Reconstrução da Autoestima Após Abuso: Guia de TCC
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você olha no espelho e não reconhece a pessoa que vê. Onde foi parar aquela mulher confiante que você era antes? As palavras dele ecoam na sua cabeça: "você não é boa o suficiente," "ninguém vai te querer," "você é incapaz."
Esses pensamentos não são seus. Foram plantados. E podem ser arrancados.
Pesquisas mostram que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é particularmente eficaz no tratamento dos efeitos do abuso emocional — especialmente na reconstrução da autoestima.
Neste artigo, vou compartilhar técnicas de TCC comprovadas para reconstruir a confiança em si mesma após relacionamento abusivo. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres em processo de recuperação. Se você precisa de apoio, entre em contato.
Como O Abuso Destrói A Autoestima
Um dos aspectos mais desafiadores da recuperação é reconstruir a autoestima. Abusadores trabalham sistematicamente para erodir o senso de valor da vítima através de um processo deliberado de desvalorização constante.
Pensamentos como "não sou boa o suficiente," "mereço isso," "nunca vou encontrar outra pessoa" — são implantados pelo abusador e se tornam parte da sua autoimagem. Após anos sendo desvalorizada e tendo sua percepção invalidada, fica difícil confiar no próprio julgamento e acreditar nas próprias capacidades. O abuso instala um crítico interno que continua o trabalho do abusador mesmo depois que você saiu.
Para executivas, essa dinâmica é particularmente confusa. Você lidera equipes, toma decisões importantes, é respeitada profissionalmente — mas em casa, sente-se completamente incapaz. Essa cisão entre a "você do trabalho" e a "você em casa" é comum em relacionamentos abusivos e faz parte da estratégia de controle. Se você está lidando com gaslighting no trabalho também, os danos à autoestima podem ser ainda maiores.

Técnicas De TCC e Autocompaixão
O primeiro passo na TCC é identificar os pensamentos negativos automáticos. "Sou incapaz," "ninguém me valoriza" — de onde vêm esses pensamentos? São verdadeiros ou foram implantados? Para cada pensamento negativo, pergunte: qual a evidência a favor? Qual a evidência contra? O que eu diria a uma amiga que pensasse isso sobre si mesma?
Cada vez que um pensamento negativo surgir, tente substituí-lo por um pensamento mais equilibrado. Se você pensa "não sou boa o suficiente," substitua por "sou digna de amor e respeito." Mantenha um diário de conquistas, elogios recebidos, momentos em que você foi capaz — evidências concretas contra a narrativa do abusador.
Afirmações são frases curtas e positivas para desafiar a autodúvida. "Sou forte, capaz e resiliente." Com tempo e prática, elas se tornam parte do seu sistema de crenças. No início, você pode não acreditar nas afirmações — e tudo bem. O objetivo não é "convencer" você de algo falso, mas criar novos caminhos neurais que competem com os padrões negativos instalados pelo abuso.
Muitas executivas relatam que as afirmações parecem "falsas" ou "forçadas" no começo. Isso é esperado. Anos de desvalorização criaram padrões de pensamento profundamente enraizados. A mudança acontece gradualmente, através de repetição consistente e, principalmente, através de evidências reais que você vai acumulando — cada conquista, cada vez que você se posiciona, cada momento em que reconhece seu próprio valor.
Top tip
Técnicas Diárias para Reconstruir Autoestima:
- Identifique 3 qualidades suas cada manhã
- Registre uma conquista por dia (por menor que seja)
- Substitua autocríticas por afirmações positivas
- Escreva uma carta de compaixão para si mesma
- Celebre pequenas vitórias
- Liste evidências que contradizem pensamentos negativos
- Pratique dizer "obrigada" quando receber elogios
- Estabeleça uma meta pequena e realize-a
- Cuide do seu corpo como forma de autorrespeito
- Cerque-se de pessoas que te valorizam
Pesquisas indicam que desenvolver pensamento autocompassivo como alternativa à autocrítica é processo importante na intervenção para baixa autoestima. Autocompaixão significa tratar-se com a mesma gentileza que você trataria uma amiga querida, reconhecer que sofrer faz parte da experiência humana, e não se julgar duramente.
Após abuso, autocompaixão pode parecer impossível — o crítico interno foi fortalecido. Mas é habilidade que pode ser desenvolvida. Quando se pegar sendo autocrítica, pause. Coloque a mão no coração. Pergunte: "o que eu diria a alguém que amo que estivesse sentindo isso?" Para entender melhor como o laço traumático funciona, esse conhecimento pode ajudar a ter mais compaixão consigo mesma.
Metas, Diário e Práticas de Recuperação
Após abuso, pode ser útil estabelecer metas pequenas e realistas que ajudem a reconstruir confiança passo a passo — aprender uma nova habilidade, praticar mindfulness, restabelecer rotinas. Cada meta alcançada é um passo mais perto de retomar o controle e prova concreta de que você é capaz.
Não precisa ser grandioso. Levantar da cama, tomar banho, preparar uma refeição — podem ser conquistas significativas dependendo de onde você está. Não minimize suas conquistas. Reconhecer e celebrar mesmo as pequenas vitórias ajuda a reconstruir o senso de capacidade que o abusador tentou destruir.
Muitas mulheres em processo de recuperação cometem o erro de estabelecer metas ambiciosas demais, tentando "provar" que são capazes. Isso pode sair pela culatra quando a meta não é alcançada, reforçando a crença de inadequação. Comece com metas tão pequenas que pareçam até ridículas — e vá aumentando gradualmente conforme a sua confiança cresce.

Escrever pensamentos e sentimentos em um diário é forma simples mas poderosa de processar emoções e monitorar crescimento pessoal. No diário, registre pensamentos negativos e suas substituições, conquistas do dia, momentos de autocuidado, e evidências de suas qualidades.
O diário permite reconhecer e celebrar mesmo as menores vitórias — olhar para trás e ver quanto você avançou. Mantenha-o em local seguro, pois é espaço seu, para processar sem julgamento. Para executivas, o diário pode ser especialmente útil para documentar o contraste entre como você se sente e o que você realmente realiza — frequentemente, a distância entre os dois é enorme.
Timeline e Perspectiva da TCC
A recuperação não é linha reta. Haverá dias melhores e piores, e isso é normal e esperado. Recuperar a autoestima é processo que "exige esforço consciente, todos os dias, para curar e se comprometer com uma evolução pessoal." Dependendo da duração e intensidade do abuso, a recuperação pode levar meses ou anos — seja paciente consigo mesma.
É comum ter recaídas, especialmente em momentos de estresse ou quando você encontra situações que lembram o abuso. Uma crítica no trabalho pode reativar toda a narrativa de inadequação. Um conflito com alguém pode fazer você questionar se "o problema é você." Esses gatilhos são normais e diminuem com o tempo. O importante é reconhecer quando você está sendo ativada pelo passado e lembrar que aquela narrativa foi implantada — não é a verdade sobre quem você é.
Para executivas, a pressão constante por resultados pode tornar a recuperação mais desafiadora. Você pode sentir que não tem "tempo" para processar emoções ou que precisa "superar" mais rápido. Lembre-se: curar não é luxo, é necessidade absoluta. Sua capacidade de liderar equipes e tomar decisões estratégicas depende diretamente da sua saúde emocional.
Mesmo que você não perceba dia a dia, ao olhar meses atrás, vai perceber o quanto avançou. Meta-análise de intervenções baseadas no modelo de Fennell para baixa autoestima encontrou efeitos fortes para melhorias na autoestima e reduções em sintomas depressivos.
A TCC aborda fatores que mantêm a baixa autoestima: pensamento autocrítico, evitação e crenças centrais subjacentes. Trabalhamos as crenças centrais — "sou inadequada," "não mereço amor" — que foram instaladas pelo abuso. Abordagens como a Terapia Focada na Compaixão (CFT) complementam a TCC, ajudando a desenvolver autocompaixão como alternativa à autocrítica.
Para mais sobre o processo de recuperação após relacionamentos abusivos, leia recuperação pós-relacionamento abusivo. Se você está saindo de um relacionamento e precisa entender melhor o ciclo da violência doméstica, esse conhecimento pode ajudar no processo de cura.
Quando Buscar Ajuda Profissional
Busque suporte profissional se você está tendo dificuldade persistente em reconhecer seu próprio valor, se o crítico interno é muito intenso e você não consegue silenciá-lo sozinha, se além da baixa autoestima há sintomas de depressão, ansiedade ou TEPT, ou se a baixa autoestima está afetando trabalho, relacionamentos e qualidade de vida.
O abuso destrói a autoestima — mas ela pode ser reconstruída. Os pensamentos negativos que habitam sua mente foram implantados, e podem ser substituídos. A TCC oferece técnicas comprovadas: identificar pensamentos automáticos, questionar evidências, substituir por pensamentos mais equilibrados, desenvolver autocompaixão, celebrar pequenas vitórias.
Recuperar sua autoestima exige esforço consciente, todos os dias. Mas é possível. E você merece viver com a confiança e o senso de valor que são seus por direito. O abusador não tem o poder de definir quem você é — mesmo que tenha passado anos tentando fazer você acreditar nisso.
Se você está em processo de reconstrução e precisa de apoio, entre em contato para agendar uma avaliação. Como psicóloga especialista em TCC, posso ajudar você a desenvolver estratégias personalizadas para reconstruir sua autoestima de forma segura e sustentável.
Onde Buscar Ajuda:
- CVV 188 — Apoio emocional 24h
- Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
- CAPS — Centro de Atenção Psicossocial
- Busque psicóloga especializada em TCC
Este artigo tem caráter informativo. Se você está em sofrimento intenso, busque ajuda profissional.
