Depressão e Libido: Por Que o Desejo Sexual Diminui
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você não se reconhece mais. O desejo que existia sumiu — ou parece tão distante que você nem lembra como era. Seu parceiro não entende, acha que é rejeição. Você não sabe explicar porque nem você mesma entende. E no meio de tudo, ainda se sente culpada.
Se isso descreve sua experiência, saiba: você não está sozinha, e não há nada de errado com você.
A relação entre depressão e libido é mais comum do que se fala. A Cleveland Clinic aponta que é bastante comum pessoas com depressão terem desejo sexual reduzido ou ausente. O corpo pode não responder a situações sexuais da mesma forma.
Neste artigo, vou explicar por que a depressão afeta o desejo, como a medicação pode interferir, e — principalmente — como conversar sobre isso com seu parceiro de forma aberta e sem culpa. Como especialista em TCC, trabalho essas questões de forma sensível e prática. Se você precisa de apoio, entre em contato.
Por Que a Depressão Afeta a Libido
O desejo sexual é extremamente complexo — envolve corpo, mente, emoções e contexto relacional. A depressão afeta profundamente todos esses aspectos simultaneamente, criando uma combinação de fatores que diminui a libido.
Anedonia
A anedonia — perda de prazer em atividades que antes eram agradáveis — é sintoma central da depressão. Se você não sente prazer em coisas que gostava, faz sentido que o desejo sexual também diminua. Não é falta de amor pelo parceiro; é a depressão afetando sua capacidade de antecipar e sentir prazer.
Fadiga
A depressão drena energia de forma profunda e abrangente. Quando levantar da cama já é um esforço significativo, quando trabalhar consome absolutamente tudo que você tem, simplesmente não sobra energia para o desejo sexual. O corpo prioriza sobrevivência e funcionamento básico, não prazer ou conexão.
Pensamentos Negativos
A depressão traz autocrítica intensa, vergonha profunda e uma sensação persistente de inadequação. Esses pensamentos negativos afetam como você se vê, como se sente no próprio corpo, e como se relaciona com sua sexualidade — interferindo diretamente na capacidade de se sentir desejável e de desejar.
Desconexão Emocional
Quando você está lutando para sentir qualquer emoção positiva, a intimidade emocional fica significativamente comprometida. E a intimidade emocional é o fundamento essencial da intimidade física para muitas pessoas.

A Questão da Medicação
Se você está em tratamento medicamentoso, a situação pode ser ainda mais complexa.
O Paradoxo dos Antidepressivos
Pesquisas mostram que entre 37% e 65% das pessoas com depressão desenvolvem disfunção sexual associada a antidepressivos. Um estudo de 2025 encontrou taxas ainda maiores: 88,7% das mulheres e 84,5% dos homens em tratamento relataram algum grau de disfunção sexual.
A medicação que ajuda seu humor pode, paradoxalmente, diminuir seu desejo. Isso acontece porque os ISRSs (inibidores seletivos de recaptação de serotonina) aumentam serotonina — o que melhora o humor, mas pode prejudicar a libido e a excitação.
Tipos de Efeitos
Os efeitos podem incluir: diminuição do desejo sexual, dificuldade de excitação, dificuldade de atingir orgasmo, ou orgasmos menos intensos.
Não É Razão Para Parar
Se você está experimentando esses efeitos, NÃO interrompa a medicação por conta própria. Fale com seu psiquiatra. Existem opções: ajuste de dose, mudança de medicação, adição de outras substâncias.
A CNN reporta que uma solução comum é mudar para bupropiona, que atua de forma diferente e é mais favorável à função sexual. Estudos mostram que apenas 14% dos pacientes tratados com bupropiona relataram efeitos sexuais adversos, comparado a 73% com ISRSs.
Top tip
Depressão, Medicação e Libido - O Que Saber:
- Perda de desejo é sintoma comum da depressão, não rejeição ao parceiro
- Antidepressivos (especialmente ISRSs) podem afetar a libido em 37-65% dos pacientes
- NÃO interrompa medicação por conta própria — fale com seu psiquiatra
- Alternativas existem (bupropiona tem apenas 14% de efeitos sexuais)
- Comunicação honesta com o parceiro é fundamental
- A situação é tratável — você não precisa escolher entre saúde mental e vida sexual
Como Conversar com Seu Parceiro
A conversa pode parecer difícil, mas é essencial.
Por Que Conversar É Importante
Especialistas recomendam que comunicação aberta e honesta com o parceiro é fundamental. Discutir sentimentos e experiências leva a melhor compreensão e conexão emocional.
Sem conversa, seu parceiro pode facilmente interpretar a falta de desejo como rejeição pessoal, como se você tivesse perdido o interesse por ele. Isso pode criar uma distância emocional dolorosa que piora ainda mais a situação, gerando um ciclo de afastamento e mágoa.
Como Começar
Escolha um momento calmo — não no meio de uma situação sexual frustrada. Explique que você quer falar sobre algo importante. Use "eu" em vez de "você": "Estou passando por algo que está afetando meu desejo" (não "você está me pressionando").
O Que Explicar
Que a depressão afeta a capacidade de sentir desejo — não é sobre a relação ou sobre ele. Que a medicação pode contribuir para isso. Que você está trabalhando nisso com profissionais. Que você ainda o ama e valoriza a relação.
Frases Úteis
"Quero que você saiba que isso não é sobre você ou sobre nós. É a depressão afetando meu corpo e minha mente."
"Eu sei que pode parecer rejeição, mas não é. Eu me importo com você e com a nossa intimidade."
"Preciso de paciência enquanto trabalho isso. Podemos explorar outras formas de intimidade juntos?"
Ouça Também
Seu parceiro pode ter sentimentos sobre isso — frustração, insegurança, preocupação. Dê espaço para ele expressar sem se defender. Vocês são aliados, não adversários.
Estratégias Práticas
Veja o que pode ajudar enquanto você trabalha essa questão.
Expanda a Definição de Intimidade
Intimidade não é apenas sexo. Carinho, toque, abraços, conversas profundas — todas são formas de conexão. Foquem no que é possível agora, sem pressão para "performance."
Reduza a Pressão
A pressão para "ter desejo" frequentemente piora a situação. Paradoxalmente, quando você para de se cobrar, o espaço para o desejo surgir pode aumentar.
Planeje Momentos de Conexão
Quando a depressão está presente, a espontaneidade sexual pode não funcionar. Planejar momentos de intimidade — sem expectativa de que "tem que acontecer algo" — pode ajudar.
Cuide do Corpo
Pesquisas mostram que exercício pode ajudar. Um estudo indica que a capacidade de uma mulher de ter orgasmo durante o sexo é maior aproximadamente 30 minutos após exercício.
Reduza Estresse
Técnicas como mindfulness, yoga e exercícios de relaxamento podem ajudar a reduzir o estresse crônico que impacta o desejo sexual.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos
A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas específicas e práticas para trabalhar essa questão de forma compassiva e eficaz.
Reestruturação de Crenças
Trabalhamos pensamentos como: "Deveria querer sexo," "Sou uma parceira ruim," "Algo está errado comigo." Examinamos a evidência e construímos perspectivas mais compassivas.
Comunicação Assertiva
Desenvolvemos habilidades para conversar sobre o assunto com seu parceiro de forma clara, honesta e sem culpa. Praticamos como expressar necessidades e como ouvir as dele.
Foco Sensorial
Técnicas de foco sensorial — toque não-sexual gradual — podem ajudar a reconectar com o corpo sem pressão de desempenho. O objetivo é prazer, não orgasmo.
Ativação Comportamental
Planejamos atividades prazerosas — incluindo, mas não limitadas a, intimidade — que podem ajudar a quebrar o ciclo de evitação e despertar interesse gradualmente.
Para mais sobre comunicação no relacionamento, leia sobre comunicação assertiva para mulheres executivas. Se você está enfrentando também burnout, esse pode ser um fator adicional afetando sua energia e desejo.
Quando Buscar Ajuda Médica
Algumas situações exigem atenção médica específica. Fale com seu psiquiatra se os efeitos sexuais da medicação são significativos e persistentes, se você está considerando interromper a medicação por causa deles, ou se quer explorar outras opções de tratamento. Fale com seu médico se há sintomas físicos (dor, ressecamento) que não são explicados pela depressão, se você está na perimenopausa ou menopausa, ou se tem outras condições que podem afetar a função sexual. Considere terapia de casal se a situação está afetando significativamente o relacionamento ou há dificuldade de comunicação sobre o assunto.
A perda de desejo sexual durante a depressão é comum, compreensível, e tratável. Não é sinal de que você não ama seu parceiro, não é fraqueza, e não é permanente.
A combinação de tratamento adequado da depressão, diálogo honesto e aberto com seu parceiro, e estratégias práticas para manter a intimidade emocional e física pode ajudar você a atravessar essa fase difícil. A intimidade não precisa desaparecer — ela pode mudar de forma temporariamente enquanto você cuida da sua saúde mental.
Você merece uma vida sexual satisfatória — e merece tratamento que permita isso. Não aceite que precisa escolher entre sua saúde mental e sua intimidade. Trabalhe com seus profissionais para encontrar o caminho que funciona para você. Se a depressão está afetando outras áreas da sua vida, saiba que o tratamento integrado pode abordar todas essas questões.
Se você está enfrentando essa questão e quer apoio, entre em contato para agendar uma avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você está experimentando efeitos colaterais de medicação, consulte seu psiquiatra antes de fazer qualquer mudança. Questões físicas persistentes devem ser avaliadas por médico.
