Depressão e Apetite: Perda de Fome, Compulsão e Equilíbrio

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Depressão e Apetite: Perda de Fome, Compulsão e Equilíbrio

Você esquece de comer. Passa horas sem sentir fome, e quando percebe já é noite e você mal se alimentou. Ou o oposto: você come sem parar — não por fome, mas por um vazio que não consegue nomear. A comida se tornou fonte de conflito, culpa, confusão.

Alterações no apetite são um dos sintomas mais comuns da depressão — e um dos que mais geram mal-entendidos. "Por que não consigo comer?" ou "Por que não consigo parar de comer?" A resposta frequentemente está no mesmo lugar: a depressão está afetando sua relação com a comida.

Pesquisas recentes mostram que alterações de apetite e peso são marcadores diagnósticos comuns mas variáveis na depressão: algumas pessoas manifestam aumento de apetite, enquanto outras perdem a fome. Ambos os padrões são sintomas legítimos.

Neste artigo, vou explicar como a depressão afeta o apetite, os dois padrões principais, e como encontrar equilíbrio sem culpa. Como especialista em TCC, trabalho regularmente com essa questão. Se você precisa de ajuda, entre em contato.

Como a Depressão Afeta a Relação com Comida

A comida não é apenas nutrição — é prazer, conforto, ritual social. A depressão interfere em tudo isso de maneiras profundas:

  • A anedonia reduz o prazer antecipado e o sabor da comida
  • Neurotransmissores alterados afetam sinais de fome e saciedade
  • Baixa energia dificulta preparar refeições adequadas
  • Emoções intensas podem disparar comer compulsivo ou perda de apetite
  • O comer emocional pode se intensificar como forma de regulação

Estudos de 2025 mostram que pessoas com depressão, em média, reportaram "querer" menos os alimentos, especialmente quando havia anedonia pronunciada. A comida simplesmente não parece atraente, mesmo seus pratos favoritos.

A depressão também afeta neurotransmissores e hormônios que regulam fome e saciedade. Não é apenas "falta de vontade" — há alterações biológicas reais. Para muitas pessoas, comer se torna uma forma de regular emoções, para preencher um vazio que não é físico, para anestesiar dor que não consegue processar.

Pesquisas indicam que a depressão é uma síndrome heterogênea. A depressão melancólica tipicamente se caracteriza por perda de apetite e perda de peso, enquanto a depressão atípica se caracteriza por sintomas vegetativos de aumento de apetite e ganho de peso. Ambos são depressão — apenas manifestações diferentes.

Alterações no apetite na depressão

Padrão 1: Perda de Apetite

A perda de fome é um dos sintomas clássicos da depressão. Você não sente fome, ou quando sente é muito fraca. A comida não parece atraente — mesmo alimentos que você costumava gostar. Você pode esquecer de comer, pular refeições sem perceber, ou comer muito menos do que o habitual.

Por que isso acontece? Na depressão, a anedonia reduz o prazer antecipado da comida. O baixo nível de energia dificulta preparar refeições. A ruminação ocupa o espaço mental que normalmente perceberia sinais de fome. O corpo em estado de estresse crônico pode suprimir sinais de apetite naturais.

As consequências são significativas: comer pouco piora a depressão, você fica com menos energia, piora a cognição, e pode intensificar sintomas. Perda de peso significativa afeta a saúde física, e a espiral continua.

Sinais de alerta incluem perda de peso significativa não intencional, fraqueza ou tontura por falta de alimentação, pular múltiplas refeições por dias seguidos, e incapacidade de comer mesmo quando tenta.

Padrão 2: Comer Emocional e Compulsão

O outro lado da moeda — comer demais, especialmente em resposta a emoções. Você come mesmo sem fome física — em resposta a tristeza, vazio, tédio, ansiedade. Pode ter episódios de comer grandes quantidades de uma vez, e prefere alimentos "de conforto" — geralmente ricos em açúcar, gordura, carboidratos.

Pesquisas mostram que o comer emocional (comer em resposta a emoções negativas) tem sido proposto como marcador da depressão atípica. Comer ativa temporariamente o sistema de recompensa do cérebro, oferecendo alívio momentâneo do sofrimento. Mas esse alívio é breve. Logo vem a culpa por ter comido "demais" ou "errado". A culpa piora o humor. O humor pior gera mais vontade de comer para regular. O ciclo se perpetua.

Sinais de alerta incluem comer grandes quantidades em pouco tempo, comer até se sentir desconfortavelmente cheia, sentir-se fora de controle durante episódios, culpa ou vergonha intensa após comer, e comer às escondidas. Para quem luta com comer emocional por estresse, leia sobre comer emocional em executivas.

Top tip

Alterações de apetite na depressão não são fraqueza, falta de força de vontade, ou falha moral. São sintomas — tão reais quanto qualquer outro sintoma da depressão. Tratá-los com culpa só piora o problema.

Por Que a Culpa Não Ajuda

A culpa alimentar é uma armadilha comum — e contraproducente. A espiral funciona assim: você come "demais" (ou "de menos"), sente culpa, a culpa piora o humor, o humor pior intensifica a relação problemática com comida, você come "demais" (ou "de menos") novamente, e mais culpa.

A culpa não faz você comer melhor — faz você comer pior. Pesquisas mostram que vergonha e culpa alimentar estão associadas a piores comportamentos alimentares, não melhores. Em vez de culpa, precisamos de compreensão e estratégias práticas. Entender que o apetite alterado é sintoma. Desenvolver abordagens gentis e realistas para alimentação.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos

A TCC oferece ferramentas específicas para trabalhar a relação com comida na depressão. O processo envolve várias etapas.

Primeiro, fazemos monitoramento de padrões: observamos quando, o que, e por que você come (ou não come). Não para julgar — para entender padrões. Quais emoções precedem episódios de comer demais? Quais situações levam você a esquecer de comer?

Depois, mapeamos os gatilhos que disparam alterações no comportamento alimentar: horários, emoções, situações, pensamentos. Com esse mapa, podemos intervir antes do comportamento problemático.

Para quem perde apetite, trabalhamos estrutura: horários regulares de alimentação, refeições pequenas e frequentes, alimentos fáceis de preparar. Não é sobre comer "perfeito" — é sobre nutrir o corpo mesmo sem vontade. Para quem come emocionalmente, desenvolvemos outras formas de lidar com emoções difíceis: técnicas de relaxamento, atividades alternativas, estratégias de enfrentamento que não envolvam comida.

Trabalhamos também os pensamentos de culpa alimentar: "Sou fraca porque não consigo controlar." Substituímos por perspectivas mais realistas: "Meu apetite está alterado por causa da depressão. Estou fazendo o melhor que posso."

Encontrando equilíbrio na alimentação durante a depressão

Estratégias Praticas Para Cada Padrao

Veja o que pode ajudar em cada padrão. Para perda de apetite, o mais importante é não esperar sentir fome — ela pode não vir. Estruture horários regulares para comer, mesmo que sejam porções pequenas. Facilite o acesso tendo alimentos fáceis disponíveis como frutas, iogurte, castanhas. Quando você precisa cozinhar, a barreira fica alta demais. É mais fácil comer um pouco várias vezes do que uma refeição grande. E se você vai comer pouco, que seja nutritivo — alimentos ricos em nutrientes compensam a quantidade reduzida.

Para comer emocional, a pausa antes de comer é fundamental. Quando a vontade surgir, espere 10 minutos. Pergunte: "Estou com fome física ou emocional?" Se for emocional, nomeie o que está sentindo. Tristeza? Vazio? Ansiedade? Tédio? Às vezes, nomear a emoção já reduz a urgência de comer. Desenvolva alternativas: o que mais poderia ajudar com essa emoção? Uma caminhada curta? Ligar para alguém? Tomar um banho? Nem sempre vai funcionar — mas ter opções ajuda. E lembre-se: restrição excessiva geralmente leva a episódios de compulsão. É mais sustentável permitir pequenas quantidades do que proibir completamente.

Quando Buscar Ajuda Especializada

Algumas situações exigem atenção profissional além da psicoterapia. Busque avaliação nutricional se seu peso mudou significativamente, se você não está conseguindo manter alimentação minimamente adequada, ou se tem dúvidas sobre como se nutrir bem. Um nutricionista pode ajudar com orientação personalizada.

Esteja atenta a sinais de transtorno alimentar: se você vomita após comer, usa laxantes ou diuréticos para controlar peso, faz jejuns prolongados seguidos de episódios de compulsão, ou tem preocupação obsessiva com peso e forma corporal, isso pode indicar um transtorno alimentar que precisa de tratamento específico.

Busque avaliação médica se há perda ou ganho de peso muito significativos, se há outros sintomas físicos preocupantes, ou se a depressão é moderada a severa. Para entender mais sobre depressão, leia sobre o que vai além da tristeza.

Considerações Finais

Alterações no apetite são sintomas comuns e legítimos da depressão — não são fraqueza, falta de controle, ou falha moral. Algumas pessoas perdem a fome; outras comem emocionalmente. Ambos os padrões merecem compreensão e tratamento gentil.

A meta não é "comer perfeitamente" — é nutrir seu corpo da forma possível enquanto você trabalha a depressão. Isso pode significar estruturar refeições mesmo sem fome. Pode significar desenvolver alternativas ao comer emocional. Pode significar buscar ajuda de nutricionista ou médico.

Você merece uma relação pacífica com a comida. E essa relação pode ser reconstruída — com tempo, gentileza, e as estratégias certas.

Se você se identificou com o que leu, entre em contato para agendar uma avaliação.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você suspeita de transtorno alimentar ou tem perda/ganho de peso significativos, busque avaliação médica e nutricional. Se você está em crise, busque atendimento imediato através do CVV (188) ou de serviços de emergência.

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