Violência Contra Mulheres Negras: Análise Interseccional

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência Contra Mulheres Negras: Análise Interseccional

Falar sobre violência contra mulheres sem falar sobre raça é contar apenas parte da história. No Brasil, os dados mostram que mulheres negras são afetadas de forma desproporcional por todas as formas de violência — e esse impacto não é coincidência.

É resultado de um entrelaçamento de opressões: racismo e sexismo se somam, se multiplicam, criam vulnerabilidades específicas.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2023, mulheres negras foram 63,6% das vítimas de feminicídio, 68,6% das vítimas de mortes intencionais e 52,5% das vítimas de estupro.

Neste artigo, vou explorar como a interseccionalidade afeta a experiência de violência de mulheres negras e os caminhos de apoio. Como especialista em TCC, trabalho com o impacto psicológico da violência. Se você precisa de apoio, entre em contato.

O Que É Interseccionalidade e Por Que Importa

Entender a interseccionalidade e fundamental para compreender a violencia contra mulheres negras.

Interseccionalidade e um conceito que reconhece como diferentes marcadores sociais — raca, genero, classe, sexualidade — se entrecruzam e criam experiencias unicas de opressao e privilegio. Nao e possivel separar o que voce vive como mulher do que vive como pessoa negra.

Pesquisas indicam que a violencia contra mulheres negras nao e so questao de genero, so de raca ou so de classe — mas de todas juntas. Politicas que consideram apenas uma dimensao falham em proteger quem mais precisa.

Entender a interseccionalidade e essencial para criar politicas e intervencoes efetivas. Solucoes que ignoram a dimensao racial falham em proteger mulheres negras. Solucoes que ignoram genero falham em proteger mulheres.

Nao e simplesmente racismo + sexismo. A experiencia de ser mulher negra cria vulnerabilidades especificas que nao existem para mulheres brancas ou homens negros. E uma experiencia propria que precisa ser reconhecida em sua especificidade.

Interseccionalidade e identidades

Os Números da Violência Contra Mulheres Negras no Brasil

Os dados sao alarmantes e revelam uma desigualdade estrutural que precisa ser enfrentada.

Estudos indicam que das mulheres assassinadas por serem mulheres em dez anos, 68% eram negras. Enquanto o feminicidio de mulheres brancas apresentou leve queda, a violencia letal aumentou entre pretas e pardas. Essa tendencia oposta e alarmante.

Dados do IBGE indicam que mulheres negras sofrem mais violencia psicologica, fisica e sexual — 6,3% versus 5,7% entre mulheres brancas nos 12 meses anteriores a pesquisa. A diferenca pode parecer pequena, mas em termos populacionais representa milhares de mulheres.

Dados do Sistema de Informacao de Agravos de Notificacao mostram que 60,4% dos casos de violencia contra mulheres adultas foram contra mulheres pretas e pardas, enquanto 37,5% contra mulheres brancas. A desproporcao e clara.

Relatorio da Rede de Observatorios revelou aumento de 12,4% nos casos de violencia contra mulheres em 2024, com impacto desproporcional sobre mulheres negras. A situacao esta piorando, nao melhorando.

Fatores que Aumentam a Vulnerabilidade de Mulheres Negras

A desproporcao nao e coincidencia. Fatores estruturais criam vulnerabilidades especificas.

Pesquisa do DataSenado indica que 66% das mulheres negras que sofreram violencia domestica nao possuem renda ou tem renda insuficiente. 85% das que enfrentam violencia convivem com o agressor. A dependencia economica e uma armadilha concreta.

A oferta de servicos de atencao as mulheres vitimas de violencia frequentemente reproduz desigualdades estruturais de acesso — prejudicando mulheres negras, de periferias, do Norte e Nordeste. Quem mais precisa e quem menos consegue acessar.

Entre as mulheres negras que sofreram violencia domestica grave, apenas 30% buscaram assistencia de saude. A subnotificacao e ainda maior nessa populacao. Os dados ja alarmantes sao, na verdade, subestimados.

Mulheres negras relatam experiencias de racismo ao buscar ajuda — descrenca, atendimento diferenciado, culpabilizacao — que dificultam o acesso a justica e protecao. Ao buscar ajuda, encontram uma segunda violencia.

Top tip

Fatores que Aumentam a Vulnerabilidade:

  • Menor renda e dependência econômica
  • Menor acesso a serviços de proteção
  • Racismo institucional nos sistemas de ajuda
  • Subnotificação e descrença
  • Morar com o agressor por falta de alternativas
  • Menor rede de apoio em alguns contextos
  • Estereótipos que invisibilizam a violência

Como o Racismo Opera na Violência Contra Mulheres Negras

O racismo nao e apenas contexto — e parte ativa da violencia.

O Brasil foi o ultimo pais das Americas a abolir a escravidao. Os efeitos desse legado continuam presentes — mulheres negras foram historicamente hipersexualizadas, tratadas como menos merecedoras de protecao. Esse olhar historico ainda permeia instituicoes e relacoes.

Estereotipos sobre mulheres negras — como sendo "fortes" ou "resistentes" — podem levar a minimizacao do sofrimento. A dor nao e levada a serio da mesma forma. "Voce aguenta" nao e elogio — e negacao de cuidado.

A violencia contra mulheres negras muitas vezes nao ganha o mesmo espaco na midia, nao mobiliza a mesma comocao, nao recebe a mesma atencao. A invisibilizacao e uma forma de violencia em si mesma.

Ao buscar ajuda, mulheres negras frequentemente enfrentam uma segunda violencia: o racismo de quem deveria proteger. Ser desacreditada, mal atendida, culpabilizada — isso e revitimizacao.

O Impacto Psicológico da Violência Interseccional

As consequencias emocionais sao profundas e especificas.

Mulheres negras enfrentam trauma interseccional — o impacto da violencia de genero somado ao impacto do racismo vivido ao longo da vida. Nao sao traumas separados; eles se entrelaçam. Para entender ansiedade, leia aspectos fundamentais da ansiedade.

A exposicao constante a mensagens negativas sobre seu grupo pode levar a internalizacao de crencas prejudiciais sobre si mesma. "Sera que eu mereci?" "Sera que e assim mesmo?"

A sensacao de que ninguem entende sua experiencia especifica pode intensificar o isolamento. Nem os espacos de mulheres nem os espacos negros necessariamente compreendem a interseccao.

Experiencias negativas com sistemas de ajuda criam desconfianca que, embora protetiva, pode dificultar a busca por suporte. E uma armadilha: voce precisa de ajuda mas tem motivos para nao confiar em quem deveria ajudar.

A expectativa de que mulheres negras sejam "fortes" pode impedir o reconhecimento de quando precisam de ajuda. Pedir ajuda nao e fraqueza — e coragem.

Rede de apoio e comunidade

Avancos Legais e Caminhos de Apoio

Houve progressos importantes, embora insuficientes.

A Lei Maria da Penha (11.340/2006) criou mecanismos de protecao para todas as mulheres — mas a implementacao ainda e desigual. Mulheres negras continuam enfrentando mais barreiras de acesso.

Em outubro de 2024, a Lei 14.994 transformou o feminicidio em crime autonomo com pena aumentada de 20 a 40 anos de reclusao (antes era 12 a 30). E um avanco, embora a prevencao continue sendo o principal desafio.

Ha crescente reconhecimento da necessidade de politicas que considerem a interseccionalidade — embora a implementacao seja lenta. O avanco na coleta de dados por raca/cor permite identificar desigualdades e direcionar politicas.

Recursos e Organizações de Apoio

Organizacoes como Geletes, Criola e outras trabalham especificamente com mulheres negras, oferecendo suporte que considera sua experiencia especifica. Buscar esses espacos pode fazer diferenca.

Construir uma rede de pessoas que entendam sua experiencia e fundamental. Grupos, coletivos e comunidades podem oferecer acolhimento que espacos genericos nao conseguem.

A Central de Atendimento a Mulher (Ligue 180) atende todas as mulheres, 24 horas. Os CRAS e CREAS oferecem atendimento e encaminhamento. A Defensoria Publica oferece orientacao juridica gratuita.

Como a TCC Ajuda Mulheres Negras na Recuperação

A Terapia Cognitivo-Comportamental pode ser adaptada para considerar a experiencia interseccional.

Sua experiencia e real e valida. O racismo que voce enfrenta e real. A violencia que sofreu e real. Voce merece suporte que reconheca toda a sua experiencia.

O trabalho terapeutico pode ajudar a identificar e questionar crencas negativas internalizadas sobre si mesma. Mensagens racistas que foram absorvidas ao longo da vida podem ser examinadas e contestadas.

Conectar-se com aspectos positivos da identidade racial pode ser parte do processo de recuperacao. Sua identidade nao e problema — e fonte de forca. Para mais sobre recuperacao, leia recuperacao pos-relacionamento abusivo.

A TCC reconhece a importancia do contexto social. Construir rede de apoio que valide sua experiencia completa e essencial para a recuperacao.

Quando Buscar Ajuda Profissional

Busque ajuda se voce e uma mulher negra que vivenciou violencia e precisa de espaco para processar. Sua experiencia merece atencao.

Ansiedade, depressao, flashbacks, dificuldade de confiar — sinais de que suporte profissional pode ajudar. Esses sintomas sao respostas a situacoes reais que voce enfrentou.

Se a violencia e/ou experiencias de racismo estao afetando sua vida, trabalho, relacionamentos — buscar ajuda nao e fraqueza.

Se voce precisa de um espaco onde sua experiencia completa seja vista e validada, onde voce nao precise explicar ou justificar — isso existe.

Considerações Finais

A violência contra mulheres negras no Brasil é um problema grave que exige olhar interseccional. Não basta combater a violência de gênero se ignorarmos como o racismo amplifica vulnerabilidades.

Dados mostram que mulheres negras são maioria das vítimas de todas as formas de violência. Essa realidade precisa mudar — e começa pelo reconhecimento.

Se você é uma mulher negra enfrentando violência, saiba: há caminhos. E você merece proteção, apoio e cuidado.

Se você precisa de apoio psicológico, entre em contato para agendar uma avaliação.

Onde Buscar Ajuda:

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • Geledés — geledes.org.br
  • Criola — criola.org.br
  • CRAS/CREAS — Assistência social

Este artigo foi escrito com cuidado e baseado em dados de pesquisa. Se você identificar algo que precise ser ajustado, entre em contato.

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