Feminicídio: Sinais de Escalada e Como Buscar Ajuda
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Se você está em perigo imediato, ligue agora para 190 (Polícia Militar) ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
A violência que você enfrenta em casa pode parecer "normal" — algo que sempre foi assim, algo que vai melhorar. Mas se você está lendo este artigo, talvez algo em você saiba que a situação está piorando.
Feminicídio não acontece de repente. É o ponto final de uma escalada que começa muito antes — com controle, isolamento, ameaças.
Dados de 2024 mostram que o Brasil registrou 1.459 casos de feminicídio — o equivalente a quatro mulheres mortas por dia por razão de gênero. O Mapa Nacional da Violência de Gênero aponta alta contínua nos casos.
Neste artigo, vou apresentar os sinais de escalada de risco e os caminhos de proteção. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres em situação de violência. Se você precisa de apoio, entre em contato.
O Que É Feminicídio: Conceito, Números E Realidade Brasileira
Feminicídio é o assassinato de uma mulher por razões de gênero — quando a morte ocorre em contexto de violência doméstica ou envolve menosprezo à condição de mulher. É importante entender que feminicídio não é um caso isolado ou um "crime passional". É o ponto final de uma escalada que geralmente inclui violência física, psicológica e patrimonial ao longo do tempo.
Pesquisas indicam que até 75% dos feminicídios são cometidos por parceiros ou ex-parceiros, e a maioria acontece dentro de casa — o lugar que deveria ser seguro. A violência de gênero afeta todas as mulheres, mas atinge de forma mais intensa mulheres negras e em situação de vulnerabilidade social, evidenciando a intersecção entre machismo, racismo e desigualdade.
Os Números No Brasil
O Brasil registrou 1.459 casos de feminicídio em 2024 — o equivalente a quatro mulheres mortas por dia por razão de gênero. Esse número representa o maior registro desde que a lei foi criada, em 2015. No primeiro semestre de 2025, foram registrados 718 feminicídios em todo o país, mantendo a média trágica.
Estudos indicam que 71,6% das notificações de violência contra mulheres ocorreram dentro de casa. O lar, que deveria ser refúgio, é o lugar mais perigoso para mulheres em situação de violência. Os casos de feminicídio por arma de fogo aumentaram significativamente em 2025. No Rio de Janeiro, 86% das vítimas por arma de fogo foram mortas por companheiros ou ex-companheiros.

Sinais De Escalada: Reconhecendo O Perigo A Tempo
Especialistas indicam que o feminicídio começa muito antes da morte, manifestando-se em comportamentos que sinalizam risco extremo. Reconhecer esses sinais pode salvar vidas.
Primeiros Sinais De Controle
Os primeiros sinais frequentemente são normalizados como "ciúme" ou "amor intenso". Incluem proibições sobre trabalho, estudo ou vida social, controle excessivo do celular, contatos ou deslocamentos, e xingamentos e humilhações naturalizados como "discussões de casal". Gradualmente, o agressor executa o isolamento da vítima de familiares e amigos. Você percebe que está cada vez mais sozinha, e isso não é coincidência — é estratégia de controle.
Ameaças E Violência
As ameaças veladas marcam uma escalada significativa: "Se você me deixar...", "Você não vai a lugar nenhum", "Sem mim você não é nada." Essas frases parecem ciúme ou paixão intensa, mas são instrumentos de controle e intimidação. A violência física começa frequentemente com empurrões, tapas, apertões — violência que é minimizada pelo agressor: "Foi só um empurrão", "Você me provocou." Cada episódio não confrontado tende a ser seguido por outro mais intenso.
Sinais De Risco Extremo
As ameaças explícitas representam o nível mais alto de risco: "Vou te matar", "Se não for minha, não será de mais ninguém", ameaças com armas ou objetos. Se você está ouvindo essas frases, a situação é de emergência.
Top tip
Sinais de Risco Extremo:
- Ameaças de morte (a você, filhos, família)
- Estrangulamento ou sufocamento prévio
- Acesso a armas de fogo
- Ciúme extremo e comportamento obsessivo
- Ameaças de suicídio se você sair
- Violência durante gravidez
- Aumento de frequência ou intensidade da violência
- Descumprimento de medidas protetivas
Por Que É Difícil Sair E Como Buscar Proteção
Muitas pessoas perguntam "por que ela não sai?", mas essa pergunta ignora a complexidade da situação. O medo de que ele cumpra as ameaças é absolutamente real — muitos feminicídios acontecem justamente quando a mulher tenta sair. Por isso, planejamento de segurança é essencial. Além do medo, existem barreiras práticas: dependência financeira, falta de para onde ir, filhos pequenos.
O vínculo emocional com o agressor também é real, mesmo em meio à violência. Esse fenômeno, chamado laço traumático, dificulta o rompimento. Há também a esperança de que ele mude, de que as promessas se cumpram, de que volte a ser o homem do início do relacionamento. Para entender esse padrão, leia sobre o ciclo da violência doméstica.

Canais De Ajuda E Proteção
Existem caminhos de proteção que você precisa conhecer. O Ligue 180 é a Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas, é gratuita e sigilosa. Orienta, registra denúncias e encaminha para a rede de proteção. Para emergências — quando a violência está acontecendo ou acabou de acontecer — ligue 190 (Polícia Militar).
Você pode solicitar medidas protetivas de urgência que determinam afastamento do agressor, proibição de contato e outras proteções. Devem ser analisadas em até 48 horas. As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) têm profissionais capacitados para acolher e orientar. Se não houver na sua cidade, qualquer delegacia pode registrar ocorrência.
A Defensoria Pública oferece orientação jurídica gratuita para solicitar medidas protetivas e acompanhar processos. Em casos de risco extremo, existem casas-abrigo para mulheres e seus filhos — o Ligue 180 pode informar sobre opções na sua região.
Planejamento De Segurança E O Papel Da Terapia
Se você está em situação de risco, ter um plano de segurança pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Comece documentando tudo: guarde mensagens, fotos de lesões, registros de ligações — qualquer evidência das agressões. Salve em mais de uma pasta em nuvem, não só no celular, para que ele não possa apagar as provas.
Preparação Para A Saída
Prepare uma bolsa com documentos importantes (seus e dos filhos), dinheiro, remédios e roupas essenciais — pronta para sair rapidamente se necessário. Combine uma palavra ou sinal com pessoa de confiança que significa "preciso de ajuda agora." Saiba por onde sair de casa rapidamente e identifique vizinhos que podem ajudar.
Se decidir sair, não avise o agressor. O momento da saída é o de maior risco — é quando muitos feminicídios acontecem. Para orientações detalhadas, leia nosso guia sobre plano de segurança para sair de relação violenta.
Como A TCC Pode Ajudar
Se você está em situação de risco, seu medo é real e racional. Você não está exagerando. A Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar de várias formas. Mesmo em situação extrema, há escolhas possíveis, e a TCC ajuda a identificar opções e planejar passos concretos. Técnicas específicas ajudam a funcionar apesar do medo — para que ele não paralise sua capacidade de agir e buscar ajuda.
Se você conseguiu sair, o trabalho continua: processar o trauma, reconstruir segurança, reestruturar a vida. Para mais informações sobre esse processo, leia sobre recuperação pós-relacionamento abusivo.
O Programa Mulher Segura
O Ministério da Justiça lançou em 2024 o programa Mulher Segura, com investimento inicial de R$ 370 milhões. As ações incluem fortalecimento das delegacias especializadas, criação de núcleos de investigação de feminicídios, ampliação das patrulhas Maria da Penha e integração de dados entre segurança pública, saúde e justiça. A Patrulha Maria da Penha realiza rondas preventivas a mulheres com medidas protetivas — se você tem medida protetiva, pode ser incluída na patrulha.
Organizações indicam que o feminicídio está inserido em contexto mais amplo de desigualdade de gênero e fragilidades nas estruturas de proteção social. Mudanças culturais profundas são necessárias para que esses números diminuam.
Quando E Como Buscar Ajuda Profissional
Se você se reconheceu nos sinais de escalada descritos neste artigo, buscar ajuda é urgente — tanto na rede de proteção quanto no suporte psicológico. Se o medo te impede de agir, de pensar em opções, de pedir ajuda — suporte profissional pode ajudar você a funcionar e tomar decisões.
Se você conseguiu sair, o trauma precisa ser processado. Não é fraqueza precisar de ajuda para isso — é parte natural da recuperação. Se você está preocupada com alguém em situação de risco, também pode buscar orientação. Leia nosso artigo sobre como apoiar mulher em situação de violência.
Considerações Finais
Feminicídio não é destino. É crime que pode ser prevenido quando os sinais são reconhecidos e há rede de proteção efetiva.
Se você está em situação de risco, saiba: há caminhos. Você não está sozinha. E sua vida vale mais do que qualquer relacionamento.
Se você precisa de apoio para sair de situação de violência ou para processar trauma, entre em contato para agendar uma avaliação.
EM CASO DE EMERGÊNCIA:
- Ligue 190 — Polícia Militar (24h)
- Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher (24h)
- Vá ao pronto-socorro mais próximo
Este artigo tem caráter informativo e de prevenção. Se você está em perigo imediato, ligue 190 ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
