Depressão Pós-Férias: Por Que o Retorno ao Trabalho Dói

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Depressão Pós-Férias: Por Que o Retorno ao Trabalho Dói

As férias foram maravilhosas. Você descansou, desconectou, redescobriu prazeres simples que a rotina havia engolido. Sentiu-se leve, presente, viva. E então chegou o último dia — e junto com ele, uma onda de tristeza que você não esperava. O aperto no peito ao pensar no trabalho. A dificuldade de levantar da cama no primeiro dia de volta. A sensação de que algo precioso foi arrancado.

Se você já viveu isso, não está sozinha. A depressão pós-férias é um fenômeno real que afeta milhões de pessoas — e executivas em ambientes de alta pressão são particularmente vulneráveis.

Segundo dados da Eurofound, cerca de um terço dos trabalhadores na Europa relata sintomas de desmotivação ao retornar das férias. Estudos do Journal of Occupational Health Psychology indicam que aproximadamente 20% dos trabalhadores apresentam sintomas que persistem por mais de duas semanas após o retorno.

Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com executivas que enfrentam esse "blues pós-férias" de forma intensa. Se o retorno ao trabalho está sendo mais difícil do que esperava, entre em contato. Podemos trabalhar juntas nessa transição.

O Que É A Depressão Pós-Férias

A depressão pós-férias, também conhecida como "post-vacation blues" ou síndrome do desânimo do retorno, é uma condição que surge quando a pessoa volta à rotina após um período de descanso.

Uma Ressaca Emocional Real

Embora não esteja contemplada como diagnóstico formal no DSM-5, o termo descreve um conjunto de sintomas bem documentados que muitas pessoas experimentam após o retorno das férias. Conforme explicam especialistas em saúde mental ocupacional, não é uma depressão no sentido clínico, mas os efeitos dessa ressaca emocional são muito reais.

Sintomas Comuns

No campo emocional, os sintomas incluem tristeza ou melancolia persistente, desânimo e frustração, irritabilidade desproporcional, ansiedade antecipatória sobre o trabalho e sensação de vazio ou perda.

No aspecto físico, você pode experienciar fadiga mesmo após dormir bem, dores de cabeça, dificuldade para dormir ou sonolência excessiva, tensão muscular e aperto no peito.

Comportamentalmente, aparecem dificuldade de levantar da cama, procrastinação no trabalho, baixa produtividade, isolamento dos colegas e dificuldade de concentração.

Contraste entre férias e retorno ao trabalho

Por Que Isso Acontece

A depressão pós-férias não é "frescura" ou falta de profissionalismo. É uma resposta psicológica compreensível a uma transição abrupta.

A Queda De Dopamina

Durante as férias, especialmente as prazerosas, o cérebro libera dopamina — o neurotransmissor do prazer e da recompensa. O retorno à rotina representa uma queda nessa estimulação, criando uma espécie de "abstinência" neurológica.

O Contraste Extremo

Quanto maior o contraste entre as férias e o trabalho, maior o impacto. No ambiente, você vai de praias paradisíacas para escritórios fechados. No ritmo, de dias sem agenda para reuniões consecutivas. No controle, de total autonomia para demandas externas. No prazer, de atividades escolhidas para obrigações impostas. Esse choque sensorial e emocional explica por que o primeiro dia de volta é tão difícil.

A Perda Da Antecipação

Nas semanas ou meses que antecedem as férias, há entusiasmo e preparação — algo por que ansiar. Terminadas as férias, essa sensação de antecipação é substituída abruptamente pela realidade quotidiana, criando vazio e tristeza.

O Que As Férias Revelam

Às vezes, a depressão pós-férias não é apenas sobre as férias terminarem — é sobre o que o contraste revela. Pode revelar um trabalho que não traz satisfação real, uma rotina que não está alinhada com seus valores, necessidades emocionais não atendidas no dia a dia ou relacionamentos profissionais que drenam mais energia do que oferecem.

Top tip

Se a tristeza pós-férias é intensa e persistente, use-a como um "termômetro" do seu trabalho. Não é apenas saudade das férias — pode ser um sinal de que algo na sua rotina precisa de atenção. Essa informação é valiosa.

Por Que Executivas São Mais Vulneráveis

Mulheres em posições de liderança enfrentam fatores específicos que intensificam a depressão pós-férias.

A Dificuldade De Desconectar

Mesmo de férias, executivas frequentemente mantêm um olho no trabalho — e-mails "urgentes", decisões que não podem esperar. Quando finalmente conseguem desconectar, o contraste é ainda mais brutal.

O Acúmulo Que Espera

O retorno significa enfrentar dezenas (ou centenas) de e-mails, projetos que avançaram sem você, decisões represadas. A antecipação desse acúmulo começa a pesar antes mesmo do fim das férias.

A Pressão Por Alta Performance

Não há espaço para "dias de readaptação". A expectativa é que você volte produzindo no mesmo nível — ou mais, para compensar a ausência. Essa pressão impede uma transição gradual.

A Máscara De Força

Executivas aprenderam a não demonstrar vulnerabilidade. Admitir que está difícil voltar pode parecer fraqueza. Então você finge que está tudo bem — e o peso interno aumenta.

O Papel Da TCC Na Transição

A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas específicas para processar a transição pós-férias.

Identificação De Pensamentos Disfuncionais

A depressão pós-férias frequentemente vem acompanhada de distorções cognitivas:

Pensamento DistorcidoReestruturação
"Nunca mais vou me sentir bem assim""Este é um momento de transição. A adaptação leva tempo"
"As férias foram uma ilusão, isso é a vida real""Ambos são partes reais da minha vida. Posso buscar mais equilíbrio"
"Não aguento mais esse trabalho""Estou em um momento de baixa. Posso avaliar isso com mais clareza em algumas semanas"
"Deveria estar motivada, não me sentindo assim""Transições são difíceis. Meus sentimentos são válidos"

Ativação Comportamental Gradual

Em vez de mergulhar de cabeça na rotina intensa, faça uma transição progressiva. No primeiro dia, foque em tarefas administrativas leves e reconexão com colegas. Nos primeiros três dias, mantenha apenas reuniões essenciais e evite horas extras. Na primeira semana, retome gradualmente o ritmo normal sem exigir performance máxima. Na segunda semana, faça uma avaliação: o que está funcionando e o que precisa de ajuste?

Técnicas De Regulação Emocional

Algumas técnicas ajudam a processar as emoções dessa transição. A validação — reconhecer que "é normal sentir tristeza nessa transição" — é o primeiro passo. Pratique respiração consciente, criando momentos de pausa ao longo do dia. Use técnicas de ancoragem (grounding) quando a ansiedade surgir. E cultive autocompaixão, tratando-se com a gentileza que você ofereceria a uma amiga na mesma situação.

Readaptação gradual à rotina

Estratégias Práticas De Prevenção E Manejo

Algumas estratégias podem tornar a transição menos dolorosa.

Antes Das Férias

Planeje o encerramento: Conclua tarefas importantes e delegue responsabilidades. O acúmulo é menor quando há preparação.

Defina expectativas: Comunique claramente que estará indisponível. Quanto menos interrupções nas férias, mais restaurador será o descanso.

Agende o retorno estrategicamente: Se possível, volte em uma quarta ou quinta-feira. Assim, o primeiro ciclo de trabalho é mais curto.

Durante As Férias

Desconecte de verdade: A desconexão parcial é o pior dos dois mundos — nem descansa nem resolve.

Esteja presente: Aproveite cada momento sem pensar no retorno. A antecipação negativa rouba o presente.

Registre experiências positivas: Fotos, diário, memórias. Ter a que voltar ajuda na transição.

No Retorno

Não volte correndo: Evite chegar de viagem e trabalhar no dia seguinte. Alguns dias de readaptação doméstica fazem diferença.

Comece devagar: Resista à tentação de "resolver tudo no primeiro dia". Priorize implacavelmente.

Evite horas extras iniciais: Seu corpo e mente ainda não se readaptaram. Forçar não adianta.

Mantenha algo prazeroso: Não deixe que o trabalho engula tudo. Mantenha pelo menos uma atividade que traga prazer na primeira semana.

Planeje a próxima pausa: Ter algo por que ansiar ajuda. Mesmo um fim de semana especial.

Quando O "Blues" Indica Algo Maior

A depressão pós-férias típica dura de alguns dias a duas semanas. Se persistir além disso ou for muito intensa, pode indicar questões mais profundas.

Sinais De Alerta

Fique atenta a sintomas que persistem por mais de duas semanas, pensamentos de desesperança sobre o trabalho ou a vida, incapacidade de funcionar minimamente, crises de choro frequentes ou pensamentos de autoextermínio. Qualquer um desses sinais indica necessidade de buscar apoio profissional.

O Que Pode Estar Por Trás

Burnout: As férias podem ter mascarado temporariamente um esgotamento crônico. Leia mais sobre burnout.

Depressão: A tristeza pós-férias pode ter desencadeado ou revelado um quadro depressivo subjacente.

Insatisfação profissional: Quando o trabalho não está alinhado com valores, o retorno é sempre doloroso. Considere ler sobre quiet quitting emocional.

Ambiente tóxico: Se o trabalho é fonte de sofrimento, as férias não são descanso — são fuga. O problema é estrutural.

Busque Ajuda Se

Procure apoio profissional se o sofrimento é desproporcional à situação, se você não consegue identificar o que está errado, se tentativas de autocuidado não estão funcionando ou se o padrão se repete a cada retorno de férias.

As Férias Como Espelho

A depressão pós-férias, embora dolorosa, oferece informação valiosa. Ela mostra o contraste entre como você se sente quando tem autonomia, prazer e presença — e como se sente na rotina atual.

Use essa informação não para se culpar, mas para refletir: o que das férias pode ser incorporado ao dia a dia? O que no trabalho precisa mudar? Quais necessidades estão sendo negligenciadas?

O objetivo não é viver em férias perpétuas — isso não é possível nem desejável. Mas talvez seja possível construir uma rotina onde o contraste não seja tão brutal. Onde o trabalho não seja algo a ser suportado entre uma férias e outra, mas parte de uma vida que também tem significado e satisfação.

Para entender melhor como a rotina de trabalho afeta sua saúde mental, leia também sobre síndrome do domingo à noite e hiperprodutividade compulsiva.

Se o retorno das férias está sendo particularmente difícil ou se você percebe um padrão que se repete, considere buscar apoio profissional. A TCC pode ajudar você a processar essa transição, identificar o que o desconforto está revelando e construir estratégias para uma vida profissional mais equilibrada. Entre em contato e vamos trabalhar juntas nessa jornada.

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