Violência Psicológica é Crime: Lei e Como Denunciar
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Ele nunca te bateu. Mas controla como você se veste. Decide quem você pode ver. Humilha você em público e em privado. Ameaça terminar se você não obedecer. Faz você duvidar da própria sanidade.
Durante muito tempo, isso não era considerado crime. Agora é.
A Lei 14.188/2021, promulgada em 28 de julho de 2021, tipificou a violência psicológica contra a mulher como crime no Brasil, com pena de reclusão de 6 meses a 2 anos.
Neste artigo, vou explicar o que a lei diz, o que configura o crime e como denunciar. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres enfrentando violência psicológica. Se você precisa de apoio, entre em contato.
O Que Diz a Lei e o Que Configura Crime
A Lei 14.188/2021 inseriu o artigo 147-B no Código Penal, criando o crime de violência psicológica contra a mulher. O crime consiste em causar dano emocional à mulher que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou a controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões. A pena é de reclusão de 6 meses a 2 anos, podendo ser aumentada se cometido contra gestante, adolescente, idosa ou pessoa com deficiência.
A lei lista os meios: ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause prejuízo à saúde psicológica e autodeterminação.

Na prática, o crime pode se manifestar de diversas formas. Controle de comportamento inclui obrigar a vestir-se de determinado modo, decidir que lugares você pode frequentar, controlar com quem você pode conversar. Isolamento significa afastar você de família e amigos, criar conflitos para que você perca seus vínculos, monitorar suas comunicações. Humilhação envolve xingar, ridicularizar, menosprezar — em público ou em privado — fazer você se sentir inferior, incapaz, sem valor.
Ameaças como terminar, tirar os filhos, destruir suas coisas, contar seus segredos — tudo para que você obedeça — também configuram o crime. Chantagem emocional com frases como "se você realmente me amasse..." ou "depois de tudo que fiz por você..." ou "você vai ser responsável se eu fizer algo comigo" são formas de manipulação criminosa. Distorcer fatos, negar o que disse, fazer você duvidar da própria percepção — o que chamamos de gaslighting — também se enquadra. Para entender mais, leia gaslighting no trabalho.
Para executivas e mulheres em posições de liderança, a violência psicológica pode assumir formas específicas: um parceiro que sabota suas conquistas profissionais, que diminui seu trabalho, que cria conflitos nos dias de reuniões importantes, que questiona sua competência. Você pode ser bem-sucedida no trabalho e ainda assim ser vítima desse tipo de violência em casa.
Essa dissonância — ser forte e capaz no trabalho, mas controlada e diminuída em casa — pode gerar confusão e vergonha. Muitas executivas têm dificuldade de reconhecer que estão em situação de violência justamente porque "não parece" com a imagem que têm de vítima. Mas violência não escolhe classe social, nível de instrução ou posição profissional. Reconhecer o que está acontecendo é o primeiro passo para a mudança.
Top tip
Condutas que Configuram Crime de Violência Psicológica:
- Controlar como você se veste
- Decidir quem você pode ver
- Monitorar seu celular e redes sociais
- Humilhar em público ou privado
- Ameaçar para conseguir obediência
- Isolar de família e amigos
- Fazer você duvidar da própria sanidade
- Usar chantagem emocional
- Ridicularizar constantemente
- Limitar seu direito de ir e vir
Quem Pode Denunciar e Como Fazer
O artigo 147-B não se limita ao âmbito doméstico. O sujeito passivo é qualquer mulher, ainda que sem vínculo de afetividade ou relação doméstica. Isso significa que violência psicológica no trabalho, em relações profissionais, por desconhecidos — também pode configurar o crime. Violência psicológica cometida por instituições ou seus agentes também pode ser enquadrada. Para entender mais, leia violência psicológica corporativa.
O crime é de ação pública incondicionada, ou seja, não é necessária sua representação formal para que o Ministério Público prossiga com a ação. Você pode denunciar através do Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), do 190 (Polícia Militar), da Delegacia da Mulher, do disque-denúncia 181 (anônimo, 24h), ou de qualquer delegacia.
O dano emocional pode ser provado por testemunhos e pelo relato da vítima. Mas quanto mais documentação, melhor: mensagens, áudios, e-mails, testemunhas. A lei também criou o Programa Sinal Vermelho: um X vermelho na mão representa pedido de ajuda. Pode ser apresentado em repartições públicas ou entidades participantes.
Muitas mulheres hesitam em denunciar porque têm medo de não serem acreditadas ou de que a situação piore. Essas preocupações são compreensíveis. Por isso, ter suporte — seja de uma rede de confiança, de profissionais especializados, ou de organizações de apoio — é fundamental antes, durante e depois da denúncia. Você não precisa fazer isso sozinha.

Como Documentar
Reunindo provas.
Mensagens E Áudios
Salve todas as mensagens ameaçadoras, humilhantes, controladoras. Faça backup em local seguro que ele não acesse.
Diário De Ocorrências
Registre datas, horários, o que foi dito, testemunhas presentes. Quanto mais detalhado, melhor.
Testemunhas
Identifique pessoas que presenciaram episódios ou a quem você relatou na época.
Atendimento Médico
Se você buscou atendimento médico ou psicológico por causa da violência, esses registros são prova importante.
Cuidado Com A Segurança
Documente de forma segura. Use e-mail ou nuvem que ele não acesse. Considere que ele pode monitorar seu celular.
Tratamento com TCC e Medidas Protetivas
Violência psicológica é real. Tem nome. É crime. A TCC ajuda a validar sua experiência contra a minimização que você pode ter internalizado. Às vezes você está tão imersa que não percebe o padrão — nomear as condutas como violência é passo importante na recuperação. Denunciar exige força, e a terapia pode ajudar a desenvolver a coragem e o suporte emocional necessários para dar esse passo.
Violência psicológica deixa marcas profundas que vão além do momento em que ocorre. Mesmo após sair da situação, o processamento do trauma é necessário. Você pode experimentar hipervigilância, dificuldade de confiar em novas pessoas, ansiedade em situações que lembram o abuso, ou uma voz crítica interna que reproduz as humilhações que sofreu. Após relacionamento abusivo, sua identidade pode estar fragmentada — reconstruí-la é parte central do trabalho terapêutico. Para mais sobre recuperação, leia recuperação pós-relacionamento abusivo.
A TCC trabalha especificamente com as crenças que a violência psicológica pode ter implantado: "eu mereço ser tratada assim", "ninguém mais vai me querer", "eu sou incapaz". Essas crenças não são verdade — são resultado da manipulação. Identificá-las e questioná-las é passo fundamental na recuperação.
Além do suporte terapêutico, você pode solicitar medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha junto com a denúncia. O juiz pode determinar que o agressor se afaste do lar, mantenha distância mínima, não faça contato. As medidas podem incluir proibição de frequentar certos lugares, suspensão de posse de arma, entre outras — e podem ser concedidas em até 48 horas, sem necessidade de audiência prévia. Essa combinação de suporte legal e psicológico é fundamental para a segurança e recuperação.
Quando Buscar Ajuda
Se você identificou sua situação nos exemplos acima, buscar ajuda é urgente. Se você sabe que deveria denunciar mas tem medo, suporte profissional pode ajudar a encontrar caminhos seguros. Se está apresentando sintomas de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático — a terapia é fundamental. E se você tem dúvida se é "grave o suficiente": violência psicológica é crime independente de ter havido violência física. Se está acontecendo, é grave o suficiente.
Muitas mulheres que atendem relatam ter passado anos minimizando o que viviam porque "ele nunca me bateu". Essa é uma das armadilhas mais comuns da violência psicológica: você compara sua situação com violências mais visíveis e conclui que não tem direito de reclamar. Mas a lei é clara: causar dano emocional através de controle, humilhação, ameaça ou manipulação é crime. Não há hierarquia de violência — todo tipo merece atenção e resposta.
Violência psicológica é crime no Brasil desde 2021. Você não precisa ter apanhado para ter sido vítima de violência. Controle, humilhação, ameaça, manipulação — são crimes. A Lei 14.188/2021 reconhece o que você vive. Nomeia. Pune. E você tem o direito de denunciar. Sair de uma situação de violência psicológica exige planejamento, suporte e coragem — mas é possível. Muitas mulheres conseguiram, e você também pode. O primeiro passo é reconhecer que o que você vive é violência. O segundo é buscar ajuda. O terceiro é construir uma rede de suporte que te proteja durante e após o processo de saída.
Para entender melhor o padrão de violência doméstica, leia sobre o ciclo da violência. Se você está em situação de violência psicológica e precisa de apoio, entre em contato para agendar uma avaliação. Como psicóloga especialista em TCC, posso ajudar você a processar o trauma e desenvolver estratégias para retomar sua vida.
Onde Buscar Ajuda:
- Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher (24h)
- 190 — Polícia Militar (emergência)
- 181 — Disque-denúncia (anônimo, 24h)
- Delegacia da Mulher — Atendimento especializado
- CVV 188 — Apoio emocional 24h
Este artigo tem caráter informativo sobre a legislação brasileira de proteção à mulher.
