Mansplaining e Manterrupting: Microviolências que Esgotam

by Dra. Luciana Massaro, Psicóloga Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental

Mansplaining e Manterrupting: Microviolências que Esgotam

Você está fazendo uma apresentação e ele interrompe para "complementar." Você explica um conceito que domina há anos e ele "explica" de volta para você. Você propõe uma ideia e é ignorada — até que um colega homem diz a mesma coisa e recebe os créditos.

Essas situações têm nomes: manterrupting, mansplaining e bropriating. E embora pareçam "pequenas," seu impacto acumulado é enorme.

O relatório Women in the Workplace da McKinsey confirma: mulheres têm o dobro de probabilidade de serem interrompidas e de ouvir comentários depreciativos em comparação aos homens no trabalho.

Neste artigo, vou explorar essas microviolências de gênero e técnicas para responder assertivamente. Como especialista em TCC, trabalho com executivas enfrentando ambientes hostis. Se você precisa de apoio, entre em contato.

O Que São Mansplaining, Manterrupting e Bropriating

A prática é tão frequente que ganhou nome próprio: manterrupting — junção de "man" e "interrupting." É quando homens interrompem mulheres desnecessariamente durante reuniões, prejudicando a exposição de ideias.

Mansplaining é quando homens explicam a mulheres, de forma óbvia e didática, assuntos sobre os quais elas já têm domínio — subestimando sua inteligência. O termo foi popularizado pela escritora Rebecca Solnit. Já o bropriating ocorre quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito. Você propõe, ele repete, ele recebe o reconhecimento.

São chamadas "micro" porque parecem pequenas — mas o impacto acumulado é violento. Essas práticas abalam a confiança, comprometem carreiras e contribuem para o burnout. Entender seus nomes e mecanismos é o primeiro passo para enfrentá-las.

Microagressões no ambiente corporativo

Os Dados: O Que as Pesquisas Mostram

Mulheres têm o dobro de probabilidade de serem interrompidas e de ouvir comentários depreciativos sobre seu estado emocional em comparação aos homens. Estudo da Northwestern University que analisou 15 anos de sustentações orais na Suprema Corte dos EUA mostrou que ministros interrompem ministras três vezes mais do que colegas homens.

Pesquisa da linguista Kieran Snyder, CEO da Textio, analisou 15 horas de reuniões e notou que dois terços das interrupções vieram dos homens — e esses homens tinham três vezes mais chances de interromper mulheres.

O TST escolheu microagressões de gênero como tema da campanha nacional do Dia Internacional da Mulher, destacando manterrupting, mansplaining e gaslighting como práticas que precisam ser reconhecidas e combatidas.

Esses números mostram que não é "impressão sua" — é um fenômeno sistemático, documentado e que afeta mulheres em todos os níveis hierárquicos. Executivas em posições de liderança frequentemente relatam que a situação não melhora com a progressão na carreira — em alguns casos, intensifica-se quando mulheres ocupam espaços tradicionalmente masculinos. A resistência ao avanço feminino se manifesta muitas vezes através dessas microviolências sutis mas persistentes.

O Impacto no Trabalho e na Saúde Mental

No ambiente de trabalho, o manterrupting limita a capacidade de participar ativamente em reuniões, compartilhar ideias e influenciar decisões importantes. Longe de ser apenas irritante, o mansplaining abala a confiança e pode comprometer o desenvolvimento profissional.

A exposição constante a microagressões contribui para exaustão emocional. Ser constantemente interrompida ou ter seu conhecimento questionado é forma de invalidação que, ao longo do tempo, erode a autoestima profissional. Quando você é tratada como se não soubesse, pode começar a acreditar que realmente não sabe — a síndrome da impostora é intensificada por essas práticas.

Para entender mais sobre essas dinâmicas, leia microagressões de gênero no trabalho. O efeito cumulativo dessas experiências não deve ser subestimado — ele afeta não apenas sua carreira, mas sua saúde física e mental. Reconhecer e nomear o que está acontecendo é o primeiro passo para proteger seu bem-estar.

Top tip

Sinais de Microagressões de Gênero:

  • Você é frequentemente interrompida em reuniões
  • Homens explicam coisas que você domina
  • Suas ideias são ignoradas até serem repetidas por homens
  • Você é chamada de "emocional" quando discorda
  • Seu conhecimento é constantemente questionado
  • Você é tratada como secretária mesmo em cargo de liderança
  • Colegas homens recebem crédito por suas ideias
  • Você precisa provar competência repetidamente
  • Comentários sobre aparência são mais frequentes que sobre trabalho

Por Que Acontece: Vieses e Cultura Corporativa

Muitos homens que praticam não têm consciência do que fazem. Vieses inconscientes sobre competência feminina operam automaticamente, especialmente em ambientes competitivos onde interromper é visto como sinal de assertividade — e onde assertividade feminina é vista negativamente.

Em espaços onde homens são maioria, dinâmicas de grupo favorecem que vozes masculinas dominem. Homens são socializados para ocupar espaço de fala; mulheres para ceder. Essas dinâmicas se reproduzem no trabalho, muitas vezes sem que ninguém perceba conscientemente o que está acontecendo.

Entender as raízes do problema não significa aceitá-lo. Mas ajuda a despersonalizar — não é sobre você ser menos competente, é sobre dinâmicas estruturais que precisam ser enfrentadas individual e coletivamente.

Organizações que investem em treinamentos sobre vieses inconscientes e criam mecanismos de feedback podem reduzir essas práticas. Mas a mudança também depende de cada pessoa que presencia uma interrupção ou um mansplaining e decide intervir.

Como Responder de Forma Assertiva

Diga claramente: "Deixe-me terminar de falar" ou "Eu ainda não concluí meu raciocínio." Mantenha tom firme, sem agressividade. Ao receber mansplaining, você pode dizer: "A explicação já foi bem clara, não é necessário repetir" ou "Sim, esse é justamente o conceito que eu estava apresentando."

Quando presenciar bropriating, intervenha: "Quero ouvir o que ela tem a dizer" ou "Essa ideia foi apresentada inicialmente pela [nome]." A CNV é ferramenta valiosa para expressar desconforto sem escalar conflitos. Foque em comportamento observável e impacto, não em julgamentos.

Se o padrão é frequente, documente. Pode ser útil para conversas com RH ou para processos trabalhistas. Anote datas, contextos, testemunhas e o que foi dito. Documentação sistemática fortalece qualquer reclamação formal que você decida fazer.

Algumas mulheres hesitam em responder no momento por medo de parecer "difíceis" ou "conflituosas". Essa hesitação é compreensível — há riscos reais. Mas o silêncio também tem custos. A TCC pode ajudar a encontrar formas de responder que protejam sua posição profissional sem comprometer seu bem-estar emocional.

Recuperando a voz com assertividade

Como a TCC Ajuda, o Papel dos Aliados e Considerações Finais

Na TCC, validamos sua experiência — não é "frescura" nem "sensibilidade." O que você está vivendo é real e tem nome. Trabalhamos crenças como "Se eu responder, vou parecer difícil" ou "Talvez eu realmente não saiba tanto." O objetivo é desenvolver assertividade: responder de forma firme mas não agressiva, protegendo sua posição sem criar inimigos.

A raiva diante de microagressões é legítima. O trabalho é canalizá-la de forma construtiva. Também trabalhamos para reconstruir a confiança profissional que pode ter sido erodida pela exposição constante a essas práticas. Para mais sobre comunicação, leia comunicação assertiva para mulheres executivas.

Homens podem ser aliados importantes nessa mudança. Isso significa monitorar conscientemente o próprio comportamento em reuniões, creditando ideias às mulheres que as propuseram, criando espaço para vozes femininas serem ouvidas e questionando-se antes de explicar algo óbvio para uma colega especialista. A mudança cultural depende de ações individuais e coletivas — e homens em posições de poder têm responsabilidade especial nesse processo.

Se as microagressões estão afetando sua autoconfiança profissional, se você está exausta e cínica, se você sabe que deveria responder mas não consegue, ou se o ambiente é cronicamente hostil — buscar ajuda profissional pode fazer diferença. A terapia pode ser um espaço seguro para processar essas experiências e desenvolver estratégias práticas de enfrentamento.

Muitas mulheres chegam à terapia achando que o problema é com elas — que são "sensíveis demais" ou "não sabem lidar com o ambiente corporativo." Parte do trabalho terapêutico é validar que essas experiências são reais, documentadas e não são culpa sua.

Mansplaining e manterrupting não são "frescura" ou "sensibilidade excessiva." São microviolências de gênero com impacto documentado em carreiras, confiança e saúde mental. A campanha do TST escolheu essas práticas como foco exatamente porque são tão normalizadas — e tão danosas.

Reconhecer o que está acontecendo é o primeiro passo. O segundo é responder — com firmeza, com assertividade, com o apoio de aliados. Você não precisa aceitar ser interrompida ou ter sua competência questionada. E você não precisa fazer isso sozinha.

A mudança vem tanto de ações individuais — desenvolver assertividade, responder no momento, documentar — quanto de mudanças culturais nas organizações. Empresas que levam a sério a equidade de gênero precisam criar mecanismos para identificar e coibir essas práticas.

Você pode não conseguir mudar a cultura sozinha, mas pode proteger seu espaço e sua saúde mental enquanto trabalha em direção a ambientes mais justos. E você não precisa fazer isso sozinha — há suporte profissional disponível.

Se você enfrenta ambiente hostil no trabalho e precisa de apoio para desenvolver estratégias de enfrentamento, entre em contato para agendar uma avaliação. Juntas, podemos trabalhar para fortalecer sua posição sem comprometer seu bem-estar.

Para entender mais sobre outras formas de violência no ambiente de trabalho, leia também gaslighting no trabalho e assédio moral institucionalizado.

Recursos:


Este artigo tem caráter informativo sobre dinâmicas de gênero no ambiente de trabalho e não substitui avaliação profissional.

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