Violência Vicária: Quando Usam Filhos Para Controlar

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência Vicária: Quando Usam Filhos Para Controlar

Você saiu do relacionamento. A violência física parou. Mas algo continua — através dos filhos. Ele atrasa pensão para te deixar sem recursos. Manipula as crianças contra você. Usa as visitas para te controlar, ameaçar, humilhar. Os filhos voltam diferentes — hostis, assustados, confusos.

Isso tem nome: violência vicária. É quando ele usa quem você mais ama como arma para te atingir.

Especialistas explicam que violência vicária é forma de violência de gênero onde o agressor usa um ente querido — filhos, familiares, animais — como instrumento para causar dano à mulher. O PL 3880/2024 propõe incluir essa violência na Lei Maria da Penha.

Neste artigo, vou explorar o que é violência vicária, como identificá-la e como buscar proteção. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres enfrentando essa forma devastadora de abuso. Se você precisa de apoio, entre em contato.

O Que É Violência Vicária

O termo foi proposto pela psicóloga argentina Sonia Vaccaro em 2012 para descrever "violência machista na qual o agressor busca causar dano à mulher utilizando seus filhos como instrumento." É uma forma particularmente cruel de perpetuar o controle mesmo após a separação.

Especialistas indicam que a violência vicária pode envolver não apenas filhos, mas também parentes, animais de estimação, objetos significativos ou qualquer pessoa afetivamente importante para a mulher. O agressor identifica exatamente o que é mais precioso para você e transforma em arma.

O objetivo fundamental não é apenas machucar os filhos ou outras pessoas — é machucar você através deles. É manter controle, punir pela separação, demonstrar que ele ainda tem poder sobre sua vida. Trata-se de forma de violência psicológica cujo objetivo é infligir sofrimento emocional profundo, usando outras pessoas como instrumentos de manipulação.

Essa violência frequentemente ocorre justamente quando a mulher tenta reconstruir sua vida longe do agressor. É como se ele dissesse: "você pode sair, mas eu ainda controlo o que você mais ama." E essa mensagem implícita é devastadora.

Violência vicária: usando entes queridos como arma

Como a Violência Vicária Se Manifesta

A violência vicária assume diversas formas, todas com o mesmo objetivo: atingir você através de quem você ama. Pesquisas indicam que uma das manifestações mais comuns é a manipulação das crianças, fazendo-as ficarem contra a mãe, questionarem seu amor, preferirem o pai. Ele conta histórias distorcidas, faz promessas que não cumpre mas culpa você, e gradualmente envenena a relação entre você e seus filhos.

Ameaças e Uso da Guarda

Ameaças de tirar a guarda são frequentes — ele promete provar que você é "mãe inadequada", que vai fazer você "nunca mais ver os filhos." Mesmo quando as ameaças não se concretizam, o medo constante de perder a guarda é paralisante. Ele usa esse medo para controlar suas decisões, suas reações, sua vida.

Controle Financeiro e Visitas

A pensão alimentícia frequentemente se torna arma de controle. Atrasar, reduzir ou negar pagamentos é forma de manter você dependente e vulnerável. Os momentos de visita também são transformados em oportunidades para humilhar, controlar, extrair informações sobre sua vida ou desestabilizar você emocionalmente. Os filhos voltam das visitas perturbados, hostis ou confusos — e você precisa recolher os pedaços.

Ameaças a Animais e Casos Extremos

Ameaçar, maltratar ou matar animais de estimação é outra forma de causar sofrimento imenso. Para muitas mulheres, os animais são fonte de conforto — e ele sabe disso. Em casos extremos, a violência vicária pode culminar em assassinato dos filhos como vingança contra a mãe. Isso acontece com frequência trágica e foi fator motivador para legislações em outros países, como a Espanha.

Top tip

Sinais de Violência Vicária:

  • Usa filhos para enviar mensagens ou ameaças
  • Manipula crianças para ficarem contra você
  • Atrasa ou nega pensão como forma de controle
  • Faz ameaças envolvendo guarda
  • Usa visitas para humilhar ou extrair informações
  • Desaparece com as crianças ou ameaça sumir
  • Maltrata animais que você ama
  • Filhos voltam das visitas perturbados

Alienação Parental, Legislação e Impacto

É fundamental distinguir violência vicária de alienação parental — conceitos diferentes que frequentemente são confundidos ou instrumentalizados.

A Diferença Fundamental

Especialistas explicam que a violência vicária tem caráter de gênero — é forma de agressão usada principalmente por homens para punir mulheres, usando filhos como instrumento. Enquanto a alienação parental seria uma disputa pela criança, a violência vicária é vingança contra a mãe.

Uma armadilha comum: muitas vezes, agressores acusam a mãe de alienação parental quando ela tenta proteger os filhos da violência. É fundamental ter suporte jurídico especializado para navegar essas situações. O foco deve ser sempre a proteção das crianças e da mãe — não na punição de quem busca segurança.

O Que a Lei Oferece

O Projeto de Lei 3880/2024 propõe incluir violência vicária como forma de violência psicológica e moral na Lei Maria da Penha. Foi aprovado na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher em dezembro de 2024. Se aprovado, o agressor poderá ser preso por usar filhos contra a mãe, a pena será agravada quando afetar o desenvolvimento da criança, e medidas protetivas poderão ser aplicadas à mulher e aos filhos.

Mesmo sem legislação específica, comportamentos de violência vicária podem configurar violência psicológica, já prevista na Lei Maria da Penha atual. A Espanha foi um dos primeiros países a incluir violência vicária na legislação em 2021, após assassinatos de crianças por pais como vingança contra as mães.

O Impacto nas Crianças e na Mãe

As crianças são duplamente vitimizadas: usadas como instrumentos e expostas à violência. Isso afeta profundamente seu desenvolvimento emocional, sua capacidade de confiar e seus relacionamentos futuros. Para mais, leia impacto nos filhos testemunhas.

Para a mãe, o impacto é devastador: medo constante pelos filhos, impotência diante do sistema que nem sempre protege, sofrimento de ver os filhos manipulados contra si. A continuidade da violência através dos filhos impede o fechamento do trauma — mesmo longe do agressor, você continua sob ataque. E quando o sistema judicial não reconhece a violência, a sensação de desamparo é esmagadora.

Proteção e segurança para mãe e filhos

Como Buscar Proteção e O Trabalho Terapêutico

Existem estratégias concretas que podem ajudar a proteger você e seus filhos. Ao mesmo tempo, o suporte emocional é fundamental para atravessar essa situação.

Passos Práticos de Proteção

O primeiro passo é documentar tudo: registre mensagens, comportamentos, incidentes. Anote datas, contextos, testemunhas. Essa documentação é fundamental em processos judiciais. Busque advogada especializada em violência doméstica e direito de família — a complexidade dessas situações exige conhecimento específico.

Avaliações psicológicas das crianças podem demonstrar o impacto da violência. Busque profissionais especializados em trauma infantil que possam documentar adequadamente o que as crianças estão vivendo. Você pode solicitar medidas protetivas mesmo em casos de violência vicária — é violência psicológica. Para mais, leia medidas protetivas.

Fortaleça sua rede de apoio — pessoas que podem testemunhar, ajudar com as crianças, oferecer suporte emocional. Você não precisa enfrentar isso sozinha, e ter pessoas ao seu lado faz diferença concreta.

A Perspectiva da TCC

A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas para trabalhar as consequências da violência vicária. O primeiro passo é validação: seu sofrimento é real. A violência que atinge através dos filhos é violência. Você não está exagerando.

O medo pelos filhos é intenso e constante — é natural quando você ama profundamente e sente que não pode proteger. Técnicas de TCC ajudam a funcionar apesar do medo enquanto você busca proteção. Trabalhamos também com os pensamentos de culpa que surgem: "eu não protejo meus filhos", "é minha culpa por ter escolhido ele." Esses pensamentos são comuns, mas a responsabilidade é do agressor, não sua.

Mesmo em situação de pouco controle externo, há ações possíveis. O foco no que você pode fazer — documentar, buscar suporte, cuidar de si e das crianças — ajuda a resgatar um senso de agência que a violência tenta destruir.

Quando Buscar Ajuda Profissional

Se você se reconheceu neste artigo, buscar ajuda é o próximo passo. Ansiedade constante, dificuldade para dormir, pensamentos intrusivos sobre os filhos — todos esses sintomas indicam que suporte profissional pode ajudar. Se você percebe mudanças no comportamento das crianças, elas também podem precisar de acompanhamento. Para explorar recuperação, leia recuperação pós-relacionamento abusivo.

Se você está enfrentando disputas judiciais envolvendo violência vicária, o suporte combinado — psicológico e jurídico — é fundamental. Essas situações são complexas e exigem orientação especializada.

Considerações Finais

Violência vicária é forma cruel de perpetuar o controle. Usar quem você mais ama para te atingir é violência — mesmo que não deixe marcas visíveis em você.

O PL 3880/2024 representa esperança de proteção legal mais robusta. Mas mesmo antes de sua aprovação, há caminhos para buscar proteção.

Você não está sozinha. E seus filhos precisam de você forte — buscando ajuda, documentando, lutando.

Se você está sofrendo violência vicária e precisa de apoio, entre em contato para agendar uma avaliação.

Canais de Emergência:

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • Ligue 190 — Polícia Militar

Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento jurídico. Para orientação legal, procure advogada especializada ou Defensoria Pública.

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