente escala quando ele sente perda de controle.

Não tome decisões por ela. A sensação de controle sobre a própria vida é parte do que ela perdeu. Deixe que ela tome as decisões enquanto você oferece suporte. Respeite a privacidade dela e não espalhe a situação — conte para outros apenas com autorização e apenas para pessoas que podem ajudar.

Mesmo se ela voltar para ele, mesmo se não seguir seus conselhos, não desista. Muitas mulheres voltam várias vezes antes de sair definitivamente. Sua presença consistente pode ser a diferença.

Rede de apoio e cuidado

A Rede De Proteção Disponível

Conhecer os recursos disponíveis ajuda você a orientar quando ela estiver pronta.

Canais De Atendimento Imediato

A Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 oferece escuta qualificada, registra e encaminha denúncias, e informa sobre a rede de proteção. Funciona 24 horas, é gratuito e sigiloso. Para emergências, quando a violência está acontecendo ou acabou de acontecer, ligue 190.

Atendimento Especializado

Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) estão preparadas para casos de violência doméstica. A Defensoria Pública oferece orientação jurídica gratuita e núcleos especializados em direitos das mulheres.

Casas De Acolhimento E ONGs

Existem casas-abrigo para mulheres em risco — o Ligue 180 pode informar sobre opções na região. Organizações como Instituto Avon, Mapa do Acolhimento e outras ONGs oferecem suporte psicológico, jurídico e social, muitas vezes de forma gratuita.

Quando Você Pode Denunciar

A UNFPA indica que denúncias não precisam partir da vítima — podem ser feitas por colega, vizinho, síndico, amigo ou familiar.

Se você testemunha violência física, se há risco iminente de vida, se há crianças em perigo — você pode denunciar mesmo sem autorização dela. Se não for emergência, converse com ela antes. Explique por que acha importante denunciar e respeite a decisão dela quando possível. Se está em dúvida sobre o que fazer, ligue 180 para orientação.

Cuide De Você E Continue O Apoio

Apoiar alguém em situação de violência é emocionalmente desgastante. Você também precisa de cuidado.

Reconheça Seus Limites

Você não pode salvar ninguém sozinho(a). Você pode apoiar, mas a decisão final é dela. Acompanhar alguém em situação de violência é pesado — você também pode precisar de suporte, seja de um profissional, um grupo ou alguém para conversar.

A frustração é normal. Você vai querer que ela saia logo. Vai se irritar quando ela não sair. Esses sentimentos são válidos — mas não deixe que afastem você. Se possível, envolva outras pessoas de confiança. A rede de apoio não precisa ser você sozinho(a).

Quando Ela Sair

Quando ela sair, o apoio continua. Ela vai precisar de suporte prático e emocional no processo de reconstrução: moradia, trabalho, cuidado com filhos, questões jurídicas — há muito a resolver. Ofereça o que puder de forma concreta e específica.

Não force superação com frases como "Já passou, esquece" ou "Agora é só seguir em frente." Trauma leva tempo para processar. Para mais sobre isso, leia recuperação pós-relacionamento abusivo. Incentive-a a buscar acompanhamento profissional — psicológico e, se necessário, jurídico. Para entender padrões de relacionamento, leia também sobre dependência emocional.

O Papel Da Terapia Na Recuperação

O acompanhamento profissional é fundamental tanto para a mulher que viveu violência quanto, às vezes, para quem a apoiou. A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas para processar o trauma, reconstruir a autoestima e desenvolver estratégias de enfrentamento saudáveis.

Uma psicóloga especializada pode ajudar a mulher a reconhecer padrões, processar emoções complexas e reconstruir sua vida após sair do relacionamento abusivo. O tempo de recuperação varia para cada pessoa — paciência e suporte contínuo fazem diferença.

Se você também está se sentindo sobrecarregado(a) por apoiar alguém em situação de violência, considere buscar suporte para si mesmo(a). Testemunhar o sofrimento de alguém que você ama pode ser traumático, e cuidar de quem cuida é igualmente importante.


Apoiar alguém em situação de violência é desafiador. Você não tem todas as respostas, e não precisa ter. O que você pode oferecer é presença, escuta, acolhimento e paciência.

A rede de proteção existe para ajudar. Você não precisa — e não deve — resolver tudo sozinho(a). Sua presença constante, sem julgamento, pode ser a diferença que ajuda ela a dar o próximo passo — quando estiver pronta.

Se você precisa de orientação sobre como apoiar alguém em situação de violência ou como lidar com o desgaste de ser rede de apoio, entre em contato para conversar. Para entender mais sobre manipulação psicológica em relacionamentos, leia também sobre gaslighting.

Canais de Ajuda:

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • Ligue 190 — Polícia Militar
  • CVV 188 — Apoio emocional 24h

Este artigo tem caráter informativo. Se você está testemunhando violência em andamento, ligue 190.

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