Transtorno de Luto Prolongado: Quando o Luto Não Passa
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Faz mais de um ano que você perdeu alguém importante. As pessoas dizem que você deveria estar "melhorando" a essa altura. Mas a dor continua intensa. Você ainda sente como se tivesse acontecido ontem. A saudade não diminui. A vida não voltou a fazer sentido.
Se você se reconhece nessa descrição, você pode estar experimentando algo além do luto normal — o Transtorno de Luto Prolongado.
A Associação Americana de Psiquiatria reconhece que este é o diagnóstico mais recente a ser adicionado ao DSM. Foi incluído formalmente no DSM-5-TR em 2022, reconhecendo que algumas pessoas desenvolvem uma forma de luto que se torna incapacitante e requer tratamento específico.
Neste artigo, vou explicar a diferença entre luto normal e luto prolongado, os critérios diagnósticos, e quais tratamentos são eficazes. Como especialista em TCC, trabalho com pessoas enfrentando perdas difíceis. Se você precisa de apoio, entre em contato.
Luto Normal vs. Luto Prolongado
Primeiro, é essencial entender: luto é normal e necessário.
O Que É Luto Normal
Perder alguém que amamos dói. Profundamente. O luto normal envolve saudade intensa, tristeza, choro, dificuldade de aceitar a perda, lembranças intrusivas, questionamentos sobre o sentido da vida.
No luto normal, esses sentimentos são intensos no início e gradualmente — ao longo de meses — se tornam mais manejáveis. Você não "supera" a perda, mas aprende a viver com ela. A vida retoma algum sentido. Você consegue voltar a funcionar.
O Que É Luto Prolongado
No Transtorno de Luto Prolongado (TLP), a intensidade do luto não diminui com o tempo. Mesmo após 12 meses ou mais, a dor permanece tão intensa quanto nos primeiros dias. A pessoa fica "presa" no luto, incapaz de seguir em frente.
A Janela de 12 Meses
O DSM-5-TR especifica que para diagnóstico de TLP, a perda deve ter ocorrido há pelo menos 12 meses (6 meses para crianças). Isso é importante: o luto intenso no primeiro ano é esperado e normal. Não patologizamos a dor recente.
O diagnóstico só se aplica quando o luto intenso persiste muito além do que seria esperado, considerando o contexto cultural e a natureza da perda.

Critérios Diagnósticos
Os critérios do DSM-5-TR incluem vários componentes.
Critério A: A Perda
Morte de alguém próximo, ocorrida há pelo menos 12 meses.
Critério B: Saudade ou Preocupação
Saudade intensa e persistente pela pessoa falecida, ou preocupação intensa com pensamentos ou memórias sobre ela.
Critério C: Sintomas Adicionais
Pelo menos 3 dos 8 sintomas a seguir, presentes por pelo menos um mês:
Perturbação de identidade (sensação de que parte de si morreu junto). Descrença marcada sobre a morte. Evitação de lembretes de que a pessoa morreu. Dor emocional intensa relacionada à morte. Dificuldade de seguir em frente com a vida. Entorpecimento emocional. Sensação de que a vida não tem sentido. Solidão intensa.
Critérios D e E: Sofrimento e Contexto
Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional. E excedem o que seria esperado para a cultura e o contexto da pessoa.
Critério F: Exclusão
Os sintomas não são melhor explicados por outro transtorno mental.
Top tip
Diferenças entre luto normal e luto prolongado:
- Luto normal: a dor intensa gradualmente diminui ao longo de meses
- Luto prolongado: intensidade permanece a mesma mesmo após 12 meses
- Luto normal: você consegue retomar atividades e encontrar significado
- Luto prolongado: você fica "congelada", incapaz de seguir em frente
- Luto normal: aceita gradualmente a realidade da perda
- Luto prolongado: persistente sensação de irrealidade ou descrença
Sintomas Mais Comuns
Pesquisas identificam os sintomas mais frequentes no luto prolongado. Pensamentos intrusivos aparecem com frequência: imagens sobre a pessoa falecida invadem a mente constantemente, diferente de lembranças normais que surgem e passam naturalmente.
A saudade intensa é característica marcante do TLP. É um anseio profundo que não diminui com o tempo, permanecendo tão intenso quanto nos primeiros dias após a perda. Junto com isso, surge a dificuldade de aceitação — uma sensação persistente de irrealidade sobre a morte, como se a pessoa ainda fosse retornar a qualquer momento.
Muitas pessoas experimentam perturbação de identidade, sentindo que parte de si morreu junto com a pessoa amada. Há ainda a evitação de lembretes da morte ou, no extremo oposto, apego excessivo a pertences do falecido. Finalmente, a perda de sentido pode dominar o cotidiano: dificuldade de imaginar um futuro ou de se envolver com atividades que antes eram significativas e prazerosas.
Fatores de Risco e Por Que Acontece
Nem todo mundo que perde alguém desenvolve TLP. Estudos indicam que a prevalência de TLP entre enlutados varia entre 4,7% e 6,8%, dependendo dos critérios usados.
Fatores que aumentam o risco:
- Morte inesperada ou violenta
- Perda de filho ou cônjuge
- Múltiplas perdas em curto período
- Histórico de transtornos de saúde mental
- Rede de apoio social limitada
- Relacionamento ambivalente ou dependente com a pessoa falecida
Por Que o Luto Fica Travado
O luto prolongado parece envolver dificuldades específicas no processamento da perda. No luto normal, gradualmente integramos a realidade da perda à nossa narrativa de vida. No TLP, esse processo fica bloqueado — a perda não é integrada, permanecendo uma ferida aberta.
Vários mecanismos mantêm esse travamento. A evitação de lembretes dolorosos, embora compreensível, impede o processamento natural do luto. O que não é enfrentado não pode ser integrado. Crenças complicadoras também contribuem: pensamentos como "se eu parar de sofrer, significa que esqueci" ou "seguir em frente é traição" mantêm a pessoa presa no luto intenso.
Quando há uma mudança de papel significativa — quando a identidade estava muito ligada ao falecido ("esposa de", "mãe de") — a perda pode desestabilizar profundamente o senso de quem você é. Nesses casos, o luto envolve não apenas perder o outro, mas também uma parte da própria identidade.
Tratamento: O Que Funciona
A boa notícia: o TLP é tratável. Existem intervenções eficazes.
Tratamento do Luto Complicado (CGT)
Pesquisas mostram que o CGT (Complicated Grief Treatment) é uma intervenção de 16 sessões que demonstrou eficácia em diversos ensaios clínicos randomizados. Incorpora elementos de teoria do apego, TCC e outras abordagens.
TCC para Luto
Terapias usando elementos de TCC têm mostrado eficácia na redução de sintomas. A TCC pode ajudar a abordar pensamentos disfuncionais, evitação, e sintomas associados como problemas de sono.
Exposição Narrativa
Pesquisas mostram que exposição à história da morte — contar repetidamente a narrativa da perda — pode ajudar na integração. Pacientes que receberam TCC em grupo mais exposição individual mostraram maiores reduções em sintomas de luto e depressão.
Medicação
Atualmente não há medicamentos específicos para sintomas de luto. Estudos não mostraram eficácia do citalopram isoladamente para TLP. Porém, antidepressivos podem ajudar com sintomas depressivos que frequentemente coexistem.
Grupos de Apoio
Grupos de apoio ao luto podem fornecer conexão social e suporte, ajudando a evitar o isolamento que aumenta o risco de TLP.

Abordagem TCC: O Que Trabalhamos
Na TCC, trabalhamos vários componentes para ajudar no processamento do luto:
- Psicoeducação: entender o que é TLP e por que está acontecendo reduz a sensação de estar "enlouquecendo"
- Exposição narrativa: contar a história da perda repetidamente ajuda o cérebro a processar e integrar o que aconteceu
- Reestruturação de crenças: examinar pensamentos como "se eu melhorar, significa que não a amava" e construir perspectivas equilibradas
- Enfrentamento da evitação: trabalhar gradualmente os lembretes que você evita para permitir cicatrização
- Reconstrução de vida: retomar atividades significativas e conexões sociais de forma gradual
O Que Você Pode Fazer
Se você se identificou com este artigo, existem passos concretos que pode dar. Primeiro, não patologize cedo demais: se sua perda é recente (menos de um ano), o luto intenso é esperado e faz parte do processo natural. Dê tempo a si mesma antes de se preocupar.
Porém, se já passou um ano e a intensidade permanece a mesma, busque avaliação profissional. Um diagnóstico correto permite tratamento adequado. É importante também não se isolar: o isolamento piora significativamente o luto prolongado. Mesmo que seja difícil, mantenha algum contato social — grupos de apoio podem ser especialmente úteis nesse processo.
Finalmente, permita-se sentir. O objetivo do tratamento não é parar de sentir a perda, mas integrar essa perda à sua vida. Você pode sentir saudade e seguir vivendo. Essas coisas não são opostas — são partes de um mesmo processo de cura.
Para quem passou por perda gestacional, leia sobre o luto silenciado de executivas.
O Transtorno de Luto Prolongado é uma condição reconhecida que afeta uma minoria das pessoas enlutadas — mas para quem afeta, o sofrimento é real e significativo.
A boa notícia é que tratamentos eficazes existem. O luto prolongado não precisa ser permanente. Com o suporte adequado, é possível processar a perda, integrar a dor, e reconstruir uma vida significativa — sem esquecer quem você perdeu.
Você não está "fraca" por estar sofrendo. Você não está "doente" por sentir saudade. Você está passando por algo que algumas pessoas passam quando perdem alguém profundamente importante. E você pode receber ajuda.
Se o luto está se transformando em depressão, ou se você está experimentando sintomas de burnout ao tentar manter a vida funcionando enquanto sofre, uma avaliação profissional pode ajudar.
Se você está enfrentando luto que não passa, entre em contato para agendar uma avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você está em luto recente (menos de 12 meses), o sofrimento intenso é esperado e normal — não significa que você tem um transtorno. Se você está preocupada com seu luto, buscar orientação profissional pode ajudar a esclarecer.
