Quiet Quitting Emocional: Quando Você Desiste Por Dentro
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você ainda aparece nas reuniões, responde aos e-mails, entrega o que pedem. Mas algo mudou. Aquela energia que você tinha, o engajamento com projetos, a vontade de ir além — tudo isso desapareceu. Por fora, você ainda trabalha. Por dentro, você já desistiu.
Esse fenômeno tem nome: quiet quitting, ou demissão silenciosa. Mas para executivas que construíram carreiras com dedicação e propósito, prefiro chamar de "quiet quitting emocional" — porque não é sobre fazer menos, é sobre não conseguir mais sentir conexão com o que você faz.
Segundo a pesquisa State of the Global Workplace 2024 da Gallup, 62% dos funcionários globalmente estão desengajados, fazendo apenas o mínimo necessário. Entre brasileiros, 46% relatam estresse, 25% tristeza e 18% raiva relacionados ao trabalho. O custo global desse desengajamento? US$ 8,9 trilhões anuais — ou 9% do PIB mundial.
O Que É Quiet Quitting Emocional
O quiet quitting não significa literalmente se demitir. Significa continuar no emprego enquanto se desconecta emocionalmente dele. É um estado de presença física com ausência psicológica.
Além do "Fazer o Mínimo"
Para executivas de alta performance, o quiet quitting emocional raramente se manifesta como fazer menos. Você pode continuar entregando resultados excelentes — mas agora por inércia, não por engajamento. A diferença está no que acontece internamente:
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Antes: você se importava com o impacto do seu trabalho
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Agora: você só quer que o dia termine
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Antes: você tinha ideias e iniciativas espontâneas
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Agora: você só reage ao que pedem
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Antes: você investia energia criativa em soluções
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Agora: você aplica o caminho de menor resistência
Segundo dados da EDC Group, 19,51% dos profissionais — a maioria mulheres — relatam sentir-se angustiados, desmotivados ou sobrecarregados no trabalho.
Sinais de Que Você Está em Quiet Quitting Emocional
Como identificar esse estado em si mesma? Observe se você:
Desconexão do Propósito
Você não se lembra mais por que escolheu essa carreira. Não vê sentido nas tarefas que executa. Sente que poderia estar fazendo qualquer coisa — e seria igual.
Apatia Seletiva
Notícias sobre a empresa não geram mais reação. Promoções de colegas não provocam nem alegria nem inveja. Feedbacks — positivos ou negativos — não afetam seu humor.
Presença Ausente
Você está nas reuniões, mas sua mente está em outro lugar. Tarefas que antes faziam fluir o tempo agora parecem intermináveis. Você se pega contando as horas até sexta-feira — e é segunda de manhã.
Evitação Ativa
Você procrastina tarefas que antes faria imediatamente. Evita interações que exijam mais do que o básico. Recusa oportunidades de desenvolvimento ou visibilidade.
Top tip
Quiet quitting emocional não é preguiça ou falta de profissionalismo. É um sinal de que algo no sistema — o ambiente, a função, ou sua relação com o trabalho — precisa ser endereçado.
Por Que Isso Acontece Com Executivas
O quiet quitting emocional em mulheres em posições de liderança geralmente resulta de uma combinação de fatores:
Esgotamento Acumulado
Diferente do burnout agudo, o quiet quitting pode ser resultado de um esgotamento crônico de baixa intensidade. Você não "quebrou" — mas também não tem mais energia para se importar.
Desalinhamento de Valores
Com o tempo, você pode perceber que os valores da organização não coincidem com os seus. Ou que promessas feitas não foram cumpridas. Essa dissonância corrói o engajamento gradualmente.
Falta de Reconhecimento
Segundo pesquisa da Robert Half, 52% dos executivos identificam funcionários em quiet quitting em suas empresas. A ironia é que muitos desses casos poderiam ser evitados com reconhecimento adequado.
Liderança Ineficaz
Dados mostram que gestores eficazes têm apenas 3% dos liderados em quiet quitting, enquanto gestores ineficazes têm 14%. A qualidade da liderança que você recebe impacta diretamente seu engajamento.
Sobrecarga Invisível
Executivas frequentemente assumem responsabilidades emocionais além das técnicas — mediar conflitos, cuidar do clima do time, ser a "cola" que mantém tudo funcionando. Esse trabalho invisível raramente é reconhecido, mas drena energia.
Pensamentos Automáticos do Desengajamento
Na TCC, identificamos padrões de pensamento que sustentam o quiet quitting emocional:
"Nada do que eu faço importa"
Esse pensamento de futilidade leva à conclusão de que não vale a pena se esforçar. É uma generalização que ignora impactos positivos reais que seu trabalho tem.
Reestruturação: Identifique três impactos concretos do seu trabalho nas últimas semanas. Eles podem ser pequenos, mas são reais.
"Eles nunca vão reconhecer mesmo"
Essa crença de que o reconhecimento é impossível justifica não buscar visibilidade ou não se engajar em novos projetos.
Reestruturação: Questione se você está comunicando adequadamente suas contribuições. E se o ambiente realmente não reconhece, questione se é o ambiente certo para você.
"Só estou esperando aparecer algo melhor"
Esse pensamento mantém você em estado de espera passiva, sem investir no presente nem buscar ativamente alternativas.
Reestruturação: Esperar passivamente raramente traz mudança. Que ação concreta você pode tomar hoje?
"Todo mundo está assim"
Normalizar o desengajamento pode ser reconfortante, mas impede que você busque mudança.
Reestruturação: Mesmo que outros estejam desengajados, isso não significa que você precisa estar. Sua experiência no trabalho é sua para transformar.
Técnicas de TCC para Reconectar-se
O quiet quitting emocional é tratável. A TCC oferece ferramentas para identificar o que está por trás do desengajamento e reconstruir a conexão.
1. Experimentos Comportamentais
Teste suas crenças através de ações:
Crença: "Ninguém nota se eu me esforço ou não" Experimento: Escolha um projeto e invista energia extra por duas semanas. Observe o que acontece. Possíveis descobertas: Ou você confirma que o ambiente é disfuncional (informação útil), ou descobre que há resposta ao seu engajamento.
2. Identificação de Valores
Às vezes o desengajamento sinaliza um desalinhamento de valores. Faça uma análise: quais são seus 5 valores profissionais mais importantes? Quantos deles estão sendo honrados no seu trabalho atual? Quais estão sendo violados? Essa análise pode revelar se o problema é circunstancial (e pode ser mudado) ou estrutural (e exige decisões maiores).
3. Registro de Momentos de Engajamento
Por duas semanas, anote momentos em que você sentiu qualquer fagulha de interesse ou satisfação no trabalho. O que estava fazendo? Com quem estava? Que elementos tornaram esse momento diferente? Esse exercício pode revelar o que ainda funciona — e servir de base para buscar mais disso.
4. Plano de Ação Estruturado
Se você decidir tentar reconectar-se, crie um plano estruturado. Nas semanas 1-2, observe e registre padrões de engajamento e desengajamento. Nas semanas 3-4, experimente pequenas mudanças baseadas nas observações. Nas semanas 5-6, avalie resultados e decida próximos passos. Se após esse período nada mudou, você tem dados para tomar decisões mais significativas.
Quando o Quiet Quitting É Um Sinal
Às vezes, o desengajamento não é um problema a ser corrigido — é um sinal a ser ouvido. Considere:
Talvez Seja Hora de Mudar
Se após reflexão e experimentação o desengajamento persiste, pode ser que a função atual não corresponde mais aos seus interesses, que o ambiente organizacional é genuinamente tóxico, que você cresceu além do que essa posição oferece ou que seus valores mudaram e não cabem mais ali. Nesses casos, o quiet quitting pode ser seu psiquismo pedindo mudança antes de você estar consciente disso.
Talvez Seja Mais Profundo
O desengajamento também pode ser sintoma de questões mais amplas:
- Depressão afeta motivação em todas as áreas da vida
- Autossabotagem pode se manifestar como desengajamento
- Dependência de validação externa pode fazer você desistir quando não recebe aprovação constante
Se o desengajamento se estende para além do trabalho, vale investigar se há algo mais acontecendo.
Conversando Com Liderança
Se você decidir abordar a questão no trabalho, considere o que comunicar e o que evitar.
O que comunicar: seus sentimentos de desconexão (sem culpar), o que você precisa para se reengajar e sua disposição para trabalhar junto em soluções.
O que não fazer: não faça ameaças veladas sobre sair, não apresente uma lista de queixas sem propostas e não espere que a outra pessoa adivinhe suas necessidades.
A organização pode responder com abertura ou defensividade. Independente da resposta, você ganha informação valiosa sobre se esse é o lugar certo para você.
Quando Buscar Ajuda Profissional
O quiet quitting emocional pode ser trabalhado em terapia quando você não consegue identificar sozinha as causas do desengajamento, quando o desengajamento está afetando outras áreas da vida, quando você precisa tomar decisões importantes sobre carreira ou quando há sofrimento emocional significativo associado.
Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com executivas para distinguir entre desengajamento situacional (que pode ser resolvido) e sinais de que mudanças mais profundas são necessárias.
Conclusão: Desengajamento Não É Destino
O quiet quitting emocional é um estado, não uma sentença. Você pode estar desengajada hoje e reconectada amanhã — se entender o que está por trás desse desligamento e tomar ações intencionais.
Algumas perguntas para reflexão: o que você amava neste trabalho quando começou? Essa coisa ainda existe ou desapareceu? Se desapareceu, é possível recuperá-la ou é hora de buscá-la em outro lugar?
Se você se reconheceu neste artigo e quer trabalhar essas questões com acompanhamento profissional, entre em contato. Juntas, podemos explorar o que está por trás do seu desengajamento e construir um caminho de volta ao propósito — seja no trabalho atual ou em um novo capítulo da sua carreira.
Você merece mais do que apenas passar os dias. Merece se importar com o que faz.
