Transtorno do Pânico: Reconhecer, Tratar e Prevenir Crises

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Transtorno do Pânico: Reconhecer, Tratar e Prevenir Crises

Você está em uma reunião comum quando, de repente, seu coração dispara violentamente. A respiração fica impossível, as mãos formigam, uma onda de calor toma conta do seu corpo. A certeza de que algo terrível está acontecendo — um infarto, um desmaio, a perda de controle — domina tudo. E então, tão rápido quanto começou, a crise passa. Mas o medo de que aconteça novamente nunca vai embora.

Se essa descrição ressoa com você, pode estar lidando com o transtorno do pânico — uma condição que vai muito além de ataques isolados. O que caracteriza esse transtorno não são apenas as crises, mas o medo persistente de tê-las e as mudanças que você faz na sua vida para evitá-las. Para mulheres em posições de liderança, esse medo pode se tornar especialmente limitante, afetando a capacidade de viajar, apresentar ou simplesmente estar em reuniões longas.

Neste artigo, vou explicar o que diferencia o transtorno do pânico de ataques isolados, como a evitação agorafóbica se desenvolve e por que a TCC — especialmente a exposição interoceptiva — é tão eficaz no tratamento. Como especialista em TCC, trabalho frequentemente com esse quadro. Se você precisa de ajuda profissional, entre em contato.

O Que É o Transtorno do Pânico

O transtorno do pânico é caracterizado por ataques de pânico recorrentes e inesperados, seguidos por pelo menos um mês de preocupação persistente sobre ter novos ataques, as consequências dos ataques (como "enlouquecer" ou ter um infarto) ou mudanças significativas de comportamento relacionadas aos ataques.

É importante distinguir: ter um ou dois ataques de pânico na vida é relativamente comum. O que define o transtorno é a combinação de ataques recorrentes com o medo contínuo e a mudança de comportamento. É esse "medo do medo" que transforma episódios isolados em um padrão crônico e limitante.

Segundo diretrizes clínicas, a TCC é o tratamento psicológico de primeira linha para o transtorno do pânico, com evidências sólidas de eficácia tanto no curto quanto no longo prazo. A boa notícia é que o transtorno do pânico é altamente tratável quando abordado com as técnicas corretas.

Os sintomas físicos do ataque de pânico podem ser intensos mas não são perigosos

Sintomas do Ataque de Pânico

O ataque de pânico é um episódio de medo intenso que atinge o pico em minutos e envolve múltiplos sintomas físicos e cognitivos. Reconhecer esses sintomas ajuda a entender que, por mais assustadores que sejam, não representam perigo real.

Sintomas Físicos

Os sintomas físicos do ataque de pânico são intensos e frequentemente confundidos com problemas cardíacos. O coração acelera de forma abrupta, a sensação de falta de ar ou sufocamento é comum, e pode haver dor ou desconforto no peito. Formigamento nas mãos, pés ou ao redor da boca aparece frequentemente, assim como tontura, sensação de desmaio iminente, ondas de calor ou calafrios, tremores, sudorese e náusea.

Sintomas Cognitivos

Junto com os sintomas físicos, surgem pensamentos aterrorizantes. A certeza de que está tendo um infarto, o medo de desmaiar ou perder o controle, a sensação de que está "enlouquecendo" ou morrendo, e uma sensação de irrealidade — como se o mundo ao redor não fosse real — são comuns. Esses pensamentos alimentam o pânico, criando uma espiral ascendente de medo.

Quanto Dura um Ataque

Um ataque de pânico típico atinge o pico em 10 minutos e raramente dura mais de 30 minutos. Porém, os efeitos residuais — exaustão, sensibilidade aumentada — podem durar horas. É comum que a pessoa fique "em alerta" pelo resto do dia após um ataque.

Top tip

Embora os sintomas do ataque de pânico sejam intensos e assustadores, eles não são perigosos. Seu corpo está tendo uma resposta de "luta ou fuga" sem ameaça real — desconfortável, mas não letal. Essa compreensão é fundamental para o tratamento.

Para entender melhor a diferença entre ataques de pânico e ansiedade comum, leia nosso artigo sobre ataques de pânico vs ansiedade.

A Evitação Agorafóbica

Uma das consequências mais limitantes do transtorno do pânico é o desenvolvimento de agorafobia — o medo de estar em situações de onde seria difícil escapar ou obter ajuda caso um ataque aconteça. Não se trata simplesmente de medo de espaços abertos, como o nome sugere, mas de qualquer situação que pareça "armadilha".

Pessoas com agorafobia podem evitar transporte público, aviões, túneis e pontes, locais fechados como cinemas e reuniões, espaços abertos como estacionamentos ou praças, filas e multidões, e até sair de casa sozinhas. Quando não conseguem evitar completamente, podem desenvolver "comportamentos de segurança" — como sempre sentar perto da saída, carregar medicação "para emergência" ou precisar de acompanhante.

Para mulheres em cargos de liderança, a agorafobia pode ser especialmente problemática. Evitar viagens de avião, reuniões longas ou eventos corporativos limita oportunidades profissionais. E a necessidade de esconder essas limitações adiciona uma camada extra de estresse.

Por Que a Evitação Piora o Problema

A evitação funciona como um "falso amigo": parece ajudar no curto prazo, mas piora tudo no longo prazo. Quando você evita uma situação por medo de ter um ataque, seu cérebro recebe a mensagem: "Essa situação é realmente perigosa — ainda bem que fugimos". Isso reforça a associação entre a situação e o perigo, tornando o próximo encontro ainda mais difícil.

Além disso, você nunca tem a oportunidade de aprender que poderia ter enfrentado a situação sem que nada terrível acontecesse. A evitação impede a aprendizagem corretiva. Por isso, o tratamento eficaz do transtorno do pânico envolve necessariamente enfrentar — de forma gradual e estruturada — o que está sendo evitado.

Tratamento com Terapia Cognitivo-Comportamental

A TCC para transtorno do pânico combina várias técnicas que atacam diferentes aspectos do problema. Meta-análises recentes mostram que a combinação de reestruturação cognitiva e exposição interoceptiva está associada a melhores resultados.

Psicoeducação

O primeiro passo é entender o que está acontecendo no seu corpo durante um ataque de pânico. A resposta de "luta ou fuga" foi projetada para proteger você de ameaças reais — ela prepara o corpo para correr ou lutar. Quando essa resposta é ativada sem ameaça real, os sintomas são os mesmos, mas não há perigo. Saber disso não elimina os ataques imediatamente, mas muda a forma como você os interpreta.

Reestruturação Cognitiva

Trabalhamos para identificar e questionar as interpretações catastróficas. "Estou tendo um infarto" pode ser questionado: "Já tive muitos ataques e nunca foi infarto. O médico disse que meu coração está saudável. Os sintomas passam em minutos — infartos não funcionam assim." Essa técnica não nega o desconforto, mas corrige as conclusões equivocadas.

Exposição Interoceptiva

Esta é uma técnica especialmente poderosa para o transtorno do pânico. Estudos demonstram que a exposição interoceptiva melhora significativamente os resultados do tratamento. A técnica consiste em induzir propositalmente as sensações físicas temidas — por exemplo, girar em uma cadeira para provocar tontura, respirar através de um canudo para criar sensação de falta de ar, ou correr no lugar para acelerar o coração.

O objetivo não é causar sofrimento, mas demonstrar que as sensações, embora desconfortáveis, não são perigosas nem incontroláveis. Com a prática repetida, você desenvolve tolerância às sensações e elas perdem o poder de te assustar.

A exposição interoceptiva ajuda a enfrentar as sensações físicas de forma controlada

Exposição In Vivo

Se você desenvolveu evitação agorafóbica, trabalhamos também com exposição gradual às situações evitadas. Começamos com situações menos ameaçadoras e progredimos aos poucos. Por exemplo: primeiro ir até o shopping com acompanhante, depois sozinha, depois permanecer por mais tempo, depois ir em horários mais movimentados.

Eliminação de Comportamentos de Segurança

Os comportamentos de segurança — carregar medicação "por via das dúvidas", sempre sentar na ponta, evitar café antes de situações importantes — parecem inofensivos, mas mantêm a crença de que você não conseguiria lidar sem eles. Parte do tratamento envolve eliminar gradualmente esses apoios para descobrir que você é mais capaz do que imagina.

Estratégias para Manejar um Ataque

Enquanto busca tratamento, algumas estratégias podem ajudar a manejar um ataque quando ele acontece.

Reconheça o que está acontecendo: Diga para si mesma: "Isso é um ataque de pânico. Já tive antes e passou. É desconfortável, mas não perigoso."

Não lute contra: Tentar suprimir os sintomas geralmente os intensifica. Aceite que eles estão acontecendo e que vão passar.

Foque na respiração: Respiração lenta e diafragmática ajuda, mas não de forma "desesperada". Inspire contando até 4, segure por 4, expire contando até 6.

Fique onde está: Se possível, não fuja da situação. Fugir reforça o medo. Permaneça até a ansiedade começar a diminuir naturalmente.

Lembre-se do padrão: Ataques de pânico seguem uma curva previsível — sobem, atingem o pico e descem. Nenhum ataque dura para sempre.

Quando Buscar Avaliação Profissional

Considere buscar ajuda especializada se você tem ataques de pânico recorrentes, se vive com medo de ter novos ataques, se está evitando situações por causa desse medo, ou se o problema está afetando seu trabalho, relacionamentos ou qualidade de vida.

O primeiro passo costuma ser uma avaliação médica para descartar condições que mimetizam pânico, como problemas de tireoide ou arritmias. Uma vez confirmado o diagnóstico de transtorno do pânico, o tratamento psicológico pode ser altamente eficaz.

Se você também apresenta preocupação excessiva com diversas áreas além do pânico, pode valer a pena ler sobre o Transtorno de Ansiedade Generalizada.

O transtorno do pânico é tratável. Com as técnicas certas, é possível voltar a viver sem o medo constante de novos ataques. Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.

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