Depressão de Alta Performance: Sucesso e Sofrimento

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Depressão de Alta Performance: Sucesso e Sofrimento

Ela chega às 7h para a reunião de diretoria. Apresenta os resultados do trimestre com clareza e confiança. Almoça com clientes, responde dezenas de e-mails, resolve crises. Às 20h, ainda no escritório, finaliza o relatório.

Do lado de fora, é a executiva que "dá conta de tudo".

Do lado de dentro, há meses não sente prazer em nada. Acorda exausta mesmo depois de dormir. Precisa de um esforço monumental para fazer coisas que antes eram automáticas. Mas continua funcionando — porque parar não é uma opção.

Se você se reconhece nesse cenário, saiba que não está sozinha. Segundo pesquisas em saúde ocupacional, 26% dos executivos apresentam sintomas consistentes com depressão clínica — comparado a 18% da força de trabalho geral. E entre mulheres em cargos de liderança, os números são ainda mais preocupantes, pois elas enfrentam desafios adicionais como a dupla jornada, discriminação de gênero e a pressão constante por provar competência em ambientes predominantemente masculinos.

O Paradoxo da Executiva que Funciona

A depressão que afeta mulheres em posições de alta performance raramente se parece com a imagem clássica do transtorno. Você não fica na cama sem conseguir levantar. Não para de trabalhar. Não "desmorona" visivelmente.

Pelo contrário: você continua entregando resultados, cumprindo prazos, liderando equipes. É o que chamamos de depressão de alta performance ou, em inglês, smiling depression — a depressão que se esconde atrás de um sorriso e de uma agenda lotada.

Os sinais são mais sutis:

  • Anedonia funcional: você faz as coisas, mas não sente prazer. Aquele projeto que antes empolgava agora é só mais uma tarefa.
  • Exaustão desproporcional: o cansaço não condiz com o esforço. Dormir não restaura.
  • Desconexão emocional: você está presente fisicamente nas reuniões, mas mentalmente distante.
  • Autocrítica implacável: mesmo com bons resultados, a voz interna diz que não é suficiente.

O problema dessa forma de depressão é que ela passa despercebida — até por você mesma. E os dados mostram que a abertura para falar sobre saúde mental no trabalho está diminuindo: apenas 48% dos trabalhadores se sentem confortáveis discutindo o tema com supervisores em 2024, contra 62% em 2020.

Top tip

Se você está funcionando bem no trabalho mas sente um vazio persistente, se precisa de esforço extra para fazer coisas que antes eram naturais, ou se há meses não sente alegria genuína — esses são sinais que merecem atenção. Depressão não é só "não conseguir funcionar". Às vezes é funcionar com um peso invisível.

A Solidão do Topo

Um dos fatores que mais contribui para a depressão em executivas é paradoxalmente consequência do próprio sucesso: o isolamento.

Pesquisas mostram que 60% das mulheres em cargos executivos sentem mais solidão à medida que suas carreiras progridem. Quanto mais você sobe, menos pares você tem. E para mulheres, esse fenômeno é amplificado: elas ocupam menos de 25% das posições de C-suite na América corporativa.

Essa escassez significa menos mentoras, menos confidentes, menos pessoas que entendem os desafios específicos que você enfrenta. Com quem você compartilha que está exausta? Com a equipe que você lidera? Com o conselho que avalia seu desempenho?

O impacto na saúde é concreto: segundo a National Academies of Sciences, a solidão crônica aumenta o risco de morte prematura em até 30% — comparável ao impacto de fumar 15 cigarros por dia. E está fortemente associada a depressão e ansiedade.

A solidão executiva não é fraqueza ou falha de networking. É uma consequência estrutural de ambientes que ainda não foram desenhados para mulheres em liderança. Reconhecer isso é o primeiro passo para buscar conexões genuínas fora da hierarquia corporativa. Grupos de pares, mentorias e espaços seguros onde você pode ser vulnerável sem julgamento tornam-se essenciais para a saúde mental de quem ocupa posições de liderança.

O Double Bind: Expectativas Impossíveis

Mulheres em posições de liderança enfrentam o que pesquisadores chamam de double bind — um dilema sem saída aparente.

Se você é assertiva e direta, é vista como "fria" ou "difícil". Se demonstra calor e empatia, questiona-se sua competência para decisões duras. Se mostra vulnerabilidade, parece fraca para o cargo. Se não mostra, parece desumana.

Essa navegação constante entre expectativas contraditórias é exaustiva. E frequentemente leva a um mecanismo de defesa: o perfeccionismo.

A lógica inconsciente é: "Se eu for perfeita, não poderão me criticar". Mas o perfeccionismo é uma armadilha. Meta-análises com mais de 20 mil participantes mostram que preocupações perfeccionistas predizem aumento de sintomas depressivos — e vice-versa, criando um ciclo que se retroalimenta.

Some a isso a síndrome da impostora, que afeta 75% das executivas em algum momento de suas carreiras. A combinação perfeccionismo + impostora + pressão por resultados + isolamento cria um terreno fértil para a depressão se instalar — silenciosamente, sem que ninguém perceba. Você continua recebendo elogios externos enquanto internamente acredita que "se soubessem como realmente me sinto, veriam que não mereço estar aqui". Esse abismo entre a imagem pública e a experiência privada é um dos marcadores mais comuns da depressão de alta performance.

Como a TCC Ajuda Executivas com Depressão

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é especialmente eficaz para mulheres de alta performance com depressão, por várias razões.

Primeiro, a evidência é robusta. A maior meta-análise já realizada sobre TCC para depressão, com 409 estudos e mais de 52 mil pacientes, demonstrou eficácia significativa — e, crucialmente, os resultados se mantêm 6 a 12 meses após o término do tratamento. Diferente de abordagens que dependem de intervenção contínua, a TCC ensina habilidades que você leva para a vida.

Segundo, a TCC é pragmática e orientada a resultados — o que ressoa com a mentalidade de executivas. Não se trata de anos de análise do passado, mas de identificar padrões de pensamento disfuncionais que estão operando agora e aprender a modificá-los.

Alguns padrões comuns em executivas com depressão:

  • "Tenho que dar conta de tudo sozinha" → Questionamos: de onde vem essa crença? Ela é útil ou está te adoecendo?
  • "Se eu mostrar que estou mal, vão achar que não aguento a pressão" → Exploramos: qual o custo de manter essa máscara?
  • "Não tenho tempo para cuidar de mim" → Analisamos: quanto tempo você perde em ruminação, exaustão, improdutividade causada pela depressão não tratada?

A TCC também trabalha a validação do sofrimento. Muitas executivas minimizam o próprio mal-estar ("tem gente em situação pior", "eu tenho privilégios, não posso reclamar"). Aprender a reconhecer que seu sofrimento é real e merece atenção — independente de comparações — é parte fundamental do processo. Além disso, a TCC ajuda a desenvolver estratégias práticas de autocuidado que se encaixam em agendas lotadas, porque cuidar de si não precisa significar horas de meditação ou retiros — às vezes são pequenos ajustes consistentes que fazem a diferença.

Quando Buscar Ajuda: Sinais de Alerta

Nem todo cansaço ou desânimo significa depressão. Mas alguns sinais indicam que é hora de procurar avaliação profissional:

  • Duração: os sintomas persistem há mais de duas semanas, sem melhora significativa
  • Intensidade: o esforço para funcionar está se tornando insustentável
  • Impacto: você está evitando situações, prejudicando relacionamentos ou cometendo erros incomuns
  • Pensamentos negativos recorrentes: ideias de que "seria melhor não estar aqui" ou de que você é um fardo para os outros
  • Mudanças físicas: alterações significativas no sono, apetite ou energia que não respondem a ajustes de rotina

A depressão de alta performance é especialmente perigosa porque você continua entregando resultados — até que não consegue mais. Quanto mais cedo intervir, mais recursos você terá para o processo de recuperação. Muitas executivas só buscam ajuda quando chegam ao burnout, quando a intervenção já exige mais tempo e energia. Tratar a depressão antes desse ponto crítico é investir na sua capacidade de continuar liderando com saúde.

Top tip

Se você não tem certeza se o que sente é "sério o suficiente" para buscar ajuda, esse questionamento em si já é razão para conversar com um profissional. Não existe sofrimento pequeno demais para merecer atenção.

Buscar Ajuda é Estratégia, Não Fraqueza

Se você chegou até aqui e se identificou com o que leu, quero que saiba de algo importante: buscar ajuda psicológica não é sinal de que você "não aguenta". É sinal de inteligência estratégica.

Você não esperaria uma crise financeira se agravar para chamar um consultor. Não deixaria um problema operacional crescer sem intervenção. Sua saúde mental merece o mesmo cuidado proativo.

A depressão de alta performance é tratável. E quanto mais cedo você agir, menor o custo — para sua saúde, suas relações e, sim, para sua carreira. O tratamento adequado não significa parar de trabalhar ou reduzir suas ambições. Significa recuperar a capacidade de sentir satisfação com suas conquistas, energia genuína para os desafios, e presença emocional nas relações que importam para você.

Para entender mais sobre como a depressão funciona além dos estereótipos, recomendo a leitura do artigo Depressão: Muito Além da Tristeza.

Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com mulheres em posições de liderança que enfrentam exatamente esse cenário. Se você quer entender melhor o que está sentindo e explorar caminhos de tratamento, entre em contato para agendar uma conversa inicial.

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