Depressão Mascarada: Quando o Sucesso Esconde o Vazio

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Depressão Mascarada: Quando o Sucesso Esconde o Vazio

Você acorda, cumpre sua rotina impecável, lidera reuniões com competência, bate metas, recebe elogios — e mesmo assim sente um vazio que não consegue explicar. Por fora, tudo funciona. Por dentro, algo essencial parece faltar. Se essa descrição ressoa com você, saiba que não está sozinha.

A depressão mascarada é uma forma de depressão que se esconde atrás de uma fachada de funcionalidade e sucesso. Particularmente comum em mulheres executivas de alta performance, ela passa despercebida justamente porque a pessoa continua "funcionando" — muitas vezes em níveis extraordinários. Mas funcionar não é o mesmo que viver.

Segundo dados do Jornal da USP, os afastamentos do trabalho por transtornos mentais cresceram 68% no Brasil em 2024, totalizando mais de 472 mil licenças médicas. Por trás desses números, há milhares de profissionais — muitos deles em posições de liderança — que ignoraram os sinais até não conseguirem mais continuar.

O Que É Depressão Mascarada

Diferente da imagem clássica da depressão — pessoa prostrada, incapaz de sair da cama, visivelmente triste — a depressão mascarada se apresenta de formas mais sutis. A pessoa mantém suas atividades, muitas vezes com excelência, mas experimenta um esvaziamento interno que nenhuma conquista consegue preencher.

Sintomas Atípicos em Executivas

Em mulheres de alta performance, a depressão frequentemente se manifesta através de anedonia funcional (você realiza atividades que antes davam prazer, mas não sente mais nada), irritabilidade desproporcional (pequenas frustrações geram reações intensas que você depois não reconhece), fadiga persistente (cansaço que não melhora com descanso, sono ou férias), perfeccionismo intensificado (aumentar as exigências consigo mesma para compensar o vazio), desconexão emocional (sensação de estar no "piloto automático" da própria vida) e sintomas físicos como dores de cabeça frequentes, problemas digestivos e tensão muscular crônica.

A pesquisa do Ministério da Saúde revela que 14,7% das mulheres brasileiras têm diagnóstico de depressão, contra 7,3% dos homens — praticamente o dobro. Essa disparidade reflete não apenas fatores biológicos, mas também a sobrecarga social que recai sobre as mulheres.

Por Que Executivas Mascaram a Depressão

Há razões específicas pelas quais mulheres em posições de liderança tendem a esconder — inclusive de si mesmas — os sinais de depressão.

O Mito da Superwoman

A cultura corporativa ainda espera que mulheres em liderança sejam excepcionais em tudo: competentes tecnicamente, emocionalmente inteligentes, resilientes, disponíveis. Admitir fragilidade pode parecer confirmar estereótipos de que "mulheres são emocionais demais para liderar".

Segundo a McKinsey & Company, 42% das mulheres ao redor do mundo experimentam sintomas de burnout. Muitas dessas mulheres continuam performando em alto nível enquanto se deterioram internamente.

Medo das Consequências Profissionais

Existe um receio real — e muitas vezes justificado — de que revelar problemas de saúde mental possa prejudicar chances de promoção, gerar questionamentos sobre capacidade de liderança, ser usado contra você em situações de conflito e mudar a forma como colegas e subordinados a veem. Esse medo leva muitas executivas a procurar ajuda apenas em situações de crise, quando os sintomas já não podem mais ser ignorados.

A Armadilha do Desempenho

Quando sua identidade está fortemente ligada ao trabalho e às conquistas, admitir que algo está errado pode parecer admitir um fracasso pessoal. O pensamento "se eu fosse forte o suficiente, conseguiria superar isso sozinha" é comum — e profundamente equivocado.

Top tip

Manter alto desempenho apesar de sintomas depressivos não é força — é um sinal de alerta. Quanto mais você consegue "funcionar" deprimida, mais tempo pode levar para buscar ajuda, e mais profundo pode ser o impacto na sua saúde.

Distorções Cognitivas na Depressão de Alta Performance

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, identificamos padrões de pensamento disfuncionais que mantêm e agravam a depressão. Em executivas, esses padrões frequentemente incluem:

"Não Mereço Me Sentir Assim"

Esse pensamento compara seu sofrimento com o de outras pessoas e conclui que, como você tem uma vida "boa", não tem direito de estar mal. É uma forma de invalidação interna que impede o reconhecimento do problema.

Reestruturação: Depressão não é uma questão de merecimento ou de ter motivos "suficientes". É uma condição que afeta pessoas em todas as circunstâncias de vida.

"Se Eu Fosse Competente, Não Estaria Assim"

Esse pensamento confunde saúde mental com competência profissional. É particularmente forte em quem construiu sua identidade em torno de ser "a pessoa que resolve tudo".

Reestruturação: Competência profissional e saúde mental são dimensões diferentes. Você pode ser excelente no que faz e ainda assim precisar de suporte para sua saúde emocional.

"Não Posso Parar Agora"

A sensação de que há sempre mais uma meta, mais um projeto, mais uma responsabilidade impede que você priorize seu bem-estar. O trabalho se torna uma forma de evitar o confronto com o vazio interno.

Reestruturação: Se você não parar por escolha, eventualmente seu corpo ou mente farão isso por você — e geralmente em condições piores.

Técnicas de TCC para Reconhecimento e Recuperação

A boa notícia é que a TCC oferece ferramentas eficazes tanto para identificar quanto para tratar a depressão mascarada.

1. Técnica da Flecha Descendente

Essa técnica ajuda a acessar crenças nucleares que sustentam o comportamento de mascarar a depressão:

Pensamento inicial: "Não posso deixar transparecer que não estou bem"

  • E se transparecer, o que acontece? → "Vão pensar que sou fraca"
  • E se pensarem que você é fraca? → "Vão perder o respeito por mim"
  • E se perderem o respeito? → "Não vou mais ter valor"

Crença nuclear identificada: "Meu valor depende de parecer sempre forte e capaz"

Ao identificar essa crença, você pode começar a questioná-la e construir uma visão mais equilibrada de si mesma.

2. Programação de Atividades Prazerosas

A anedonia — perda de prazer em atividades que antes eram gratificantes — é um sintoma central da depressão. A técnica de programação de atividades envolve listar atividades que costumavam trazer prazer, agendar essas atividades na rotina mesmo sem vontade, registrar o nível de prazer experimentado (0-10) e observar padrões ao longo do tempo. O objetivo não é forçar o prazer, mas criar oportunidades para que ele gradualmente retorne.

3. Registro de Pensamentos

Mantenha um diário onde você anota a situação (o que estava acontecendo), o pensamento automático (o que passou pela sua cabeça), a emoção (o que sentiu e sua intensidade de 0-10), evidências a favor do pensamento, evidências contra e um pensamento alternativo (uma visão mais equilibrada). Esse exercício ajuda a identificar padrões de pensamento depressivos e a desenvolver perspectivas mais realistas.

4. Experimentos Comportamentais

Teste suas crenças na prática. Por exemplo:

Crença: "Se eu pedir ajuda, vão me ver como incompetente" Experimento: Peça ajuda em uma situação de baixo risco e observe a reação Resultado provável: A maioria das pessoas responde positivamente a pedidos de ajuda

Sinais de Alerta: Quando Buscar Ajuda

Procure ajuda profissional imediatamente se você sente que está apenas "sobrevivendo" os dias, nota que seu desempenho começa a cair apesar do esforço, usa álcool, medicamentos ou outras substâncias para funcionar, tem pensamentos de que seria melhor não existir, experimenta crises de choro ou raiva inexplicáveis, ou sente-se completamente desconectada de pessoas próximas.

Segundo dados da FGV, muitos executivos demoram a procurar ajuda porque "não reconhecem que estão adoecendo". Reconhecer é o primeiro passo.

O Caminho da Recuperação

A depressão mascarada é tratável. Com acompanhamento adequado, é possível não apenas aliviar os sintomas, mas também construir uma relação mais saudável com o trabalho e consigo mesma.

O Que Esperar do Tratamento

O tratamento geralmente envolve psicoterapia (especialmente TCC, que tem eficácia comprovada em meta-análises com mais de 50 mil pacientes), avaliação médica (para descartar causas orgânicas e avaliar necessidade de medicação), mudanças de estilo de vida (sono, exercício, alimentação, limites no trabalho) e construção de rede de apoio (pessoas de confiança que conhecem sua situação).

Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com muitas executivas nessa situação. O processo de recuperação envolve não apenas tratar os sintomas, mas também ressignificar a relação com sucesso, produtividade e valor pessoal.

Redefinindo Sucesso

Parte da recuperação envolve questionar definições de sucesso que podem estar alimentando o problema. Algumas perguntas úteis: o que eu sacrifico para manter esse nível de performance? Meu sucesso profissional está construído sobre meu bem-estar ou apesar dele? Como seria uma vida bem-sucedida que também fosse sustentável?

Para aprofundar a compreensão sobre depressão, leia também nosso artigo sobre depressão: muito além da tristeza, sobre depressão em alta performance e sobre burnout.

Funcionando Não É Vivendo

A capacidade de manter alto desempenho apesar de sintomas depressivos não é algo para se orgulhar — é um sinal de que você está ignorando necessidades fundamentais. O sucesso que custa sua saúde mental não é sustentável, e o preço eventualmente será cobrado.

Se você se reconheceu neste artigo, considere isso um convite para olhar com honestidade para o que está sentindo. A depressão mascarada prospera no silêncio e na negação. Reconhecê-la é o primeiro passo para superá-la.

Você não precisa continuar funcionando no vazio. Entre em contato para agendar uma avaliação. Juntas, podemos trabalhar para que você não apenas funcione, mas verdadeiramente viva — com propósito, conexão e bem-estar.

Lembre-se: buscar ajuda não é admitir fraqueza. É reconhecer que você merece mais do que apenas sobreviver.

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