Plano de Segurança: Como Sair de Relação Violenta
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você decidiu sair. Ou está considerando. Sabe que precisa ir, mas o medo paralisa: para onde? Com que dinheiro? E se ele descobrir? E se ficar pior?
O momento de sair de um relacionamento violento é frequentemente o mais perigoso. Por isso, planejamento é essencial. Um plano de segurança pode fazer a diferença entre sair com proteção e sair exposta a riscos ainda maiores.
Dados mostram que três em cada cinco mulheres sofrem, sofreram ou sofrerão de relacionamentos abusivos. O MPPB desenvolveu um "Plano de Segurança para Vítimas de Violência Doméstica" para orientar mulheres sobre como identificar relacionamento abusivo e buscar ajuda.
Neste artigo, vou apresentar elementos práticos de um plano de segurança. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres atravessando essa transição. Se você precisa de apoio, entre em contato.
IMPORTANTE: Se você está em perigo imediato, ligue 190. Este artigo é informativo — cada situação requer avaliação específica.
Por Que Planejar a Saída
O período de saída é frequentemente quando a violência escala. O agressor sente perda de controle e pode reagir de forma mais perigosa. Por isso, planejar não significa que você não quer sair — significa que você quer sair de forma segura. Isso é inteligência, não fraqueza.
Sair sem plano pode deixá-la sem dinheiro, documentos, lugar para ir. O planejamento reduz essas vulnerabilidades e aumenta significativamente suas chances de sair de vez, sem precisar voltar por falta de recursos. Muitas mulheres que retornam ao relacionamento abusivo o fazem por necessidade prática, não por escolha emocional.
Cada elemento do plano de segurança — documentos, dinheiro, rede de apoio, rotas de fuga — é uma camada de proteção. Quanto mais camadas você construir, mais segura estará. E você não precisa fazer tudo de uma vez: cada pequeno passo conta. Guardar um documento hoje, identificar uma pessoa de confiança amanhã, mapear rotas de saída na semana que vem. Você está construindo sua liberdade, um passo de cada vez.
É comum sentir que nunca estará "pronta o suficiente" para sair. Essa sensação pode te manter esperando indefinidamente. O plano de segurança não precisa ser perfeito — precisa ser funcional. Ter o básico preparado já faz diferença significativa.

Documentos, Finanças e Preparação Prática
Especialistas recomendam fazer e ocultar cópias dos documentos oficiais: RG, CPF, certidões de nascimento (suas e das crianças), carteira de trabalho, comprovantes de residência. Além dos documentos pessoais, inclua também cartões de banco, extratos, comprovantes de renda, documentos de imóveis ou veículos e contratos importantes.
Guarde cópias com pessoa de confiança — amiga, familiar, advogada. Se possível, digitalize e salve em e-mail ou nuvem que ele não tenha acesso. Não deixe cópias onde ele possa encontrar e apague histórico de navegação se pesquisou sobre sair.
Se possível, guarde dinheiro em local seguro ou com pessoa de confiança — mesmo valores pequenos fazem diferença. Se você não tem conta própria, considere abrir uma que ele não conheça. Alguns bancos têm contas digitais simples de abrir. A lei brasileira prevê pensão alimentícia para ex-companheiro(a) se houver dependência financeira, e há benefícios sociais disponíveis para mulheres em situação de violência.
A dependência financeira é uma das principais razões que mantêm mulheres em relacionamentos abusivos. Por isso, qualquer passo em direção à autonomia financeira — mesmo que pequeno — fortalece sua posição. Se você trabalha, verifique se seus dados de pagamento estão em conta própria. Se não trabalha, informe-se sobre programas de capacitação e emprego para mulheres em situação de violência.
Top tip
Checklist De Documentos:
- RG e CPF (seus e das crianças)
- Certidões de nascimento
- Carteira de trabalho
- Comprovantes de residência
- Documentos bancários
- Cartão do SUS / plano de saúde
- Receitas de medicamentos
- Documentos do veículo (se houver)
- Boletins de ocorrência anteriores
- Medidas protetivas (se houver)
Rede De Apoio e Rotas de Fuga
Especialistas indicam que é comum vítimas se sentirem isoladas. É essencial quebrar esse ciclo e buscar apoio de amigos e familiares de confiança. Quem pode ajudar? Amiga, irmã, mãe, colega de trabalho, vizinha? Uma pessoa de confiança já faz diferença.
Combine com alguém de confiança um código — palavra ou frase — que significa "preciso de ajuda." Esse código pode salvar sua vida em emergência. Você pode pedir ajuda prática, como guardar documentos ou recebê-la em caso de emergência, sem contar todos os detalhes. Faça como se sentir segura. O importante é ter pelo menos uma pessoa que saiba da sua situação e possa agir rapidamente se necessário.
Conheça as saídas da sua casa. Se ele bloquear a principal, há outra opção? Janela? Porta dos fundos? Identifique previamente para onde ir: casa de familiar, amiga, casa de acolhimento. Tenha mais de uma opção mapeada.
Especialistas recomendam manter uma mala pronta durante a noite, caso seja necessário sair rapidamente. Inclua documentos, roupas básicas, dinheiro, medicamentos e itens das crianças. A mala pode ficar com pessoa de confiança ou em local onde você possa pegar rapidamente sem ele perceber.

Proteção Legal, Filhos e Segurança Digital
Você pode solicitar medidas protetivas de urgência — afastamento do lar, proibição de aproximação, proibição de contato. O ideal é solicitar antes ou simultaneamente à saída, e a delegacia encaminha o pedido ao Judiciário. Para detalhes, leia medidas protetivas. A Lei Maria da Penha prevê medidas de prevenção, assistência e proteção às vítimas. Se você não pode pagar advogada, a Defensoria Pública oferece orientação jurídica gratuita.
Se você tem filhos, inclua os documentos deles no planejamento: certidões, carteirinha de vacinação, receitas médicas. Informe a escola sobre a situação — sem detalhes desnecessários — e garanta que só você pode buscar as crianças. Questões de custódia são complexas; busque orientação jurídica antes de sair, se possível. Se ele ameaçar as crianças, documente tudo — isso é relevante para medidas protetivas e decisões de custódia.
Na segurança digital, troque senhas de e-mail, redes sociais e bancos — especialmente se ele tinha acesso. Use dispositivo que ele não monitore. Verifique se ele instalou app de rastreamento no seu celular e desative compartilhamento de localização. Se possível, use celular que ele não conheça para contatos de emergência. Revise configurações de privacidade e considere bloquear ele e conhecidos dele que possam monitorá-la.
A tecnologia pode ser usada tanto para vigilância quanto para proteção. Conhecer os recursos disponíveis — apps de emergência, botões de pânico, grupos de apoio online — pode adicionar camadas de segurança ao seu plano. Para mais sobre proteção digital, leia sobre cyberstalking e segurança digital.
A Perspectiva Da TCC e Canais de Ajuda
Sentir medo de sair é normal — há riscos reais. A TCC não minimiza o medo; ajuda a agir apesar dele, de forma segura. Decisões difíceis geram ansiedade, e podemos trabalhar para clarear pensamentos, avaliar opções e fortalecer sua confiança.
Pensamentos como "estou destruindo a família" ou "ele vai piorar" são comuns. Na terapia, trabalhamos para atribuir responsabilidade a quem pertence — a violência é responsabilidade do agressor, não sua. Após sair, começa outro processo: reconstruir vida, processar trauma, desenvolver novas formas de se relacionar. Para mais sobre essa jornada, leia recuperação pós-relacionamento abusivo.
Se você está planejando sair, acompanhamento profissional pode ajudar no processo emocional e prático. Se você está travada, vai e volta na decisão, não consegue clarear — terapia pode ajudar. Se você já saiu e voltou antes, entender os padrões pode ser fundamental. Para explorar, leia ciclo da violência doméstica.
A Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) funciona 24 horas, é gratuita e sigilosa, oferecendo orientação sobre direitos e serviços disponíveis. Para emergências, ligue 190. Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) estão preparadas para casos de violência doméstica. Existem também casas-abrigo para mulheres em situação de violência — o Ligue 180 pode informar sobre opções na sua região.
Considerações Finais
Sair de relacionamento violento é difícil, perigoso e corajoso. Planejar não é fraqueza — é proteção. Cada passo que você dá em direção à segurança, por menor que pareça, é um ato de coragem.
Há recursos disponíveis: organizações, profissionais, leis. Você não precisa fazer isso sozinha. A jornada pode parecer impossível de onde você está agora, mas muitas mulheres percorreram esse caminho antes de você e reconstruíram suas vidas.
Se você leu este artigo até aqui, já deu um passo importante. Talvez seja o momento de guardar um documento, contar para uma pessoa de confiança, ou ligar para o 180. Cada pequena ação te aproxima da liberdade. E quando você estiver pronta, haverá pessoas e recursos esperando para te apoiar.
Cada passo conta. Guardar um documento. Contar para uma pessoa. Ligar para o 180. Você está construindo seu caminho para a segurança.
Se você está planejando sair ou já saiu e precisa de apoio psicológico, entre em contato para agendar uma avaliação.
Canais de Emergência:
- Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
- Ligue 190 — Polícia Militar
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional ou aconselhamento jurídico. Cada situação é única. Se você está em perigo imediato, ligue 190.
