Violência Psicológica Corporativa: Reconheça e Proteja-se
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você já saiu de uma reunião sentindo que algo estava errado, mas sem conseguir explicar exatamente o quê? Já ouviu comentários que pareciam elogios, mas deixaram um gosto amargo? Se você ocupa uma posição de liderança e frequentemente questiona sua própria percepção das situações no trabalho, este artigo é para você.
A violência psicológica corporativa é uma forma de assédio institucional que afeta desproporcionalmente mulheres em cargos executivos. Segundo a Pesquisa Mapa do Assédio 2024 da KPMG, 30% dos profissionais brasileiros sofreram algum tipo de assédio nos últimos 12 meses, sendo que 46% dos casos envolveram assédio moral e psicológico. O dado mais alarmante: 92% das vítimas não denunciaram por medo ou descrédito no sistema.
O Que É Violência Psicológica Corporativa
Diferente do assédio moral pontual, a violência psicológica corporativa é um padrão sistemático de comportamentos que visa minar a autoconfiança, a credibilidade e a saúde mental de um profissional. Quando direcionada a mulheres em posições de liderança, frequentemente assume formas sutis que exploram estereótipos de gênero.
Manifestações Comuns
A violência psicológica no ambiente corporativo pode se manifestar de diversas formas. A invalidação constante ocorre quando suas ideias são ignoradas em reuniões, mas aceitas quando repetidas por colegas homens. A exclusão estratégica acontece quando você descobre que decisões importantes foram tomadas em reuniões das quais não foi informada. A sobrecarga seletiva se caracteriza por demandas impossíveis de cumprir enquanto colegas têm cargas razoáveis. Críticas veladas aparecem como comentários sobre sua "sensibilidade excessiva" ou "emocionalidade". A apropriação de crédito transfere seus projetos e conquistas para outros. E o isolamento profissional ocorre quando suas relações com a equipe são sistematicamente prejudicadas.
De acordo com dados da Justiça do Trabalho, 72,1% das ações sobre assédio sexual julgadas desde 2020 foram ajuizadas por mulheres, demonstrando a disparidade de gênero nesse tipo de violência.
Por Que Executivas São Alvos Frequentes
Mulheres em posições de poder frequentemente enfrentam o que pesquisadores chamam de "backlash effect" — uma reação negativa por quebrarem expectativas de gênero. Quando você lidera com assertividade, pode ser rotulada como "agressiva". Quando demonstra empatia, pode ser vista como "fraca demais para o cargo".
O Double Bind da Liderança Feminina
Esse fenômeno cria um terreno fértil para a violência psicológica por vários motivos. Primeiro, questiona-se sua competência constantemente — diferente de líderes homens, você precisa provar repetidamente que merece estar ali. Segundo, suas reações são patologizadas: expressar desconforto com situações abusivas é interpretado como "drama" ou "frescura", deslegitimando sua percepção. Terceiro, o contexto é negado sistematicamente: quando você tenta explicar o padrão de comportamentos, é acusada de "ver problema onde não existe".
A pesquisa da Protiviti Brasil (2024) revelou que 47% das empresas não capacitam os responsáveis por investigar denúncias, comprometendo seriamente a credibilidade do processo interno.
Distorções Cognitivas Induzidas pelo Assédio
Um dos efeitos mais insidiosos da violência psicológica corporativa é a internalização de crenças disfuncionais. Com o tempo, você pode começar a acreditar em pensamentos como "eu que sou sensível demais", "talvez eu realmente não seja competente para este cargo", "se eu fosse melhor profissional, isso não aconteceria" ou "estou exagerando, não é tão grave assim".
Top tip
Se você constantemente questiona sua própria percepção da realidade no trabalho, isso pode ser um sinal de que está sofrendo violência psicológica. Confie nos seus instintos — eles geralmente estão certos.
Reconhecendo Pensamentos Automáticos
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, chamamos esses pensamentos de "pensamentos automáticos negativos". Eles surgem rapidamente, parecem verdadeiros e afetam profundamente como nos sentimos e agimos. No contexto do assédio, esses pensamentos são frequentemente induzidos pelo próprio agressor.
O processo funciona assim: primeiro, você recebe críticas ou invalidações repetidas. Depois, começa a questionar se talvez elas tenham razão. Por fim, internaliza essas mensagens como verdades sobre si mesma. É um processo gradual e muitas vezes imperceptível até que os danos já estejam instalados.
Impacto na Saúde Mental e Carreira
As consequências dessa internalização são profundas. Profissionalmente, você pode começar a evitar situações de visibilidade, deixar de se candidatar a promoções que merece, ou aceitar condições de trabalho abaixo do seu valor. Emocionalmente, a autoestima deteriora, a ansiedade aumenta e o prazer no trabalho desaparece.
Muitas executivas relatam que, após meses de violência psicológica, começaram a duvidar de habilidades que antes exerciam com confiança. Uma diretora financeira pode questionar seus cálculos. Uma gestora de projetos pode hesitar em tomar decisões que antes fazia naturalmente. Essa erosão da autoconfiança é intencional — é assim que o assédio funciona.
Estratégias de TCC para Proteção e Recuperação
A boa notícia é que existem técnicas comprovadas para lidar com essa situação. A TCC oferece ferramentas práticas tanto para proteção quanto para recuperação.
1. Registro de Evidências
Mantenha um diário detalhado dos incidentes, incluindo data, hora e local de cada ocorrência. Registre exatamente o que foi dito ou feito, usando citações exatas quando possível. Anote quem estava presente como testemunha, como você se sentiu no momento e depois, e quais foram as consequências práticas do incidente.
Esse registro serve dois propósitos: validar sua experiência (você tem evidências concretas de que não está "imaginando coisas") e documentar um padrão caso decida tomar medidas formais.
2. Técnica de Validação Emocional
Quando surgirem pensamentos de autodúvida, pratique a validação emocional em quatro passos. Primeiro, identifique o pensamento que está causando desconforto, como "eu que sou sensível demais". Depois, questione a origem: quem lhe disse isso? Em que contexto? Em seguida, busque evidências contrárias: outras pessoas já validaram sua percepção? Por fim, reformule o pensamento de forma mais equilibrada, como "minha sensibilidade me permite perceber dinâmicas que outros ignoram".
3. Reestruturação Cognitiva sobre Culpa
Um erro comum é assumir responsabilidade pelo comportamento do agressor. Para combater isso, examine o pensamento original, como "se eu fosse melhor líder, isso não aconteceria". Faça uma análise racional: o comportamento abusivo é escolha do agressor, não consequência das suas ações. Chegue então ao pensamento reestruturado: "o assédio reflete o caráter de quem o pratica, não minha competência".
4. Estabelecimento de Limites
Aprenda a responder de forma assertiva, sem agressividade. Diante de invalidação como "acho que você está exagerando", você pode responder: "Minha percepção é válida. Podemos discordar, mas não vou aceitar que minimize minha experiência." Quando ocorrer apropriação de crédito com comentários como "o projeto da equipe ficou ótimo", responda: "Obrigada. Como líder do projeto, fico feliz que tenha dado certo." Em casos de exclusão justificada com "não sabia que você queria participar", seja clara: "Preciso ser incluída nas reuniões sobre [tema]. Vou enviar um email formalizando isso."
O Papel da Legislação
A Lei 14.457/2022 trouxe avanços importantes, alterando a CIPA para incluir prevenção ao assédio e tornando obrigatória a implementação de canais de denúncia em empresas. Conhecer seus direitos é parte fundamental da proteção.
O Que a Lei Prevê
A lei estabelece a obrigatoriedade de canais de denúncia anônimos nas empresas, treinamentos periódicos sobre prevenção ao assédio, procedimentos formais de investigação para cada denúncia recebida e proteção explícita contra retaliação a quem denuncia. No entanto, como mostram os dados, apenas 48% das pessoas que denunciam recebem algum retorno, indicando que ainda há muito a avançar na implementação dessas medidas.
Decisões Estratégicas: Denunciar ou Não
Decidir se deve fazer uma denúncia formal é uma escolha pessoal que depende de vários fatores. Considere a cultura organizacional: a empresa tem histórico de levar denúncias a sério? Avalie sua documentação: você tem evidências suficientes do padrão de comportamento? Examine sua rede de apoio: há colegas ou testemunhas dispostos a corroborar sua versão? Pese os riscos de retaliação: quais são as possíveis consequências e você está preparada para elas? E reflita sobre seus objetivos: você quer permanecer na empresa ou está considerando sair?
Não existe resposta certa ou errada. Algumas mulheres encontram poder em denunciar formalmente. Outras preferem buscar outras posições. O importante é que a decisão seja sua, informada e alinhada com seus valores e circunstâncias.
Quando Buscar Ajuda Profissional
A violência psicológica corporativa pode ter consequências sérias para sua saúde mental, incluindo ansiedade, depressão, e até transtorno de estresse pós-traumático. Busque ajuda profissional se você está tendo dificuldade para dormir ou se alimentar, se sente ansiedade intensa antes de ir ao trabalho, se percebe que está se isolando de amigos e família, se tem pensamentos recorrentes sobre os incidentes ou se nota queda significativa na autoestima.
A psicoterapia, especialmente a TCC, pode ajudá-la a processar essas experiências, reconstruir sua autoconfiança e desenvolver estratégias personalizadas de enfrentamento. Como psicóloga especialista em TCC, trabalho frequentemente com executivas que enfrentam esse tipo de situação, e sei que a recuperação é possível.
Construindo uma Rede de Apoio
Você não precisa enfrentar isso sozinha. Mentoras e aliadas — outras mulheres em posições de liderança — podem oferecer perspectiva e validação baseadas em experiência própria. Grupos de apoio proporcionam espaços seguros para compartilhar experiências com quem entende. Profissionais de saúde mental oferecem suporte especializado para processar o impacto emocional. E advogados trabalhistas podem orientar sobre seus direitos e opções legais.
Para entender mais sobre dinâmicas de manipulação no ambiente de trabalho, leia também nosso artigo sobre gaslighting corporativo e microagressões de gênero.
Conclusão: Sua Percepção É Válida
A violência psicológica corporativa é real, documentada e tem consequências sérias. Se você está vivendo essa situação, saiba que não está sozinha e não está "exagerando". Sua percepção é válida, sua saúde mental é prioridade, e existem caminhos para proteção e recuperação.
O primeiro passo é reconhecer o que está acontecendo. O segundo é buscar apoio. Se você se identificou com este artigo e gostaria de trabalhar essas questões com acompanhamento profissional, entre em contato para agendar uma consulta. Juntas, podemos desenvolver estratégias personalizadas para sua situação.
Lembre-se: questionar sistemas abusivos não é fraqueza — é coragem. E você merece um ambiente de trabalho que respeite sua dignidade e reconheça seu valor.
