Alcoolismo Funcional: O Vício Silencioso de Executivas

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Alcoolismo Funcional: O Vício Silencioso de Executivas

Você chega em casa depois de um dia exaustivo. Reuniões intermináveis, prazos apertados, a pressão de liderar uma equipe inteira. Enquanto tira o salto, seu olhar já busca aquela garrafa de vinho na geladeira. "Eu mereço", você pensa. E assim, uma taça se transforma em ritual diário.

Se essa cena parece familiar, você não está sozinha. O consumo abusivo de álcool entre mulheres brasileiras cresceu 4,25% ao ano entre 2010 e 2020, saltando de 7,8% para 16%. E entre executivas, esse número pode ser ainda maior.

Se você sente que sua relação com o álcool mudou nos últimos anos, este artigo vai ajudá-la a entender o que está acontecendo e como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ser sua aliada nesse processo. Agende uma consulta para conversarmos sobre sua situação específica.

O Que É Alcoolismo Funcional?

O alcoolismo funcional é uma forma de dependência em que a pessoa mantém aparentemente sua vida funcionando: trabalha, cumpre prazos, lidera equipes, sustenta a casa. Por fora, parece que está tudo bem. Por dentro, a necessidade de beber se tornou cada vez mais presente.

Diferente do estereótipo do dependente que não consegue trabalhar ou manter relacionamentos, a executiva com alcoolismo funcional frequentemente é vista como bem-sucedida. Ela não bebe durante o dia, não falta ao trabalho, não "perde o controle" em público. Mas ao chegar em casa, a taça de vinho se tornou tão essencial quanto tirar o salto.

Esse tipo de dependência passa despercebido justamente porque não se encaixa no que imaginamos ser um problema com álcool. E é isso que o torna tão perigoso: a própria executiva pode demorar anos para perceber que o que parecia um "relaxante" se transformou em necessidade.

A diferença entre uso social e problemático não está na quantidade consumida em uma única ocasião, mas na regularidade, na dificuldade de passar dias sem beber e nos pensamentos recorrentes sobre a próxima taça.

Por Que Executivas Estão Bebendo Mais?

A Cultura Corporativa e o Happy Hour

No ambiente corporativo, o álcool está presente em praticamente todos os rituais sociais: fechamento de negócios, celebrações de metas, confraternizações de equipe. Para mulheres em posições de liderança, participar desses momentos é quase obrigatório. Recusar uma bebida pode parecer antiprofissional ou criar distanciamento da equipe.

Além disso, muitas executivas relatam que o álcool ajuda a "baixar a guarda" em ambientes predominantemente masculinos, onde precisam constantemente provar competência. A bebida se torna uma ferramenta de integração social.

Sobrecarga Tripla: Carreira, Casa e Filhos

O fenômeno das "wine moms" ou "#winemom" nas redes sociais ilustra uma realidade: mulheres que trabalham fora, cuidam da casa, dos filhos, e encontram no vinho a única "pausa" do dia. A glorificação dessa rotina mascara o quanto ela pode ser prejudicial.

Dados do CISA mostram que pessoas com maior escolaridade (12 anos ou mais de estudo) têm maior prevalência de consumo: 34,3% em 2023. Quanto maior a responsabilidade, maior a busca por válvulas de escape.

O Álcool Como Anestésico Emocional

Quando você passa o dia inteiro resolvendo problemas dos outros, tomando decisões difíceis e gerenciando conflitos, é compreensível querer "desligar" à noite. O álcool oferece essa sensação de forma rápida e acessível.

O problema é que essa solução temporária impede o desenvolvimento de estratégias saudáveis de regulação emocional. Com o tempo, o cérebro passa a associar relaxamento exclusivamente ao álcool, criando um ciclo de dependência.

Se você se identifica com esse padrão, o burnout pode estar relacionado. Muitas executivas usam o álcool para lidar com o esgotamento sem perceber que estão apenas mascarando os sintomas.

Top tip

O álcool não é um relaxante, é um depressor do sistema nervoso central. Ele pode até induzir sonolência inicial, mas prejudica a qualidade do sono e aumenta a ansiedade no dia seguinte, criando um ciclo vicioso.

Sinais de Alerta Que Você Pode Estar Ignorando

Padrões de Consumo Preocupantes

Alguns sinais merecem atenção:

  • Regularidade: Beber todos os dias ou quase todos os dias, mesmo em pequenas quantidades
  • Escalada: Precisar de mais álcool para sentir o mesmo efeito relaxante
  • Planejamento: Pensar na bebida durante o dia ou planejar quando vai beber
  • Justificativas: Criar razões para beber ("foi um dia difícil", "é só uma taça", "todo mundo bebe")
  • Desconforto: Sentir irritação, ansiedade ou inquietação quando não pode beber
  • Priorização: Escolher atividades onde possa beber ou evitar situações onde não possa

Pensamentos Automáticos Sobre Merecer a Bebida

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, chamamos de pensamentos automáticos aquelas frases que surgem na mente de forma rápida e parecem verdades absolutas. No contexto do álcool, alguns exemplos comuns são:

  • "Eu trabalhei tanto que mereço essa taça"
  • "É só para relaxar, não tenho problema nenhum"
  • "Todo mundo no meu nível bebe assim"
  • "Se eu parasse de beber, não teria como aguentar a pressão"
  • "Amanhã eu diminuo"

Se você se identificou com essas frases, é importante reconhecer que elas são sinais de um padrão que merece atenção, não características da sua personalidade.

Abordagem TCC: Entendendo Seus Gatilhos

A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma das abordagens mais eficazes para lidar com dependências, incluindo o alcoolismo funcional. Ela trabalha na identificação e modificação dos pensamentos e comportamentos que mantêm o ciclo de consumo.

Registro de Comportamento

O primeiro passo é entender quando, onde e por que você bebe. Mantenha um diário por duas semanas anotando:

  • Situação: O que estava acontecendo antes de beber?
  • Emoção: O que você estava sentindo? (estresse, solidão, tédio, ansiedade)
  • Pensamento: O que passou pela sua cabeça antes de pegar a bebida?
  • Comportamento: Quanto bebeu?
  • Consequência: Como se sentiu depois? No dia seguinte?

Esse registro revelará padrões que você provavelmente não percebe no automático. Talvez você descubra que sempre bebe mais depois de reuniões com determinada pessoa, ou que o consumo aumenta nos fins de semana quando está sozinha.

Identificando Pensamentos Automáticos

Com o registro em mãos, você começará a notar os pensamentos que antecedem o consumo. Esses pensamentos geralmente contêm distorções cognitivas, como a ruminação mental que nos prende em ciclos de preocupação.

As distorções mais comuns relacionadas ao álcool incluem:

  • Racionalização: Criar justificativas lógicas para um comportamento prejudicial
  • Minimização: Diminuir a gravidade do consumo
  • Pensamento dicotômico: "Ou eu bebo ou não relaxo de jeito nenhum"
  • Leitura mental: "Se eu não beber, vão achar que sou chata"

Crenças Disfuncionais Sobre Relaxamento

Por trás dos pensamentos automáticos existem crenças mais profundas que precisam ser examinadas. Muitas executivas cresceram em ambientes onde o álcool era sinônimo de sofisticação, celebração ou descanso merecido.

Algumas crenças comuns que mantêm o padrão de consumo:

  • "Pessoas bem-sucedidas bebem vinho de qualidade"
  • "Não existe outra forma de relaxar depois de um dia assim"
  • "Minha performance no trabalho prova que não tenho problema"

Identificar essas crenças é essencial para modificá-las. Na TCC, trabalhamos com evidências: sua performance no trabalho realmente prova que o álcool não é um problema, ou apenas mostra que você ainda não sentiu as consequências?

Top tip

Experimente o teste CAGE: nas últimas semanas, você (1) sentiu que deveria diminuir a bebida? (2) ficou irritada quando criticaram seu consumo? (3) sentiu culpa por beber? (4) precisou de uma dose logo ao acordar? Duas ou mais respostas positivas indicam necessidade de avaliação profissional.

Técnicas Práticas Para Retomar o Controle

Resolução de Problemas Para Estresse Sem Álcool

Se o álcool está servindo como estratégia de enfrentamento do estresse, precisamos substituí-lo por alternativas eficazes. A técnica de resolução de problemas da TCC segue passos estruturados:

  1. Defina o problema real: Não é "preciso relaxar", mas sim "estou sobrecarregada com as demandas do trabalho e não tenho estratégias de recuperação"

  2. Liste alternativas: Exercício físico, meditação, banho quente, conversa com amiga, hobby, terapia, delegação de tarefas

  3. Avalie cada alternativa: Qual é viável no seu contexto? Qual você consegue manter?

  4. Escolha e implemente: Comece com uma alternativa por vez

  5. Avalie os resultados: Depois de duas semanas, o que funcionou?

Estratégias Alternativas de Regulação Emocional

O álcool oferece regulação emocional imediata, mas temporária. Precisamos de estratégias que funcionem a médio e longo prazo:

  • Técnica 5-4-3-2-1: Quando sentir vontade de beber, identifique 5 coisas que vê, 4 que ouve, 3 que toca, 2 que cheira e 1 que sente no paladar. Isso interrompe o piloto automático.

  • Surfar a onda: A vontade de beber é como uma onda, ela cresce, atinge um pico e depois diminui. Em vez de lutar contra ela ou ceder, observe-a passar. Geralmente dura de 15 a 20 minutos.

  • Ativação comportamental: Substitua o ritual da bebida por outro ritual prazeroso: preparar um chá especial, tomar um banho relaxante, assistir a um episódio da sua série favorita.

Quando Buscar Ajuda Profissional

A Terapia Cognitivo-Comportamental para dependências é mais eficaz quando conduzida por um profissional especializado. Considere buscar ajuda se:

  • Você tentou reduzir o consumo sozinha e não conseguiu
  • O álcool está afetando sua saúde, sono ou relacionamentos
  • Você sente sintomas físicos quando não bebe (tremores, sudorese, ansiedade intensa)
  • O pensamento sobre a próxima bebida está interferindo no seu dia
  • Você está usando álcool junto com medicamentos

Um profissional pode ajudá-la a entender se há depressão ou ansiedade subjacentes ao consumo, condições que frequentemente coexistem com o uso problemático de álcool.

Conclusão: Reconhecer É o Primeiro Passo

Se você chegou até aqui e se identificou com o que leu, saiba que reconhecer o padrão não é fraqueza, é coragem. A pressão sobre mulheres em posições de liderança é real, a sobrecarga é real, e a busca por formas de aliviar essa pressão é completamente compreensível.

O problema não é você. O problema é que o álcool se tornou a única ferramenta disponível no seu repertório de enfrentamento. A boa notícia é que existem outras ferramentas, mais eficazes e sem efeitos colaterais.

A Terapia Cognitivo-Comportamental tem eficácia comprovada no tratamento de dependências. Ela não vai exigir que você seja perfeita ou que nunca mais beba. Vai ajudá-la a entender sua relação com o álcool e a fazer escolhas mais conscientes.

Se você quer conversar sobre sua situação em um ambiente acolhedor e sem julgamentos, entre em contato. Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com mulheres executivas que enfrentam esse e outros desafios da alta performance. Você não precisa passar por isso sozinha.

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