Depressão e Álcool: Por Que Parece Alívio, Mas Piora o Humor

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Depressão e Álcool: Por Que Parece Alívio, Mas Piora o Humor

O dia foi pesado. Reuniões intermináveis, cobranças, aquela sensação de que nada nunca é suficiente. Você chega em casa exausta e pensa: "Mereço uma taça de vinho para relaxar." Uma taça vira duas. Você finalmente sente os ombros baixarem. Por algumas horas, o peso some.

Mas no dia seguinte, o peso está de volta — talvez até mais forte. E você se pergunta se não está exagerando.

Se isso soa familiar, você não está sozinha. Uma pesquisa da Drinkaware mostrou que 53% das pessoas bebem por motivos relacionados à saúde mental. Porém, 44% relataram que o álcool piorou seu bem-estar mental.

Neste artigo, vou explicar por que o álcool parece aliviar a depressão mas na verdade a piora, como funciona o ciclo da automedicação, e quais alternativas realmente ajudam. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres que buscam formas saudáveis de lidar com emoções difíceis. Se você precisa de apoio, entre em contato.

Por Que o Álcool Parece Aliviar a Depressão

Vamos entender por que o álcool parece funcionar — e por que isso é parte do problema.

O Alívio Temporário

O álcool é um depressor do sistema nervoso central. Quando você bebe, ele aumenta temporariamente os níveis de dopamina (prazer) e GABA (relaxamento), enquanto reduz a atividade do córtex pré-frontal (a parte do cérebro responsável por preocupações e planejamento).

O resultado? Você realmente se sente mais relaxada. A ansiedade diminui. Os pensamentos ruminativos dão uma pausa. Por algumas horas, parece que funcionou.

O Efeito Rebote

O problema é o que vem depois. O cérebro não gosta de desequilíbrios químicos. Quando o álcool sai do sistema, ele compensa na direção oposta: níveis mais baixos de dopamina, maior ansiedade, humor mais deprimido.

A Harvard Health explica que o álcool pode aumentar os sintomas de depressão e ansiedade a longo prazo. O que parecia solução se torna parte do problema.

O Ciclo da Automedicação

Aqui está a armadilha: você se sente mal → bebe para aliviar → sente-se temporariamente melhor → o álcool sai do sistema → sente-se pior do que antes → bebe novamente para aliviar.

Cada volta no ciclo pode intensificar tanto o consumo quanto a depressão.

O ciclo álcool-depressão

A Conexão Depressão-Álcool

A relação entre depressão e álcool é bidirecional — cada um alimenta o outro. Pesquisas mostram dados alarmantes:

  • Quase um terço das pessoas com depressão maior também têm transtorno por uso de álcool
  • A combinação é mais comum do que imaginamos — e mais perigosa
  • Às vezes a depressão vem primeiro, e o álcool é usado como automedicação
  • Às vezes o uso pesado de álcool desencadeia a depressão
  • Em muitos casos, os dois se retroalimentam de forma que fica difícil separar
  • O que sabemos com certeza: independente do que veio primeiro, um piora o outro

O álcool também afeta o sono de forma significativa. Pode ajudar a adormecer mais rápido, mas prejudica a qualidade: reduz o sono REM (restaurador), causa despertares noturnos, e deixa você menos descansada. E sono ruim é um dos principais gatilhos para piora da depressão.

Top tip

Se você está usando álcool para dormir, isso pode estar piorando tanto seu sono quanto seu humor. Existem alternativas mais eficazes — e sem efeito rebote.

Sinais de Alerta: Quando o Uso se Torna Problemático

Como saber se seu uso de álcool está se tornando problemático? A linha entre uso social e uso problemático nem sempre é clara, especialmente para mulheres que mantêm aparência de funcionalidade. Faça estas perguntas a si mesma: você bebe especificamente para lidar com emoções difíceis? Precisa de mais álcool para sentir o mesmo efeito relaxante? Sente-se pior no dia seguinte, além da ressaca física? Já tentou reduzir mas não conseguiu? O álcool está afetando seu trabalho, relacionamentos ou saúde? Você não consegue imaginar relaxar sem beber? Pessoas próximas já comentaram sobre seu consumo?

Se você respondeu sim a qualquer uma dessas perguntas, vale prestar atenção. O padrão pode estar se instalando mesmo que você ainda não tenha percebido.

Especialistas alertam que o uso de álcool para "aliviar" emoções está associado a sintomas depressivos mais graves. O fenômeno do "beber funcional" é especialmente comum entre mulheres executivas: o consumo parece controlado, socialmente aceito, até sofisticado. Mas quando você percebe que precisa da taça para relaxar, pode já estar em território problemático.

Se você percebe que não consegue relaxar sem álcool, se o consumo está aumentando, ou se está usando álcool para lidar com sintomas de depressão — é hora de buscar avaliação profissional.

Por Que Apenas Parar de Beber Nao Resolve

Se o álcool piora a depressão, é só parar de beber, certo? Infelizmente, não é tão simples. O álcool estava cumprindo uma função — mesmo que de forma prejudicial. Quando você para, o vazio que ele preenchia fica exposto. Se você não desenvolver alternativas para lidar com o estresse, a ansiedade e o cansaço, a tentação de voltar será enorme.

Além disso, parar de beber não trata automaticamente a depressão que está por baixo. Nas primeiras semanas sem álcool, os sintomas depressivos podem até piorar antes de melhorar, o que pode ser desanimador para quem está tentando mudar.

É por isso que pesquisas mostram que tratar os dois problemas simultaneamente é mais eficaz do que tratar apenas um. O tratamento integrado pode incluir terapia para depressão, suporte para redução ou cessação do álcool, e desenvolvimento de habilidades de enfrentamento alternativas. A abordagem deve ser personalizada para cada caso.

Abordagem TCC: Quebrando o Ciclo

A TCC oferece ferramentas específicas para trabalhar tanto a depressão quanto o uso de álcool. O processo envolve várias etapas:

Identificar Gatilhos e Pensamentos Automáticos

O primeiro passo é mapear o que antecede o desejo de beber. Gatilhos comuns incluem:

  • Estresse no trabalho e reuniões difíceis
  • Solidão e sensação de vazio
  • Conflitos nos relacionamentos
  • Ansiedade e preocupação excessiva
  • Cansaço físico e mental
  • Final de semana ou momentos de "descompressão"

Junto com os gatilhos, examinamos os pensamentos automáticos que surgem: "Preciso de uma taça para relaxar." "Só consigo desligar com vinho." "Todo mundo bebe, não é grande coisa." Na TCC, questionamos: são verdade? São úteis? Existem outras formas de pensar sobre a situação?

Desenvolver Alternativas e Prevenir Recaídas

Para cada gatilho, desenvolvemos alternativas: técnicas de relaxamento, atividade física, conexão social, hobbies. O objetivo é ter um repertório de estratégias que não envolvam álcool.

Recaídas fazem parte do processo — mas podem ser minimizadas. Aprendemos a reconhecer sinais precoces, desenvolver planos de ação, e construir rede de suporte.

Alternativas saudáveis para regulação emocional

Alternativas Saudáveis Para Regulação Emocional

Veja o que pode substituir o álcool como estratégia de regulação emocional. A chave é encontrar opções que funcionem para você e seu estilo de vida.

A atividade física é uma das alternativas mais eficazes. Exercício libera endorfinas naturalmente, e uma caminhada de 20 minutos, yoga, ou qualquer movimento que você goste pode oferecer alívio real — sem efeito rebote. Não precisa ser academia: subir escadas, dançar em casa ou alongar-se já faz diferença.

Técnicas de relaxamento também são fundamentais: respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo e meditação são habilidades que você pode usar em qualquer lugar, a qualquer momento. São recursos internos que não dependem de nenhuma substância externa.

A conexão social é outro regulador emocional poderoso. Conversar com alguém de confiança sobre como você está se sentindo oferece alívio genuíno — e não deixa ressaca. Muitas mulheres isolam-se quando estão sofrendo, mas o suporte social é protetor.

Resgate também atividades prazerosas que você abandonou. O que você gostava de fazer antes de usar álcool como forma de relaxar? Ler, assistir séries, hobbies, banho quente? Esses prazeres simples podem ser recuperados.

Se a depressão é significativa, tratamento profissional é necessário. Terapia, e em alguns casos medicação, podem ajudar a tratar a causa raiz em vez de mascarar sintomas. Para mais sobre enfrentamento saudável do estresse, leia sobre burnout: sintomas, causas e tratamento.

Quando Buscar Ajuda Especializada

Algumas situações exigem apoio profissional urgente. Se você não consegue passar um dia sem beber, precisa de álcool para funcionar no trabalho ou em casa, experimenta sintomas de abstinência como tremores, ansiedade intensa ou sudorese, tem pensamentos de autolesão ou suicídio, ou se o uso está afetando significativamente trabalho, relacionamentos ou saúde — é hora de buscar ajuda.

Se você já tentou reduzir sozinha várias vezes sem sucesso, isso também é um sinal de que precisa de suporte profissional. Não significa que você é fraca; significa que o problema é complexo demais para enfrentar sem ajuda.

Os tipos de ajuda disponíveis incluem psicólogo ou psiquiatra para avaliação e tratamento, grupos de apoio como AA ou grupos específicos para mulheres, e em casos graves, tratamento intensivo pode ser necessário. O primeiro passo é conversar com um profissional de saúde mental que possa fazer uma avaliação adequada.

Buscar ajuda para uso de álcool não é fraqueza — é reconhecer que você merece cuidado adequado. Muitas mulheres bem-sucedidas enfrentam essa questão silenciosamente, carregando sozinhas um peso que poderia ser compartilhado. Para entender melhor como a depressão se manifesta, leia sobre depressão: muito além da tristeza. Você não precisa enfrentar sozinha, e há caminhos para sair desse ciclo.

Considerações Finais

O álcool pode parecer solução rápida para o peso da depressão — mas é uma armadilha que piora o que prometia aliviar. O alívio temporário cobra um preço alto em humor, sono, energia e saúde.

A boa notícia é que existem alternativas que funcionam de verdade. Estratégias de enfrentamento saudáveis, tratamento adequado da depressão, e suporte para mudar sua relação com o álcool podem quebrar o ciclo.

Você não precisa escolher entre relaxar e cuidar da sua saúde mental. É possível encontrar formas de aliviar o estresse que não alimentem a depressão.

Se você quer trabalhar sua relação com o álcool e a depressão, entre em contato para agendar uma avaliação.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está preocupada com seu uso de álcool ou sintomas de depressão, busque orientação de profissional de saúde mental. Em situação de crise, ligue para o CVV (188).

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