Cyberstalking: Identifique Perseguição Online e se Proteja

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Cyberstalking: Identifique Perseguição Online e se Proteja

Ele criou um perfil falso para seguir você. Monitora quem curte suas fotos. Sabe com quem você esteve ontem — pelo story de uma amiga. Aparece em conversas que você teve em grupos privados. Você bloqueou, mas ele volta com outra conta. A sensação de ser vigiada não para, mesmo dentro de casa.

Isso é cyberstalking. E é crime.

Dados de 2024 mostram que o Brasil registrou quase duas mil denúncias de stalking nos primeiros meses do ano — a maior parte feita por mulheres. O Anuário de Segurança Pública registrou 77.083 casos de perseguição contra mulheres em 2023 — aumento de 34,5% em relação ao ano anterior.

Neste artigo, vou explorar o que é cyberstalking, como identificar e como se proteger. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres lidando com hipervigilância, medo e trauma decorrentes de perseguição digital. Se você precisa de apoio, entre em contato.

O Que É Cyberstalking

Especialistas explicam que cyberstalking é um fenômeno da era digital onde o agente persegue sua vítima de forma obsessiva e repetitiva no âmbito virtual, com objetivo de invadir e perturbar sua liberdade e privacidade. Diferente do stalking presencial que envolve perseguição física, o cyberstalking acontece através de plataformas digitais — mas o impacto psicológico é igualmente devastador e pode ser ainda mais insidioso por sua natureza constante e onipresente.

A Lei 14.132/2021 tipificou stalking como crime, incluindo sua modalidade digital. A pena é de 6 meses a 2 anos de prisão, além de multa. Se praticado contra mulher por razões de gênero, a pena aumenta 50%. Pesquisas indicam que cyberstalking é caracterizado por comportamento repetitivo e indesejado que causa medo, angústia ou constrangimento à vítima através de meios digitais. O que diferencia cyberstalking de uma simples interação indesejada é justamente o padrão: comportamentos repetidos, persistentes, que ignoram seus limites e geram medo real.

Reconhecendo sinais de cyberstalking

Modalidades De Cyberstalking

Estudos indicam que o cyberstalking se manifesta de diferentes formas. O assédio por comunicação direta é uma das mais comuns: sobrecarga de mensagens, comentários excessivos em posts, bombardeio de mensagens privadas, e-mails constantes, ligações repetidas através de apps. O agressor ignora seus bloqueios, cria novas contas, encontra formas de chegar até você.

Outra modalidade envolve o uso da internet para difamar e expor. Isso inclui criação de páginas ou posts para depreciar sua imagem, perfis falsos para vigiá-la, vazamento de informações pessoais, e em casos mais graves, exposição de fotos íntimas ou dados privados. A forma mais invasiva é a intrusão informática: instalação de aplicativos espiões no celular, monitoramento por GPS, acesso não autorizado às suas contas, controle remoto de webcam. Muitas vezes a vítima nem sabe que está sendo monitorada até descobrir o software espião.

Cyberstalkers frequentemente atuam em várias plataformas simultaneamente — Instagram, Facebook, WhatsApp, e-mail, LinkedIn. A sensação de onipresença é intencional: ele quer que você sinta que não há como escapar, que ele está em todo lugar. Essa estratégia de múltiplas plataformas aumenta significativamente o impacto psicológico da perseguição.

Top tip

Sinais de Cyberstalking:

  • Ele sabe coisas que você não compartilhou diretamente
  • Perfis falsos aparecem para segui-la ou vigiá-la
  • Mensagens excessivas, mesmo após bloqueio
  • Ele reaparece com novas contas quando você bloqueia
  • Comentários em tudo que você posta
  • Ameaças de expor informações ou imagens suas
  • Sensação constante de estar sendo monitorada

A Realidade No Brasil e O Impacto Psicológico

O Anuário de Segurança Pública registrou 57.294 casos de perseguição contra mulheres em 2022. Em 2023, foram 77.083 — aumento de 34,5%. Esses números revelam a magnitude crescente do problema. A maioria das denúncias é feita por mulheres, e o cyberstalking frequentemente está ligado a relacionamentos anteriores, rejeição ou tentativas de controle por ex-parceiros.

Apesar do crescimento nas denúncias, a subnotificação ainda é significativa. Muitas vítimas não denunciam por não saberem que é crime, por acharem que não serão levadas a sério, ou por medo de retaliação. Pesquisas indicam que o anonimato e a dificuldade de rastreamento dificultam identificar infratores e delimitar condutas ilícitas no ambiente digital. No entanto, isso não significa que denunciar seja inútil — pelo contrário, a documentação adequada pode permitir identificação do agressor.

O cyberstalking causa danos profundos à saúde mental. Você desenvolve hipervigilância online — checa quem viu seus stories, analisa seguidores novos, desconfia de mensagens, tem medo de postar qualquer coisa. Cada notificação gera ansiedade. Você vive em estado de alerta constante, mesmo dentro da própria casa. A internet, que deveria ser espaço de conexão e trabalho, vira fonte de ansiedade permanente. Você não se sente segura em nenhum ambiente digital.

Muitas vítimas se afastam das redes sociais, perdem conexões importantes, prejudicam carreira e relacionamentos por medo de exposição. O isolamento digital pode levar ao isolamento social real. O cyberstalking pode causar trauma — flashbacks ao receber notificações, ansiedade severa, dificuldade para dormir, sintomas de TEPT. A natureza constante da perseguição digital significa que o trauma é continuamente reativado, dificultando a recuperação enquanto o abuso persiste.

Como Se Proteger e Documentar

A proteção digital começa com a revisão das configurações de todas as suas redes sociais. Perfil privado. Limite quem pode ver stories, posts, lista de amigos. Desative quem pode encontrá-la por e-mail ou telefone. Desative também o compartilhamento de localização em fotos e posts, evite check-ins em tempo real, e não revele sua rotina — informações que podem ser usadas para rastrear seus movimentos.

Use senhas diferentes para cada plataforma e ative autenticação em dois fatores em todas as contas. Se ele teve acesso às suas contas, mude todas as senhas imediatamente. Verifique se há aplicativos estranhos no seu celular — especialmente apps de rastreamento ou acesso remoto. Se suspeitar de spyware, procure ajuda técnica especializada.

Bloqueie em todas as plataformas. Não responda — qualquer resposta pode incentivar o comportamento. Mas antes de bloquear, faça prints de tudo para documentação. Especialistas recomendam fazer prints com a tela da agressão virtual, registrando o link da postagem. Prints devem mostrar data e hora.

Copie os links das páginas, perfis, posts. Mesmo se ele apagar, o link pode ajudar investigadores a recuperar conteúdo. Mantenha um diário de incidentes: data, plataforma, o que aconteceu, links, screenshots. A cronologia ajuda a demonstrar o padrão de perseguição — essencial para caracterizar o crime. A lei garante que a vítima pode requerer preservação de dados e registros eletrônicos conforme o Marco Civil da Internet.

Protegendo sua presença digital

Denúncia, Direitos e Recuperação

Vá à delegacia registrar BO. Leve todas as provas documentadas — prints, links, registros. Se disponível, procure delegacia especializada em crimes cibernéticos. Para casos envolvendo violência de gênero, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) está preparada para atender e compreende as especificidades da violência contra mulheres.

Você pode solicitar medidas protetivas mesmo em casos de cyberstalking — a perseguição digital é reconhecida como crime e você tem direito à proteção. Para saber mais, leia medidas protetivas. O SaferNet Brasil também oferece orientação sobre segurança digital e pode ajudar com denúncias de crimes cibernéticos.

Pesquisas indicam que a vítima tem direito a pleitear indenização por danos morais e materiais e ter sua identidade preservada durante o processo quando há risco à integridade. Você não precisa enfrentar isso sozinha — existem recursos legais e profissionais preparados para apoiá-la.

Você não está exagerando. Cyberstalking é violência real com impacto real. A Terapia Cognitivo-Comportamental começa validando sua experiência — o que você está vivendo é grave e seus sentimentos são completamente justificados. A hipervigilância digital é resposta a uma ameaça real. Mas podemos trabalhar para que ela não tome conta de toda sua vida, para que você recupere alguma sensação de segurança.

Gradualmente, com segurança reforçada, você pode retomar espaços digitais que perdeu. Isso faz parte da recuperação — não deixar que ele determine sua relação com a tecnologia e a internet. Se você desenvolveu sintomas de trauma, o processamento adequado é fundamental. Para mais sobre recuperação, leia recuperação pós-relacionamento abusivo.

Busque ajuda profissional se você tem ansiedade severa relacionada ao uso de internet ou redes sociais, se tem flashbacks, pesadelos, evita completamente o digital, ou sente pânico ao receber notificações. Busque também se o cyberstalking está afetando seu trabalho, relacionamentos, ou capacidade de funcionar no dia a dia. Se você se isolou completamente do mundo digital e isso está prejudicando sua vida, suporte profissional pode ajudar a reconstruir sua presença online de forma segura. Para mais sobre stalking presencial, leia stalking e perseguição.

Considerações Finais

Cyberstalking é crime. A sensação de ser vigiada, monitorada, perseguida online é real — e tem consequências sérias para sua saúde mental, sua carreira, seus relacionamentos.

A Lei 14.132/2021 protege vítimas de perseguição digital. Você tem direito à privacidade, à segurança, à paz. Documente, denuncie, busque apoio. Você não precisa enfrentar isso sozinha.

A recuperação é possível. Com suporte adequado, você pode processar o trauma, reconstruir sua sensação de segurança e retomar sua presença digital de forma protegida. Se você está sofrendo cyberstalking e precisa de suporte psicológico, entre em contato para agendar uma avaliação.

Canais de Ajuda:

  • Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • Ligue 190 — Polícia Militar
  • SaferNet Brasil — Segurança digital e denúncias

Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento jurídico. Para orientação legal, procure advogada ou Defensoria Pública. Se você está em perigo, ligue 190.

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