Perda Gestacional: O Luto Silenciado das Executivas
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você descobriu que estava grávida. Talvez tenha sido planejado por anos, talvez tenha sido uma surpresa bem-vinda depois de tanto adiar pela carreira. Você começou a imaginar o futuro, a fazer planos silenciosos, a sentir que algo dentro de você estava finalmente se encaixando.
E então, sem aviso, tudo acabou.
A perda gestacional é uma das experiências mais devastadoras que uma mulher pode enfrentar — e, paradoxalmente, uma das menos reconhecidas. Para executivas que já carregam o peso de performar em ambientes competitivos, essa dor frequentemente acontece em silêncio absoluto. Se você está passando por isso e precisa de apoio, entre em contato para conversarmos.
O Luto Que Ninguém Vê
A perda gestacional — seja um aborto espontâneo, uma gravidez ectópica ou uma morte fetal — é um luto que acontece no escuro. Não há velório. Não há cartões de condolências. Não há licença formal. A sociedade, de modo geral, não sabe como reagir a uma perda que não chegou a se materializar em uma criança visível.
Para a executiva, essa invisibilidade é amplificada. Você provavelmente nem tinha contado no trabalho que estava grávida — afinal, a regra não dita é esperar os três meses "de segurança". Então, quando a perda acontece, ninguém sabe. Você volta à reunião de segunda-feira como se nada tivesse acontecido, enquanto processa internamente uma dor que não tem nome nem espaço.
O que torna esse luto particularmente cruel é que ele frequentemente é acompanhado de culpa. "Trabalhei demais?" "Deveria ter descansado mais?" "Meu corpo falhou?" Esses pensamentos automáticos são comuns — e, como veremos, raramente refletem a realidade.
A Solidão da Perda Precoce
Quando a perda acontece no primeiro trimestre — o que ocorre em 85% dos casos de aborto espontâneo — muitas mulheres nem chegaram a compartilhar a notícia da gravidez. Isso significa que o luto acontece em completo isolamento.
Você pode estar sentada em uma reunião importante, apresentando resultados, enquanto por dentro processa a perda de um futuro inteiro que havia começado a imaginar. Esse contraste entre a performance externa e o colapso interno é exaustivo — e familiar para quem conhece a depressão de alta performance.
Perda Gestacional: Os Números Por Trás do Silêncio
Se você passou por uma perda gestacional, precisa saber de algo fundamental: você não está sozinha. Os números revelam uma realidade que raramente discutimos:
- 1 em cada 5 gravidezes clinicamente confirmadas termina em aborto espontâneo
- No Brasil, são 535 internações por aborto diariamente, segundo dados do DataSUS
- 22% das mulheres que sofrem perda perinatal desenvolvem algum transtorno psicológico
- O risco aumenta com a idade: mulheres acima de 42 anos têm mais de 50% de chance de perda gestacional
Esses números não são citados para assustar, mas para validar. Se isso aconteceu com você, não foi porque você fez algo errado. Não foi porque trabalhou demais, viajou demais ou não descansou o suficiente. A grande maioria das perdas gestacionais ocorre por alterações cromossômicas aleatórias — eventos sobre os quais não temos controle.
O Peso da Idade e da Carreira
Para executivas que adiaram a maternidade para construir suas carreiras, existe uma camada adicional de complexidade. A pressão do relógio biológico, combinada com a realidade estatística de que perdas gestacionais aumentam com a idade, pode transformar o luto em uma espiral de questionamentos.
"Se eu não tivesse esperado tanto..." "Se eu tivesse priorizado isso antes..." Esses pensamentos são compreensíveis, mas não ajudam no processamento da perda. Como explico em perfeccionismo patológico, a autocobrança excessiva não resolve problemas — apenas prolonga o sofrimento.
Por Que Executivas Sofrem em Silêncio
O ambiente corporativo raramente oferece espaço para esse tipo de vulnerabilidade. Existem razões estruturais e culturais para isso:
Ausência de licença formal: Diferente do luto por familiares próximos, a perda gestacional não é reconhecida na legislação trabalhista brasileira como motivo para afastamento. A menos que haja complicações médicas que justifiquem um atestado, a expectativa é que você continue trabalhando.
Cultura de performance: Em ambientes competitivos, demonstrar vulnerabilidade ainda é visto como fraqueza. Executivas aprendem cedo a compartimentalizar emoções — e isso pode se tornar uma armadilha quando enfrentam perdas significativas.
O silêncio sobre gravidez inicial: A norma cultural de "não contar antes dos três meses" significa que, quando a perda acontece, ninguém sabe que havia algo para perder.
Medo de discriminação: Muitas mulheres temem que revelar uma perda gestacional possa prejudicar suas carreiras — seja por serem vistas como "instáveis" ou por sinalizarem intenção de ter filhos em um ambiente que penaliza a maternidade.
O Custo do Silêncio
O problema do silêncio é que ele não faz a dor desaparecer — apenas a empurra para baixo. E dor não processada tem consequências. Pode se manifestar como burnout, como irritabilidade, como dificuldade de concentração, como distanciamento emocional dos parceiros e amigos.
O luto não vivido não some. Ele encontra outros caminhos.
O Luto Não Autorizado
Em 1989, o pesquisador Kenneth Doka cunhou o termo "luto não autorizado" (disenfranchised grief) para descrever perdas que não são socialmente reconhecidas ou validadas. A perda gestacional é um exemplo clássico.
Você provavelmente já ouviu — ou ouvirá — frases como:
- "Pelo menos aconteceu cedo"
- "Você pode tentar de novo"
- "Não era para ser"
- "Seja forte"
Essas frases, geralmente ditas com boa intenção, comunicam uma mensagem implícita: sua dor não é legítima. Sua perda não "conta" como as outras. Você deveria superar isso rapidamente.
Mas a verdade é que você perdeu algo real. Perdeu sonhos, expectativas, uma versão de futuro que havia começado a construir. E essa perda merece ser reconhecida e processada — independentemente de quanto tempo durou a gestação.
Top tip
Validação importante: Você não precisa justificar seu luto. Não importa se foram 6 semanas ou 20 semanas. Não importa se era a primeira tentativa ou a quinta. Sua dor é real e merece espaço. O tempo de gestação não determina a profundidade do vínculo que você já havia formado com aquela possibilidade de vida.
Frases Que Ajudam vs. Frases Que Machucam
Se você está apoiando alguém que passou por perda gestacional, considere a diferença:
O que machuca:
- "Tudo acontece por uma razão"
- "Pelo menos você sabe que pode engravidar"
- "Quando você vai tentar de novo?"
O que ajuda:
- "Sinto muito pela sua perda"
- "Estou aqui se você quiser conversar — ou se preferir silêncio"
- "Como posso te apoiar agora?"
Técnicas TCC Para Processar a Perda
A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas concretas para processar o luto gestacional. Como discuto em luto e liderança, a TCC trabalha na interseção entre pensamentos, emoções e comportamentos.
Reestruturação Cognitiva: Desafiando a Culpa
A culpa é uma das emoções mais presentes na perda gestacional. Pensamentos como "eu causei isso" ou "meu corpo me traiu" são quase universais — e quase sempre distorcidos.
O processo de reestruturação cognitiva envolve:
- Identificar o pensamento: "Trabalhei demais e isso causou a perda"
- Examinar as evidências a favor: O que especificamente você fez que poderia ter causado isso?
- Examinar as evidências contra: O que você sabe sobre as causas reais de abortos espontâneos? (Alterações cromossômicas, fatores genéticos, eventos aleatórios)
- Formular um pensamento mais equilibrado: "A grande maioria das perdas gestacionais ocorre por razões que estão fora do meu controle. Não há evidências de que meu trabalho tenha causado isso"
Esse processo não é sobre negar a dor ou minimizar a perda. É sobre separar a tristeza legítima da culpa injustificada.
Ativação Comportamental: Pequenos Passos de Volta à Vida
Após uma perda gestacional, é comum que atividades que antes traziam prazer percam o sentido. A ativação comportamental propõe um retorno gradual a essas atividades — não porque você "deveria se distrair", mas porque a reconexão com fontes de prazer e significado faz parte do processamento saudável do luto.
Comece pequeno:
- Um café com uma amiga de confiança
- Uma caminhada curta
- Retomar uma atividade criativa abandonada
A cada pequena atividade completada, você reconstrói a ponte entre você e a vida que continua existindo — mesmo que transformada.
Exposição Gradual: Não Evite para Sempre
É natural querer evitar tudo que lembre a perda: chás de bebê, amigas grávidas, a sessão de bebês da loja de departamento. E essa evitação faz sentido no curto prazo.
O problema é quando a evitação se torna permanente. Evitar sistematicamente qualquer lembrança mantém o luto "congelado" — não processado, não integrado.
A exposição gradual envolve, aos poucos e no seu ritmo, permitir-se entrar em contato com esses gatilhos:
- Olhar as fotos do ultrassom quando se sentir pronta
- Aceitar o convite para o chá de bebê de uma amiga (ou não — você decide)
- Falar sobre a experiência com alguém de confiança
Top tip
Exercício: Carta Terapêutica
Escreva uma carta para o bebê que você perdeu. Não há regras sobre o que escrever — pode ser sobre seus sonhos para ele ou ela, sobre sua dor, sobre o que você gostaria de ter dito. Este exercício ajuda a dar forma e expressão a sentimentos que frequentemente ficam presos por falta de um "destinatário" reconhecido para o luto. Você pode guardar a carta, queimá-la em um ritual de despedida, ou fazer o que sentir que precisa fazer.
Quando Buscar Ajuda Profissional
O luto é um processo natural, mas nem sempre conseguimos atravessá-lo sozinhas. Considere buscar apoio profissional se:
- A intensidade da dor não diminui após 2-3 meses
- Você está evitando sistematicamente pessoas, lugares ou situações
- Pensamentos de culpa dominam seu dia a dia
- O trabalho está sendo significativamente afetado
- Você percebe sintomas físicos persistentes (insônia, perda de apetite, exaustão)
- Há pensamentos de que a vida perdeu o sentido
A TCC é considerada tratamento de primeira linha para luto complicado. Como psicóloga especialista em TCC, trabalho com protocolos estruturados que ajudam a processar a perda, desafiar pensamentos de culpa e reconstruir um caminho de vida que tenha espaço tanto para a saudade quanto para novos projetos.
O Luto Não Tem Prazo
Uma das mensagens mais importantes que posso deixar é esta: não há tempo certo para "superar" uma perda gestacional. Pesquisadores do National Institutes of Health desenvolveram escalas de triagem que reconhecem explicitamente que "não há limite de tempo para o luto" (there's no time limit on grief).
Você pode estar bem por semanas e ser surpreendida por uma onda de tristeza ao ver um bebê na rua. Isso é normal. O luto não é linear.
Conclusão: Sua Dor Merece Espaço
Se você chegou até aqui porque passou por uma perda gestacional, quero que saiba: sua dor é real, legítima e merece ser acolhida. Você não precisa fingir que está bem. Não precisa "ser forte". Não precisa ter um prazo para "superar".
O que você precisa é de espaço para processar — e, se necessário, de apoio profissional para fazer isso de forma que não prolongue o sofrimento desnecessariamente.
Se você sente que precisa de ajuda para atravessar esse momento, entre em contato. Juntas, podemos trabalhar para que você não precise mais carregar essa dor em silêncio — nem fingir que ela não existe enquanto lidera reuniões, toma decisões e carrega o peso de ser quem todo mundo espera que você seja.
Você pode honrar essa perda e, ao mesmo tempo, continuar construindo uma vida com significado. As duas coisas não são excludentes.
