Por Que Mulheres Não Denunciam Assédio: 92% em Silêncio
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você sabe o que aconteceu. Lembra de cada detalhe — o comentário inapropriado, o toque não autorizado, as insinuações constantes. Sabe que foi errado. Mas quando pensa em denunciar, uma avalanche de medos surge: "E se não acreditarem em mim?", "Vou perder meu emprego?", "Vão me chamar de exagerada?"
Se esses pensamentos parecem familiares, você não está sozinha. A grande maioria das mulheres que sofrem assédio nunca denuncia — e as razões vão muito além de "falta de coragem".
Segundo a pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2024 da KPMG, mais de 90% das vítimas de assédio não fazem denúncia formal. Os motivos? Medo de que a denúncia não seja investigada (27%), receio de retaliação (23%), medo de exposição (22%) e preocupações com a integridade física ou psicológica (18%).
Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com mulheres que carregam o peso do silêncio — algumas por escolha informada, outras por medo paralisante. Se você está enfrentando essa decisão ou processando uma experiência de assédio, entre em contato. Independente da sua escolha sobre denunciar, você merece apoio.
O Cenário Do Assédio No Brasil
Antes de entender por que as mulheres não denunciam, é importante dimensionar o problema.
Dados Que Alarmam
A pesquisa KPMG 2024 revelou:
- 30% dos participantes relataram ter sofrido algum tipo de assédio nos últimos 12 meses
- 41% desses casos ocorreram no ambiente de trabalho — um aumento em relação aos 33% do ano anterior
- Mulheres sofrem três vezes mais assédio sexual nas empresas do que homens
- O assédio moral/psicológico é o mais comum (46%), seguido pelo de gênero (15%) e sexual (14%)
O Silêncio Em Números
- Mais de 90% das vítimas não denunciam
- Entre as que denunciam, apenas 48% recebem algum tipo de retorno
- A subnotificação perpetua o ciclo: sem dados, sem ação institucional
Por Que O Silêncio Persiste
As razões para não denunciar são complexas e multifacetadas. Longe de serem "desculpas", representam barreiras reais — psicológicas, sociais e institucionais.
Barreiras Psicológicas
Medo de não ser acreditada: A cultura da desconfiança em relatos femininos é real. Perguntas como "Você tem certeza?", "Não está exagerando?" ou "O que você estava vestindo?" ainda são comuns.
Vergonha e culpa: Muitas vítimas internalizam a culpa — questionam se "provocaram" o assédio, se "deram abertura", se "interpretaram errado". Essa autocrítica é resultado de séculos de culpabilização da vítima.
Minimização: "Foi só um comentário", "Ele é assim com todo mundo", "Não foi tão grave". A tendência de minimizar a própria experiência é uma forma de autoproteção que dificulta a denúncia.
Trauma não processado: O assédio pode causar sintomas de estresse pós-traumático. Relatar o ocorrido significa reviver — e muitas mulheres não estão prontas para isso.
Barreiras Sociais
Cultura da "boa profissional": Executivas frequentemente aprendem que "levantar problemas" é sinal de fraqueza. Denunciar pode ser visto como "não saber lidar" com situações difíceis.
Medo de retaliação: Não é paranoia — é realidade. 23% das mulheres temem retaliação, e esse medo é fundamentado em casos reais de demissões, isolamento e sabotagem de carreira.
Proteção ao agressor: "Ele tem família", "É bom profissional", "Vai arruinar a vida dele". A socialização feminina para cuidar dos outros pode se estender até ao próprio agressor.
Rede de apoio ao assediador: Quando o agressor é bem conectado ou em posição de poder, a vítima pode enfrentar pressão de colegas, gestores ou até RH para "deixar passar".
Barreiras Institucionais
Canais ineficazes: Pesquisas mostram que quase metade das denúncias não recebe retorno adequado. Quando os canais existem mas não funcionam, a mensagem é clara: não vale a pena denunciar.
Falta de confidencialidade: O medo de exposição (22%) está ligado à falta de confiança nos processos de investigação confidencial.
Histórico de impunidade: Quando assediadores conhecidos permanecem impunes, o precedente desencoraja novas denúncias.
Processos revitimizantes: Ter que recontar a história múltiplas vezes, enfrentar questionamentos invasivos ou ser confrontada com o agressor pode ser tão traumático quanto o assédio original.

O Custo Psicológico Do Silêncio
Não denunciar não significa "superar" — frequentemente significa carregar sozinha um fardo pesado.
Impactos Comuns
Ruminação: Pensamentos repetitivos sobre o ocorrido, sobre o que poderia ter feito diferente, sobre o que o agressor está fazendo com outras pessoas.
Hipervigilância: Estado de alerta constante no ambiente onde o assédio ocorreu. Ansiedade antecipatória antes de encontros com o agressor.
Erosão da autoestima: Quanto mais tempo o silêncio persiste, mais a vítima pode internalizar a mensagem de que "não vale a pena" defender a si mesma.
Isolamento: Guardar um segredo dessa magnitude afasta — de colegas que poderiam apoiar, de amigos que poderiam entender.
Sintomas físicos: Insônia, dores de cabeça, problemas gastrointestinais — o corpo expressa o que a voz não pode.
O Paradoxo Da Executiva
Para mulheres em posições de liderança, o silêncio pode ser ainda mais pesado:
- A imagem de "mulher forte" dificulta admitir vulnerabilidade
- O medo de perder credibilidade profissional é amplificado
- A pressão por "dar exemplo" pode criar expectativas impossíveis
- O isolamento inerente à liderança reduz a rede de apoio disponível
Top tip
Não denunciar é uma escolha válida em muitos contextos. O importante é que seja uma escolha informada — não uma imposição do medo. E independente da decisão sobre denúncia formal, você merece processar a experiência com apoio.
Razões Válidas Para Não Denunciar
É fundamental validar que existem razões legítimas para não denunciar formalmente:
Proteção imediata: Se a denúncia colocaria você em risco de retaliação grave, priorizar sua segurança é sensato.
Avaliação realista: Se você sabe que os canais são ineficazes e que a denúncia não trará resultado, poupar-se do processo pode ser autocuidado.
Priorização de energia: Processos de denúncia são desgastantes. Escolher investir sua energia em outras formas de recuperação é válido.
Timing: Não estar pronta agora não significa nunca. Muitas mulheres denunciam anos depois, quando se sentem mais fortes.
Outras formas de ação: Denúncia formal não é a única resposta. Buscar apoio, estabelecer limites, documentar, ou ajudar outras mulheres são formas legítimas de agência.
O Que A TCC Oferece
A Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar independente da decisão sobre denúncia.
Processando A Experiência
Validação: Reconhecer que o que aconteceu foi errado — sem qualificadores, sem minimização.
Externalização da culpa: Reestruturar crenças que colocam responsabilidade na vítima.
Processamento emocional: Trabalhar raiva, medo, vergonha e tristeza em ambiente seguro.
Reestruturação Cognitiva
| Pensamento Comum | Distorção | Reestruturação |
|---|---|---|
| "Devo ter dado abertura" | Culpabilização da vítima | "A responsabilidade é de quem assedia, não de quem é assediada" |
| "Não foi tão grave assim" | Minimização | "Minha experiência é válida. Não preciso comparar com 'casos piores'" |
| "Ninguém vai acreditar" | Leitura mental | "Não posso prever a reação de todos. Existem pessoas que acreditarão" |
| "Vou destruir minha carreira" | Catastrofização | "Existem riscos reais, mas também existem proteções e caminhos" |
Tomada De Decisão Informada
A TCC pode ajudar você a:
- Avaliar riscos e benefícios reais de denunciar
- Identificar seus valores e prioridades
- Separar medo de avaliação realista
- Preparar-se emocionalmente para qualquer caminho escolhido

Se Você Decidir Denunciar
Para quem decide seguir com denúncia formal, algumas orientações:
Preparação
Documente: Guarde mensagens, e-mails, registre datas e testemunhas. Documentação fortalece a denúncia.
Busque apoio: Antes de denunciar, identifique pessoas de confiança — dentro ou fora da empresa.
Conheça os canais: Entenda como funciona o processo de denúncia na sua organização. Se não confia no canal interno, existem opções externas (MPT, sindicato).
Prepare-se emocionalmente: O processo pode ser longo e desgastante. Ter suporte psicológico faz diferença.
Durante O Processo
- Mantenha cópias de toda comunicação
- Não confronte o agressor sozinha
- Respeite seus limites — você não precisa aceitar processos abusivos
- Lembre-se: você não está fazendo nada errado
Direitos Importantes
A Lei 14.457/22 (Programa + Mulheres) estabelece obrigações para empresas:
- Criação de regras de conduta sobre assédio
- Canais de denúncia com garantia de sigilo
- Treinamentos obrigatórios
- Procedimentos de acolhimento e acompanhamento
Se Você Decidir Não Denunciar
Essa também é uma escolha válida. Mas não significa ficar sem ação:
Busque apoio psicológico: Processar a experiência com profissional ajuda a prevenir sequelas.
Estabeleça limites: Mesmo sem denúncia formal, você pode evitar contato, documentar incidentes, comunicar desconforto.
Conecte-se com outras mulheres: Você provavelmente não é a única. Redes de apoio informais são poderosas.
Cuide de você: Priorize seu bem-estar — sono, alimentação, atividades que trazem prazer e segurança.
Mantenha a porta aberta: Não denunciar agora não significa nunca. Você pode mudar de ideia.
O Papel Das Organizações
A responsabilidade não é apenas individual. Empresas precisam:
- Criar canais de denúncia eficazes e confidenciais
- Garantir investigação séria e consequências reais
- Treinar lideranças para identificar e agir
- Proteger denunciantes de retaliação
- Construir cultura de respeito, não apenas compliance
Segundo a KPMG, hotlines e canais de denúncia são eficazes para 80% dos entrevistados — quando funcionam adequadamente.
Sua Voz Importa
Se você foi assediada e está em silêncio, quero que saiba: sua experiência é real e válida. Sua decisão sobre o que fazer com ela também é válida — seja denunciar, seja não denunciar, seja esperar.
O que não é aceitável é carregar esse peso sozinha, sem processar, sem apoio. Você merece cuidado independente de qualquer decisão formal.
Para entender melhor as dinâmicas de violência no trabalho, leia também sobre gaslighting no trabalho, assédio moral institucionalizado e síndrome de Estocolmo corporativa.
Se você está processando uma experiência de assédio — decidindo se denuncia, recuperando-se de uma denúncia, ou carregando o silêncio — considere buscar apoio profissional. A TCC pode ajudar você a processar o trauma, tomar decisões alinhadas com seus valores e reconstruir sua sensação de segurança. Entre em contato e vamos trabalhar juntas nesse processo.
