Ansiedade Parental em Executivas: O Peso de Ser Mãe e Líder
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você está em uma reunião importante quando o celular vibra. É a escola. O coração dispara antes mesmo de atender. "Provavelmente não é nada grave", você tenta se convencer — mas a mente já está construindo cenários catastróficos. Quando descobre que era apenas um lembrete sobre a festa junina, o alívio é imenso. Mas também vem a exaustão: viver assim, em estado de alerta constante, é esgotador.
Se você se reconhece nessa descrição, bem-vinda ao mundo da ansiedade parental — uma experiência que se intensifica significativamente para executivas que acumulam as pressões da liderança com as preocupações da maternidade.
Segundo pesquisa citada pelo Movimento Mulher 360, a saúde mental e a falta de equilíbrio entre carreira e família são preocupações centrais para profissionais que são mães. Estudos mostram que mães que trabalham apresentam níveis mais altos de ansiedade e depressão em comparação com pais que trabalham.
Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com executivas que carregam o peso de serem excelentes em duas frentes exigentes simultaneamente. Se você sente que a ansiedade sobre seus filhos está consumindo energia demais, entre em contato. Há formas de cuidar sem se destruir.
A Carga Dupla Da Executiva Mãe
Ser mãe executiva significa operar em dois mundos com demandas intensas e frequentemente conflitantes.
Os Números Que Pesam
De acordo com pesquisa da KPMG, em mais de um terço das residências, mulheres que exercem funções de alto escalão continuam sendo as únicas responsáveis pelos cuidados domésticos — 38% no mundo e 35% no Brasil. Além disso, 58% das participantes relatam que são as principais responsáveis por administrar a casa e cuidar dos filhos.
A Penalização Da Maternidade
Um estudo de 2024 analisado pelo Mães às Claras revelou que mulheres europeias sofrem uma queda média de 29% nos rendimentos após se tornarem mães. Em contraste, homens experienciam um aumento médio de 12% — evidenciando uma penalização da maternidade versus um prêmio pela paternidade.
A Ansiedade Como Companheira Constante
Essa desigualdade estrutural se traduz em ansiedade constante: preocupação com o bem-estar dos filhos durante o expediente, medo de estar "falhando" em ambas as frentes, culpa por não estar presente em momentos importantes e hipervigilância sobre qualquer sinal de que os filhos estejam "sofrendo" com sua ausência.

Como A Ansiedade Parental Se Manifesta
A ansiedade parental em executivas tem características específicas que vão além da "preocupação normal de mãe".
Preocupação Excessiva vs. Saudável
A preocupação saudável verifica se o filho está bem em momentos apropriados, consegue se concentrar no trabalho entre verificações, confia nos cuidadores e na capacidade do filho e preocupa-se proporcionalmente ao risco real.
A preocupação excessiva se manifesta como dificuldade de se concentrar no trabalho por pensar nos filhos, verificações frequentes e compulsivas, dificuldade de delegar cuidados, catastrofização de situações normais e hipervigilância constante.
A Culpa Como Amplificador
Segundo estudo citado pela Pepsic, 66% das mães entrevistadas relataram sentimentos negativos no momento da separação de seus bebês, como preocupação, apreensão, medo, tristeza e ansiedade.
A culpa amplifica a ansiedade: "Se eu não estivesse trabalhando, isso não teria acontecido" ou "Sou uma mãe ruim por não estar lá". Essa narrativa interna transforma preocupações normais em espirais de ansiedade.
Sintomas Comuns
Os sintomas físicos incluem tensão muscular constante, dificuldade de dormir por preocupações, fadiga crônica e dores de cabeça frequentes.
Os sintomas cognitivos envolvem pensamentos intrusivos sobre coisas ruins acontecendo, dificuldade de "desligar" das preocupações, cenários catastróficos automáticos e comparação constante com outras mães.
Os sintomas comportamentais aparecem como verificações excessivas (ligar para escola, câmeras, mensagens), dificuldade de deixar filhos com outros cuidadores, evitação de viagens ou compromissos que afastem dos filhos e superproteção que limita autonomia das crianças.
Top tip
Preocupar-se com os filhos é natural e até necessário — é parte do instinto de proteção. O problema surge quando a preocupação se torna constante, desproporcional e interfere no seu funcionamento. Se você não consegue se concentrar no trabalho por pensar nos filhos, ou não consegue aproveitar momentos com eles por estar preocupada com o trabalho, é hora de buscar ajuda.
Por Que Executivas São Mais Vulneráveis
Mulheres em posições de liderança enfrentam fatores específicos que intensificam a ansiedade parental.
A Pressão Por Excelência Em Tudo
"A pressão para se adequar a padrões inatingíveis de produtividade e disponibilidade muitas vezes resulta em estresse, ansiedade e sentimentos de inadequação", observa a psicanalista Ana Tomazelli. Para executivas, essa pressão é duplicada: perfeição no trabalho E na maternidade.
Menos Tempo, Mais Culpa
Quanto mais sênior a posição, mais demandas de tempo: reuniões, viagens, eventos, decisões urgentes. Cada hora longe dos filhos pode ser processada como "falha materna" — mesmo que seja necessária para prover financeiramente.
O Mito Da Supermulher
A expectativa de "dar conta de tudo" sem ajuda ou reclamação cria uma armadilha: pedir ajuda parece fraqueza, então você assume mais do que pode, aumenta a ansiedade, e o ciclo se perpetua.
Isolamento Na Liderança
Posições de liderança já são isolantes. Quando você adiciona a maternidade, pode ser difícil encontrar pares que entendam a intersecção específica dessas experiências.
O Papel Da TCC Na Ansiedade Parental
A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas específicas para trabalhar a ansiedade parental.
Diferenciando Preocupação Produtiva De Improdutiva
A TCC ajuda a distinguir:
Preocupação produtiva: Leva a ação útil (verificar se o filho tomou vacina, escolher uma boa escola)
Preocupação improdutiva: Não leva a ação, apenas gera sofrimento (imaginar acidentes improváveis, ruminar sobre "e se...")
A preocupação produtiva termina com uma ação. A improdutiva é circular e infinita.
Reestruturação Cognitiva
Pensamentos comuns e suas reestruturações:
| Pensamento Disfuncional | Reestruturação |
|---|---|
| "Sou uma mãe ruim por trabalhar tanto" | "Sou uma mãe que trabalha. Isso não define a qualidade do meu amor ou cuidado" |
| "Se eu não estiver presente, algo ruim vai acontecer" | "Meus filhos estão em boas mãos. Minha presença não é garantia contra imprevistos" |
| "Meus filhos vão me ressentir por minha ausência" | "O que importa é a qualidade do tempo, não apenas a quantidade. Presença inteira quando estou presente" |
| "Outras mães conseguem equilibrar melhor" | "Não conheço a realidade interna de outras mães. Comparação não é informação útil" |
Tolerância À Incerteza
Grande parte da ansiedade parental vem da dificuldade de aceitar que não podemos controlar tudo que acontece com nossos filhos. A TCC trabalha a tolerância à incerteza — aprender a viver com "não sei se vai estar tudo bem" sem que isso paralise.
Exposição Gradual
Para mães com ansiedade de separação intensa, a exposição gradual começa com deixar o filho com cuidador por 30 minutos sem verificar, depois aumentar gradualmente o tempo, seguido de sair para compromissos sem "plano de emergência" excessivo e, eventualmente, viajar a trabalho sem culpa debilitante.

Estratégias Práticas
Além do trabalho terapêutico, algumas estratégias ajudam no dia a dia.
Estabeleça Rituais De Conexão
Não é sobre quantidade de tempo, mas qualidade e previsibilidade. Considere 15 minutos de conversa exclusiva antes de dormir, café da manhã juntos sempre que possível e um ritual de fim de semana que seja "sagrado". Rituais previsíveis oferecem segurança — para você e para os filhos.
Comunique Expectativas Realistas
Seus filhos não precisam de uma mãe perfeita — precisam de uma mãe real. Comunicar honestamente sobre seu trabalho ("Mamãe tem uma reunião importante, mas vou ligar na hora do lanche") ensina sobre compromissos e confiança.
Delegue Com Confiança
Escolha cuidadores em quem você genuinamente confia. Depois de escolher, permita-se confiar — resistir à microgestão dos cuidados é essencial. E lembre: diferentes abordagens não são necessariamente piores, apenas diferentes.
Cuide De Si Mesma
Você não pode servir de um copo vazio. Autocuidado não é luxo — é necessidade. Priorize sono adequado (o quanto for possível), momentos de pausa sem filhos e sem trabalho, conexões sociais próprias e atividade física para regulação do estresse.
Questione A Narrativa Da Culpa
Quando a culpa surgir, pergunte-se: "Isso é fato ou interpretação?" "Meus filhos realmente estão sofrendo ou estou projetando?" "O que eu diria a uma amiga na mesma situação?" "Qual é a evidência de que estou 'falhando'?"
Quando Buscar Ajuda
Algumas situações indicam necessidade de suporte profissional: a ansiedade sobre os filhos interfere significativamente no trabalho, você não consegue aproveitar momentos com os filhos por estar preocupada, há sintomas físicos persistentes (insônia, dores, fadiga extrema), a culpa é constante e debilitante ou você está evitando oportunidades profissionais por não conseguir se separar dos filhos.
Você Não Precisa Escolher
Uma última reflexão: a narrativa de que você precisa "escolher" entre ser boa mãe e boa profissional é falsa. Você pode ser ambas — não perfeita em nenhuma das frentes, mas genuína e presente nas duas.
Seus filhos não precisam de uma mãe que sacrificou tudo por eles. Precisam de uma mãe que persegue seus próprios sonhos, que modela equilíbrio, que está inteira quando está presente.
A ansiedade parental, quando não tratada, rouba exatamente isso: a capacidade de estar presente. Você está no trabalho pensando nos filhos; está com os filhos pensando no trabalho. Não está inteira em lugar nenhum.
Tratar a ansiedade não é sobre se preocupar menos com seus filhos. É sobre se preocupar de forma mais eficaz — e sobrar energia para estar verdadeiramente com eles quando estiver.
Para entender melhor como a maternidade intersecta com a carreira, leia também sobre culpa materna, retorno ao trabalho pós-licença e geração sanduíche.
Se a ansiedade sobre seus filhos está consumindo sua energia e impedindo você de estar presente — seja no trabalho ou com eles — considere buscar apoio profissional. A TCC pode ajudar você a construir uma relação mais saudável com a preocupação, liberando espaço para o que realmente importa. Entre em contato e vamos trabalhar juntas para que você possa ser mãe e líder sem se destruir no processo.
