FOGLO: O Medo de Demissão que Paralisa Executivas Hoje
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você está em uma reunião importante quando seu celular vibra. Uma notificação do LinkedIn: "Sua empresa está realizando reestruturações". O coração acelera, as mãos suam, e uma pergunta invade sua mente: "Será que sou a próxima?"
Se você se identificou, saiba que não está sozinha. Uma pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria revelou que 31% dos brasileiros têm muito medo de perder o emprego. Entre executivas de alta performance, esse medo tem nome: FOGLO.
O que é FOGLO e por que afeta tantas profissionais
FOGLO é o acrônimo para Fear of Getting Laid Off — o medo de ser demitida. O termo se popularizou nos últimos anos, especialmente após ondas de layoffs em grandes empresas de tecnologia e setores tradicionais.
O que diferencia o FOGLO de uma preocupação normal é sua intensidade e persistência. Enquanto um medo saudável nos motiva a fazer um bom trabalho, o FOGLO cria um estado de hipervigilância constante que consome energia mental e compromete a qualidade de vida.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por transtornos mentais no Brasil cresceram 68% em 2024, alcançando 472.328 casos. A média de idade dos afastados? 41 anos — exatamente a faixa etária de muitas executivas em posições de liderança.
Os números que explicam a epidemia silenciosa
Os dados são alarmantes: 85% dos profissionais americanos relataram preocupação com demissão em 2024, enquanto 64% dos afastamentos por saúde mental no Brasil são de mulheres. Além disso, 75% das executivas já experimentaram síndrome da impostora em suas carreiras, e o aumento de afastamentos por ansiedade foi de 341,9% em 10 anos.
Por que executivas são mais vulneráveis ao medo de demissão
Se você ocupa uma posição de liderança, provavelmente enfrenta uma pressão única. A visibilidade do cargo, combinada com a responsabilidade por resultados e equipes, cria um terreno fértil para o FOGLO.
A conexão entre síndrome da impostora e FOGLO
A síndrome da impostora cria uma lente distorcida de autoavaliação. Você se torna hiperconsciente de cada erro, descarta conquistas como "sorte" e vive com o medo constante de ser "descoberta" como uma fraude.
Esse padrão cognitivo é terreno fértil para o FOGLO. A lógica distorcida segue assim: "Não sou tão competente quanto pensam" leva a "em algum momento vão perceber", que culmina em "quando perceberem, serei demitida".
A pressão dos múltiplos papéis
Executivas frequentemente equilibram múltiplas responsabilidades: liderança, família, cuidado com pais idosos (a chamada geração sanduíche). O medo de perder o emprego não é apenas sobre carreira — é sobre sustentar toda essa estrutura.
Top tip
O FOGLO raramente é apenas sobre trabalho. Muitas vezes, está conectado a medos mais profundos: de não ser boa o suficiente, de decepcionar quem depende de você, de perder sua identidade profissional.
Sinais de que o medo virou ansiedade disfuncional
Existe uma diferença importante entre medo saudável e ansiedade patológica. O medo saudável é temporário, proporcional à situação e desaparece quando o estressor passa. A ansiedade disfuncional é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento diário.
Sinais cognitivos
Os sinais cognitivos incluem catastrofização ("Se eu errar nessa apresentação, serei demitida"), leitura mental ("Meu chefe olhou diferente para mim, deve estar planejando me demitir"), pensamento tudo-ou-nada ("Se não for perfeita, sou um fracasso completo") e filtro mental (focar apenas nos erros, ignorando conquistas).
Sinais comportamentais
No comportamento, você pode checar obsessivamente e-mails e mensagens fora do horário, ter dificuldade de desconectar do trabalho mesmo em férias, evitar feedback por medo do que vai ouvir, ou trabalhar excessivamente para "provar valor".
Sinais físicos
Fisicamente, pode haver insônia ou sono não reparador (veja mais sobre o ciclo insônia-ansiedade), tensão muscular crônica especialmente em pescoço e ombros, problemas gastrointestinais e fadiga persistente apesar de descanso.
Se você identificou vários desses sinais, é hora de buscar ajuda profissional. O FOGLO não tratado pode evoluir para quadros mais sérios de ansiedade generalizada ou burnout.
5 técnicas de TCC para superar o medo de demissão
A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas práticas para lidar com o FOGLO. Como psicóloga especializada em TCC, compartilho cinco técnicas que uso com minhas pacientes executivas:
1. Reestruturação cognitiva para catastrofização
Quando você pensa "Se errar, serei demitida", seu cérebro trata isso como fato. A reestruturação cognitiva questiona essa lógica com perguntas como: "Qual a evidência real de que isso vai acontecer?", "Quantas vezes você errou e NÃO foi demitida?" e "O que você diria a uma colega que tivesse esse pensamento?".
O objetivo não é ignorar riscos reais, mas distinguir entre preocupações legítimas e distorções cognitivas.
2. Registro de pensamentos automáticos
Pensamentos automáticos são aquelas ideias que surgem instantaneamente em situações de estresse. Mantendo um registro, você consegue identificar padrões:
| Situação | Pensamento automático | Emoção | Evidências a favor | Evidências contra | Pensamento alternativo |
|---|---|---|---|---|---|
| Reunião com CEO | "Ele vai me demitir" | Pânico (9/10) | Ele pareceu sério | Reunião era sobre projeto novo | "Reuniões com CEO são normais no meu cargo" |
Com o tempo, você aprende a questionar automaticamente esses pensamentos antes que eles dominem suas emoções.
3. Técnica de evidências
Esta técnica é simples e poderosa. Quando surgir um pensamento sobre demissão, pergunte: "Qual evidência CONCRETA suporta esse pensamento?", "Qual evidência CONCRETA contradiz?" e "Estou confundindo possibilidade com probabilidade?". Muitas vezes, descobrimos que nossos medos são baseados em sensações, não em fatos.
4. Cartões de enfrentamento
Prepare respostas racionais por escrito para usar em momentos de crise. Por exemplo:
"Estou tendo um pensamento de que serei demitida. Este é um pensamento, não um fato. Minha última avaliação foi positiva. Entreguei todos os projetos no prazo. Tenho 8 anos de empresa sem advertências. Este pensamento vai passar."
Ter essa resposta pronta ajuda quando a ruminação mental dificulta o raciocínio claro.
5. Exposição gradual aos cenários temidos
Paradoxalmente, enfrentar o medo pode reduzi-lo. Isso não significa provocar demissão, mas sim preparar-se para cenários que você evita. Atualizar seu currículo reduz a sensação de impotência. Fazer networking proativo cria opções. Conversar com seu gestor sobre seu desempenho substitui suposições por fatos. Criar reserva financeira de emergência aumenta a sensação de segurança. Cada passo transforma medo paralisante em preparação estratégica.
A síndrome do sobrevivente: quando você fica mas outros vão
Um aspecto pouco discutido do FOGLO é o que acontece quando você sobrevive a uma rodada de demissões. A Harvard Business Review destaca que a ansiedade dos sobreviventes pode ser "quase tão prejudicial" quanto a de quem perdeu o emprego.
O que os sobreviventes enfrentam
Os sobreviventes frequentemente sentem culpa ("Por que eu fiquei e minha colega não?"), sensação de traição (perda de confiança na empresa), medo amplificado ("Se aconteceu com eles, pode acontecer comigo") e sobrecarga (assumir funções dos demitidos sem aumento de recursos).
Se você passou por uma reestruturação e ficou, permita-se processar essas emoções. Elas são normais e não significam ingratidão por ter mantido seu emprego.
Top tip
Sobreviver a layoffs não significa que você deve sentir apenas alívio. É possível — e saudável — sentir tristeza pelos colegas, preocupação pelo futuro e gratidão pelo presente, tudo ao mesmo tempo.
Separando autoestima de status profissional
Um dos trabalhos mais importantes na terapia para FOGLO é desconectar seu valor pessoal do seu cargo. Se sua identidade está completamente fundida com sua posição profissional, qualquer ameaça ao emprego se torna uma ameaça existencial.
Perguntas para reflexão
Considere: quem você seria se não tivesse esse cargo? Quais são suas fontes de identidade além do trabalho? Seu valor como pessoa depende de quanto você produz? Se uma amiga fosse demitida, você a veria como menos valiosa?
Essa reflexão não é sobre diminuir a importância da carreira — é sobre criar uma identidade mais robusta que não desmorona diante de mudanças profissionais.
Quando buscar ajuda profissional
O FOGLO pode ser trabalhado em terapia com excelentes resultados. Considere buscar ajuda se o medo está interferindo no seu sono há mais de duas semanas, se você evita situações de trabalho por medo de avaliação, se os pensamentos sobre demissão ocupam grande parte do seu dia, se você percebe impacto na sua saúde física, ou se o medo está afetando seus relacionamentos pessoais.
A TCC é especialmente eficaz para ansiedade relacionada ao trabalho porque oferece técnicas práticas e resultados relativamente rápidos. Muitas pacientes relatam melhora significativa em 12 a 16 sessões.
Transformando medo em preparação estratégica
O antídoto para o FOGLO não é ignorar riscos reais do mercado de trabalho. É substituir a ansiedade paralisante por ação construtiva. Desenvolva habilidades: invista em sua empregabilidade continuamente. Construa relacionamentos: networking não é só para quando você precisa. Cuide das finanças: reserva de emergência reduz a pressão psicológica. Mantenha limites: Burnout compromete sua performance mais do que qualquer erro pontual. Busque feedback real: substitua suposições por informações concretas.
Se você se identificou com este artigo e sente que o medo de demissão está controlando sua vida, saiba que existe ajuda especializada. A TCC oferece ferramentas concretas para retomar o controle dos seus pensamentos e da sua qualidade de vida.
Entre em contato para agendar uma consulta e descobrir como posso ajudá-la a transformar ansiedade em clareza e ação.
