Luto e Liderança: Como Processar Perdas na Carreira

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Luto e Liderança: Como Processar Perdas na Carreira

Você já precisou liderar uma reunião importante logo após receber uma notícia devastadora? Já apresentou resultados para a diretoria enquanto processava internamente uma perda que ninguém ao redor sabia que existia?

Se você respondeu sim, saiba que não está sozinha. Segundo o Grief Recovery Institute, 1 em cada 4 funcionários está de luto em qualquer momento — e a maioria processa essa dor em silêncio, especialmente mulheres em posições de liderança.

O luto da executiva é frequentemente invisível. Não há espaço na agenda para a dor, não há permissão cultural para a vulnerabilidade, e raramente há reconhecimento de que perdas — sejam elas concretas ou simbólicas — impactam profundamente nossa capacidade de liderar e viver. Se você sente que precisa de apoio profissional para processar uma perda, entre em contato para agendar uma consulta.

O Que É o Luto Invisível da Executiva

Quando pensamos em luto, geralmente imaginamos a perda de alguém querido — um pai, um cônjuge, um filho. Essas perdas concretas são devastadoras e merecem todo o espaço para serem processadas. Mas o luto da executiva vai além.

Existe um universo de lutos simbólicos que mulheres em liderança enfrentam e que raramente são reconhecidos. A menopausa traz a perda da fertilidade, acompanhada de profundas mudanças na identidade. O ninho vazio transforma a vida quando os filhos saem de casa. A demissão ou reestruturação abala a identidade profissional construída ao longo de décadas. A promoção não obtida enterra anos de investimento e expectativas. O divórcio dissolve não apenas um casamento, mas planos inteiros de futuro — tema que abordo em reconstrução pós-divórcio. Esses lutos são reais. A dor é legítima. Mas a sociedade raramente oferece o mesmo reconhecimento e espaço que concede ao luto por morte.

A Geração Sanduíche: Quando o Luto Vem em Camadas

Dados do Isto É Dinheiro (2024) revelam que quase 1 milhão de brasileiros fazem parte da chamada "geração sanduíche" — pessoas que cuidam simultaneamente de filhos e pais idosos. E 60% dessas pessoas são mulheres.

Entre 2012 e 2023, houve um aumento de 27,1% no número de mulheres nessa situação, segundo a Think Eva. São executivas que gerenciam equipes durante o dia e gerenciam internações, médicos e medicamentos à noite. Que lideram projetos enquanto processam o luto antecipatório — a dor de assistir um pai ou mãe adoecer lentamente.

O luto antecipatório é particularmente insidioso porque começa antes da perda. Você está enlutada por alguém que ainda está vivo, mas a pessoa que você conhecia está desaparecendo aos poucos. E não há licença para isso. Não há reconhecimento. Apenas a expectativa de que você continue performando.

O Custo do Presenteísmo no Luto

Ir trabalhar enlutada é tão comum que tem nome: presenteísmo no luto. E os números são alarmantes.

Segundo pesquisa do Workplace Healing (2024), 91% dos funcionários enlutados relatam queda significativa na produtividade, incluindo baixa energia, dificuldade de concentração e exaustão emocional. O mesmo estudo indica que 85% dos gestores observam declínio na capacidade de tomada de decisão entre pessoas enlutadas.

E aqui está o paradoxo: o presenteísmo no luto custa às empresas 10 vezes mais do que o absenteísmo, segundo o Strategic CHRO 360. Ou seja, forçar-se a trabalhar enquanto processa uma perda não apenas prejudica você — prejudica a qualidade do seu trabalho e, consequentemente, sua carreira.

O Double Bind da Executiva Enlutada

Mulheres em liderança enfrentam o que chamamos de double bind — uma armadilha de expectativas contraditórias. Por um lado, há pressão para suprimir emoções e manter a compostura ("líderes não choram"). Por outro, existe a expectativa social de que mulheres sejam cuidadoras e emocionalmente disponíveis.

Essa pressão cruzada intensifica o sofrimento. Você não pode demonstrar vulnerabilidade sem parecer "fraca" ou "incapaz". Mas suprimir o luto cobra um preço alto — e muitas vezes esse preço se manifesta como burnout, ansiedade ou depressão de alta performance.

Luto Normal vs. Luto Prolongado: Quando a Dor Não Passa

Nem todo luto evolui da mesma forma. A maioria das pessoas, com tempo e suporte adequado, consegue integrar a perda à sua história de vida e seguir em frente — ainda que carregando a saudade.

No entanto, entre 4,7% e 6,8% dos enlutados desenvolvem o que chamamos de Transtorno de Luto Prolongado, segundo estudo publicado no Frontiers in Psychiatry (2024).

Os critérios diagnósticos variam ligeiramente entre os manuais: o DSM-5-TR define sintomas persistentes por pelo menos 12 meses após a perda, enquanto o CID-11 considera 6 meses.

Os sinais de alerta incluem saudade intensa e persistente que não diminui com o tempo, preocupação cognitiva constante com o falecido ou as circunstâncias da morte, dificuldade em aceitar a perda mesmo após meses, sensação de que a vida perdeu o sentido, evitação extrema de lembretes da perda e comprometimento significativo no funcionamento social e profissional.

Se você se identifica com vários desses sinais, é importante buscar ajuda profissional. O luto prolongado responde bem a tratamento, especialmente à Terapia Cognitivo-Comportamental.

Técnicas TCC para Processar o Luto

A Terapia Cognitivo-Comportamental tem se mostrado altamente eficaz no tratamento do luto, especialmente quando ele se torna complicado ou prolongado. Como explico em depressão: muito além da tristeza, a TCC trabalha com a conexão entre pensamentos, emoções e comportamentos.

Reestruturação Cognitiva: Desafiando Pensamentos de Culpa

O luto frequentemente vem acompanhado de pensamentos automáticos de culpa como "deveria ter passado mais tempo com ela", "se eu tivesse insistido em outro médico..." ou "por que não percebi os sinais antes?". Esses pensamentos são compreensíveis, mas raramente refletem a realidade.

Na reestruturação cognitiva, aprendemos a examinar as evidências. Primeiro, identifique o pensamento: "Eu deveria ter feito mais". Depois, examine as evidências a favor: o que você deixou de fazer que poderia ter mudado o desfecho? Em seguida, examine as evidências contra: o que você de fato fez? Quais eram suas limitações reais naquele momento? Por fim, formule um pensamento mais equilibrado: "Fiz o que pude dentro das minhas possibilidades e do conhecimento que tinha na época".

Ativação Comportamental: Reconectando-se com a Vida

O luto frequentemente nos leva a abandonar atividades que antes traziam prazer e significado. A ativação comportamental é uma técnica que envolve reengajar gradualmente nessas atividades.

Não se trata de "superar" a perda ou fingir que ela não existe. Trata-se de construir uma vida que tenha espaço tanto para a saudade quanto para novos momentos de realização e conexão.

Comece pequeno: um café com uma amiga, uma caminhada no parque, retomar um hobby abandonado. A cada atividade completada, você constrói evidências de que ainda é capaz de experimentar momentos positivos — e isso é fundamental para o processamento do luto.

Exposição Gradual: Não Evite as Memórias

Um dos fatores que mantém o luto complicado é a evitação. Evitar fotos, lugares, músicas, conversas sobre a pessoa perdida pode parecer protetor no curto prazo, mas impede o processamento saudável da perda.

A exposição gradual envolve confrontar essas memórias de forma controlada e progressiva. Comece olhando uma foto por alguns minutos. Visite um lugar significativo acompanhada de alguém de confiança. Fale sobre a pessoa querida com quem você se sente segura. Escreva sobre memórias específicas que deseja preservar.

Top tip

Exercício: Diário de Luto — Reserve 15-20 minutos, três vezes por semana, para escrever livremente sobre sua perda. Não censure — deixe as palavras fluírem. Você pode escrever sobre o que mais sente falta, memórias que quer preservar, o que gostaria de ter dito ou como a perda mudou você. Este exercício ajuda a processar emoções que ficam represadas quando não temos espaço para expressá-las. Muitas executivas relatam que esse momento de escrita se torna um ritual de autocuidado essencial.

Quando e Como Pedir Ajuda

Processar o luto não é sinal de fraqueza — é autocuidado estratégico. Assim como você não hesitaria em consultar um especialista para um problema de saúde física, seu bem-estar emocional merece a mesma atenção.

Considere buscar ajuda profissional se o luto está impactando significativamente seu trabalho há mais de dois meses, se você se sente "travada" e incapaz de avançar, se pensamentos de culpa ou raiva dominam seu dia a dia, se você está evitando sistematicamente pessoas, lugares ou situações, se sintomas físicos como insônia, perda de apetite ou fadiga extrema persistem, ou se você sente que perdeu o sentido da vida.

A TCC é considerada tratamento de primeira linha para luto complicado. Como psicóloga especialista em TCC, trabalho em sessões estruturadas para identificar padrões de pensamento que prolongam o sofrimento, desenvolver estratégias de enfrentamento saudáveis e construir um caminho de integração da perda à sua história.

Conclusão: O Luto Como Parte da Jornada

Processar o luto não é perder tempo — é investir na sua capacidade de continuar liderando, vivendo e se conectando. A dor da perda não precisa ser sua companheira silenciosa em cada reunião, em cada decisão, em cada momento de solidão.

Você pode honrar quem partiu — ou o que foi perdido — enquanto constrói uma vida que ainda tenha espaço para realização, propósito e alegria. Não se trata de esquecer, mas de integrar.

Se você está passando por um processo de luto e sente que precisa de apoio profissional, entre em contato. Juntas, podemos trabalhar para que você não precise mais carregar essa dor sozinha.

More articles

Ansiedade na Menopausa e Perimenopausa: Por Que Aumenta

Mudanças hormonais, sono e estresse podem elevar ansiedade aos 40+. Veja sinais, diferenciações e estratégias de tratamento baseadas em evidências científicas.

Read more

Crise de Identidade Pós-Demissão: Quem Sou Eu Sem Meu Cargo?

Como executivas podem reconstruir sua identidade após demissão, superando a fusão entre eu e cargo profissional. Técnicas de TCC para encontrar propósito.

Read more

Agende uma consulta

Contato

Luciana T. S. Massaro - Psicóloga Clínica CRP-06/56470

Atendimento na região da Vila Mariana

(11) 97652-8168

luciana@massaropsicologia.com.br