Depressão no Retorno ao Trabalho: A Angústia de Voltar
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

A licença está acabando. Daqui a uma semana, você volta ao escritório. E em vez de animação para retomar a carreira, você sente um aperto no peito. Culpa por deixar o bebê. Medo de não ser mais a profissional de antes. Ansiedade sobre como vai conciliar tudo. E uma tristeza profunda que você não sabe nomear.
Você não está sozinha. E não está inventando.
Pesquisas mostram que aproximadamente uma em cada cinco mães americanas reporta sintomas depressivos no pós-parto. Segundo pesquisa de 2023, 68% das novas mães relatam ansiedade significativa ao retornar ao trabalho. Estudos indicam que mulheres que precisam retornar antes de 12 semanas têm risco aumentado de depressão pós-parto.
Neste artigo, vou explicar por que o retorno ao trabalho pode desencadear ou agravar depressão, os sinais de alerta, e estratégias de TCC para uma transição mais saudável. Como especialista em TCC, trabalho com mães que enfrentam esse momento. Se você precisa de apoio, entre em contato.
Por Que o Retorno É Tão Difícil
O retorno ao trabalho após a maternidade combina múltiplos estressores que afetam corpo, mente e emoções simultaneamente.
Separação do Bebê
Biologicamente, você está programada para proteger seu filho. Deixá-lo com outros — mesmo pessoas de confiança — ativa sistemas de alerta. A separação física dói, literalmente.
Mudança de Identidade
Você é outra pessoa agora. Mãe. E tentar encaixar essa nova identidade na profissional de antes não é simples. Você não é mais quem era — e ainda não sabe exatamente quem se tornou.
Pressão de Performance
Há expectativa — implícita ou explícita — de que você volte "como se nada tivesse acontecido." Mas tudo aconteceu. E fingir que não é exaustivo e destrutivo.
Logística Impossível
Amamentação, creche, horários, imprevistos, pediatra. A logística de ser mãe trabalhadora é complexa, e errar parece confirmar que você "não está dando conta."
Culpa Constante
Está trabalhando? Deveria estar com o bebê. Está com o bebê? Deveria estar trabalhando melhor. A culpa não tem intervalo.

Fatores de Risco
Algumas situações aumentam a vulnerabilidade para depressão no retorno ao trabalho.
Retorno Precoce
Pesquisas mostram que licenças maternidade mais longas e pagas estão associadas a menos sintomas de depressão pós-parto e potencialmente também a longo prazo, sugerindo papel protetor.
Depressão Durante Gravidez
Estudos indicam que mulheres que experimentaram depressão e ansiedade quase todos os dias durante a gravidez reportam pior saúde ao retornar ao trabalho.
Falta de Suporte no Trabalho
Pesquisas mostram que receber apoio de colegas e supervisores durante a gravidez está associado a menores níveis de estresse pré-natal, que por sua vez estão associados a menor incidência de depressão pós-parto após retornar ao trabalho.
Conflito Trabalho-Família
Preditores de saúde mental relacionados ao trabalho incluem: acesso a licença maternidade paga, conflito trabalho-família, carga total de trabalho, flexibilidade no trabalho e apoio de colegas.
O Padrão de Estresse do Retorno
Estudo longitudinal de 2025 acompanhou 271 mães desde duas semanas antes do retorno até seis meses depois.
Pico No Início
Mães reportaram os níveis mais altos de estresse de retomada ao trabalho no início da transição. O momento da volta é o mais intenso.
Declínio Gradual
O estresse diminui linearmente ao longo dos seis meses seguintes. Fica mais fácil com o tempo — mas os primeiros meses são os mais difíceis.
Importância da Preparação
Preparar-se para o pico inicial e saber que vai melhorar pode ajudar a atravessar o período mais intenso.
Top tip
Sinais de que você pode precisar de apoio profissional no retorno ao trabalho:
- Tristeza persistente que não melhora após as primeiras semanas
- Dificuldade de se conectar emocionalmente com seu bebê
- Pensamentos frequentes de que você é uma mãe ruim
- Choro intenso e frequente além do esperado
- Alterações significativas de sono ou apetite além do normal com bebê
- Sensação de estar "funcionando no automático" sem sentir nada
Sinais de Alerta e Quando Buscar Ajuda
Distinguir ajuste normal de depressão que precisa de tratamento é fundamental para garantir que você receba o cuidado adequado.
Ajuste Normal
Ansiedade nos primeiros dias. Saudade do bebê. Cansaço aumentado. Dificuldade de concentração temporária. Choro ocasional. Esses tendem a diminuir com o tempo.
Sinais de Depressão
Tristeza persistente que não melhora. Perda de interesse em coisas que antes davam prazer. Dificuldade de se conectar com o bebê. Pensamentos de que você é uma mãe ruim. Alterações significativas de sono ou apetite (além do esperado com bebê). Pensamentos de automutilação ou de que todos estariam melhor sem você.
Quando Buscar Ajuda Imediatamente
Se você está tendo pensamentos de machucar a si mesma ou ao bebê, busque ajuda imediata. Isso é emergência médica, não fraqueza. Ligue para CVV (188) ou vá ao pronto-socorro.
Abordagem TCC: Estratégias Para a Transição
A TCC oferece ferramentas práticas para navegar o retorno, ajudando a reestruturar pensamentos e desenvolver comportamentos mais saudáveis.
Reestruturando Crenças
"Preciso ser a mesma de antes" pode ser reenquadrado para: "Sou uma profissional diferente agora — com novas habilidades e perspectivas que a maternidade me deu."
"Boa mãe não trabalha" pode ser desafiado com: "Milhões de mães trabalham e criam filhos saudáveis. Trabalhar não me torna mãe ruim."
Planejamento Gradual
Se possível, negocie retorno gradual. Começar com dias parciais ou menos dias por semana nas primeiras semanas. A transição abrupta é mais difícil.
Gerenciamento de Culpa
A culpa materna é praticamente universal — mas nem toda culpa é sinal de que você está fazendo algo errado. Distinguimos culpa apropriada (sinal de que algo precisa mudar) de culpa irracional (produto de padrões impossíveis).
Autocompaixão
Você fala consigo mesma de formas que nunca falaria com uma amiga na mesma situação. Desenvolvemos uma voz interna mais compassiva que reconhece o quanto essa transição é difícil.

Estratégias Práticas
Veja o que você pode implementar para facilitar a transição.
Antes do Retorno
Faça visita ao escritório com o bebê. Comece a deixar o bebê com cuidador por períodos curtos antes do retorno oficial. Prepare logística com antecedência — evite surpresas no primeiro dia.
Negocie Flexibilidade
Pergunte sobre horários flexíveis, home office parcial, espaço para amamentação. Muitas empresas têm políticas que nem sempre são divulgadas. Pergunte.
Defina Expectativas Realistas
Com você mesma e com o trabalho. Sua produtividade pode ser diferente nos primeiros meses — e isso é esperado. Não se cobre performance pré-maternidade imediata.
Construa Rede de Suporte
Conecte-se com outras mães que voltaram recentemente. Elas entendem. Grupos de mães trabalhadoras podem oferecer validação e dicas práticas.
Proteja Rituais de Conexão
Crie momentos sagrados de conexão com o bebê. Manhãs juntas, noites de banho, fim de semana dedicado. Qualidade pode compensar quantidade.
Cuide de Você
Sono, alimentação, exercício básico. Parecem luxo quando você está exausta — mas são necessidade. Você não pode dar do que não tem. Se você está enfrentando burnout, é ainda mais importante priorizar o autocuidado.
Para mais sobre retorno ao trabalho, leia sobre transição pós-licença maternidade. Para culpa materna, veja como lidar com TCC.
Conversas Com o Trabalho
Algumas negociações podem fazer diferença significativa na sua transição.
O Que Pedir
Horário flexível nas primeiras semanas. Possibilidade de home office parcial. Espaço e tempo para amamentação. Gradualidade na carga de trabalho. Compreensão para imprevistos com o bebê.
Como Abordar
Foque em soluções, não apenas em pedidos. "Eu gostaria de começar com meio período nas duas primeiras semanas para garantir uma transição suave que me permita voltar com 100% depois."
Conheça Seus Direitos
No Brasil, há proteções legais para mães. Depressão pós-parto pode ser considerada condição de saúde que dá direito a acomodações. Consulte RH ou advogado trabalhista se necessário.
Quando Buscar Ajuda Profissional
O retorno é difícil para todas — mas para algumas, ajuda profissional é essencial.
Busque Ajuda Se
Sintomas não melhoram após as primeiras semanas. Você está tendo dificuldade de funcionar no trabalho ou em casa. Pensamentos negativos sobre si mesma são constantes. Está se desconectando do bebê. Pensamentos de automutilação estão presentes.
Tipos de Tratamento
Psicólogo especializado em TCC para reestruturar pensamentos e comportamentos. Psiquiatra se medicação for indicada — existem opções compatíveis com amamentação. Grupos de apoio para mães com depressão pós-parto.
O Caminho Para Frente
O retorno ao trabalho após a maternidade é uma das transições mais desafiadoras que você pode enfrentar. Combina mudança de identidade, logística complexa, separação física do bebê, e pressão profissional — tudo ao mesmo tempo, tudo com privação de sono.
Sentir dificuldade não significa que você é fraca ou que tomou decisão errada. Significa que você está enfrentando algo genuinamente difícil. E com suporte adequado, preparação, e autocompaixão, você pode atravessar essa transição e construir uma vida que inclui maternidade e carreira — mesmo que diferente do que você imaginava.
Lembre-se: o estresse é mais intenso no início e tende a diminuir com o tempo. As primeiras semanas são as mais difíceis, mas não representam como será daqui para frente. Muitas mães que passaram por essa transição relatam que, olhando para trás, conseguiram encontrar um equilíbrio que funciona para elas e suas famílias.
Se você está lutando com o retorno ao trabalho, entre em contato para agendar uma avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está experimentando sintomas de depressão pós-parto, busque orientação de profissional de saúde mental. Em caso de pensamentos de automutilação, busque ajuda imediata.
