Autocompaixão na Prática: Para Quem se Cobra Demais
by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Você errou em uma apresentação e ainda lembra disso três meses depois. Você recebeu dez elogios e um feedback negativo — e só consegue pensar no negativo. Você se compara constantemente com colegas e sempre sai perdendo. Quando algo dá errado, a primeira voz que você ouve é a sua própria, dizendo que você deveria ter feito melhor.
Se isso soa familiar, você provavelmente é especialista em se cobrar — e novata em se tratar com gentileza.
Pesquisas mostram que TCC aumenta significativamente a autocompaixão em mulheres com transtornos de ansiedade, apoiando a integração dessas técnicas em programas terapêuticos para melhorar resiliência emocional. Estudos indicam que abordagens baseadas em compaixão foram desenvolvidas especificamente para pessoas altamente autocríticas.
Neste artigo, vou explicar o que é autocompaixão, como ela difere de autoindulgência, e como praticá-la no dia a dia. Como especialista em TCC, trabalho com mulheres que se cobram demais. Se você precisa de apoio, entre em contato.
O Que É Autocompaixão e Por Que Ela Importa
Autocompaixão é tratar a si mesma com a mesma gentileza, compreensão e cuidado que você ofereceria a uma amiga querida passando por dificuldades. É reconhecer seu sofrimento, sua imperfeição, suas falhas — sem julgamento cruel.
Os Três Componentes
A pesquisadora Kristin Neff identificou três elementos da autocompaixão: gentileza consigo mesma (versus autocrítica dura), humanidade comum (reconhecer que todos falham e sofrem), e mindfulness (estar presente com o sofrimento sem se identificar excessivamente com ele).
Por Que É Difícil
Estudos mostram que autocrítica — a tendência a avaliar e julgar negativamente aspectos de si mesma — está no centro de muitos problemas de saúde mental. Você pode ter aprendido que ser dura consigo mesma é a única forma de se motivar.
Não É Fraqueza
Autocompaixão não é se dar desculpas, ser preguiçosa, ou baixar padrões. Na verdade, pesquisas mostram que pessoas autocompassivas são mais resilientes, mais motivadas, e mais capazes de aprender com erros.

Autocompaixão vs. Autoindulgência
Autoindulgência é evitar desconforto a qualquer custo. É não enfrentar problemas, não assumir responsabilidade, buscar prazer imediato mesmo quando prejudica a longo prazo.
Autocompaixão é reconhecer que você está sofrendo e responder com cuidado — incluindo cuidado que às vezes envolve fazer coisas difíceis. É gentileza que também pode ser firme. Enquanto autoindulgência evita, autocompaixão enfrenta — mas com gentileza.
Exemplo prático da diferença: Autoindulgência seria falhar em um projeto e decidir não pensar nisso, assistir Netflix, comer besteira, e evitar qualquer reflexão. Autocompaixão seria reconhecer que falhou, validar que isso dói, lembrar que todos falham, e depois — com gentileza — examinar o que pode aprender e fazer diferente.
A autocrítica pode motivar a curto prazo, mas cobra um preço alto. A autocompaixão motiva de forma mais sustentável — você melhora porque se importa consigo, não porque se odeia.
Top tip
Sinais de que você precisa de mais autocompaixão:
- Você lembra de erros por meses ou anos
- Você recebe dez elogios e só pensa no feedback negativo
- Você se compara constantemente com colegas e sempre sai perdendo
- Você seria muito mais gentil com uma amiga do que consigo mesma
- Você usa palavras como "burra" ou "incompetente" consigo
- Você tem dificuldade de celebrar conquistas
As Raízes da Autocrítica Severa
Se você cresceu com pais críticos, exigentes, ou que condicionavam amor a performance, pode ter internalizado que só tem valor se for perfeita. A voz crítica interna é frequentemente a voz de figuras de autoridade do passado. Especialmente para mulheres em posições de liderança, há pressão constante para provar competência — você aprendeu que qualquer falha pode ser usada contra você. Então não pode falhar. Nunca.
Pesquisas indicam que pessoas com baixa autocompaixão frequentemente julgam criticamente aspectos de sua personalidade que não amam, recorrendo à autocrítica em vez de se apoiar em crises. Você acredita que sem a crítica, perderia motivação e padrões. O perfeccionismo alimenta esse ciclo: se o padrão é perfeição, qualquer resultado abaixo é falha. E falha "merece" punição.
Por Que a Autocrítica Parece Funcionar
A autocrítica pode motivar a curto prazo. Muitas executivas acreditam que é ela que as trouxe até aqui. Mas o custo é alto: ansiedade, burnout, relacionamentos afetados. Algumas pessoas temem que se tratarem bem, ficarão arrogantes ou complacentes — então mantêm a autocrítica como "controle." Mas pesquisas mostram que autocompaixão não leva à complacência; ela leva a mais resiliência e motivação sustentável.
O Custo da Autocrítica na Vida Real
Estudos mostram que abordar a vergonha através de intervenções de TCC pode ajudar indivíduos a desenvolver autocompaixão e padrões cognitivos adaptativos, cruciais para aliviar sintomas depressivos. Autocrítica crônica está associada a ansiedade, depressão, e burnout.
Paradoxalmente, a autocrítica frequentemente prejudica performance. Medo de falhar gera ansiedade; ansiedade prejudica desempenho; mau desempenho gera mais crítica. O ciclo é destrutivo. Se você é dura consigo mesma, provavelmente é dura com os outros também — a crítica interna vaza para fora. E pode ser difícil receber amor quando você não acredita merecê-lo.
Quando o erro é tão doloroso, você evita riscos, evita tentar coisas novas, evita qualquer situação onde possa falhar. O crescimento fica limitado. É o oposto do que a autocrítica promete.
Como a TCC Desenvolve Autocompaixão
Pesquisas mostram que TCC reduziu significativamente pensamentos automáticos negativos, autocrítica e ruminação em estudantes com trauma emocional. Na TCC, identificamos os pensamentos autocríticos e examinamos sua validade.
Identificando Distorções Cognitivas
Muitos pensamentos autocríticos contêm distorções cognitivas: generalização excessiva ("sempre erro"), personalização ("é tudo minha culpa"), pensamento tudo-ou-nada ("se não foi perfeito, foi um desastre"). Não se trata de substituir crítica por elogios vazios, mas de desenvolver perspectiva mais equilibrada. "Errei nesse projeto" é diferente de "sou uma fracassada."
Especialistas indicam que a terapia focada na compaixão foi desenvolvida para pessoas cujos problemas de saúde mental estão principalmente ligados a alta vergonha e autocrítica. Essa abordagem pode ser integrada à TCC. Autocompaixão também envolve ação: cuidar de si mesma, estabelecer limites, descansar quando necessário, buscar apoio.

Práticas de Autocompaixão Para o Dia a Dia
Prática de 3 Minutos
Quando perceber autocrítica, pause. Coloque a mão no peito (gesto de autocuidado). Reconheça: "Isso é difícil." Lembre: "Outras pessoas também passam por isso." Pergunte: "O que eu preciso agora?" Gestos físicos ativam o sistema de calma — mão no peito, abraçar a si mesma, mão no rosto — encontre o que funciona para você.
Carta Compassiva e Diário
Escreva uma carta para si mesma sobre uma situação difícil, do ponto de vista de uma amiga compassiva. Como essa amiga descreveria a situação? Que palavras de conforto ofereceria? Outra técnica é o diário de autocrítica: por uma semana, registre seus pensamentos autocríticos. O que dispara? Que palavras você usa? Depois, para cada um, escreva uma resposta compassiva.
Desenvolva uma frase que você pode usar quando se pegar sendo autocrítica: "Eu me permito ser humana." "Estou fazendo o melhor que posso." "Isso é difícil, e está tudo bem."
Desafios Comuns na Jornada
A mente crítica pode resistir: "Isso é coisa de autoajuda." "Não vai funcionar para mim." "Eu não mereço compaixão." Reconheça essas resistências como parte do padrão. No início, falar gentilmente consigo mesma pode parecer falso — isso é normal. Você está construindo um novo hábito neural. A autenticidade vem com a prática.
Paradoxalmente, quando você começa a ser gentil consigo, pode sentir mais dor. É como se a gentileza abrisse espaço para sentir o que estava reprimido. Isso passa. Você pode temer que sem a crítica, vai parar de se esforçar. Experimente: a autocompaixão geralmente aumenta a motivação porque reduz o medo paralisante de falhar.
Autocompaixão no Ambiente Profissional
Quando errar no trabalho: reconheça ("errei"), valide ("isso é frustrante"), contextualize ("sou humana"), aprenda ("o que posso fazer diferente?"), siga em frente. Receber feedback negativo é difícil. Autocompaixão significa reconhecer que dói, não se atacar por ter recebido o feedback, e depois — com gentileza — avaliar o que é útil.
A voz que diz "vão descobrir que sou fraude" é autocrítica disfarçada. Autocompaixão envolve reconhecer que muitas pessoas sentem a síndrome do impostor, que você está fazendo o melhor possível, que suas conquistas são reais. Para comunicação assertiva no trabalho, autocompaixão é base fundamental.
O Caminho Para Mais Autocompaixão
Você provavelmente passou décadas aprendendo a se criticar. Não vai desaprender em uma semana. Mas cada momento de autocompaixão constrói um caminho neural diferente. Cada vez que você escolhe gentileza em vez de crítica, você está praticando uma nova forma de se relacionar consigo mesma.
Pesquisas mostram que autocompaixão não só reduz sofrimento, mas aumenta bem-estar, resiliência, e capacidade de enfrentar desafios. Você não precisa escolher entre ser gentil consigo e ser excelente no que faz. Na verdade, a gentileza sustenta a excelência melhor que a crítica.
Quando Buscar Ajuda Profissional
Considere buscar apoio terapêutico se você experimenta autocrítica intensa que afeta seu sono, humor ou relacionamentos. Se você reconhece os padrões descritos neste artigo mas não consegue mudá-los sozinha, a terapia pode oferecer ferramentas estruturadas. TCC é particularmente eficaz para trabalhar autocrítica e desenvolver autocompaixão de forma prática e mensurável.
Se você se cobra demais e quer aprender a se tratar com mais compaixão, entre em contato para agendar uma avaliação. Para explorar temas relacionados, leia sobre dependência emocional e ruminação mental.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Se você experimenta autocrítica intensa e persistente, avaliação profissional pode ajudar a identificar abordagens adequadas.
